Vejo um Ramo de Amendoeira

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO A PORTUGAL
POR OCASIÃO DA
XXXVII JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE
[2 - 6 DE AGOSTO DE 2023]

ENCONTRO COM OS JOVENS UNIVERSITÁRIOS

DISCURSO DO SANTO PADRE

Universidade Católica Portuguesa, Lisboa
Quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Obrigado, senhora Reitora, pelas suas palavras. Obrigado! Afirmou que todos nos sentimos «peregrinos», palavra esta cujo significado merece ser meditado. Literalmente, quer dizer deixar de lado a rotina habitual e pôr-se a caminho com um intento, que pode ser o de um passeio pelos campos ou ir mais além dos nossos confins habituais; seja como for, deixando o espaço de conforto pessoal rumo a um horizonte de sentido. Na imagem do «peregrino», espelha-se a conduta humana, pois todos somos chamados a confrontar-nos com grandes interrogativos que não têm resposta, não têm uma resposta simplista ou imediata, mas convidam a realizar uma viagem, superando-se a si mesmo, indo mais além. Trata-se dum processo que um universitário compreende bem, pois é assim que nasce a ciência. E de igual modo cresce também a busca espiritual. Peregrino é caminhar para uma meta ou à procura duma meta. Há sempre o perigo de mover-se num labirinto, onde não há meta, nem saída. Desconfiemos das fórmulas pré-fabricadas (são labirínticas), desconfiemos das respostas que nos parecem ao alcance da mão, das respostas extraídas da manga como se fossem cartas viciadas de jogar; desconfiemos das propostas que parecem dar tudo sem pedir nada. Desconfiemos. A difidência é uma arma para poder caminhar para diante e não continuar às voltas. Vemos numa parábola de Jesus que só encontra a pérola de grande valor quem a procura com sabedoria e com espírito de iniciativa, quem dá tudo e arrisca tudo o que tem para a possuir (cf. Mt 13, 45-46). Procurar e arriscar: estes são os dois verbos do peregrino. Procurar e arriscar.

Fernando Pessoa diz, de modo atormentado mas correto, que «ser descontente é ser homem» (Mensagem, O Quinto Império). Não devemos ter medo de nos sentir inquietos, de pensar que tudo o que possamos fazer não basta. Neste sentido e dentro duma justa medida, estar insatisfeito é um bom antídoto contra a presunção de autossuficiência e contra o narcisismo. O caráter incompleto define a nossa condição de indagadores e peregrinos; como diz Jesus, estamos no mundo, mas não somos do mundo (cf. Jo 17, 16). Estamos caminhando «para». Somos chamados a algo mais, a uma decolagem sem a qual não há voo. Portanto, não nos alarmemos se nos encontramos intimamente sedentos, inquietos, incompletos, desejosos de sentido e de futuro, com saudade do futuro. E aqui, junto com a saudade do futuro, não vos esqueçais de manter viva a memória do futuro. Não estamos doentes, estamos vivos! Preocupemo-nos antes quando estamos prontos a substituir a estrada a fazer por uma paragem em qualquer estação de serviço que nos dê a ilusão do conforto; quando substituímos os rostos pelos ecrãs, o real pelo virtual; quando, em vez das perguntas lacerantes, preferimos as respostas fáceis que anestesiam. E podemos encontrá-las em qualquer manual de relações sociais, de bom comportamento. As respostas fáceis anestesiam.

Amigos, permiti que vos diga: procurai e arriscai. Neste momento histórico, os desafios são enormes, os gemidos dolorosos: estamos a viver uma terceira guerra mundial feita aos pedaços. Mas abracemos o risco de pensar que não estamos numa agonia, mas num parto; não no fim, mas no início dum grande espetáculo. E é precisa coragem para pensar assim. Por isso sede protagonistas duma «nova coreografia» que coloque no centro a pessoa humana, sede coreógrafos da dança da vida. As palavras da senhora Reitora serviram-me de inspiração sobretudo quando afirmou que «a universidade não existe para se preservar como instituição, mas para responder com coragem aos desafios do presente e do futuro». A auto-preservação é uma tentação, é um reflexo condicionado pelo medo, que nos faz olhar para a existência de forma distorcida. Se as sementes se preservassem a si mesmas, desperdiçariam completamente a sua força geradora e condenar-nos-iam à fome; se os invernos se preservassem a si mesmos, não existiria a maravilha da primavera. Por isso, tende a coragem de substituir os medos pelos sonhos: substituí os medos pelos sonhos, não sejais administradores de medos, mas empreendedores de sonhos!

À universidade que se comprometeu a formar as novas gerações, seria um desperdício pensá-la apenas para perpetuar o atual sistema elitista e desigual do mundo com o ensino superior que continua a ser um privilégio de poucos. Se o conhecimento não for acolhido como uma responsabilidade, torna-se estéril. Se quem recebeu um ensino superior – que hoje, em Portugal e no mundo, continua a ser um privilégio –, não se esforça por restituir aquilo de que beneficiou, significa que não compreendeu profundamente o que lhe foi oferecido. Gosto de pensar que, no Génesis, as primeiras perguntas que Deus faz ao homem são: «Onde estás?» (3, 9) e «Onde está o teu irmão?» (4, 9). Far-nos-á bem perguntar-nos: Onde estou? Permaneço fechado no meu mundo ou abraço o risco de sair das minhas seguranças para me tornar um cristão praticante, um artesão de justiça, um artesão da beleza? E perguntemo-nos ainda: Onde está o meu irmão? Experiências de serviço fraterno como a «Missão País» e muitas outras, que nascem no meio académico, deveriam ser consideradas indispensáveis para quem passa por uma universidade. Com efeito, o título de estudo não deve ser visto apenas como uma licença para construir o bem-estar pessoal, mas como um mandato para se dedicar a uma sociedade mais justa, uma sociedade mais inclusiva, ou seja, mais desenvolvida. Disseram-me que a vossa grande poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, em entrevista que é uma espécie de testamento, à pergunta «o que gostaria de ver realizado em Portugal neste novo século?», respondeu sem hesitar: «Gostaria que se realizasse a justiça social, a diminuição das diferenças entre ricos e pobres» (“Entrevista feita por Joaci Oliveira”, Cidade Nova, nº 3/2001). Dirijo agora a mesma pergunta a vós, caros estudantes, peregrinos do saber: Que quereis ver realizado em Portugal e no mundo? Quais mudanças, qual transformação? E como pode a universidade, especialmente a Católica, contribuir para isso?

Beatriz, Mahoor, Mariana, Tomás, agradeço os vossos testemunhos. Em todos havia um tom de esperança, uma carga de entusiasmo realista, sem queixumes nem escapadelas idealistas. Quereis ser protagonistas, «protagonistas da mudança», como disse a Mariana. Ao escutar-vos veio-me ao pensamento uma frase do escritor Almada Negreiros, que talvez vos seja familiar: «Sonhei com um país onde todos chegavam a Mestres» (A Invenção do Dia Claro). Também este idoso que vos fala (é que já estou velho), este idoso sonha que a vossa geração se torne uma geração de mestres: mestres de humanidade, mestres de compaixão, mestres de novas oportunidades para o planeta e seus habitantes, mestres de esperança. E mestres que defendam a vida do planeta, ameaçada neste momento por uma grave destruição ecológica.

Como alguns de vós sublinharam, devemos reconhecer a urgência dramática de cuidar da casa comum. No entanto, isso não pode ser feito sem uma conversão do coração e uma mudança da visão antropológica subjacente à economia e à política. Não podemos contentar-nos com simples medidas paliativas ou com tímidos e ambíguos compromissos. Neste caso, «os meios-termos são apenas um pequeno adiamento do colapso» (Francisco, Carta enc. Laudato si’, 194). Não vos esqueçais disto: os meios-termos são apenas um pequeno adiamento do colapso. Trata-se, pelo contrário, de tomar a peito o que infelizmente continua a ser adiado, ou seja, a necessidade de redefinir o que chamamos progresso e evolução. É que, em nome do progresso, já se abriu caminho a um grande retrocesso. Pensai bem nisto que vos digo: em nome do progresso, já se abriu caminho a um grande retrocesso. Vós sois a geração que pode vencer este desafio: tendes instrumentos científicos e tecnológicos mais avançados, mas, por favor, não vos deixeis cair na cilada de visões parciais. Não esqueçais que temos necessidade duma ecologia integral, de escutar o sofrimento do planeta juntamente com o dos pobres; necessidade de colocar o drama da desertificação em paralelo com o dos refugiados; o tema das migrações juntamente com o da queda da natalidade; necessidade de nos ocuparmos da dimensão material da vida no âmbito duma dimensão espiritual. Não queremos polarizações, mas visões de conjunto.

Obrigado, Tomás, por nos teres dito que «não é possível uma verdadeira ecologia integral sem Deus, que não pode haver futuro num mundo sem Deus». Também eu gostaria de vos dizer: tornai credível a fé através das decisões. Porque se a fé não gera estilos de vida convincentes, não faz levedar a massa do mundo. Não basta que um cristão esteja convencido, deve ser convincente; as nossas ações são chamadas a refletir a beleza jubilosa e simultaneamente radical do Evangelho. Além disso, o cristianismo não pode ser habitado como uma fortaleza cercada de muros, que ergue baluartes contra o mundo. Por isso, achei tocante o testemunho de Beatriz, quando disse que é precisamente «a partir do campo da cultura» que se sente chamada a viver as Bem-aventuranças. Em cada época, uma das tarefas mais importantes para os cristãos é a de recuperar o sentido da encarnação. Sem a encarnação, o cristianismo torna-se uma ideologia e a tentação das «ideologias» cristãs (entre aspas), é muito atual; é a encarnação que permite maravilhar-se com a beleza que Cristo revela através de cada irmão e irmã, cada homem e mulher.

A propósito, é interessante que, na vossa nova cátedra dedicada à «Economia de Francisco», tenhais acrescentado a figura de Clara. De facto, é indispensável o contributo feminino. No inconsciente coletivo, quantas vezes se pensa que as mulheres são de segunda categoria, são reservas, não jogam como titulares. Isto existe no inconsciente coletivo. Mas a contribuição feminina é indispensável. Aliás vê-se, na Bíblia, como a economia familiar está em grande parte na mão da mulher. É ela a verdadeira «governante» da casa, com uma sabedoria que não visa exclusivamente o lucro, mas o cuidado, a convivência, o bem-estar físico e espiritual de todos, bem como a partilha com os pobres e os estrangeiros. E abordar os estudos económicos com esta perspetiva é entusiasmante, tendo em vista devolver à economia a dignidade que lhe compete, para que não caia como presa do mercado selvagem e da especulação.

A iniciativa do Pacto Educativo Global e os sete princípios da sua arquitetura incluem muitos desses temas, desde o cuidado da casa comum à plena participação das mulheres, à necessidade de encontrar novas formas de entender a economia, a política, o crescimento e o progresso. Convido-vos a estudar o Pacto Educativo Global, a apaixonar-vos por ele. Um dos pontos que trata é a educação para o acolhimento e a inclusão. E não podemos fingir que não ouvimos as palavras de Jesus no capítulo 25 de Mateus: «era estrangeiro e recolhestes-me» (25, 35). Acompanhei emocionado o testemunho de Mahoor, quando lembrou o que significa viver com o «sentimento constante de ausência de um lar, da família, dos amigos, (...) de ter ficado sem teto, sem universidade, sem dinheiro, (...) cansada, exausta e abatida pela dor e pelas perdas». Disse-nos que reencontrou a esperança porque alguém acreditou no impacto transformador da cultura do encontro. Sempre que alguém pratica um gesto de hospitalidade, desencadeia uma transformação.

Amigos, estou muito contente por vos ver como uma comunidade educativa viva, aberta à realidade e consciente de que o Evangelho não se limita a servir de ornamento, mas anima as partes e o todo. Sei que o vosso percurso engloba diversos âmbitos: estudo, amizade, serviço social, responsabilidade civil e política, cuidado da casa comum, expressões artísticas... Ser uma universidade católica significa, antes de mais nada, que cada elemento está em relação com o todo e o todo revê-se nas partes. Assim, ao mesmo tempo que se adquirem competências científicas, vai-se amadurecendo como pessoa, no conhecimento de si mesmo e no discernimento do próprio caminho. Caminho, sim; labirinto, não. Então avante! Uma tradição medieval conta que quando os peregrinos se cruzavam no Caminho de Santiago, um saudava o outro exclamando «Ultreia» ao que este respondia «et Suseia». Trata-se de expressões de encorajamento para prosseguir a busca e o risco da caminhada, dizendo-se mutuamente: «Vai mais longe e mais alto!» «Coragem, força, anda para diante!» E isto é o que também eu vos desejo, de todo o meu coração, a todos vós. Obrigado!


Vejo um Ramo de Amendoeira

PAPA FRANCISCO

ANGELUS

Praça São Pedro
Domingo, 30 de julho de 2023

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje o Evangelho narra a parábola de um mercador que procurava pérolas preciosas. Ele, diz Jesus, «encontrou uma pérola de grande valor, foi, vendeu todos os seus bens e comprou-a» (Mt 13, 46). Reflitamos um pouco sobre os gestos deste comerciante, que primeiro procura, depois encontra e, por fim, compra.

Primeiro gesto: procurar. Trata-se de um comerciante empreendedor, que não fica parado, mas sai de casa e parte em busca de pérolas preciosas. Não diz: “Estou satisfeito com as que tenho”, mas procura outras mais bonitas. E este é um convite a não nos fecharmos no hábito, na mediocridade de quem se contenta, mas a reavivar o desejo, para que não se perca a vontade de procurar, de ir em frente; a cultivar sonhos de bem, a procurar a novidade do Senhor, porque o Senhor não é repetitivo, traz sempre a novidade, a novidade do Espírito, torna sempre novas as realidades da vida (cf. Ap 21, 5). E nós devemos ter esta atitude: procurar.

O segundo gesto do mercador é encontrar. É uma pessoa perspicaz, que “tem olho” e sabe reconhecer uma pérola de grande valor. Isto não é fácil. Pensemos, por exemplo, nos fascinantes bazares orientais, onde as bancas, cheias de mercadorias, se amontoam ao longo dos muros das ruas cheias de gente; ou em algumas bancas que se veem em muitas cidades, cheias de livros e objetos diversos. Por vezes, nestes mercados, se pararmos para procurar bem, podemos descobrir tesouros: coisas preciosas, volumes raros que, misturados com todo o resto, não são percetíveis à primeira vista. Mas o comerciante da parábola tem um olhar perspicaz e sabe encontrar, sabe “discernir” para encontrar a pérola. Também isto é uma lição para nós: todos os dias, em casa, na rua, no trabalho, nas férias, temos a oportunidade de discernir o bem. E é importante saber encontrar o que interessa: treinarmo-nos para reconhecer as pedras preciosas da vida e distingui-las da bugiganga. Não desperdicemos o nosso tempo e a nossa liberdade com coisas triviais, com passatempos que nos deixam vazios por dentro, enquanto a vida nos oferece todos os dias a pérola preciosa do encontro com Deus e com os outros! É preciso saber reconhecê-la: discernir para a encontrar.

E o último gesto do mercador: compra a pérola. Apercebendo-se do seu imenso valor, vende tudo, sacrifica todos os bens para a possuir. Muda radicalmente o inventário do seu armazém; não resta mais nada senão aquela pérola: é a sua única riqueza, o sentido do seu presente e do seu futuro. Também este é um convite para nós. Mas o que é esta pérola pela qual se pode renunciar a tudo, aquela de que o Senhor nos fala? Essa pérola é Ele mesmo, é o Senhor! Procurar o Senhor e encontrar o Senhor, encontrar o Senhor, viver com o Senhor. A pérola é Jesus: Ele é a pérola preciosa da vida, que deve ser procurada, encontrada e feita própria. Vale a pena investir tudo n’Ele, porque quando se encontra Cristo, a vida muda. Se encontrarmos Cristo, a nossa vida muda.

Retomemos então os três gestos do mercador - procurar, encontrar, comprar - e façamos algumas perguntas a nós mesmos. Procurar: na minha vida, estou a procurar? Sinto-me bem, estou satisfeito, ou estou a exercitar o meu desejo de bem? Estou na “reforma espiritual”? Quantos jovens estão reformados! Segundo gesto, encontrar: pratico o discernimento do que é bom e vem de Deus, sabendo renunciar ao que me deixa pouco ou nada? Por fim, comprar: sei gastar-me por Jesus? Ele está em primeiro lugar para mim, Ele é o maior bem da vida? Seria bom dizer-Lhe hoje: “Jesus, Tu és o meu bem maior”. Cada um, no coração, diga agora: “Jesus, tu és o meu bem maior”. Que Maria nos ajude a procurar, a encontrar e a abraçar Jesus com todo o nosso ser.


Depois do Angelus

Prezados irmãos e irmãs!

Hoje celebramos dois Dias mundiais convocados pela ONU: o Dia da Amizade e o Dia contra o tráfico de seres humanos. O primeiro promove a amizade entre povos e culturas; o segundo combate o crime que transforma pessoas em mercadoria. O tráfico é uma realidade terrível, que atinge demasiadas pessoas: crianças, mulheres, trabalhadores..., muitas pessoas exploradas; todas vivendo em condições desumanas e sofrendo a indiferença e a rejeição da sociedade. Há tanto tráfico no mundo de hoje. Deus abençoe quantos se dedicam à luta contra o tráfico.

Não deixemos de rezar pela martirizada Ucrânia, onde a guerra destrói tudo, até os cereais. Isto é uma grave ofensa a Deus, porque os cereais são o seu dom para alimentar a humanidade; e o grito de milhões de irmãos e irmãs que sofrem de fome eleva-se aos Céus. Apelo aos meus irmãos, às autoridades da Federação Russa, para que a iniciativa do Mar Negro seja restabelecida e os cereais sejam transportados em segurança.

No próximo dia 4 de agosto, completam-se três anos da explosão devastadora no porto de Beirute. Renovo as minhas orações pelas vítimas e as suas famílias, que procuram a verdade e a justiça, e espero que a complexa crise no Líbano possa encontrar uma solução digna da história e dos valores daquele povo. Não esqueçamos que o Líbano é também uma mensagem.

Peço-vos que me acompanheis com a vossa oração na Viagem a Portugal, que farei a partir da próxima quarta-feira, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude. Muitos jovens, de todos os continentes, experimentarão a alegria do encontro com Deus e com os irmãos, guiados pela Virgem Maria que, depois da anunciação, «levantou-se e partiu apressadamente» (Lc 1, 39). A Ela, estrela luminosa do caminho cristão, tão venerada em Portugal, confio os peregrinos da JMJ e todos os jovens do mundo.

Desejo a todos bom domingo. Por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Bom almoço e até à vista!


Vejo um Ramo de Amendoeira
O sentido pastoral da JMJ

Jorge Teixeira da Cunha, diocese do Porto | 16 Junho | in Ecclesia

Vai ter lugar a anunciada Jornada Mundial da Juventude no nosso país, a culminar em Lisboa, com a presença o Papa Francisco, nos primeiros dias do próximo Agosto. É uma iniciativa que se vem repetindo desde os tempos do Papa João Paulo II e já passou por todos os continentes. Foi um acto de coragem por parte por parte dos bispos portugueses, e das nossas autoridades, dar hospitalidade a esse evento de logística muito complexa e trabalhosa. Tudo se encaminha para que seja um sucesso, com a boa colaboração de todos e o esforço de quem coordena. Um evento como este suscita algumas reflexões de ordem pastoral. É isso que propomos aqui.

É sabido como a sensibilidade das pessoas de hoje, sobretudo dos jovens, privilegia nas suas preferências a participação em eventos de curta duração, mas que proporcionem experiências intensas a nível estético e sensorial. Uma jornada como a JMJ deve o seu sucesso a essa sensibilidade. O mesmo se passa com os concertos dos artistas de música popular que que conhecem um sucesso sem precedentes. Reparem que se trata de uma comparação vista pelo lado do receptor de cultura de hoje. Não fica mal à nossa reflexão pastoral aprender com essas técnicas, antes pelo contrário. A disponibilidade dos jovens de hoje para esse modo de vivência deve ser aproveitada pela Igreja. É uma forma de iniciar à vivência espiritual da fé, no tempo do predomínio da estética. Estamos num tempo diferente em que a formação lenta e demorada dos ritmos da fé encontra dificuldade. O mesmo se diga das formas de militância pela realização de valores, que era o método da acção católica do passado. Hoje, pelo contrário, temos de dar a viver de forma rápida e intensa a experiência cristã, segundo ritmos não hebdomadários, como é a nossa tradição de prática dominical.

É, porém, necessário estarmos sensibilizados e prevenidos para as diferenças na apreensão dos conteúdos da fé por parte das multidões que acorrem a estas jornadas que dão a volta ao mundo. Os jovens que tomam parte nestes eventos não são da era da palavra e da doutrina, como no passado. O seu conhecimento da fé não assenta na lógica nem no conteúdo teórico do cristianismo. A nosso ver é outra coisa. E uma experiência espiritual autêntica, mesmo assim, mas diferente do passado. A forma de pertença à comunidade cristã não tem dimensão administrativa nem vinculação expressa numa configuração da vida de forma estável. O mesmo se diga das formas de apreensão dos valores e normas morais. Aventuramos a dizer que uma grande percentagem dos jovens que tomam parte na JMJ, e batem palmas ao discurso do Papa Francisco, vive criticamente em desacordo com as normas morais do Catecismo da Igreja Católica. Estão neste caso as normas de moral sexual, as normas sobre o casamento e o divórcio, sobre a fecundidade, sobre o fim da vida, sobre o governo da Igreja. Isso é um grande desafio para a pastoral do futuro próximo que vai necessitar de muita reflexão e de algumas reformas que exigem muita sabedoria e muita coragem, para não deixarmos na desilusão as multidões que se sentem atraídas pela pessoa de Jesus Cristo.

Não obstante, a esforço da Igreja e da comunidade política não deixa de ser altamente meritório. É uma forma muito eficaz da presença pública do Evangelho, ampliada pelo trabalho dos meios de comunicação. Muitos comentadores darão espaço ao evento, amplificando a sua repercussão. É uma grande oportunidade para os pastores ouviram as vozes de fora e avaliarem o efeito conseguido e não conseguido do seu esforço de ensino e de pregação.

As nossas autoridades políticas têm tido uma boa vontade para colaborarem no evento da JMJ que é, a nosso ver, muito digno de nota. É justo assinalar que a qualidade da nossa vida pública e política e a maturidade democrática das nossas instituições.

Aqui fica o desejo de que a JMJ seja um sucesso, que saibamos tirar as lições que um evento que não se repetirá nas nossas vidas, pelo menos dos mais velhos, e que com grandeza de alma saibamos reconhecer o mérito a quem o tem nesta organização que nos honra a todos.


Vejo um Ramo de Amendoeira

[xv domingo do tempo comum ― a ― 2023]

Bombas de fragmentação & livros da consolação

Joaquim Félix | 16 Jul 2023 | in 7 Margens

1. «Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar» (Mateus 13,1).

Este dado da vida de Jesus é reconfortante, sossega, amacia;
só de o evocar, acodem ao ouvido as sonoridades marinhas,
o grasnar das gaivotas, o rebentamento das ondas,
a frescura da brisa no rosto… soltando os cabelos.

Até parece que Jesus estaria de férias,
como tantas pessoas que, neste tempo, se deslocam às praias.
Jesus sabia descansar, mesmo quando era pressionado.
Por vezes, solicitavam-no em demasia, mas ele sabia distanciar-se:
em desertos e montes, durante a noite, subindo para barcos.
Embora se possam reconhecer ‘contextos de construção’ nos evangelhos,
não nos estranhará que Ele se sentasse à beira-mar.
Aceitemos, sim, e com alegria, o seu tempo livre,
o seu humor, o seu gozo da vida, tudo o que para ele era fonte de prazer.

2. Não seria pouco se nos demorássemos neste versículo.

Avancemos, porém, na areia das palavras, até ao coração da mensagem,
como quem o ouve desde a margem, sentados e atentos.
A partir deste capítulo do evangelho segundo s. Mateus
Jesus conta sete ‘parábolas do Reino’; hoje, ouvimos a primeira.
Como constatamos, ele enriquece-a com densos detalhes,
muitos deles correspondendo a técnicas diferentes das nossas,
no que concerne, por exemplo, às sementeiras:
naquela tradição agrária, a semente é primeiro lançada ao solo,
e só depois é que se escarifica e grada.
Entre nós, sucede o inverso: lavra-se ou fresa-se a terra;
de seguida, lançam-se as sementes e, eventualmente, cilindra-se.

3. Eis porque é importante conhecer a cultura bíblica,

para compreender a palavra de Deus que a Sagrada Escritura ‘contém’.
Jesus, hoje, faz algo que, em parte, nos dispensa de comentar!
Porque, após narrar a parábola, explica-a até às ‘migalhas’ da significação.
Como está bem conseguida a ‘homilia’ de Jesus!
Embora… haja quem possa dizer: «Hum! ainda falta algo».
Ou, então, que fez uma ‘ruminação excessiva’ de palavras;
pelo que bastaria a «Forma breve» do evangelho deste domingo.
Ouvimos todos, não ouvimos, a parábola e a sua explicação?

Pergunto, porque é neste modo familiar, e privilegiadamente,
que nos «é dado a conhecer os mistérios do reino dos Céus» (Mt 13,11).
E isto para que, conforme a citação que Jesus faz de Isaías,
evitemos ouvir de nós: «ouvindo ouvireis, mas sem compreender;
olhando olhareis, mas não vereis…» (Is 6,9…10).
«Saiu o semeador a semear» (Mt, 13,3).
A aliteração coloca-nos em ‘ritmo de saída’.
Ah, e faz-nos avançar por modulações outras, que,
como poucos, o Pe. António Vieira explorou no Sermão da Sexagésima,
pregado na Capela Real, em Lisboa, talvez no dia 31 de janeiro de 1655:
«Não diz Cristo: saiu a semear o semeador,
senão, saiu a semear o que semeia:
Ecce exiit, qui seminat, seminare.
Entre o semeador e o que semeia há muita diferença».
Como seria bom voltar a ouvi-lo, mais do que a lê-lo.
E já que, por António Vieira, não dá,
seria ótimo reouvi-lo da voz do ‘imenso ator’ António Fonseca,
como assim o fez, de cor, no Auditório Vita, entre outros lugares.
Ou, então, revisitar parte dele, no filme «Palavra e utopia»,
dirigido que foi pelo grande ‘cineasta da palavra’, Manoel de Oliveira.
Não para ver «um Vieira à Manoel de Oliveira»,
mas «ver um filme de Manoel de Oliveira» (M. de Oliveira, Ditos e escritos,120),
a quem o padre João Marques, da diocese de Braga, tanto assessorou:

A parábola de Jesus balança entre a realidade e a utopia.
Não se trata de profetizar um «quinto império»,
mas um Reino cuja Palavra ‘seminal’ frutifica em quem a acolhe.
Acolhimento este que Jesus sentiu ser muito residual,
tendo em conta a sua rejeição nas cidades ribeirinhas do lago (cf. Mt 11,20-24),
a ponto de lhe quererem dar a morte por não respeitar o sábado (cf. Mt 12,1-14).
Em síntese, não aceitavam a sua palavra nem os seus sinais (cf. Mt 12,38-45).
Eis que, para animar os seus discípulos, algo esmorecidos,
Jesus investe numa linguagem de fortíssimo poder evocativo,
isto é, nas parábolas, embora não isentas de controvérsia.
Esclarecida a parábola do ‘semeador que semeia’ e da semente,
seria bom narrar outra, passível de ser atualmente melhor entendida.
Tendo em consideração uma das notícias desta semana,
pensei numa parábola perigosa, explosiva mesmo.
Digo-a com cautela, tendo presente Milan Kundera, falecido esta semana,
que escrevera no seu livro A Insustentável Leveza do Ser:
«As metáforas são uma coisa perigosa.
Não se brinca com as metáforas.
O amor pode nascer de uma simples metáfora.»
Então, qual é essa metáfora perigosa, potenciadora do amor?
Pensei nas bombas de fragmentação,
sobre as quais tanto se falou, ao longo da semana,
por causa do seu contestado envio para a Ucrânia.
Passamos a saber como são feitas, o raio da sua ação e os perigos futuros.
Assemelham-se, na sua orgânica interna, a grandes romãs;
porém, em vez de grãos de mel, possuem bombas.
Agora que sabemos tanto acerca deste tipo de ‘bomba de bombas’,
pensemos de forma metafórica, sem brincar nem cair em cinismos:
o Reino de Deus é como uma bomba-de-fragmentação-do-bem.
Quando é lançada, a Palavra de Jesus espalha-se pela terra,
e desdobra-se em efeitos benéficos, que permanecem para o futuro.
Como lançá-la, a Palavra, até em favor dos inimigos?
Nos nossos gestos amáveis e através de palavras boas,
que possam somente edificar os outros (cf. Efésios 4,2-9).

A comparação é perigosa? É. E muito.
Igual risco se corre quando a Palavra é comparada a uma espada (cf. Hebreus 4,12).
Todavia, se vista no sentido do bem, a força da imagem é poderosa.
As parábolas de Jesus, tal como as palavras de Isaías (cf. Isaías 55,10-11),
com o seu poder de animar, são ditas em contextos de duras provações.
Adversidades que, também em nossos dias, continuam a persistir.
A situação que se vive na Ucrânia, agora na contraofensiva,
é deplorável, tantos são horrores que vamos conhecendo…
Temos de reforçar o cuidado com os agressores, sim,
pois ninguém estaria à espera que este tipo de dramas se repetisse.
Citámos já um livro de Kundera, talvez o mais lido pelos jovens,
mas recordemos o documentário «Da brincadeira à insignificância»,
sobre a sua vida e obra, no qual, a determinado momento, ouvimos:
«Aconteceu muito rapidamente.
Os tanques chegaram, Kundera foi expulso da escola.
Foi gradualmente banido de tudo o que se podia imaginar.
Os russos disseram: Já não és checo»

Verdade, não faltam sofrimentos ao tempo presente.
Daí a urgência em fomentar palavras de consolação,
à semelhança do que fizeram Isaías, Jesus e s. Paulo,
que escreveu aos romanos nestes termos:
«Eu penso que os sofrimentos do tempo presente
não têm comparação com a glória
que se há de manifestar em nós» (Rom 8,18).
Condoamo-nos com os sofrimentos alheios,
assumindo-nos uns aos outros no duro peso da compaixão.
Falecido há dias, José Mattoso advertiu-nos com tantas lições da história.
Ele que, na 7ª Jornada da Pastoral da Cultura, bem o recordaremos,
ao ler, já no final, uma passagem de Etty Hillesum, não conteve a comoção:

Etty Hillesum que, no seu Diário (p.323),
escreve palavras que nos ajudam, também, a levantar o ânimo:
«Claro, é o extermínio total, mas suportemo-lo sobretudo com graciosidade.
Não existe um poeta dentro de mim, há sim um pedaço de Deus em mim
que poderia desenvolver-se até se tornar poeta.
Num campo assim (Westerbork) tem de haver contudo um poeta
que experiencie a vida lá, lá também,
e que como poeta a possa cantar».
Sabendo que o par de versículos da profecia de Isaías (Is 55,10-11)
faz parte do chamado Livro da Consolação,
termino com versos da «Prece de Etty Hillesum ao Deus do Silêncio»,
que o poeta Mário Rui de Oliveira dita, no seu Livro da Consolação,
a partir da expressão de Etty, em epígrafe: «Deixámos o campo cantando».
Sim, possa ser o refrão desta canção, como na referida prece:
«Abro a janela à tua luz / preciso de ti» (p. 20).
Podemos contemplar, em nossos dias, «a terra queimada»,
mas, até ao último verso, ao último instante, «repetidamente cantando».
Quem sabe, associando-nos a Jesus, a cantar o salmo 64,
ou, então, o antigo cântico de Moisés:
«Goteje a minha doutrina como a chuva,
destile a minha palavra como o orvalho,
como chuvisco sobre a relva e como gotas de água sobre a erva» (Deuteronómio 32,2).
Oxalá os quatro presbíteros da nossa diocese,
ordenados esta tarde no Santuário do Sameiro,
possam criar novas parábolas e entoar com voz fresca este canto ininterrupto.
Sim, como poetas de ‘livros de consolação’,
em cujos versos a vida dita e experimenta a compaixão,
no meio dos sofrimentos e das alegrias do tempo presente.

Joaquim Félix é padre católico


Vejo um Ramo de Amendoeira

JMJ 2023: O sonho de Deus

Tatiana de Jesus, Diocese de Setúbal | 18 Junho | in Ecclesia

É impossível dissociar o evento da Jornada Mundial da Juventude (qualquer que ela seja) do caminho que é percorrido até lá chegar. Todo aquele que já participou numa edição das JMJ ou já ouviu um testemunho, sabe e sente isso.

No que respeita particularmente à JMJ em Lisboa, tudo isto ganha uma outra dimensão não só porque se trata de uma vivência muito próxima, mas também porque o sentido enquanto país que acolhe é completamente diferente. Nos últimos tempos, muitas são as ditas polémicas que surgem na comunicação social em volta do “evento JMJ”. É natural que surjam e é ainda mais natural que pessoas que não estejam dentro do assunto se interessem. É certo que muita coisa não é boa de ouvir ou de ler, mas é bom falar sobre as coisas. A nós, cristãos católicos, é ainda mais premente falar sobre isto. O que nos incomoda causa desconforto, desinstala-nos, faz-nos mexer. Isto é a Igreja a acontecer, é Jesus a acontecer na vida de cada um! Jesus também foi polémico. O que seria de nós se não tivesse sido?

Jesus não deixou de chamar Mateus, Zaqueu, Bartimeu e tantos outros que “à primeira vista” não seriam os escolhidos. Jesus chamou-os para fazerem caminho com Ele. E se Jesus vier ao teu encontro na JMJ de Lisboa? Se chamar pelo teu nome? Aceitas? Confias? Tudo isto é caminho de e para a santidade.

A JMJ faz, sem sombra de dúvida, parte do nosso caminho para e com Jesus. Os jovens (e não só) do mundo inteiro querem muito vir até Lisboa ver o Santo Padre e fazer esta experiência, mas tal vontade corresponde ao desejo profundo que lhes foi posto no coração por Jesus. Alguns até nem saberão agora, mas vão descobrir.

Há muito que as comunidades em Portugal preparam este encontro. Com a JMJ cada vez mais perto, sinto nestas comunidades (particularmente as da minha diocese) a esperança nas pessoas com quem me vou cruzando. A JMJ a acontecer em Lisboa é, acima de tudo, sobre caminho. E não há caminho que não comece sem antes ter sido sonhado. A JMJ Lisboa foi sonhada por Jesus para todos os que se permitem vivê-la, mas foi igualmente sonhada para cada um, porque se há marca que uma JMJ deixa é o encontro pessoal com Jesus.

Neste caminho apressado, nesta pressa de ser mais, não nos percamos no que há para fazer, nos prazos que há para cumprir ou nos resultados que há para atingir. Tomemos antes conta que a única pressa que importa é a que nos leva para Deus e este caminho “só tem sentido na medida em que nos faz ser mais para Deus.”

Tatiana de Jesus, Mestre em Psicologia da Educação, faz parte da equipa do Departamento da Juventude, sendo a responsável pelo acompanhamento da Vigararia do Montijo


Vejo um Ramo de Amendoeira

JMJ, um Oásis de juventude e esperança que importa descobrir

Dina Pinto | 3 Jul 2023 | in 7 Margens

A menos de um mês para o início do maior encontro de jovens do mundo a convite do Papa atrevo-me a listar, pelos dedos de uma mão, cinco palavras que fundamentam a razão pela qual este encontro não pode deixar de nos interpelar.

A primeira é a palavra Oportunidade. Como cristã católica, olho para este acontecimento extraordinário como a possibilidade de criar um tempo favorável de renovação, crescimento, abertura e diálogo. Uma oportunidade para combater a indiferença, os ruídos estéreis e o vazio interior. Tal como quando recebemos um presente olhamos mais ao seu conteúdo do que à forma, assim devemos centrar-nos naquilo que realmente importa: o que a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) pode oferecer de tão significativo aos jovens que nelas participam? Um tempo oportuno para o aprofundamento interior e para a relação humana. Não será este o elixir que hoje tantos jovens procuram e necessitam?

A segunda palavra é Acolhimento. Se há palavra que define o encontro da juventude é a palavra acolhimento, expressa em hospitalidade, abertura, entrega e altruísmo. Ser país ou cidade de acolhimento requer preparar as condições propícias para que quem nos visita se sinta verdadeiramente no seio de uma grande família. O encontro da juventude com o Papa não se esgota num cerimonial ou num conjunto de iniciativas desgarradas, mas resulta de uma caminhada que se prepara e se concretiza num período temporal próprio de uma peregrinação. Rumo à JMJ somos peregrinos, caminhamos juntos, partilhando as alegrias e as dificuldades próprias desse trajeto, imagem da própria vida, ela própria feita de momentos de encontro e desencontro.

A terceira palavra é Sentido. Hoje, tal como ontem, a busca mais importante de cada ser humano é a busca de sentido, a descoberta de um propósito. Seja o sentido que nos faz encontrar uma direção, a razão que permite superar todos os absurdos ou a intensidade com que vivemos os acontecimentos mais significativos. A JMJ é, para milhares de jovens, uma verdadeira bússola para o sentido, nas mais diversas aceções da palavra. As experiências aí vivenciadas tornam-se maturadoras de sentido pleno de uma vida. Vemo-lo pela diversidade de testemunhos e relatos de quem viveu experiências profundamente transformadoras da vida. E ainda que fosse apenas um só jovem a encontrar o sentido da sua vida no contexto da JMJ, todo o compromisso na sua realização já teria valido a pena.

A quarta palavra é Interioridade. Num mundo que cada vez mais cultiva a aparência e a superficialidade, o risco de esvaziamento e de despersonalização não deixam espaço favorável à vivência de relações humanas autênticas ou à descoberta da verdadeira essência de si. Precisamos de cultivar a interioridade como forma de encontro da pessoa consigo mesma e de abertura ao infinito e à transcendência. Em espaços de silêncio e contemplação, oração e recolhimento, a descoberta da interioridade favorece a paz interior e a vivência de uma alegria que nunca se esgota.

A última palavra que aqui sublinho é a palavra Serviço. Este é não só o mote de todo o encontro (“Maria partiu apressadamente” para servir), mas o próprio convite que é lançado aos jovens antes, durante e após a JMJ. Se olharmos simbolicamente para esta palavra num contexto de uma refeição, o serviço é o que permite ser o suporte a toda a refeição, mas para cuja função não importa o seu preço, a sua ornamentação, ou a sua grandiosidade. A centralidade e a importância do encontro (refeição) será dar destaque aos convidados e ao bem-estar de todos à mesa. Assim também será o trabalho de todos quantos nesta grande festa da juventude irão assumir a função de serviço. Um serviço que será o de prestar apoio e suporte, proporcionar a todos os peregrinos o melhor e empenhar-se pelo bem comum.

Unindo todas estas palavras, através da sua inicial, prezo que a festa da Juventude JMJ seja um OÁSIS de juventude e esperança que todos tenham a alegria de descobrir.

Dina Pinto é professora de Educação Moral e Religiosa Católica no Agrupamento de Escolas Abade de Baçal (Bragança).


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OPINIÃO FÉRIAS

A apologia do aborrecimento

Ana Rita Bessa | 20 Junho 2023 | in Ponto SJ

As aulas, os exames e as atividades do ano estão a acabar. Começa o verão e chegam as férias grandes.

Férias grandes. Porque, como as palavras sugerem, o tempo substantivo e o tempo imaginado é largo e, naquele primeiro dia, todos os projetos são possíveis: dormir pela manhã adentro durante a semana, reencontrar os amigos dos sítios de férias, jogar jogos de computador, cartas ou tabuleiro, participar em atividades que os pais acham que fazem bem, pôr de lado os cadernos do ano letivo que passou (com alívio) e as canetas que já não pintam as cores viçosas do último setembro (com pena), ver séries em binge, fazer playlists de verão num spotify qualquer, sair à noite, fazer desportos, passeios de bicicleta, rir com amigos pela tarde ou noite fora, ler um livro ou dois ou três, fazer bolos, ir à praia ou ao campo, ficar por casa.

Raramente consta destes planos – feitos pelos pais ou pelos filhos – estar aborrecido e não ter nada para fazer. Fugimos disso, programando, agendando, ocupando.

O horror ao vazio, ao silêncio, a uma certa indolência. O medo de perder alguma coisa (o malogrado FOMO), de não dar utilidade ao tempo, ou talvez de não saber lidar com o que acontece quando nos encontramos a sós.

Bem sei que é um cliché, muito próprio de quem já tem uma certa idade, dizer que há 30 ou 40 anos o tempo passava mais devagar, com mais vazios que não tinham como ser preenchidos. Mas a verdade é que era mesmo assim. Não havia internet e por isso não existia contacto permanente e em tempo real com o mundo todo. Não havia telemóveis ubíquos e por isso era preciso esperar muito para poder falar ou saber dos amigos, dos primos, dos avós. Havia fotografias, mas tínhamos de aguardar dias para as ver, reveladas, temendo o erro, rindo ou lamentando o resultado, já sem margem para o mudar. Não havia centenas de canais de televisão, nem plataformas de streaming e por isso víamos o que havia, às horas que alguém decidia por nós, com gozo ou sem ele. Não havia playlists, e por isso tínhamos que esperar que a música passasse na rádio, para a gravar na cassete, roufenha, mas conquistada ao locutor que teimava em falar por cima dos primeiros acordes.

Muito tempo de esperas.

E ainda o tempo “morto”. Estar sem nada para fazer, não ter nada para nos ocupar. Ficar aborrecidos, fartos, depois irrequietos, depois queixosos, depois entregues. Nessa altura, a cabeça inventava pensamentos, deambulava, partindo daquele momento até às fronteiras da imaginação, expandindo-se para longe do ponto de partida sem se alienar, e o corpo habituava-se a estar, espraiando-se sem posição constante ou definida.

Aprendia-se a parar, aprendia-se a esperar, a ser consciente de si mesmo, a serenar no desconforto para reencontrar o gozo do fim do aborrecimento. Um treino imposto para aprender a adiar a gratificação, não por castigo, mas porque faz parte da vida. E fará, muitas vezes, em muitas circunstâncias, porque há tempo de derrubar e tempo de edificar, mas também, entre os dois, há tempo de esperar.

Aprender a viver esta boa indolência, a não preencher todos os vazios que a vida oferece com a voracidade das possibilidades exteriores e deixar-nos permanecer no tédio, o suficiente para que se converta em encontro corajoso com quem somos e, talvez até, na oportunidade do encontro amoroso com Deus. E depois, só depois, prosseguir.

É uma proposta a considerar nestas férias grandes. Venham elas e esse tempo para tanto e tudo, também para estar aborrecido.


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Os direitos de uma minoria silenciosa

ESPECIAL DIREITOS DAS CRIANÇAS

Miguel Simões Correia | 1 Junho 2023 | in Ponto SJ

Hoje, no Dia da Criança, devemos recordar e trazer para o debate público uma forma de discriminação tão antiga quanto discreta: a discriminação das crianças e jovens.

O estatuto da criança enquanto sujeito de Direito conheceu uma evolução que me parece ter sido bastante orgânica, mas muitíssimo lenta. Não sendo o propósito alongar-me sobre uma análise histórica da questão, convém recordar que as crianças eram inicialmente propriedade do pater familias, que dispunha até do direito a decidir sobre a vida das mesmas. Um longo e paulatino caminho é feito durante a Idade Média em que os sentimentos ligados à infância começam a surgir – veja-se a obra de Philippe Ariès (L’enfant et la vie familiale sous l’Ancien Régime, 1973) – sendo que o conceito de criança só se autonomiza do de (mini) adulto, mais recentemente.

A partir do século XVII, parece-me que o conceito de criança foi muito moldado pelo liberalismo e neoliberalismo. O liberalismo exclui as crianças e jovens do pacto social bem como de toda a organização social: Locke, por exemplo, entende que a exclusão das crianças se deve ao facto de estarem “fora do domínio da lei da razão” (Second Treatise of Government, 1690). De facto, além de facilitar a fundamentação do contratualismo, a exclusão das crianças enquanto sujeitos é consequência da separação entre privado e público. Entendendo o privado como um espaço de liberdade, poucas são as restrições impostas no seio da família ao poder paternal: tal constituiria certamente uma ingerência abusiva por parte do Estado (seja como legislador, seja como Administração).

Atualmente, muitos avanços foram feitos, nomeadamente no plano jurídico internacional. A inovadora Convenção sobre os Direitos das Crianças (1989), adotada pela ONU, veio propor uma alteração de paradigma, pondo o foco na criança e reconhecendo-a como sujeito e titular de um extenso catálogo de direitos. Esta Convenção inspirou a produção de legislação em vários países: veja-se o caso de Portugal, em que foi adotada a Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo (Lei 147º/99).

Está, pois, claro que um grande caminho foi feito. Porém, ao contrário da maioria das conquistas sociais em que os avanços decorrem da mobilização da população discriminada, no caso das crianças, por razões evidentes, só existem avanços quando os adultos assim o determinam. Mas estará o estatuto desta minoria silenciosa consolidado de forma a responder às suas necessidades?

A nível social, se é verdade que há, hoje, muito mais sensibilidade para a discriminação enquanto fenómeno sistémico que afeta pessoas em função do seu sexo, orientação sexual, etnia, religião, também é claro que o fenómeno de discriminação das crianças é bastante ausente das habituais discussões relativas a conquistas sociais. Note-se, também, a ausência da referência à idade enquanto categoria sobre a qual poderia recair uma suspeita de discriminação, mesmo ao nível da nossa Constituição: no artigo 13º/2, a idade não faz parte do catálogo de categorias em função das quais comummente são cometidas violações do princípio da igualdade. Veja-se que mesmo quando se fala de discriminações em função da idade é frequente falar-se da discriminação de idosos (fenómeno que também nos deve preocupar) mas não de crianças e jovens. Quer este silêncio dizer que a discriminação das crianças e jovens deixou de ser um problema?

É difícil falar de discriminação das crianças porque existe um critério objetivo que determina que estas gozem de menos direitos: com uma menor maturidade, têm, também, uma menor capacidade para exercer os seus direitos. Porém, essa diferença, que justifica, efetivamente, uma distinção no tratamento da criança face ao do adulto, não pode justificar toda e qualquer distinção nesse tratamento.

Parece-me que o fenómeno de discriminação das crianças tem um impacto mitigado no que toca à legislação, mas faz-se sentir intensamente nas práticas sociais que continuam a ser adotadas e validadas. Apesar de uma grande evolução, ignora-se frequentemente a vontade das crianças com a desculpa de que não sabem o que é melhor para elas, mesmo quando chegam à adolescência. Aceitam-se comportamentos perfeitamente humilhantes ou degradantes no âmbito da educação, comparando-se alunos ou expondo aqueles que têm um pior desempenho escolar. Descredibiliza-se crianças que relatam situações de abuso pelas quais passaram, com o argumento de estão a inventar ou de que interpretaram mal um certo comportamento ou gesto. Ouve-se frequentemente apologias ao cometimento de ofensas à integridade física contra crianças, afirmando-se, por exemplo, que a ausência de violência (vulgo “falta de estalo”) leva à má-educação.

Todos estes exemplos são referentes a uma sociedade – a nossa – em que a cultura do Cuidado está, ainda, por construir. Não falta tudo e muitos passos têm sido dados, mas não tratamos, ainda, as crianças com todo o respeito que lhes é devido, continuando a discriminá-las, permitindo que haja atitudes para com elas que chegamos até a criminalizar quando referentes aos adultos. E tudo isto, não porque têm menos maturidade ou competência, mas apenas porque têm menos idade.

Construamos, então, comunidades cada vez mais seguras e acolhedoras, onde as crianças e jovens possam ser cuidadas e bem tratadas, sem terem de esperar pela maioridade para que assim seja.


Vejo um Ramo de Amendoeira

SANTA MISSA NA SOLENIDADE DE PENTECOSTES

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO

Basílica de São Pedro
Domingo, 28 de maio de 2023

A Palavra de Deus, hoje, apresenta-nos o Espírito Santo em ação. Vemo-Lo agir em três momentos: no mundo que criou, na Igreja e nos nossos corações.

1. Em primeiro lugar, no mundo que criou, na criação. Desde o início, temos o Espírito Santo em ação: «Enviais o vosso Espírito – rezamos no Salmo Responsorial – e tudo é criado» (Sal 104, 30). Realmente, Ele é creator Spiritus – Espírito criador (cf. S. Agostinho, In Ps., XXXII, 2, 2): é assim que, há séculos, O invoca a Igreja. Mas, podemos perguntar-nos: Que faz o Espírito na criação do mundo? Se tudo tem a sua origem no Pai, se tudo é criado por meio do Filho, qual é o papel específico do Espírito? Um grande Padre da Igreja, São Basílio, escreveu: «Se tentasses subtrair o Espírito à criação, todas as coisas se misturavam, aparecendo a sua existência sem lei nem ordem» (Spir., XVI, 38). Eis o papel do Espírito: é Aquele que, desde o início e em todos os tempos, faz passar as realidades criadas da desordem à ordem, da dispersão à coesão, da confusão à harmonia. Este seu modo de agir, vê-lo-emos sempre na vida da Igreja. Numa palavra, dá harmonia ao mundo; assim «dirige o curso dos tempos e renova a face da terra» (Gaudium et spes, 26; cf. Sal 104, 30). Renova a terra – atenção, porém! –, não o faz mudando a realidade, mas harmonizando-a; isto está dentro do seu estilo, porque Ele é, em Si mesmo, harmonia: Ipse harmonia est – diz um Padre da Igreja (cf. S. Basílio, In Ps. 29, 1)

Ora hoje, no mundo, há tanta discórdia, tanta divisão! Estamos conectados e, contudo, vivemos desligados uns dos outros, anestesiados pela indiferença e oprimidos pela solidão. Tantas guerras, tantos conflitos! Parece incrível o mal que o homem pode fazer… É que, para alimentar as nossas hostilidades, existe o espírito da divisão, o diabo, cujo nome significa precisamente «divisor». Pensa o espírito maligno, «o sedutor de toda a humanidade» (Ap 12, 9), a sugerir e exacerbar o nosso mal, a nossa desagregação; ele exulta com os antagonismos, as injustiças, as calúnias... isto é a sua alegria. E sabendo o Senhor que, perante o mal da discórdia, os nossos esforços para construir a harmonia não são suficientes, Ele, no momento mais alto da sua Páscoa, no ponto culminante da salvação, derrama sobre o mundo criado o seu Espírito bom, o Espírito Santo, que Se opõe ao espírito divisor, porque é harmonia, Espírito de unidade que traz a paz. Invoquemo-Lo todos os dias sobre o nosso mundo, sobre a nossa vida e perante todo o tipo de divisão!

2. Além da criação, vemo-Lo agir igualmente na Igreja, a partir do dia de Pentecostes. Notemos, porém, que o Espírito não dá início à Igreja propondo instruções e normas à comunidade, mas descendo sobre cada um dos Apóstolos: cada um deles recebe graças particulares e carismas diversos. Toda esta pluralidade de dons diferentes poderia gerar confusão, mas o Espírito, como sucedeu na criação, gosta de criar harmonia precisamente a partir da pluralidade. A sua harmonia não é uma ordem imposta e aprovada. Não! Na Igreja, há uma ordem «organizada segundo a diversidade dos dons do Espírito» (S. Basílio, Spir., XVI, 39). De facto, no Pentecostes, o Espírito Santo desce em muitas línguas de fogo: dá a cada um a capacidade de falar outras línguas e de ouvir a língua própria falada pelos outros (cf. At 2, 4.6.11). Por outras palavras, não cria uma língua igual para todos, não apaga as diferenças, as culturas, mas harmoniza tudo sem homogeneizar nem uniformizar. E isto deve fazer-nos pensar num momento em que a tentação de retrogradação procura homogeneizar tudo em disciplinas apenas de aparência, sem substância. Detenhamo-nos neste aspeto, isto é, no facto de o Espírito não iniciar dum projeto estruturado, como teríamos feito nós que, muitas vezes, nos perdemos em programas. Não! Ele começa repartindo dons de forma gratuita e superabundante. De facto, como sublinha o texto, no Pentecostes, «todos ficaram cheios do Espírito Santo» (At 2, 4). Todos cheios… Assim começa a vida da Igreja: não dum plano preciso e articulado, mas de experimentarem todos o mesmo amor de Deus. É assim que o Espírito cria harmonia, convidando a maravilhar-nos com o seu amor e os seus dons presentes nos outros. Como nos disse São Paulo, «há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. (...) De facto, num só Espírito, fomos todos batizados para formar um só corpo» (1 Cor 12, 4.13). O olhar harmonioso do Espírito é ver cada irmão e irmã na fé como parte do mesmo corpo a que pertenço eu: este é o caminho que Ele nos indica!

E o Sínodo em curso é – e deve ser – um caminho segundo o Espírito: não um parlamento para reclamar direitos e exigências à maneira das agendas de trabalho no mundo, nem ocasião de se deixar levar ao sabor de qualquer vento. Mas o Sínodo é uma oportunidade para ser dóceis ao sopro do Espírito. Com efeito, no mar da história, a Igreja só navega com Ele, que é «a alma da Igreja» (S. Paulo VI, Discurso ao Sacro Colégio agradecendo os bons votos pelo genetlíaco, 21/VI/1976), o coração da sinodalidade, o motor da evangelização. Sem Ele, a Igreja fica inerte; a fé não passa duma doutrina, a moral dum dever, a pastoral dum trabalho. Às vezes ouvimos os chamados pensadores, teólogos, que nos dão doutrinas frias; parecem matemáticas, porque dentro falta-lhes o Espírito. Com Ele, pelo contrário, a fé é vida, o amor do Senhor conquista-nos e a esperança renasce. Coloquemos de novo o Espírito Santo no centro da Igreja; caso contrário, o nosso coração não arderá de amor por Jesus, mas por nós mesmos. Ponhamos o Espírito no início e no coração dos trabalhos sinodais. Pois «é sobretudo d’Ele que a Igreja tem, hoje, necessidade! Por isso, digamos-Lhe cada dia: vinde!» (Idem, Audiência Geral, 29/XI/1972). E caminhemos juntos, porque o Espírito, como fez no Pentecostes, gosta de descer enquanto estão todos juntos (cf. At 2, 1). Sim, para Se mostrar ao mundo, Ele escolheu o momento e o lugar em que todos estavam juntos. Portanto o Povo de Deus, para estar cheio do Espírito, deve caminhar em conjunto, fazer sínodo. Assim se renova a harmonia na Igreja: caminhar juntos, tendo no centro o Espírito. Irmãos e irmãs, construamos harmonia na Igreja!

3. Por fim, o Espírito faz harmonia nos nossos corações. Vemo-lo no Evangelho, onde se refere que Jesus, na noite de Páscoa, sopra sobre os discípulos e diz: «Recebei o Espírito Santo» (Jo 20, 22). Dá-O com uma finalidade específica: perdoar os pecados, isto é, reconciliar os ânimos, harmonizar os corações dilacerados pelo mal, quebrantados pelas feridas, divididos pelo sentido de culpa. Só o Espírito repõe a harmonia no coração, porque é Aquele que cria «a intimidade com Deus» (S. Basílio, Spir., XIX, 49). Se queremos harmonia, procuremo-Lo a Ele, não sucedâneos mundanos. Invoquemo-Lo todos os dias, comecemos o dia rezando-Lhe, tornemo-nos dóceis ao Espírito Santo!

E hoje, na sua festa, questionemo-nos: Sou dócil à harmonia do Espírito? Ou corro atrás dos meus projetos, das minhas ideias sem me deixar moldar, sem me fazer mudar por Ele? O meu modo de viver a fé é dócil ao Espírito, ou teimoso? Teimosamente apegado à letra, às chamadas doutrinas que não passam de frias expressões da vida? Sou precipitado em julgar, acuso e bato a porta na cara aos outros, considerando-me vítima de tudo e de todos? Ou acolho a harmoniosa força criadora do Espírito, acolho a «graça de estar juntos» que Ele inspira, o seu perdão que dá paz? E, por minha vez, perdoo? O perdão é criar espaço para que venha o Espírito. Promovo a reconciliação e crio comunhão, ou estou sempre à espreita, metendo o nariz onde há dificuldades para murmurar, para dividir, para destruir? Perdoo, promovo reconciliação, crio comunhão? Se o mundo está dividido, se a Igreja se polariza, se o coração se fragmenta, não percamos tempo a criticar os outros e a zangar-nos com nós mesmos, mas invoquemos o Espírito: Ele é capaz de resolver estas coisas.

Espírito Santo, Espírito de Jesus e do Pai, fonte inesgotável de harmonia, nós Vos confiamos o mundo, consagramo-Vos a Igreja e os nossos corações. Vinde, Espírito criador, harmonia da humanidade, renovai a face da terra. Vinde, Dom dos dons, harmonia da Igreja, tornai-nos unidos em Vós. Vinde Espírito do perdão, harmonia do coração, transformai-nos, como Vós sabeis, por meio de Maria.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Sensibilidade e bom senso

Cristina Inogés Sanz | 5 Mai 2023 | in 7 Margens

Pessoas perfeitas? Felizmente elas não existem na vida porque isso nos faria deuses. Ninguém nasce sabendo tudo; porém, nascemos com a capacidade de aprender e aquilo que não podemos aprender ou que nos causa dúvidas podemos perguntar.

As dúvidas nem sempre são existenciais ou de tipo laboral, por assim dizer; muitas vezes são uma questão de saber se um fato e uma cor são adequados para um evento ou como nos dirigirmos a alguém ou onde ter um encontro ou uma comemoração. Questões aparentemente menores podem causar não grandes problemas, mas sim sentimentos de receio.

Há dias surpreendeu-me muito a celebração litúrgica em Fátima para pedir perdão às vítimas de abusos sexuais na Igreja. [ver 7MARGENS]

Fátima é grande e tem vários espaços para isso. O local escolhido tinha por detrás do altar um mosaico de Marko Rupnik (relembro que ainda não está afastado do ministério sacerdotal e ainda é jesuíta).

Haverá menos sensibilidade?

Os bispos não têm de saber de tudo porque são pessoas como as outras, mas, quem os assessora? Mais ainda, pedem assessoria? O senso comum costuma ser o menos comum de todos os sentidos e, algumas vezes, a sua ausência é clamorosa.

Pode ser que aqui, em Portugal, não haja vítimas de Rupnik (ou sim, mas ainda não se revelaram). De qualquer modo, a questão é que as vítimas de abusos sexuais voltaram a sentir-se desprezadas com esse gesto absurdo.

Por favor, um pouco de sensibilidade e bom senso. Não é assim tão difícil. Gestos deste tipo mostram falta de empatia, desprezo pelas vítimas, desconhecimento do mínimo necessário para gerar um clima de encontro e confiança. Alguém pensa em como é importante começar a trabalhar na construção da confiança? Vai ser muito difícil recuperá-la, mas, desde logo, gestos como este não ajudam nada.

No caso das vítimas de abuso – de qualquer tipo de abuso – a primeira coisa é reconhecer o delito porque, relembro, abusar e agredir sexualmente uma pessoa não é um erro, é um delito. Também é necessária muita humildade porque, se cada pessoa é um solo sagrado, as vítimas são particularmente terra sagrada violentada e violada. A comunicação é vital, é necessário abrir canais diretos onde uma voz acolha e gere escuta. O correio eletrónico funciona, mas para outras questões. É preciso ser sensível, paciente e estar disposto a escutar tudo aquilo que as vítimas sintam necessidade de dizer, mesmo que sejam expressões de ódio, porque precisam de romper o muro de silêncio em que têm vivido. E, sobretudo, que não intuam uma mentira porque, nesse caso, não haverá nada que fazer com a confiança.

Tudo isto, se possível, sem sinais, símbolos e imagens que evoquem algo ou alguém relacionado com os abusos, porque é muito doloroso que, enquanto algumas dioceses se perguntam o que fazer com as obras de Rupnik – a de Lourdes vai submeter uma consulta aos seus fiéis –

[ver 7MARGENS] as vítimas as continuem a ver numa celebração de pedido de perdão.

E, mais uma pequena questão: alguém fez uma leitura devido ao escasso número de fiéis presentes nessa celebração em Fátima?

Ânimo! Um pequeno esforço para pôr em prática um pouco de sensibilidade e bom senso.

Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a comissão metodológica do Sínodo dos Bispos católicos. Tradução de Júlio Martin.


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OPINIÃO

A IMPORTÂNCIA DA ESPERA

As marcas da esperança n’O Principezinho

Teresa Cunha Pinto | 12 Maio 2023 | in Ponto SJ

De cada vez que o lemos abre-se um mundo novo: “Por favor… desenha-me uma ovelha…” E foi assim que travei conhecimento com o principezinho.

O Principezinho não é só um dos livros mais lidos em todo o mundo, mas é, também, um dos livros que melhor toca na verdade da nossa humanidade. A humanidade que nos foi oferecida por Deus e que todos os dias nos permite ser tocados por Ele. A humanidade é este caminho de Esperança que se revela em Cristo.

“- Gosto muito de pores do Sol. Vamos ver o pôr do Sol…
– Mas primeiro temos de esperar…
– Esperar o quê?
– Esperar que o Sol se ponha.”

Fui à procura de algumas das marcas da Espera n’O Principezinho. Li novamente o livro em busca destes murmúrios da Esperança. Onde nos é pedido que vivamos, que saboreemos o encontro, que permaneçamos firmes e fiéis na espera. Não será, talvez, arriscado afirmar que o autor deste livro terá, verdadeiramente, ousado na espera, tais são as marcas e os desafios à humanidade que deixou ao longo de toda a história. Um olhar atento sobre a narrativa permitir-nos-á identificar com clareza um belíssimo esboço da esperança. Chamo-lhe esboço, porque está em permanente construção e caminho, um contínuo de luz e sombra que alimenta a vida e que brota da relação com Jesus.

Saber esperar, que ousadia, que coragem. Não é fácil. Será que já não sabemos esperar? Será que à medida que vamos ficando pessoas grandes perdemos a capacidade de viver a espera com alegria? Também esperámos o nascimento do Salvador em Belém, também, depois da morte na cruz, foi preciso esperar a Ressurreição do Senhor. A espera é a nossa esperança. É a nossa fé.

“- Por favor… prende-me a ti! – acabou por finalmente dizer a raposa.
(…)
– E o que é que é preciso fazer? – perguntou o principezinho.
– É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos.
Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto …”

Todos os dias um bocadinho mais perto, todos os dias a desejar um bocadinho mais esta proximidade e este abraço. É preciso ter muita paciência, explica a raposa. Mas é a espera e a fidelidade que sela o amor e que o eterniza. Não me acredito num amor que não espera pela eternidade e pela busca permanente do céu. Prende-me a ti! Que é como quem diz: vamos permanecer juntos. Fomos criados para a vida em relação e para a esperança na eternidade.

Foi Antoine de Saint-Exupéry que escreveu esta história. Nasceu em 1900, em França. Precisamente na altura em que o avião estava a ser inventado. Estudou no colégio jesuíta Notre Dame de Saint Croix e no colégio dos Marianistas, em Friburgo, na Suíça, e, em 1921, ingressou no serviço militar. Já mais velho, fez-se piloto e as suas aventuras começaram. Foi dos céus que viu montanhas, desertos, cidades. Ultrapassou momentos difíceis de ventos fortes e tempestades que pareciam invencíveis e também se despenhou algumas vezes, claro. Em 1944 estava numa missão em África e a partir daí nunca mais foi visto. Os restos do avião foram encontrados em 2004, mas o seu corpo nunca apareceu. No belíssimo livro ilustrado “O Piloto e o Principezinho” – A vida de Antoine de Saint-Exupéry, de Peter Lís, podemos ler que, para nunca mais ter voltado, então é porque o piloto e escritor “talvez tenha encontrado o seu próprio planeta brilhante perto das estrelas.” Os livros que nos deixou, e em particular o Principezinho, são um relato de esperança viva que não podemos ignorar. Nele encontramos sussurros do Evangelho. Tão discretamente e simplesmente, ouvimos Jesus a falar.

“Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.”

Se o tempo que o Principezinho perdeu com a sua rosa foi o que a tornou tão importante na sua vida, o tempo que entregamos à vida também é o que faz dela uma vida de imensa vitória, que não se mede por narrativas de sucesso, conquistas e outras distrações. O tempo que dedicamos à vida dita a nossa capacidade de amar e de vivermos em plenitude a humanidade que nos é oferecida todos os dias. É curiosa a expressão perder tempo. Usamo-la com frequência e, com muita frequência também, há quem corrija o perder pelo investir tempo. Continuo a preferir o perder tempo. Só quem é capaz de perder o seu tempo por algo ou alguém é capaz de oferecer gratuitamente a sua vida.

“Sempre gostei do deserto. Uma pessoa senta-se numa duna. Não vê nada. Não ouve nada. E, no entanto, há qualquer coisa a brilhar em silêncio.”

Confidenciou o aviador, depois do Principezinho ter dito que o deserto é bonito. É bonito, porque há algures um poço que nos dá de beber. Mesmo que não o vejamos ou que seja difícil de o reconhecer. Mas o poço está lá. Mesmo no deserto, neste lugar de passagem, não há solidão ou tristeza que vença a alegria de um poço de vida. Antoine de Saint-Exupéry, também ele aviador como a personagem do livro, dá corpo à esperança. Ao longo da história, não se cansa de persistir na importância da espera, do tempo, do invisível, do essencial.

Viajar pelas marcas da esperança n’O Principezinho é um exercício de encontro e reconhecimento. Abre-se mesmo um mundo novo de cada vez que o leio. Já não é igual. Já não é como o li da última vez. Talvez seja isto o sinal de uma vida nova que surge a cada dia e que se confirma e justifica na Ressurreição. A esperança não é o inalcançável, não é o interminável, o impossível, o inatingível. A esperança é o amor a permanecer.

“Não tenham pressa, fiquem um bocadinho à espera mesmo por baixo da estrela.”

Este excerto faz parte da nota final do autor que começa com “Para mim, esta é a mais bela e mais triste paisagem do mundo. Foi neste mesmo local que o Principezinho fez a sua aparição na Terra e, depois, desapareceu.” Um lugar, por isso, que faz memória da chegada e da partida, do aparecimento e do desaparecimento, da existência e da ausência. Ou se quisermos: da vida e da esperança que a faz eternamente viva. Não tenhamos pressa. Fiquemos um bocadinho à espera.


Vejo um Ramo de Amendoeira

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
À HUNGRIA
(28 - 30 de abril de 2023)

ENCONTRO COM OS JOVENS

DISCURSO DO SANTO PADRE

“Papp László Budapest Sportaréna” (Budapeste)
Sábado, 29 de abril de 2023

Dicsértessék a Jézus Krisztus [louvado seja Jesus Cristo]!

Queridos irmãos e irmãs, quero dizer-vos köszönöm [obrigado]! Obrigado pela dança, obrigado pelos cânticos, os vossos testemunhos corajosos, e obrigado a cada um por estar aqui: estou feliz por estar convosco! Obrigado.

O bispo D. Ferenc Cserháti disse-nos que a juventude é tempo de grandes perguntas e grandes respostas. É verdade! Importante é haver alguém que provoque e ouça as vossas perguntas e não vos dê respostas fáceis, respostas pré-fabricadas, mas vos ajude a enfrentar sem medo a aventura da vida à procura de respostas grandes. As respostas pré-fabricadas não ajudam, não vos fazem felizes. Era assim que fazia Jesus. Bertalan, disseste que Jesus não é personagem dum livro de fábulas nem super-herói duma banda desenhada, mas uma pessoa verdadeira: Cristo é Deus em carne e osso, é o Deus vivo que Se faz próximo a nós; é o Amigo, o melhor dos amigos; é o Irmão, o melhor dos irmãos, e é muito hábil a colocar perguntas. Com efeito, no Evangelho, Ele, que é o Mestre, antes de dar respostas, faz perguntas. Recordemos a atitude d’Ele quando tem diante de Si aquela mulher adúltera contra quem todos apontavam o dedo acusador. Jesus intervém; os que a acusavam, vão-se embora e fica ela sozinha. Então, com delicadeza, «perguntou-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” Ela respondeu: “Ninguém, Senhor!”» (Jo 8, 10-11). E assim, ao dizê-lo, compreende que Deus não quer condenar, mas perdoar. Fixai bem isto na cabeça! Deus não quer condenar, mas perdoar. Deus perdoa sempre. Como se diz «Deus perdoa sempre» em húngaro? [o tradutor di-lo em húngaro, e o Papa pede aos jovens para repetirem] Não vos esqueçais! Ele está pronto a reerguer-nos de cada uma das nossas quedas! Por isso, com Ele, nunca devemos ter medo de caminhar e avançar na vida. Pensemos também em Maria Madalena, que, na manhã de Páscoa, foi a primeira a ver Jesus ressuscitado. Tivera um passado pouco recomendável, mas foi a primeira a vê-Lo. Banhada em lágrimas estava junto do túmulo vazio, e Jesus pergunta-lhe: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» (Jo 20, 15). E assim, tocada profundamente, Maria de Magdala abre o coração, conta-Lhe as suas angústias, revela os seus anseios e o seu amor. «Onde puseram o Senhor?»

E vejamos o primeiro encontro de Jesus com aqueles que haviam de se tornar seus discípulos. Encaminhados por João Batista, dois deles vão atrás de Jesus. O Senhor volta-Se e faz-lhes uma única pergunta: «Que pretendeis?» (Jo 1, 38). Também eu vos faço uma pergunta, e cada um responde no coração, em silêncio. A minha pergunta é: «Que pretendeis? Que procurais na vida? Que procurais em vosso coração?» Em silêncio, cada um responde dentro de si. Que procuro eu? Jesus não Se perde em sermões, mas caminha, percorre a estrada juntamente com cada um de nós. Não quer que os seus discípulos sejam alunos que repetem uma lição, mas que sejam jovens livres e caminhem, companheiros de estrada dum Deus que escuta, que escuta as suas necessidades e está atento aos seus sonhos. Bastante tempo depois daquele primeiro encontro, sucedeu a dois jovens discípulos uma escorregadela infeliz (escorregadelas, os discípulos tiveram tantas!), fazendo a Jesus um pedido errado: pedem para ficar à sua direita e à sua esquerda, quando Ele se tornar Rei. Queriam trepar! Mas é interessante ver que Jesus não os repreende pelo atrevimento; não lhes diz: «Como ousais pedir isso? Parai de sonhar com essas coisas!» Jesus não derruba os seus sonhos, mas corrige-os quanto ao modo de os realizar; aceita o seu desejo de chegar ao cimo (isso é bom), mas insiste numa coisa, que devem ter bem em mente: uma pessoa não se torna grande passando por cima dos outros, mas abaixando-se para os outros; não à custa dos outros, mas servindo os outros (cf. Mc 10, 35-45) [pede ao tradutor para repetir a última frase, em húngaro]. Vede, amigos! Jesus fica feliz, se alcançarmos metas altas. Não nos quer preguiçosos e inativos, não nos quer calados e tímidos; quer-nos vivos, ativos, protagonistas, protagonistas da história. E nunca desvaloriza as nossas expetativas; mas, ao contrário, eleva o nível dos nossos anseios. Jesus estaria de acordo com um provérbio vosso (espero pronunciá-lo bem!): Aki mer az nyer [quem ousa, vence].

Entretanto poderíeis perguntar-me: como se faz para ser vencedor na vida? Há duas coisas fundamentais, como no desporto: primeira, apostar alto; segunda, treinar-se. Apostar alto. Diz-me: possuis um talento? De certeza que o tens; todos temos! Não o ponhas de lado, pensando que, para ser feliz, basta o mínimo indispensável: um diploma, um emprego para ganhar dinheiro, divertir-se um pouco... Não basta! Põe em campo aquilo que tens. Possuis uma qualidade boa? Investe nela, continua sem medo. Sentes no coração que possuis uma capacidade que pode ser benéfica para tanta gente? Sentes que é belo amar o Senhor, criar uma família numerosa, ajudar os necessitados? Continua! Não penses que são desejos irrealizáveis, mas investe sobre os grandes objetivos da vida! Esta é primeira coisa: apostar alto. E a segunda, treinar-se. Como? Em diálogo com Jesus, que é o melhor treinador possível: Ele ouve-te, motiva-te, acredita em ti… Sabes? Jesus acredita em ti, sabe como tirar o melhor de ti. E sempre nos convida a fazer equipe: nunca sozinhos, mas com os outros: isto é muito importante! Se queres amadurecer e crescer na vida, continua a fazer equipe na comunidade, vivendo experiências comuns. Penso, por exemplo, nas Jornadas Mundiais da Juventude, e aproveito a ocasião para vos convidar para a próxima, que será em Portugal, na cidade de Lisboa, nos primeiros dias de agosto. Hoje, porém, a grande tentação é contentar-se com um telemóvel e qualquer amigo. Não é grande coisa, por favor! Embora seja isto o que muitos fazem e ainda que seja também o que te apetece fazer, todavia isso não te fará feliz. Tu não podes fechar-te num grupinho de amigos e dialogar apenas através do telemóvel: trata-se duma coisa – desculpai a palavra – um pouco estúpida.

Há ainda um elemento importante no treino que se deve cuidar, um elemento que tu, Krisztina, nos lembraste ao dizer que hoje, no meio de corridas sem conta, tanto frenesim e velocidade, há uma coisa essencial que falta aos jovens, e também aos adultos. Eis as tuas palavras: «Não reservamos tempo para o silêncio no meio do barulho, porque temos medo da solidão e, depois, acabamos os nossos dias, esgotados». Disseste-lo tu, Krisztina: obrigado. Deixai que vos diga: nisto, não tenhais medo de ir contracorrente, encontrando diariamente um tempo de silêncio a fim de parar e rezar. Hoje tudo vos diz que é preciso ser rápido, eficiente, praticamente perfeito, como máquinas. Mas, amigos, nós não somos máquinas! E depois damo-nos conta de que muitas vezes ficamos sem gasolina e não sabemos o que fazer. É bom saber parar para abastecer, para recarregar as baterias. Mas – atenção! – não é para mergulhar nas próprias melancolias ou ruminar tristezas, não é para pensar em quem me fez isto ou aquilo, elaborando teorias sobre o modo como se comportam os outros; isso não te faz feliz! Aquilo é um veneno, não se faz!

O silêncio é o terreno onde se pode cultivar relações benéficas, porque nos permite confiar a Jesus aquilo que vivemos, apresentar-Lhe rostos e nomes, entregar-Lhe as preocupações, lembrar os nossos amigos e rezar por eles. O silêncio dá-nos a possibilidade de ler uma página do Evangelho que fala à nossa vida, de adorar a Deus reencontrando assim a paz no coração. O silêncio permite-nos pegar num livro que não somos obrigados a ler, mas que nos ajuda a conhecer o espírito humano, permite-nos observar a natureza para não viver apenas em contacto com coisas feitas pelos homens mas descobrir também a beleza que nos rodeia. Contudo o silêncio não é para ficar preso ao telemóvel e às redes sociais. Isso não, por favor! A vida é real, não virtual; não acontece num visor, a vida acontece no mundo! Por favor, não tornemos a vida virtual. Repito: não tornemos a vida virtual, porque é concreta. Compreendestes?

Assim o silêncio é a porta da oração, e a oração é a porta do amor. Dóra, quero agradecer-te por teres falado da fé como duma história de amor (isto é lindo; é a tua experiência) onde dia a dia enfrentas as dificuldades da adolescência, mas sabendo que está contigo Alguém, Alguém para ti, e que esse Alguém – Jesus – não tem medo de superar contigo todo e qualquer obstáculo que encontres. A oração ajuda a fazê-lo, porque é diálogo com Jesus, tal como a Missa é encontro com Ele, e a Confissão é o abraço que se recebe d’Ele. Vem-me à mente o vosso grande músico Ferenc Liszt. Durante uma limpeza do seu piano, foram encontradas algumas contas do terço que, talvez por ter rebentado, caíram lá dentro. É um indício que nos faz pensar como ele, antes duma composição ou dum concerto, e talvez mesmo depois dum momento de diversão no piano, tivesse o hábito de rezar: falava ao Senhor, falava a Nossa Senhora daquilo que amava e colocava a sua arte e os seus talentos na oração. Rezar não é chato! Somos nós que o tornamos chato. Rezar é um encontro, um encontro com o Senhor: e isto é belo. E quando rezardes, não tenhais medo de levar até Jesus tudo o que se passa no vosso mundo interior: afetos, medos, problemas, expetativas, recordações, esperanças, tudo, mesmo os pecados. Ele compreende tudo. A oração é diálogo de vida, a oração é vida. Bertalan, hoje não tiveste vergonha de nos contar a todos a ansiedade que às vezes te paralisa e as dificuldades que sentes para te aproximares da fé. Como é belo ter a coragem de ser verdadeiro, que não significa mostrar que nunca se tem medo, mas abrir-se e partilhar as próprias fragilidades com o Senhor e com os outros, sem esconder, nem disfarçar, nem usar máscaras. Obrigado pelo teu testemunho, Bertalan. Obrigado! Como vemos narrado nas páginas do Evangelho, o Senhor faz coisas grandes, não com pessoas extraordinárias, mas com pessoas verdadeiras, limitadas como nós. Pelo contrário, quem se apoia nas próprias capacidades e vive de aparências para ser bem visto, mantem Deus longe do coração, porque se ocupa apenas de si mesmo. Jesus, com as suas perguntas, o seu amor, o seu Espírito, escava dentro de nós para nos tornar pessoas verdadeiras. E hoje há tanta necessidade de pessoas verdadeiras! Digo-vos uma coisa: sabeis qual é hoje o perigo? Ser uma pessoa fictícia. Por favor, nunca sejais uma pessoa fictícia, mas sempre pessoas verdadeiras, com sua própria verdade! «Mas, Padre, eu tenho vergonha, porque a minha realidade não é boa. Sabe, Padre?! Trago coisas aqui dentro...» Olha para diante, para o Senhor, tem coragem! O Senhor quer-nos bem assim como somos, como somos agora… Ama-nos assim. Coragem! Avante… Não vos assusteis com as vossas misérias.

A propósito disto, impressionou-me aquilo que disseste tu, Tódor, partindo do nome que recebeste em honra do Beato Teodoro, um grande Confessor da fé que nos chama a não nos contentarmos com meias medidas. Quiseste «fazer soar o despertador», dizendo que o zelo pela missão é anestesiado pelo nosso viver em segurança e conforto, enquanto a poucos quilómetros daqui, na ordem do dia, temos a guerra e o sofrimento. Daí o convite: assumir a vida, para ajudar o mundo a viver em paz. Para isso, deixemo-nos desinquietar. Cada um de nós interrogue-se: Que faço pelos outros, que faço pela sociedade, que faço pela Igreja, que faço pelos meus inimigos? Vivo a pensar só no meu bem ou arrisco pelos outros, sem me cingir aos meus interesses? Por favor, interroguemo-nos sobre a nossa gratuidade, sobre a nossa capacidade de amar, amar segundo Jesus, isto é, capacidade de amar e servir.

Queridos amigos, há uma última coisa que quero partilhar convosco: uma página do Evangelho, que resume tudo o que dissemos. Há ano e meio, estive aqui para o Congresso Eucarístico; ora, no capítulo VI do Evangelho de João, há uma bela página eucarística em cujo centro aparece um jovem. Lá se fala dum rapaz que estava no meio da multidão a escutar Jesus. Provavelmente pensou que o encontro se ia prolongar muito e, previdente que era, trouxe o almoço consigo. (A propósito, trouxestes uma sanduiche?) Ora Jesus, compadecido da multidão – eram mais de cinco mil –, quer alimentá-la; então, com o seu estilo, interroga os discípulos para despoletar as suas energias. Pergunta a um deles como fazer para isso, e chega a resposta dum «contabilista»: «duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho» (Jo 6, 7). Por outras palavras, matematicamente é impossível! Entretanto, outro vê aquele rapaz e faz uma constatação, embora também ela pessimista: «Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?» (6, 9). Ao contrário, para Jesus aqueles cinco pais e dois peixes bastam, bastam e sobram para realizar o famoso milagre da multiplicação dos pães. Cada um de nós, as pequenas coisas que temos, inclusive os nossos pecados, bastam para Jesus. E nós, que devemos fazer? Deixá-las nas mãos de Jesus: isto basta!

O Evangelho, porém, não especifica um detalhe, que deixa à nossa imaginação: como conseguiram os discípulos convencer aquele jovem a dar tudo o que tinha? Talvez lhe tenham pedido para disponibilizar o seu almoço; ele olhou em redor vendo milhares de pessoas e terá talvez respondido, como eles, dizendo: «Não basta, porque me pedis a mim e não vos encarregais vós próprios, que sois os discípulos de Jesus? Quem sou eu?» Então ter-lhe-ão dito que foi o próprio Jesus que pediu. E o rapaz faz uma coisa extraordinária: confia. Aquele rapaz que tinha o almoço para si, confia, dá tudo, não guarda nada para si. Veio para receber de Jesus e vê-se na situação de dar a Jesus. Mas é assim que acontece o milagre. Nasce da partilha: a multiplicação realizada por Jesus começa pela partilha daquele jovem com Ele a favor dos outros. O pouco daquele rapaz nas mãos de Jesus torna-se muito. É aqui que conduz a fé: à liberdade de dar, ao entusiasmo do dom, à superação dos medos, a pôr-se em jogo! Amigos, cada um de vós é precioso para Jesus, e também para mim! Lembra-te que ninguém pode ocupar o teu lugar na história do mundo, na história da Igreja: ninguém pode ocupar o teu lugar, ninguém pode fazer aquilo que só tu podes fazer. Ajudemo-nos, então, a crer que somos amados e preciosos, que fomos feitos para grandes coisas. Rezemos por isso e encorajemo-nos a isso! E recordai-vos também de fazer bem a mim com a vossa oração. Köszönöm [obrigado]!


Vejo um Ramo de Amendoeira

Papa e dez jovens comunicam para além das palavras

Miguel Panão | 18 Abr 2023 in 7 Margens

Dez jovens de várias nações juntaram-se para fazer perguntas ao Papa Francisco e partilhar as suas experiências sem filtros num documentário que saiu a 5 de Abril no serviço de streaming Disney+. O conteúdo foi decidido pelas questões dos jovens, mesmo se se nota que a produção escolheu pessoas com experiências em questões “quentes” como o aborto, os abusos sexuais, os LGBT, a pornografia, os refugiados, entre outras. Porém, o que me intrigou foi a comunicação não-verbal e aquilo que não se disse, mas espelhado nas caras dos jovens e do Papa.

A comunicação não-verbal começa com a manhã do Papa antes de se encontrar com os jovens. Sentado, sozinho, o Papa aguarda pelo pequeno-almoço. A impressão que me deixou foi de silêncio e um misto incerto entre solidão e solitude. Oferece um bolo ao Bruno, que parece ser o seu assistente, ou faz um comentário sobre o café, mas em vez de vermos alguém que se senta com ele, parece que as pessoas receiam fazê-lo, ou não faz parte do guião. Porém, o olhar de Francisco não revela tristeza, mas expectativa.

O respeito pelo Papa sentia-se naquele que os jovens sentiam entre si, uns pelos outros, mesmo quando discordavam. Francisco nunca franze o sobrolho como muitos de nós fazemos quando discordamos, ou alguns daqueles jovens diante da opinião diferente do outro ou até das palavras do Papa. Porém, o Papa Francisco escuta sempre e, por vezes, baixa a cabeça, como sinal de tristeza ou de ponderação. A comunicação não-verbal faz-se de expressões faciais, gestos, postura, o modo como nos distanciamos fisicamente, o tempo, as pausas, a nossa aparência e o toque.

As lágrimas vertem-se de sofrimentos vividos no passado, mas com efeitos ainda presentes, ou por emoção das escolhas feitas que vão contra a onda moral que a Igreja sempre propagou e muitas vezes prescreveu, mas pouco persuadiu. Lágrimas ainda pelo receio de perder a fé no meio de um mundo que pouco compreende a alegria que alguns jovens sentem pelas experiências de fé que fizeram e que hoje a sociedade condena por achar que somos moralistas, em vez de ver a genuinidade dos corações.

O olhar de Francisco varia da alegria à profunda tristeza. O testemunho daqueles jovens está impregnado de muitas dores que mantêm muitas feridas abertas na Igreja, mas cuja onda iniciada pelo Papa Francisco de sarar é grande, assim como a determinação em parar as hemorragias mentais e espirituais instaladas em muitos sectores da Igreja. O tom de voz de Francisco acolhe e oferece o que pensa com a sua experiência de vida, mais do que qualquer raciocínio teologicamente elaborado. Diante daquela jovem que produzia conteúdos pornográficos, o olhar de Francisco aproxima-se mais da misericórdia do que de qualquer juízo e na voz nota-se que procura oferecer uma visão ainda pouco preparada para responder com lógica e com amor.

A verdade é que à sua volta estavam muitas facetas da cultura vivida por muitos jovens no tempo presente para as quais a nossa face tem ainda dificuldade em expressar uma comunicação não-verbal que ofereça a intenção de acolher e fazermos juntos um percurso de compreensão recíproca.

Qualquer pessoa que pense ainda naquilo que a “Santa Madre Igreja diz”, expressão injustamente gasta com o intuito de evitar a necessidade de enfrentar as questões difíceis, terá muita dificuldade em ver e ouvir a comunicação verbal deste documentário. O mais natural será tecer grandes críticas à escolha dos jovens, e até a algumas respostas do Papa Francisco. A impressão que tenho (possivelmente errada) é a da incapacidade de um número não desprezável de católicos se expor às inquietações de jovens como estes, e reconhecerem serem anacrónicos na visão teológico-moral que têm como o Papa assume ser relativamente à tecnologia. O Papa pode não fazer a mínima ideia sobre a existência de apps como o Tinder (o leitor sabe o que é?), mas a (in)genuidade de Francisco está no valor do acolhimento universal das sua comunicação não-verbal que tanto caracterizava Jesus nos Evangelhos.

Vivemos numa cacofonia mundial pelo excesso de informação que circula entre nós. Em momentos de festa como a Páscoa, recebemos inúmeras mensagens (algumas iguais) a pensar que são a única a cair no nosso WhatsApp. Sem algo escrito que seja mais personalizado, o efeito deste modo de comunicar acaba por retirar todo o significado que pretende suscitar em nós, ao ponto de pensarmos – “Ok. Já percebi. Já chega.” As mensagens têm um décimo da potência transformativa que tem a comunicação não-verbal presencial. Nesse sentido, a mensagem principal da comunicação não-verbal entre o Papa Francisco e aqueles dez jovens que retiro do documentário é a do acolhimento sem fronteiras que ultrapassa quaisquer barreiras ideológicas, e vai muito além das trocas de informação, mostrando o valor de nos centrarmos no amor sincero e profundo que não passa.

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Já nada é como dantes

Teresa Cunha Pinto | 10 Abril 2023 | in Ponto SJ

O Senhor Jesus ressuscitou e diante de nós abre-se um novo caminho de vida. Já nada é como dantes. Nada permanece igual.

O túmulo está vazio. E agora? Perante o mistério da Ressurreição de Jesus, invade-nos uma inquietude que desinstala, comove, agita e anima. O que é que muda? Qual é a novidade? Há um novo caminho de Deus connosco.

Faltam palavras para descrever o indescritível e, por isso, a única forma de dar nome e sentido à Ressurreição de Jesus é vivê-la continuamente. De outra forma, estaremos a concluir que a Ressurreição se esgota no domingo de Páscoa e a ignorar a porta que abriu a toda a humanidade.

A Ressurreição transforma profundamente e é central na nossa vida. A vida vence a morte, o bem vence o mal, a alegria impera sobre o mundo. Há um Deus que não se cansa de nos salvar todos os dias. Um Deus que não desiste de nós e que, no seu amor único e profundo por cada um, oferece, incondicionalmente, vida, dom e luz.

Já nada é como dantes. Jesus ressuscitou e revolucionou completamente a nossa vida. Os nossos túmulos também se encherão de graça. As cruzes e os desertos serão lugar de passagem e transformação. A luz surpreenderá a noite e à noite seguir-se-á um novo dia. Todos os dias serão novas oportunidades para amar e a cada manhã um novo raiar para contemplar.

É na Ressurreição que a verdade de cada um se constrói, se faz forte e viva. Não é possível conceber uma verdade que para ser verdade não morre para nascer de novo. Não se pode conceber uma verdade que não permanece na espera, nem uma verdade que não viva para a eternidade.

A Páscoa de Jesus é este encontro com a verdade. Que tanto nos desconcerta, porque ultrapassa o limite do entendimento humano. Só com um coração unido ao de Jesus podemos experimentar e viver esta Páscoa. Porque Deus colocou a eternidade no nosso coração. Aleluia!


Vejo um Ramo de Amendoeira

Assumir os nossos invernos

Mariana Cardim | 4 Abril 2023 | in Ponto SJ

Há uns anos, numa qualquer atividade beata, sugeriram-me imaginar que “tipo” de santa seria eu, se algum dia o chegasse a ser. Santa, não como título que se conquista, mas como algo que já se é por excelência, se se tiver a coragem de ouvir no coração o grito de um Deus que chama cá dentro e convida à transformação. Que puxa por nós, que “pica” e desafia a tirar o mundo da palma da mão e escalar “cada vez mais altos montes”. É o que este Deus faz em mim.

Este Deus faz muitas coisas em mim. É casa, mas é também o meu maior impulsionador, o que mais me desafia e interpela. Não é a voz chata que me lembra das tarefas aborrecidas que deixei por fazer num tom de indignado e imperioso. É a voz das maravilhas, a voz que tem e guarda surpresas escondidas a cada canto, a cada pessoa, a cada instinto, a cada impulso verdadeiro que o meu coração sussurra.

É um Deus entusiasmante. O que promete nunca é aborrecido. Nunca me deixa ficar mal ou desiludida. Até pode deixar-me com fome por algum tempo, mas sacia com pães e peixes, muitos mais do que os que sabia precisar. Quem diz fome, diz cansaço, comparação, diz a insegurança e o medo em que às vezes o cérebro e o coração se entrelaçam. Mesmo que as coisas a que chama às vezes me deixem com fome, Ele sacia sempre, sacia até as fomes enterradas que eu não sabia que tinha.

Sempre fui uma criança tímida. Assustava-me a diferença que por defeito (ou por qualidade) todos temos, e que eu, por alguma razão, sentia ter um bocadinho mais que os outros. Talvez isso me tenha conduzido, ao longo do tempo, a abraçar aquilo que sou mais profundamente, porque naturalmente não o fazia. Ao crescer, percebi que é a minha mais forte arma, aquilo que sou de diferente e de original. Não para me autopromover ou para ser autossuficiente, mas descubro que a melhor forma de dar passos robustos e firmes é aceitar a minha velocidade, seja ela qual for. Abraçar os meus ritmos. Deixar que o mundo e que o Espírito me aconselhem, mesmo sem palavras. Só pela vida. Só pelas flores, que demoram cada uma o seu próprio tempo a florescer.

Abraçar os meus ritmos. Deixar que o mundo e que o Espírito me aconselhem, mesmo sem palavras. Só pela vida. Só pelas flores, que demoram cada uma o seu próprio tempo a florescer.

Percebemos que Jesus nos chama a isso? Que a humildade não é sinónimo de esconder o nosso florescimento? Temos coragem de mostrar as nossas flores, tal como são? Incrivelmente frágeis e vulneráveis, incrivelmente necessárias para salvar o mundo, para ser luz? Temos coragem de assumir a nossa luz, abraçar as nossas cores e assumir os nossos ritmos? É que ser luz é também ser vulnerável. Florescer implica que houve um tempo em que a árvore estava nua e vazia, aparentemente sem perspetivas de melhorar.

Florescer implica que se irá ter frio e fome e vazio outra vez, mais à frente no caminho. Porque não florescemos por nós, mas pelo tronco, que nos dá a água e a estrutura, pelo Espírito que nos fala, pelo Deus que nos ama e nos conduz pelos invernos, verões e primaveras.

Ao lado desta árvore, no auge do seu esplendor, encontro outra do mesmo tipo, amendoeira. Vazia. Nua. O contraste é irónico, até mesmo chocante. Rio com os clichês das metáforas da primavera, talvez clichês por serem tao reais, por fazermos parte dela. Sorte a desta amendoeira. Vazia ainda. Uma página em branco, com tudo pela frente. Sorte o seu inverno ser no início do que o mundo estipulou como primavera. Sorte a dela, se tiver a coragem de assumir a beleza do que é. Que potencial o desta árvore. Não só porque vai florescer. Porque sem ela, não tinha escrito o que estou a escrever.

Foi esta segunda árvore que naquele dia me transformou. Porque saber assumir-se quem se é, e saber abraçar o tempo do que somos, é a magia que faz com que reparem em nós quando entramos na sala. Como eu reparei naquela árvore. Porque saber ser autêntico no que se é profundamente chamado a ser, vai ser sempre, para mim, caminho de felicidade profunda, daqueles que vêm com lágrimas, alegrias e verdade. Vai ser sempre água que sacia. A água de que este mundo tem sede, e que só nasce em quem ouve o Espírito em si que sussurra: preciso que hoje sejas inverno, até seres primavera.

Não fujas, não te escondas. Reúne a seiva em ti, reza, ouve-me e dorme. Não vivas à espera. A vida para ti começa hoje, e hoje é inverno. Porque é que não acreditas? Se assumires o que ainda não é (sendo, por isso mesmo) não temerás nada, e os olhos do mundo virar-se-ão para ti, porque o mundo também tem sede de quem assume o seu inverno. Serás sal da terra e luz do mundo; florescerás um dia e terás a sabedoria autêntica de ser quem és e de perceber que mais nobre do que a árvore que floresce é a árvore que assume o que é, de costas direitas e olhar firme, no inverno que vive e que é santo, por ser autêntico e necessário.

Alguns anos depois da atividade beata com que comecei cheguei finalmente a uma conclusão: se algum dia puder ser a padroeira de alguma coisa, que seja a da autenticidade, e que o meu dia possa ser um daqueles que acontecem no mais cerrado inverno, um qualquer no fim de janeiro, na fase em que os propósitos de ano novo caíram por terra e em que o Natal já lá vai longe. Naquela fase em que começamos a achar que, afinal, não temos remédio, e que se calhar, aquela esperança que noutros tempos tivemos era passageira. E que nesse dia, o maior festejo sejam as montanhas que Tu, Jesus, moves em nós mesmo quando por fora parecemos árvores nuas, frágeis e vazias. Ninguém sabe quando a nossa primavera virá. Assumamos o nosso inverno para que quando o tempo chegar as flores sejam testemunhas da ressurreição.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Domingo de Ramos, entrada de Jesus em Jerusalém: Uma dupla saída

Santa e grande! Dois atributos que, em todo o ano litúrgico, estão reservados apenas a uma semana: aquela que se abre com o Domingo de Ramos: Paixão do Senhor. A rubrica do missal que a introduz apresenta-nos desde logo um verbo central para compreender o sentido dos ritos que a caracterizam: “Ecclesia recolit”. A Igreja «faz memória» dos últimos atos da vida de Jesus, daqueles dias, lugares e ações narradas nos Evangelhos.

Mas na liturgia não estamos no teatro, não é a simples representação de um guião redigido por uma leitura anedótica da Escritura. É sempre celebração daquele mistério único de fé pascal no qual: «Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição, vinde Senhor Jesus».

São certamente dias únicos que as tradições de cada terra enriqueceram de usos, sagrados e profanos, que lhe testemunham o caráter extraordinário. Precisamente por isto as primeiras palavras da liturgia da Semana Santa são de advertência. É um convite a uma participação ativa e, sobretudo, consciente. Isto porque, nos dias grandes e santos, a Igreja é chamada não só a “fazer”, mas a viver, com unidade dos lábios e do coração, aqueles ritos únicos.

Comemorar a entrada do Senhor em Jerusalém tem testemunhos muito antigos. Precisamente naquela cidade, no século IV, «todo o povo caminha à frente do bispo entre hinos e antífonas, respondendo sempre: Bendito aquele que vem no nome do Senhor. E todas as crianças naqueles lugares, inclusive aqueles incapazes de caminhar, porque muito pequeninos, e que os seus pais levam ao colo, todos têm na mão ramos, quer de palmeira quer de oliveira; assim se acompanha o bispo na maneira em que então foi acompanhado o Senhor» (Egeria, “Peregrinação à Terra Santa”).

Desde há séculos que a Igreja vive este momento como um “prelúdio” à Páscoa, respondendo a um convite que, na celebração, é confiado ao diácono: «Imitemos, irmãos caríssimos, a multidão que aclamava a Jesus na cidade santa de Jerusalém, e caminhemos em paz».

Na Idade Média, este convite a “imitar” era sentido com força singular e abria a leituras que não ficavam pela simples representação do Evangelho que o ministro tinha proclamado (Mateus 21, 1-11). A Igreja recolhia-se num lugar diferente do habitual, a celebração começava fora do edifício sagrado e era lida como imagem de uma Igreja “em saída”, melhor, duplamente em saída: com o corpo e com o espírito.

Quando o missal, hoje, chama prelúdio, para eles era “preparação” para celebrar a Páscoa através de uma profunda meditação daquela Escritura. A saída é a condição para encontrar o Senhor e ecoava o convite da Carta aos Hebreus: «Saiamos, então, ao seu encontro fora do acampamento, suportando a sua humilhação, porque não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura» (13, 13-14).

O Senhor devia ser acolhido com os frutos de todo o caminho quaresmal, com flores de virtude e palmas de vitória» sobre o pecado, dizia Guilherme de Auxerre. Este teólogo parafraseava a antífona que antigamente seguia a proclamação do Evangelho da entrada do Senhor em Jerusalém: “Occurrunt turbae” (As multidões vão ao encontro do Redentor com flores e palmas, ao vencedor triunfante prestam digna homenagem. As gentes aclamam-no Filho de Deus e no nome de Cristo ressoa no ar o canto: «Hossana» (cf. João 12, 13)).

A Paixão já tem o perfume de vitória, e o que também hoje somos convidados a viver na celebração, ou seja, a unidade do mistério pascal, era entrevisto num pequeno detalhe: o número oito. Trata-se da cor sonora daquele canto que já fala da vitória de Cristo ao oitavo dia, aquele que não conhece ocaso. Uma vitória «em si e nos seus membros, pela qual chegamos [também nós] à vitória da ressurreição», comentava Guilherme de Auxerre.

Os “Versus Theodulfi”, aquelas hínicas palavras poéticas a Cristo Rei do bispo Teodulfo de Orléans (c. 760 – 821), são ainda um dos cantos que podem acompanhar os passos dos fiéis na procissão festiva. São palavras sapientemente compostas, inspiradas no Evangelho, que brotam da alma de um homem da idade carolíngia. Trata-se de um dos raros casos de canto liturgico que nos pergaminhos era copiado recordando o ilustre autor: «Gloria, laus et honor tibi sit» (Glória, louvor e honra a ti sejam, Cristo Redentor, de quem a virtude das crianças piedosamente cantou: «Hossana»).

Este refrão nos lábios de todos intercala versos que unem a história sagrada antiga com o seu enxerto no hoje celebrativo. Então, como neste domingo, a Igreja canta hinos ao seu «Rei bom e clemente que ama tudo o que é bom».

A procissão dos fiéis, neste dia, desfila seguindo um sinal particular. Após o turiferário com o turíbulo fumegante, as rubricas indicam que segue a cruz «ornada com ramos de palmeira ou de oliveira». Uma cruz sobre a qual são fixados ramos verdejantes. Não é mero ornamento, mas o símbolo de Cristo, madeira verde que retoma precisamente aquele versículo do Evangelho: «Porque, se tratam assim a árvore verde, o que não acontecerá à seca?» (Lucas 23, 31). E Cristo foi precisamente esse ramo verdejante que tinha em si todo o vigor das virtudes, e, apesar disso, não se subtraiu do caminho para a paixão.

De maneira muito sugestiva, para a entrada dos fiéis na igreja é indicado o canto de um responsório: «Ingrediente Domino in sanctam civitatem». A assembleia está prestes a tomar os seus lugares no salão litúrgico e logo depois escutará a longa narrativa da paicão do Senhor. Mas o canto quer já orientar essa escuta e toda a semana que se está para viver: «Seis dias antes da Páscoa, o Senhor entrou em Jerusalém e as crianças vieram ao seu encontro, com ramos de palmeira, cantando com alegria: “Hossana nas alturas. Bendito sejais, Senhor, que vindes trazer ao mundo a misericórdia de Deus”». A Igreja é convidada a imitar as crianças precisamente na essência dos seus hinos de alegria. É a proclamação da ressurreição, acontecimento que não podemos calar em cada ato celebrativo.

Comemorar esta entrada do Senhor em Jerusalém é mais do que preparar-se para a Páscoa: é vivê-la! Imitar os “pueri haebreorum” (as crianças dos judeus) daquele dia é colher o convite a sair, a atravessar as nossas cidades com passos ritmados por cantos de alegria e capazes de meditar «os ensinamentos da sua paixão, para merecermos tomar parte na glória da sua ressurreição» (oração coleta da missa do Domingo de Ramos).

Claudio Campesato | In L'Osservatore Romano | Trad.: Rui Jorge Martins | in SNPC | Publicado em 30.03.2023


Vejo um Ramo de Amendoeira

Opinião SERVIÇO

“Que entre vós não seja assim…”

João Luís Fontes | in Ponto SJ | 22 Março 2023

João abre a narrativa da Páscoa de Jesus com o episódio do lava-pés. O modo como a inicia sempre me impressionou: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Jo. 13,1). Na verdade, a sua morte e ressurreição não são senão o completar da sua passagem: a passagem pela condição humana, na sua grandeza e na sua fragilidade, e esse passar da mesma condição humana da morte para a vida plena de Deus. A nova Páscoa é a da liberdade que nasce da morte vencida porque a vida é dada por inteiro, diz-se na entrega até ao fim. E tudo acontece sob o signo do amor, desse amor que não desiste do Homem mas antes lhe assegura: “Eu estarei sempre contigo!”, mesmo no abismo e na vertigem do aparente sem sentido, da violência e da morte.

É interessante que a liturgia cristã tenha colocado este texto no centro da celebração de Quinta-Feira Santa, no dia do memorial da última ceia que Jesus toma com os discípulos, onde faz do pão e do vinho partilhados o sinal da sua vida dada, sempre presente como alimento nos irmãos e irmãs que se reúnem em seu nome na esperança dos novos céus e da nova terra. Na primeira leitura desse dia, recorda-se por isso a ceia pascal judaica, tomada à pressa, relembrando a urgência da partida, a condição essencial dos crentes como peregrinos. E Paulo, na 1ª Carta aos Coríntios, dá-nos o mais antigo testemunho dessa memória recebida e transmitida dos gestos e palavras de Jesus, nessa Ceia memorável que, como o dom do seu corpo, se quer abrir a todos.

O gesto e o dia surgem-nos associados também, na teologia cristã, à instituição do ministério ordenado. Tal ligação é por vezes lida em clave clerical, fundando na iniciativa do próprio Senhor Jesus uma distinção, que se pretende estruturante, entre os leigos e aqueles que, na comunidade eclesial, têm o múnus de presidir, governar e ensinar. Sobretudo, é reivindicado como gesto que, por distinguir, também separa e exclui, ao mesmo tempo que sanciona uma autoridade, um monopólio na distribuição dos bens sagrados e na mediação entre a comunidade e o próprio Deus.

Muita desta mentalidade, reforçada ao longo dos tempos medievais e da reforma tridentina, veio a ser definitivamente posta em causa, como sabemos, pelo Concílio Vaticano II. Ao propor um entendimento da Igreja como povo de Deus, fundado na comum dignidade baptismal dos seus membros e na universal vocação de todos a uma vida plena, aberta ao dom de Deus e comprometida na transformação do mundo, sugeria, na verdade, uma irreversível inversão de perspectiva, não já numa lógica institucional mas existencial, não a partir de cima mas de dentro. Daí decorria todo um entendimento outro, tanto do papel de (todos os) leigos como actores e participantes na construção da Igreja e na transformação do mundo, como do ministério ordenado, olhado agora a partir da dimensão do serviço, promotor de comunhão, capaz de escuta e de diálogo com o mundo, aberto às esperanças e dificuldades de todos, numa dinâmica de acolhimento, cuidado e compaixão.

Os acontecimentos últimos em torno dos abusos no interior da Igreja, sexuais e outros, nas suas múltiplas dimensões – das vítimas aos abusadores até à tibieza, desconcerto e mesmo silêncio das hierarquias mas por vezes também de muitos leigos e das suas comunidades – mostram como muito se liga ainda com um acentuado clericalismo, com estruturas frágeis de participação e uma concepção da vida cristã e da vida das comunidades e da Igreja ainda muito afastada de uma ética efectiva do cuidar. Os paradigmas institucionalistas e paternalistas de poder favoreceram sempre a obediência e o silêncio em detrimento da participação e da reflexão construtiva.

O gesto de Jesus do lava-pés é, por isso, mais actual do que nunca. Desde logo, porque Ele próprio, sendo “Mestre e Senhor”, se despe da sua autoridade, deixa de lado o manto, para se ajoelhar perante os discípulos, como os escravos faziam aos seus senhores. No modo como explica aos seus tão escandaloso gesto, vem-nos à memória um outro diálogo, colocado noutro contexto, onde Jesus também inverte as lógicas do poder e da autoridade para afirmar o primado da humildade e do serviço: “Sabeis que os governadores das nações as dominam e os grandes as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim. Ao contrário, aquele que quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que serve, e o que quiser ser o primeiro dentre vós seja o seu servo” (Mt. 20, 25-27). Num caso e noutro, Jesus apresenta-se como o modelo, aquele que veio para servir e não para ser servido (Mt. 20, 28), aquele que lava os pés aos seus discípulos, ou, como Paulo relembra na carta aos Filipenses, aquele que se despojou da sua condição divina para assumir a nossa condição, até à morte de cruz.

Se o seu gesto se liga e funda os diversos graus de serviço ministerial que a Igreja foi definindo para as suas comunidades, ele também deve inspirar o modo como eles devem ser entendidos e exercidos. Precisamos urgentemente de nos convertermos a este caminho de serviço e humildade, de afastar toda a tentação de converter a autoridade em poder e de toda a autorreferencialidade que nos encerra face ao mundo e aos seus apelos. Precisamos de uma Igreja, precisamos todos como Igreja, de perceber a força deste ajoelhar perante cada um dos nossos irmãos e irmãs, de lhes dizermos como são preciosos e únicos aos olhos de Deus, como é grande a sua dignidade, e como é bela a nova trazida por Jesus, aquele que abriu e abre aos nossos pés caminhos novos de liberdade e plena humanidade. Precisamos, sem hesitações, de coração contrito, de o dizer e fazer sentir àquele e àquelas que ofendemos. Precisamos de pedir, como Jesus nessa Ceia, para que o Pai guarde aqueles e aquelas que acreditam nele, para que não se percam nem percam a força de ser sal e luz do mundo. Precisamos de nos escutarmos mutuamente para discernirmos os caminhos pelos quais Deus nos chama, como Igreja e irmãos uns dos outros, a sair da desesperança e da noite para a aurora da manhã pascal. Que as dores do momento presente e as feridas que nos maceram sejam o caminho, como em Jesus, para passar para uma vida nova, um modo diferente, mais fraterno, de sermos cristãos, uns com os outros.


Vejo um Ramo de Amendoeira

O drama de pôr Deus contra o ser humano

Naquele tempo, Jesus, vê um homem cego de nascença, e os seus discípulos interrogam-no: «Rabi, quem pecou, ele os seus pais, para que tenha nascido cego?». Responde Jesus: «Nem ele pecou nem os seus pais, mas é para que nele se manifestem as obras de Deus» (de João 9, 1-41, Evangelho do 4.º Domingo da Quaresma).

Um homem nascido cego, tão pobre que só a si próprio possui. E Jesus detém-se precisamente por ele. Chega a primeira pergunta: porquê cego? Quem pecou? Ele ou os seus pais? Jesus afasta-nos imediatamente da ideia que o pecado seja a explicação do mal, a chave-mestra da religião.

A Bíblia não dá respostas ao porquê do mal inocente, em vão se procura. Jesus também não o explica. Faz outra coisa: Ele liberta do mal, comove-se aproxima-se, toca, abraça, faz erguer. A dor, mais que explicação, quer partilha. Jesus unge uma pétala de barro sobre as pálpebras do cego, manda-o à piscina de Siloé, regressa quem nos vê: homem finalmente dado à luz.

Na nossa língua, parturir também se diz “dar à luz”. Jesus dá à luz, parture vida plena. A espinha dorsal da narrativa é uma segunda pergunta, urgente, sete vezes repetida: como é que se te abriram os olhos? Todos querem saber “como” se faz, “como” se toma posse do segredo dos olhos novos e melhores, todos sentem ter olhos inacabados.

Sabemo-lo: basta uma lágrima e deixo de ver. Quantos olhos agudíssimos vi extinguirem-se: diziam que viam bem e bastou uma lágrima, o arranhão de uma dor, e enevoaram-se, os horizontes e as estradas que desaparecem.

Diante da alegria do homem “dado à luz”, que vê pela primeira vez o sol, o azul do céu e olhos da sua mãe, até as árvores, se pudessem, dançariam; até os rios bateriam palmas, diz o Salmo. Os fariseus, não. Não veem o cego iluminado, mas apenas um artigo violado: nada de milagres ao sábado. Hoje não se salvam vidas. É o repouso santo. Tendes seis dias para te fazeres curar, não ao sábado. Ao sábado Deus quer-nos cegos!

Que religião é aquela que não olha ao bem do ser humano, mas que fala somente de si mesma, para si mesma? Uma fé que não se interessa pelo humano não merecesse que a ela nos dediquemos (cf. Bonhoeffer).

Há uma infinita tristeza nesta página. Os fariseus põem Deus contra o ser humano, e é o pior drama que pode acontecer à nossa fé, a todas as fés: mostram que é possível ser-se crente sem se ser bom; crentes e duros de coração. É fácil e é mortal.

Ao contrário, a glória de Deus não é o sábado observado, mas um mendigo que se ergue, que torna a vida plena, o ser humano finalmente promovido a ser humano (cf. P. Mazzolari). E o seu olhar que ilumina o mundo dá alegria a Deus mais do que todos os mandamentos observados.

Como ele, tornemos a ter olhos de crianças, de filhos amados: olhos abertos, olhos maravilhados, olhos gratos e confiantes, olhos esperançados, olhos que riem ou que choram com quem está diante deles; olhos, em suma, contagiados de Céu. Senhor, põe luz nos meus pensamentos, luz nas minhas palavras, luz no meu coração.

Ermes Ronchi | In SNPC | Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 16.03.2023


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OPINIÃO COMISSÃO INDEPENDENTE PARA O ESTUDO DOS ABUSOS SEXUAIS NA IGREJA

Abusos sexuais e sacramento da penitência

P. José Frazão Correia sj | 1 Março 2023 | in Ponto SJ

O sofrimento desacompanhado de tantas vítimas, crianças à altura dos abusos, veio, por fim, à palavra. Testemunhos vivos, bem mais duros do que quaisquer números e estatísticas, abriram os sigilos de um passado submerso, encoberto por múltiplos silêncios, de práticas irresponsáveis, de procedimentos negligentes, talvez cúmplices. Durante muito tempo, quando outras Igrejas já se confrontavam com a dura realidade, quisemos crer que não nos dizia respeito ou, simplesmente, não quisemos saber. Por má avaliação, por incapacidade ou por dolo, fizemos de conta, silenciámos a realidade, diminuímos-lhe o alcance. A pressão da opinião pública – incomode-nos mais ou menos, há que estar gratos ao jornalismo – teve como fruto a crescente tomada de consciência de que o que estava em jogo era muito grave e que se impunha dar voz ao silêncio e lugar à justiça. Sobretudo, forçou a que se lidasse com a realidade, não, em primeiro lugar, a partir do prestígio da instituição ou da falta moral dos agressores, mas das vítimas reais. Por isso, se passou a assumir como responsabilidade primeira atender à ofensa, ao dano e ao sofrimento que lhes foram causados. Por isso se tem vindo a afirmar a promoção de uma cultura de proteção e de cuidado e se criaram condições de confiança para escutar memórias pessoais desatendidas ou silenciadas e se puseram os meios para investigar arquivos coletivos. Por isso se continua a apelar à defesa do direito e à aplicação da justiça e se enfatiza que os pedidos de perdão têm de ser acompanhados por atos de reparação. Para quem é crente, pela voz sofrida de quem foi abusado, que viu ofendida a confiança e que reclama por justiça – os “pequeninos” ofendidos e escandalizados são uma categoria evangélica – ressoa a voz do próprio Deus que, para curar, põe o dedo na ferida.

«Ondes estás?», é a primeira pergunta de Deus na Bíblia, dirigida a Adão, à qual se segue uma outra, feita a Eva, «que fizeste?» (Gn 3,9.13). Um capítulo depois, a Caim, com as mãos já manchadas com o sangue de seu irmão, pergunta: «onde está teu irmão Abel?». E, de novo, «que fizeste?» (Gn 4,9-10). Estas são as perguntas das origens. São, por isso, as perguntas de sempre. A elas, a Igreja, o corpo todo e cada um dos seus membros, tem também, hoje, de responder. Nem todos são culpados, mas há responsabilidade coletiva por um legado comum a partilhar. Vale para o bem, vale também para o mal. A resposta que der dirá que Igreja é. Não responder, autojustificar-se, atenuar, repetir frases feitas, desejar que passe o mais rápido possível… também são respostas. No Evangelho de Lucas temos a resposta justa, a de Maria, mãe de Jesus: “Eis-me aqui” (cf. Lc. 1,38). É do lugar onde se está, seja ele qual for, que se parte. É deste húmus que nos elevamos para escutar dores e acusações, para tomar a palavra de forma franca, para agir responsavelmente.

Na constelação de questões que a matéria dos abusos levanta, que será incontornável atravessar para que a Igreja diga, hoje, “onde está/quem é” (cultura e estruturas organizacionais, clericalismo e exercício de poder, liderança e carisma, moral sexual e celibato, pecado e delito, perdão e reparação, entre tantos outros), destaco aqui o sacramento da penitência.

Não podemos deixar de nos questionar se uma visão distorcida deste sacramento e da sua prática também não terá sido testemunha cúmplice de abusos e desresponsabilizadora de consequências. Não me refiro, de todo, ao segredo de confissão. Refiro-me, sim, a uma possível patologia do sacramento que se manifesta quando permite que a vítima de um penitente que confessa o seu abuso seja, no fundo, tomada como cúmplice de um pecado que é identificado essencialmente como ofensa à castidade ou eventual quebra da regra do celibato. Tal pecado diria simplesmente respeito à relação do penitente com Deus, sem implicar estruturalmente, quer o dever de enfrentar pessoalmente a vítima e de reparar as feridas provocadas em quem foi violentado, quer a assunção de responsabilidade perante a lei civil e criminal. O registo espiritualizante, centrado na salvação, parece negligenciar facilmente a implicação e a cura do tecido “corpóreo” da vida pessoal e coletiva. Pergunto-me também se pedidos de perdão públicos por parte de responsáveis eclesiais, quando não são acompanhados por atos reais de reparação, segundo as necessidades das pessoas ofendidas, não serão, de algum modo, reflexo no espaço público desta mesma distorção do sacramento no foro privado. No fundo, bastaria confessar o pecado e ser absolvido da culpa para que o processo penitencial estivesse completo, quer no âmbito individual do sacramento, quer na relação com a opinião pública.

A teologia deste sacramento é, porém, mais complexa e a sua prática tem um alcance existencial bem mais fundo. Precisaríamos, por isso, de retomar a teologia e de rever as práticas para recuperar o que é específico deste sacramento, que não é o perdão (este elemento partilha-o com o batismo, o crisma e a eucaristia, sacramentos da iniciação cristã), mas, sim, a iniciação do cristão perdoado à penitência que permita reparar as feridas causadas pelo pecado no corpo e no espírito. Tal exercício reveste especial importância, para que, no que diz respeito à vida cristã dos batizados, o sacramento da penitência – é este o seu nome – não se apresente como solução fácil, quase mágica, para feridas humanas profundas. De facto, trata-se, simultaneamente, de um sacramento de crise grave na vida de um cristão, causada pelo mau uso da liberdade, e de um sacramento de cura, que implica o compromisso da liberdade. É bem diferente entender o pecado grave como mancha ou como ferida, já que a mancha se lava rapidamente e com relativa facilidade, enquanto a ferida se cura com tempo, por meio de operações distintas e progressivas. Em segundo lugar, recuperar a íntima relação entre a absolvição da culpa e o caminho penitencial de reparação a que abre e que implica, evitará que a perceção externa que se possa ter desta prática não corresponda a um expediente de desresponsabilização, à margem da administração da justiça civil, já que a absolvição do pecado pareceria apagar, sem mais, a responsabilidade criminal e pareceria não comprometer estruturalmente com o dever de reparação a acontecer no tempo. Garantiria boa consciência individual e institucional, mas sem eficácia real e sem assunção de responsabilidades perante pessoas e a comunidade.

O sacramento, sabemo-lo, pressupõe, por parte do penitente, a contrição honesta do coração e a palavra franca e transparente que nomeia o pecado, para que haja uma palavra de autoridade do ministro ordenado que absolve da culpa. É neste registo de contrição-confissão-absolvição que, hoje, se tende a apresentar e a viver o sacramento. De resto, é assim que o Código de Direito Canónico o apresenta, como sequência de confissão e de absolvição (Can. 960). Porém, este sacramento pressupõe e implica mais, porque o que está em jogo não é simplesmente a culpa pessoal que é absolvida, mas também a pena que permanece, ou seja, as consequências negativas do pecado, quer na vida concreta do penitente (no modo como pensa, sente, age, se relaciona, vive…), quer em terceiros, quer no conjunto da comunidade eclesial, da sociedade e até mesmo da criação. Se há uma pena interior, uma dor a integrar, também há danos causados na vida concreta do próprio e de outros que caberá reparar. Ora, essas consequências, a que a linguagem sacramental dá o nome de pena temporal, precisam de ser assumidas e trabalhadas no tempo. A pena pede reparação e é para ela que remete a penitência recebida do confessor.

A prática comum, porém, acaba por reduzir a penitência a uma prática espiritualizada, quase irrelevante na estrutura ritual do sacramento, que se realiza habitualmente na forma de orações rápidas, sem especial alcance existencial. Porém, a penitência, que decorre do pecado perdoado e da absolvição da culpa, deveria traduzir-se num itinerário espiritual significativo, existencialmente relevante, exigente e com duração no tempo. Não se deve confundir, no entanto, com um qualquer ato jurídico que impõe um castigo que compense o dano causado. Diz, sim, respeito à distância que separa a contrição e o desejo de reorientar a vida como fruto do perdão recebido da experiência da força sedutora e ativa do pecado enraizado e das respetivas consequências no próprio, nos outros e na realidade. Por isto mesmo, no caso concreto dos abusos, temos consciência de que, à partida, não bastará o sacramento como lugar de absolvição da culpa, se não implicar o envolvimento na reparação da pena. Esta poderá implicar outras instâncias e competências de outra natureza, como a psicológica ou a psiquiátrica, como poderá implicar a assunção de responsabilidades perante a lei civil. A essa penitência poderia levar a absolvição da culpa. Seria insuficiente, por isso, se a absolvição não iniciasse um percurso penitencial e se este não implicasse múltiplas reparações. Tal como a aplicação da justiça não esgota o caminho existencial e espiritual do perdão, o perdão sacramental não dispensa da reparação que, em alguns casos, poderá implicar assumir livremente responsabilidades perante as vítimas e perante a lei.

Nota: Refletindo sobre o tema específicos das indulgências, pude desenvolver um pouco mais a distinção entre culpa e pena temporal, no quadro do sacramento da penitência. Poderá ser consultado aqui.


Vejo um Ramo de Amendoeira

A caminho de Jerusalém

ESPECIAL QUARTA-FEIRA DE CINZAS

P. Miguel Gonçalves Ferreira, sj | 22 Fevereiro 2023 | in Ponto SJ

A vida traz consigo momentos de mudança, cruzamentos que definem novos caminhos ou novas atitudes. O Evangelho de S. Lucas apresenta-nos uma dessas situações na vida de Cristo: consciente que a sua missão estava a chegar a um ponto crucial, “Jesus dirigiu-se resolutamente para Jerusalém” (Lucas 9,51). Em boa verdade, esta tradução esconde que a resolução se mostrava num rosto fixo e determinado… O Senhor, assumindo tudo o que tinha vivido até esse momento e os tempos que se aproximavam, entendeu que se devia encaminhar para Jerusalém, a cidade santa, morada de Deus. O Filho do Homem sabia que essa era também a sua casa. Contudo, a existência do “Santo dos Santos” no Templo foi trazendo à cidade de Jerusalém uma atitude coletiva de auto-deslumbramento, em relação à qual Jesus mostra pouca complacência: “virá o dia em que, de tudo isto que estais a contemplar, não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído”. A afirmação tão clara do fim de um tempo – e do Templo – põe em crise os discípulos, que o interrogam sobre o “quando” e o “como”. E Jesus responde-lhes: “tende cuidado em não vos deixardes enganar, pois muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo.’ Não os sigais. (…) Há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em vários lugares, fomes e epidemias; haverá fenómenos apavorantes e grandes sinais no céu”. Jesus fala-lhes ainda de perseguições, polémicas e julgamentos, prometendo não faltar com o seu Espírito e “palavras de sabedoria”. Por fim assegura-lhes: “pela vossa constância é que sereis salvos” (Lucas 21, 5-19).

Ao iniciar a Quaresma de 2023, estas páginas do Evangelho parecem escritas para o nosso tempo: uma guerra primária na Ucrânia sem fim à vista, um terramoto devastador na Turquia e Síria, um relatório sobre abusos sexuais que envergonha, compromete e julga a Igreja em Portugal. Se a isto somarmos as preocupações ambientais e os efeitos da pandemia, é caso para perguntar “que tempos são estes?” e “como os podemos viver?”. É comportável deixar-nos tocar pelo sofrimento de tantos inocentes na Ucrânia ou no Próximo Oriente? Mais perto de nós, é possível suportar e superar a realidade tão chocante e complexa dos abusos sexuais (de poder e consciência…) por parte de membros da Igreja? Como respeitar e comungar com a dor das vítimas, sem que isso desencadeie espirais racionalizantes ou depressivas? O que significa escolher a “constância” para atravessar os desafios deste tempo?

Na Jerusalém para onde Jesus se encaminha, a virtude, bondade, justiça e fidelidade de Deus – que Ele encarna – cruzam-se com o pecado, maldade, injustiça e infidelidade humanas. Cruzam-se na Cruz. A porta de um futuro ressuscitado abriu-se porque Jesus viveu tudo isso amando, perdoando e sem abandonar a confiança naquele a quem chamava “Pai”, mesmo quando se sentiu abandonado. Ele é o justo inocente que sofre, o “cordeiro trespassado” diante dos nossos olhos, ainda que demasiadas vezes desviemos dele o rosto. Ele não passou uma “piedosa esponja” sobre a violência, a mentira ou indiferença, mas superou-as pela sua paz, verdade e compaixão. Identificou-se com os últimos para os resgatar – de igual para igual – e para nos mostrar até onde vai o seu Amor. Revelou assim – em Jerusalém – o caminho de uma santidade pascal e um dos lugares existenciais onde o encontramos certamente: os mais pobres e indefesos. Os que seguem a Cristo são chamados a cuidar deles, e por isso precisam de pedir sincero e consequente perdão quando acontece o contrário.

Na mensagem para a Quaresma deste ano, o Papa Francisco sugere-nos que o caminho para a Páscoa seja percorrido em atitude sinodal, ou seja, uns com os outros. Consciente da dificuldade do “trilho” que sobe para o monte santo, o Papa deixa duas pistas: a disponibilidade para escutar e a superação dos medos que paralisam. Em tempos de mudança, mudemos também a atitude, escutando de novo a Palavra de Deus e escutando-nos uns aos outros com o coração aberto. Em tempos de mudança levantemo-nos confiantes, não confundindo a árvore com a floresta e lembrando que a vida floresce até nas condições mais agrestes, pois o Amor é mais forte que a morte. Não é possível fazer “todo o bem do mundo”, nem ir ao encontro de todas as vítimas, mas existe certamente um bem ao meu alcance, o próximo de quem posso cuidar. A constância nesses gestos e atitudes é o caminho de um futuro salvo e ressuscitado por Deus. Quero dirigir-me resolutamente para Jerusalém?


Vejo um Ramo de Amendoeira

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA A QUARESMA DE 2023

Ascese quaresmal, itinerário sinodal

Queridos irmãos e irmãs!

Os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas coincidem em narrar o episódio da Transfiguração de Jesus. Neste acontecimento, vemos a resposta do Senhor a uma falta de compreensão manifestada pelos seus discípulos. De facto, pouco antes, registara-se uma verdadeira divergência entre o Mestre e Simão Pedro; este começara professando a sua fé em Jesus como Cristo, o Filho de Deus, mas em seguida rejeitara o seu anúncio da paixão e da cruz. E Jesus censurara-o asperamente: «Afasta-te, satanás! Tu és para Mim um estorvo, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens» (Mt 16, 23). Por isso, «seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e levou-os, só a eles, a um alto monte» (Mt 17, 1).

O evangelho da Transfiguração é proclamado, cada ano, no II Domingo da Quaresma. Realmente, neste tempo litúrgico, o Senhor toma-nos consigo e conduz-nos à parte. Embora os nossos compromissos ordinários nos peçam para permanecer nos lugares habituais, transcorrendo uma vida quotidiana frequentemente repetitiva e por vezes enfadonha, na Quaresma somos convidados a subir «a um alto monte» juntamente com Jesus, para viver com o Povo santo de Deus uma particular experiência de ascese.

A ascese quaresmal é um empenho, sempre animado pela graça, no sentido de superar as nossas faltas de fé e as resistências em seguir Jesus pelo caminho da cruz. Aquilo precisamente de que Pedro e os outros discípulos tinham necessidade. Para aprofundar o nosso conhecimento do Mestre, para compreender e acolher profundamente o mistério da salvação divina, realizada no dom total de si mesmo por amor, é preciso deixar-se conduzir por Ele à parte e ao alto, rompendo com a mediocridade e as vaidades. É preciso pôr-se a caminho, um caminho em subida, que requer esforço, sacrifício e concentração, como uma excursão na montanha. Estes requisitos são importantes também para o caminho sinodal, que nos comprometemos, como Igreja, a realizar. Far-nos-á bem refletir sobre esta relação que existe entre a ascese quaresmal e a experiência sinodal.

Para o «retiro» no Monte Tabor, Jesus leva consigo três discípulos, escolhidos para serem testemunhas dum acontecimento singular; Ele deseja que aquela experiência de graça não seja vivida solitariamente, mas de forma compartilhada, como é aliás toda a nossa vida de fé. A Jesus, seguimo-Lo juntos; e juntos, como Igreja peregrina no tempo, vivemos o Ano Litúrgico e, nele, a Quaresma, caminhando com aqueles que o Senhor colocou ao nosso lado como companheiros de viagem. À semelhança da subida de Jesus e dos discípulos ao Monte Tabor, podemos dizer que o nosso caminho quaresmal é «sinodal», porque o percorremos juntos pelo mesmo caminho, discípulos do único Mestre. Mais ainda, sabemos que Ele próprio é o Caminho e, por conseguinte, tanto no itinerário litúrgico como no do Sínodo, a Igreja não faz outra coisa senão entrar cada vez mais profunda e plenamente no mistério de Cristo Salvador.

E chegamos ao momento culminante. O Evangelho narra que Jesus «Se transfigurou diante deles: o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz» (Mt 17, 2). Aqui aparece o «cimo», a meta do caminho. No final da subida e enquanto estão no alto do monte com Jesus, os três discípulos recebem a graça de O verem na sua glória, resplandecente de luz sobrenatural, que não vinha de fora, mas irradiava d’Ele mesmo. A beleza divina desta visão mostrou-se incomparavelmente superior a qualquer cansaço que os discípulos pudessem ter sentido quando subiam ao Tabor. Como toda a esforçada excursão de montanha, ao subir, é preciso manter os olhos bem fixos na vereda; mas o panorama que se deslumbra no final surpreende e compensa pela sua maravilha. Com frequência também o processo sinodal se apresenta árduo e por vezes podemos até desanimar; mas aquilo que nos espera no final é algo, sem dúvida, maravilhoso e surpreendente, que nos ajudará a compreender melhor a vontade de Deus e a nossa missão ao serviço do seu Reino.

A experiência dos discípulos no monte Tabor torna-se ainda mais enriquecedora quando, ao lado de Jesus transfigurado, aparecem Moisés e Elias, que personificam respetivamente a Lei e os Profetas (cf. Mt 17, 3). A novidade de Cristo é cumprimento da antiga Aliança e das promessas; é inseparável da história de Deus com o seu povo, e revela o seu sentido profundo. De forma análoga, o caminho sinodal está radicado na tradição da Igreja e, ao mesmo tempo, aberto para a novidade. A tradição é fonte de inspiração para procurar estradas novas, evitando as contrapostas tentações do imobilismo e da experimentação improvisada.

O caminho ascético quaresmal e, de modo semelhante, o sinodal, têm como meta uma transfiguração, pessoal e eclesial. Uma transformação que, em ambos os casos, encontra o seu modelo na de Jesus e realiza-se pela graça do seu mistério pascal. Para que, neste ano, se possa realizar em nós tal transfiguração, quero propor duas «veredas» que é necessário percorrer para subir juntamente com Jesus e chegar com Ele à meta.

A primeira diz respeito à ordem que Deus Pai dirige aos discípulos no Tabor, enquanto estão a contemplar Jesus transfigurado. A voz da nuvem diz: «Escutai-O» (Mt 17, 5). Assim a primeira indicação é muito clara: escutar Jesus. A Quaresma é tempo de graça na medida em que nos pusermos à escuta d’Ele, que nos fala. E como nos fala Ele? Antes de mais nada na Palavra de Deus, que a Igreja nos oferece na Liturgia: não a deixemos cair em saco roto; se não podermos participar sempre na Missa, ao menos leiamos as Leituras bíblicas de cada dia valendo-nos até da ajuda da internet. Além da Sagrada Escritura, o Senhor fala-nos nos irmãos, sobretudo nos rostos e vicissitudes daqueles que precisam de ajuda. Mas quero acrescentar ainda outro aspeto, muito importante no processo sinodal: a escuta de Cristo passa também através da escuta dos irmãos e irmãs na Igreja; nalgumas fases, esta escuta recíproca é o objetivo principal, mas permanece sempre indispensável no método e estilo duma Igreja sinodal.

Ao ouvir a voz do Pai, «os discípulos caíram com a face por terra, muito assustados. Aproximando-Se deles, Jesus tocou-lhes dizendo: “Levantai-vos e não tenhais medo”. Erguendo os olhos, os discípulos apenas viram Jesus e mais ninguém» (Mt 17, 6-8). E aqui temos a segunda indicação para esta Quaresma: não refugiar-se numa religiosidade feita de acontecimentos extraordinários, de sugestivas experiências, levados pelo medo de encarar a realidade com as suas fadigas diárias, as suas durezas e contradições. A luz que Jesus mostra aos seus discípulos é uma antecipação da glória pascal, e é rumo a esta que se torna necessário caminhar seguindo «apenas Jesus e mais ninguém». A Quaresma orienta-se para a Páscoa: o «retiro» não é um fim em si mesmo, mas prepara-nos para viver – com fé, esperança e amor – a paixão e a cruz, a fim de chegarmos à ressurreição. Também o percurso sinodal não nos deve iludir quanto ao termo de chegada, que não é quando Deus nos dá a graça de algumas experiências fortes de comunhão, pois aí o Senho também nos repete: «Levantai-vos e não tenhais medo». Desçamos à planície e que a graça experimentada nos sustente para sermos artesãos de sinodalidade na vida ordinária das nossas comunidades.

Queridos irmãos e irmãs, que o Espírito Santo nos anime nesta Quaresma na subida com Jesus, para fazermos experiência do seu esplendor divino e assim, fortalecidos na fé, prosseguirmos o caminho com Ele, glória do seu povo e luz das nações.

Roma – São João de Latrão, na Festa da Conversão de São Paulo, 25 de janeiro de 2023.

FRANCISCO

(O texto completo da “Introdução espiritual” de Tomas Halik encontra-se disponível em espanhol, italiano, francês e inglês.)


Vejo um Ramo de Amendoeira

Assembleia continental do Sínodo

Tomáš Halík: “A Igreja precisa de aliados, se souber abordá-los sem arrogância”

Manuel Pinto | 6 Fev 2023 | in 7 Margens

Se a Igreja quer contribuir para a transformação do mundo, tem de se transformar a si mesma de modo permanente, afirmou o teólogo e filósofo checo Tomáš Halík, numa “introdução espiritual” aos trabalhos da assembleia continental europeia do Sínodo católico sobre a Sinodalidade, que decorre durante esta semana em Praga, na República Checa.

A reforma de que a Igreja Católica necessita passa necessariamente, na visão de Halík, pela mudança, por exemplo, de “certas estruturas institucionais”. Mas, alerta ele, “para que dê bons frutos, essa reforma deve ser precedida e acompanhada de uma revitalização do sistema circulatório do corpo da Igreja, isto é, da espiritualidade”. E isto porque “não é possível concentrar-se unicamente nos diferentes órgãos e negligenciar o cuidado com aquilo que os liga e lhes insufla o Espírito e a vida”.

De entre o conjunto das intervenções da mesa que presidiu à abertura dos trabalhos – constituída apenas por homens e todos membros do clero – a alocução do teólogo checo constituiu um sólido e inspirador ponto de arranque para os trabalhos. Grande parte da manhã do primeiro dia foi ocupada pela apresentação dos contributos de cada uma das conferências episcopais da Europa. No programa couberam apenas 13, sendo as restantes – entre as quais a de Portugal – apresentadas esta terça-feira, 7. Mas já foi possível verificar a diversidade de situações, de preocupações e de prioridades.

Halík preocupou-se em refletir os problemas e desafios da relação da Igreja com o mundo em que se insere e de que é parte, tomando como referência, naturalmente, no quadro europeu, aquilo que designou por “fragmento da experiência histórica do cristianismo europeu, reconhecidamente pequeno, mas importante”, inserido “no colorido mosaico do cristianismo mundial do futuro”.

Contextualizando a sua comunicação, referiu-se aos finais dos anos 60, em particular à revolução cultural de 1968 como “o apogeu e o fim da era da modernidade” e a 1969, ano da chegada dos humanos à lua e da invenção do microprocessador e começo da era da Internet, como “o início simbólico de uma nova era pós-moderna”. A Igreja, que fez o seu aggiornamento nessa mesma década, chegou tarde à modernidade, precisamente quando ela estava a chegar ao fim. Não espanta, assim, que, como Halík, caracterizou, para o “homem moderno”, a Igreja seja “uma esposa muito velha e muito feia”.

Aquele intelectual referiu-se também ao “paradoxo da globalização” que caraterizaria a pós-modernidade: “Por um lado, a interligação quase universal, por outro, a pluralidade radical.”

“O lado negro da globalização – prosseguiu – está a manifestar-se hoje. Pense-se na propagação global da violência, desde os ataques terroristas aos Estados Unidos em 2001 até ao terrorismo de estado do imperialismo russo e ao atual genocídio russo na Ucrânia; pandemias de doenças infeciosas; a destruição do ambiente natural; à destruição do clima moral através do populismo, fake news, nacionalismo, radicalismo político e fundamentalismo religioso.”

“Um momento decisivo”

Na intervenção, o orador convocou a figura do jesuíta Teilhard de Chardin (1881-1955), chamando-lhe “um dos primeiros profetas da mundialização”, para quem “a única força que une sem destruir” não é o progresso ou o desenvolvimento, mas o amor, tal como surge testemunhado nos evangelhos.

Halík acredita que este é, assim, “um momento decisivo” que estamos a viver e que “a viragem do cristianismo para a sinodalidade, a transformação da Igreja numa vibrante comunidade de peregrinos, pode ter impacto sobre o destino de toda a família humana”.

Mas, interroga o teólogo checo, será que o cristianismo europeu tem hoje “a coragem e a energia espiritual para evitar a ameaça de um ‘choque de civilizações’, transformando o processo de globalização num processo de comunicação, partilha e enriquecimento mútuo, numa civitas ecumenica, uma escola de amor e fraternidade universal?”

Além das reformas estruturais e da revitalização da espiritualidade, a Igreja deve recusar aceitar “apenas quem é plenamente observador e comprometido”, como ocorre nas seitas, e cultivar espaços de encontro e busca de espiritualidade com quem procura sentido, como de resto defendeu o Papa Bento XVI, com a sua proposta do “pátio dos gentios”.

Para ser “sinal da unidade de toda a humanidade em Cristo”, a Igreja deve “resistir à tentação de considerar qualquer forma de Igreja, qualquer estado da sociedade, qualquer estado de conhecimento religioso, filosófico ou científico, como final e perfeito”, considera Tomáš Halík.

Quando a Igreja Católica se vê, como tantas vezes sucedeu na história do cristianismo, como uma ecclesia perfeita e triunfante, cai facilmente no triunfalismo, que é “uma perigosa forma de idolatria”, acrescenta o teólogo. “Estas trágicas experiências – reflete – conduzem-nos hoje à firme convicção de que a missão da Igreja é de ser uma fonte de inspiração e transformação espiritual, no total respeito pela liberdade de consciência de cada pessoa humana e na rejeição de qualquer uso da força, de qualquer forma de manipulação”.

A exemplo do que ocorre com o poder político, avisa Halík, “a influência moral e a autoridade espiritual podem ser também objeto de abusos, como nos mostraram os escândalos de abuso sexual, psicológico, económico e espiritual na Igreja, especialmente o abuso e a exploração dos mais fracos e vulneráveis. Por isso, a missão da Igreja no mundo de hoje “não pode ser uma reconquista, expressão de nostalgia de um passado perdido, nem proselitismo ou manipulação”.

No caminhar juntos que carateriza a sinodalidade, a Igreja “precisa urgentemente de aliados”, com quem partilha o caminho comum. Mas, para tal, não deve abordar os outros “com o orgulho e arrogância de quem possui a verdade”. É que, afirma, “a verdade é um livro que nenhum de nós leu até o fim. Não somos os donos da verdade, mas amantes da verdade e amantes d’Aquele que pode dizer: Eu sou a Verdade”.

Neste seguimento, o teólogo propõe a noção de “diaconia política”, que “cria uma cultura de proximidade e solidariedade, de empatia e hospitalidade, de respeito mútuo. Constrói pontes entre pessoas de diferentes povos, culturas e religiões”.

(O texto completo da “Introdução espiritual” de Tomas Halik encontra-se disponível em espanhol, italiano, francês e inglês.)


Vejo um Ramo de Amendoeira

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
À REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO E SUDÃO DO SUL
(Peregrinação Ecumênica de Paz no Sudão do Sul)
[31 de janeiro - 5 de fevereiro de 2023]

ENCONTRO DE ORAÇÃO COM OS SACERDOTES,
OS DIÁCONOS, OS CONSAGRADOS, AS CONSAGRADAS E OS SEMINARISTAS

DISCURSO DO SANTO PADRE

Catedral de Nossa Senhora do Congo (Kinshasa)
Quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Queridos irmãos sacerdotes, diáconos e seminaristas,
Amados consagrados e consagradas, boa tarde e uma santa festa!

Estou feliz por me encontrar convosco precisamente hoje, na festa da Apresentação do Senhor, dia em que rezamos de modo especial pela vida consagrada. Todos nós, como Simeão, esperamos a luz do Senhor para iluminar as trevas da nossa vida; e, mais ainda, todos desejamos viver a mesma experiência que ele teve no Templo de Jerusalém: tomar Jesus nos braços. Tomá-Lo nos braços para O podermos ter diante dos olhos e sobre o coração. Assim, colocando Jesus no centro, muda a perspetiva da nossa vida e, mesmo no meio das dificuldades e canseiras, sentimo-nos envolvidos pela sua luz, consolados pelo seu Espírito, encorajados pela sua Palavra, sustentados pelo seu amor.

Digo isto pensando nas palavras de boas-vindas pronunciadas pelo Cardeal Ambongo, que agradeço; falou de «enormes desafios» a enfrentar para viver o compromisso sacerdotal e religioso nesta terra, marcada por «condições difíceis e muitas vezes perigosas», terra de tanto sofrimento. E contudo, como recordava, há também tanta alegria com o serviço ao Evangelho e são numerosas as vocações ao sacerdócio e à vida consagrada. Aqui vemos a abundância da graça de Deus, que opera precisamente na fraqueza (cf. 2 Cor 12, 9) e vos torna capazes, juntamente com os fiéis leigos, de gerar esperança nas situações frequentemente dolorosas do vosso povo.

A certeza que nos acompanha, mesmo nas dificuldades, é-nos dada pela fidelidade de Deus. Diz Ele mediante o profeta Isaías: «Vou abrir um caminho no deserto e fazer correr rios na estepe» (43, 19). Pensei propor-vos algumas reflexões justamente a partir destas palavras de Isaías: Deus abre caminhos nos nossos desertos e nós, ministros ordenados e pessoas consagradas, somos chamados a ser sinal desta promessa e realizá-la na história do Povo santo de Deus. Mas, em concreto, a que é que somos chamados? A servir o povo como testemunhas do amor de Deus. Isaías ajuda-nos a compreender como fazê-lo.

Pela boca do profeta, o Senhor vem ter com o seu povo num momento dramático, quando os israelitas foram deportados para Babilónia e reduzidos à escravidão. Movido pela compaixão, Deus quer consolá-los. De facto, esta parte da obra de Isaías é conhecida como o «Livro da Consolação», porque o Senhor dirige ao seu povo palavras de esperança e promessas de salvação. Começa por recordar o vínculo de amor que O une ao seu povo: «Nada temas, porque Eu te resgatei, e te chamei pelo teu nome; tu és Meu. Se tiveres de atravessar as águas, estarei contigo, e os rios não te submergirão. Se caminhares pelo fogo, não te queimarás, e as chamas não te consumirão» (43, 1-2). Assim o Senhor revela-Se como Deus da compaixão e garante que nunca nos deixará sozinhos, que estará sempre ao nosso lado como refúgio e força nas dificuldades. Deus é compassivo. Os três nomes de Deus, os três traços típicos de Deus são misericórdia, compaixão e ternura. Pois tudo isto faz a proximidade de Deus: um Deus próximo, compassivo e terno.

Queridos sacerdotes e diáconos, consagradas e consagrados, seminaristas: por vosso intermédio, também hoje o Senhor quer ungir o seu povo com o óleo da consolação e da esperança. Sois chamados a fazer-vos eco desta promessa de Deus, a recordar que Ele nos plasmou e a Ele pertencemos, a animar o caminho da comunidade e a acompanhá-la na fé ao encontro d’Aquele que já caminha ao nosso lado. Deus não permite que as águas nos submerjam, nem que o fogo nos queime. Sintamo-nos portadores deste anúncio no meio das tribulações do povo. Isto é ser servidores do povo: padres, irmãs, missionários que experimentaram a alegria do encontro libertador com Jesus e oferecem-na aos outros. Lembremo-nos disto: o sacerdócio e a vida consagrada tornam-se áridos, se os vivemos para «nos servirmos» do povo em vez de «servi-lo». Não se trata de uma profissão para ganhar ou ter uma posição social, nem para colocar em situação confortável a família de origem, mas é a missão de ser sinais da presença de Cristo, do seu amor incondicional, do perdão com que nos quer reconciliar, da compaixão com que deseja cuidar dos pobres. Fomos chamados para oferecer a vida pelos irmãos e irmãs, levando-lhes Jesus, o único que sara as feridas do coração.

Para vivermos assim a nossa vocação, nunca faltarão desafios a enfrentar, nem tentações a vencer. Quero deter-me brevemente nestas três: a mediocridade espiritual, a comodidade mundana, a superficialidade.

Antes de mais nada, vencer a mediocridade espiritual. E como? A Apresentação do Senhor, designada no Oriente cristão como «festa do encontro», recorda-nos a prioridade da nossa vida: o encontro com o Senhor, especialmente na oração pessoal, porque a relação com Ele é o fundamento do nosso agir. Não esqueçamos que o segredo de tudo é a oração, porque o ministério e o apostolado não são, primariamente, obra nossa nem dependem apenas dos meios humanos. Dir-me-eis: É verdade! Mas os compromissos, as urgências pastorais, as canseiras apostólicas, o cansaço, etc. fazem-nos correr o risco de ficar sem tempo e sem energias suficientes para a oração. Quero, por isso, compartilhar alguns conselhos: em primeiro lugar, mantenhamo-nos fiéis a certos ritmos litúrgicos da oração que cadenciam o dia, desde a Missa até à Liturgia das Horas. A Celebração Eucarística diária é o coração pulsante da vida sacerdotal e religiosa. A Liturgia das Horas permite-nos rezar com a Igreja e de o fazermos de forma regular: nunca a descuidemos! E não descuremos também a Confissão: sempre precisamos de ser perdoados, para poder dar misericórdia. Outro conselho: como se sabe, não podemos limitar-nos à recitação ritual das orações, mas é preciso reservar diariamente um tempo intenso de oração, para comunicar de coração a coração com o Senhor: um momento prolongado de adoração, de meditação da Palavra, a reza do Santo Terço; um encontro íntimo com Aquele que amamos acima de todas as coisas. Além disso, quando estamos em plena atividade, podemos também recorrer à oração do coração, a breves «jaculatórias» – estas são um tesouro –, palavras de louvor, de agradecimento e de invocação que se hão de repetir ao Senhor onde quer que nos encontremos. A oração tira-nos a nós do centro, abre-nos a Deus, levanta-nos porque nos coloca nas mãos d’Ele. Cria em nós o espaço para experimentarmos a proximidade de Deus, para que a sua Palavra se torne familiar a nós e, por nosso intermédio, a todos quantos encontramos. Sem oração, não se vai longe… Por fim, para superar a mediocridade espiritual, nunca nos cansemos de invocar Nossa Senhora – é nossa Mãe – e d’Ela aprender a contemplar e seguir Jesus.

O segundo desafio é vencer a tentação da comodidade mundana, duma vida cómoda na qual seja possível organizar mais ou menos todas as coisas e continuar em frente por inércia, procurando o nosso conforto e arrastando-nos sem entusiasmo. Mas, assim, perde-se o coração da missão, que é sair do espaço do eu e encaminhar-se para os irmãos e irmãs exercendo, em nome de Deus, a arte da proximidade. Há um grande risco associado à mundanidade, especialmente num contexto de pobreza e sofrimento: aproveitar-se da função que temos para satisfazer as nossas carências e comodidades. É triste, muito triste, quando nos fechamos em nós mesmos, tornando-nos frios burocratas do espírito. Então, em vez de servir o Evangelho, preocupamo-nos em administrar as finanças e realizar qualquer negócio que nos traga vantagem. Irmãos e irmãs, isto é escandaloso, quando acontece na vida dum padre ou dum religioso, que deveria ser modelo de sobriedade e liberdade interior. Ao contrário, como é belo manter-se transparente nas intenções e livre de compromissos com o dinheiro, abraçando alegremente a pobreza evangélica e trabalhando junto dos pobres! E como é belo ser luminoso vivendo o celibato como sinal de total disponibilidade para o Reino de Deus! Não suceda que em nós se encontrem, bem enraizados, aqueles vícios que queremos extirpar nos outros e na sociedade. Por favor, vigiemos sobre a comodidade mundana.

Finalmente, o terceiro desafio é vencer a tentação da superficialidade. Se o Povo de Deus espera ser alcançado e consolado pela Palavra do Senhor, tem necessidade de padres e religiosos preparados, formados, apaixonados pelo Evangelho. Foi-nos colocado um dom nas mãos e, da nossa parte, seria presunçoso pensar que podemos viver a missão para a qual Deus nos chamou sem trabalharmos diariamente sobre nós mesmos e sem nos formarmos de forma adequada tanto na vida espiritual como na preparação teológica. As pessoas não precisam de funcionários do sagrado nem de doutores afastados do povo. Somos chamados a entrar no coração do mistério cristão, aprofundar a sua doutrina, estudar e meditar a Palavra de Deus; e, ao mesmo tempo, permanecer abertos às inquietações do nosso tempo, às questões cada vez mais complexas da nossa época, para poder compreender a vida e as exigências das pessoas, para compreender como tomá-las pela mão e acompanhá-las. Por isso, a formação do clero não é facultativa. Digo isto aos seminaristas, mas vale para todos: a formação é um caminho a percorrer sempre ao longo de toda a vida. Chama-se formação permanente: formação sempre, por toda a vida.

Os desafios de que vos falei, temos de os enfrentar se quisermos servir o povo como testemunhas do amor de Deus, porque só é eficaz o serviço se passar através do testemunho. Não esqueçais esta palavra: o testemunho. De facto, depois de pronunciar palavras de consolação, o Senhor acrescenta: «Quem dentre eles anunciou isto, trazendo aos nossos ouvidos acontecimentos antigos? (…) As minhas testemunhas sois vós» (Is 43, 9.10). Testemunhas. Para ser bons sacerdotes, diáconos, consagradas e consagrados, não bastam as palavras e as intenções: antes de tudo, é a própria vida que fala, a vida própria. Queridos irmãos e irmãs, vendo-vos, dou graças a Deus, porque sois sinais da presença de Jesus que passa pelas estradas deste país e toca a vida do povo, as feridas da sua carne. Mas continua a haver necessidade de jovens que digam «sim» ao Senhor, de outros sacerdotes e religiosos que deixem, com a própria vida, transparecer a sua beleza.

Nos vossos testemunhos, lembrastes-me como é difícil viver a missão numa terra tão rica de belezas naturais e recursos, mas ferida pela exploração, a corrupção, a violência e a injustiça. Mas falastes também da parábola do bom samaritano: é Jesus que passa ao longo das nossas estradas, especialmente através da sua Igreja, detém-Se e cuida das feridas dos oprimidos. Caríssimos, este é precisamente o ministério a que sois chamados: mostrar proximidade e consolação, como uma luz sempre acesa no meio de tanta escuridão. Aprendamos do Senhor, que está próximo, sempre. E, para ser irmãos e irmãs de todos, começai por sê-lo entre vós: testemunhas de fraternidade, nunca em guerra; testemunhas de paz, aprendendo a superar até as particularidades das culturas e das proveniências étnicas, porque, como afirmou Bento XVI aos sacerdotes africanos, «o vosso testemunho de vida pacífica, ultrapassando fronteiras tribais e raciais, pode tocar os corações» (Exort. ap. pós-sinodal Africæ munus, 108).

Como diz um provérbio, «o vento não quebra o que sabe curvar-se». A história de muitos povos deste continente foi, infelizmente, vergada e chagada por feridas e violências e, por isso, se há um desejo que sobe do coração, é não ter de o fazer mais, não mais ter de submeter-se à prepotência do mais forte, não mais dever curvar a cabeça sob o jugo da injustiça. Mas podemos acolher as palavras do provérbio principalmente em sentido positivo: há um curvar-se que não é sinónimo de fraqueza, de ser cobarde, mas de fortaleza; então significa ser flexível, superando a rigidez; significa cultivar uma humanidade dócil, que não se feche no ódio e no rancor; significa estar disponível para se deixar mudar, sem se fechar nas próprias ideias e posições. Se nos curvarmos humildemente diante de Deus, Ele faz-nos semelhantes a Si, obreiros de misericórdia. Quando permanecemos dóceis nas mãos de Deus, Ele molda-nos e faz de nós pessoas reconciliadas, que sabem abrir-se e dialogar, acolher e perdoar, lançar rios de paz nas estepes áridas da violência. Deste modo, quando soprarem impetuosos os ventos dos conflitos e das divisões, tais pessoas não podem ser quebradas, porque estão repletas do amor de Deus. Sede vós também assim: dóceis ao Deus da misericórdia, nunca quebrados pelos ventos das divisões.

Irmãos e irmãs, de coração vos agradeço pelo que sois e fazeis, agradeço pelo testemunho que dais à Igreja e ao mundo. Não desanimeis; há necessidade de vós! Sois preciosos, importantes: vo-lo digo em nome da Igreja inteira. Espero que sejais sempre canais da consolação do Senhor e testemunhas jubilosas do Evangelho, profecia de paz nas espirais da violência, discípulos do Amor prontos a cuidar das feridas dos pobres e atribulados. Muito obrigado, irmãs e irmãos! Obrigado mais uma vez pelo vosso serviço e zelo pastoral. Abençoo-vos e levo-vos no coração. E vós, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Obrigado!


Vejo um Ramo de Amendoeira

OPINIÃO FÉ CRISTÃ

Cristianismo e reencarnação: compatíveis?

P. Francisco Cortês Ferreira, sj | 25 Janeiro 2023 | in Ponto SJ

Em todas as culturas aparecidas e desaparecidas ao longo da história, a consciência humana foi sendo assombrada pelas mesmas questões fundamentais: qual é o destino do Homem? Existe uma Justiça que se realiza mais além das injustiças deste mundo? Qual é o sentido da vida? Simplificando: “o que é que andamos aqui a fazer? (e como?)”.

Ora, numa sociedade em que a facilidade de acesso à informação cresce na proporcionalidade inversa à prudência humana e à paciência no tratamento dos processos pessoais, é natural que a resposta a estas questões seja um caldo de confuso de ideias amorfas, que só satisfaz a pessoa na medida em que a resposta lhe caiba no bolso sem exigir grandes trabalhos e responsabilidades, e que se ajuste à sua vida entre os demais afazeres diários (desde que não atrapalhe a novela, o ginásio e a bola).

Assim, e como o cristianismo dá muito trabalho (toda esta questão do amor ao próximo e do perdão cansa. E da Cruz, nem se fala!), o Homem ocidental virou-se para doutrinas estrangeiras à própria cultura que lhe enchessem mais as medidas, nomeadamente no que toca à resposta sobre o seu próprio destino.

Consequência deste movimento, houve uma inundação simplista e massificada de espiritualidades e “espiritualismos” orientais no enquadramento cultural ocidental.

Termos como Zen e mindfullness tornaram-se familiares, trazendo consigo um conceito de paz bizarro, que se confunde com uma ideia de impassividade e de “não me toques fica no teu espaço”, e que serviriam para alimentar egos ocidentais que se pretendem controladores de toda a experiência humana (incluindo a sua ausência!). Assim, é no meio deste pacote orientalista, muitas vezes já afastado do espírito budista ou hinduísta, que aparece, por arrasto, uma ideia de reencarnação que soa sedutora aos ouvidos daqueles dispostos a arriscar tudo numa vida (e salvação) individualista.

Se formos justos, é possível reconhecer uma certa ideia da reencarnação no seio de certas tradições gregas antigas como o orfismo, o pitagorismo ou mesmo o platonismo. Mas como doutrina sólida e estrutural da matriz cultural ocidental não se pode dizer que tenha exercido grande influência. Esta estranheza contribuiu para que seja difícil de precisar o que se entende exatamente por reencarnação no contexto do Ocidente atual, dado que muitas das conceções associadas a esta doutrina não são mais que visões ocidentais que “recolheram” certos elementos orientais e new age (o caso de certos cristãos que acreditam numa espécie de reencarnação evolucionista). Por este motivo, vale a pena uma breve pausa de clarificação.

Em traços gerais (e redutores), segundo sistemas filosófico-religiosos como o Budismo ou o Hinduísmo, a reencarnação – a “passagem” de um corpo a outro – está enquadrada num ciclo sucessivo de reencarnações (samsara) que obedecem a uma espécie de lei metafísica cósmica – a lei do karma – que “julga” o estatuto da próxima vida, segundo o comportamento moral da vida anterior. Simplificando muito, podemos dizer que, segundo esta lei, uma vida cumulada de boas ações levaria a uma reencarnação “num nível superior”, enquanto que uma vida tendencialmente dissoluta levaria a uma reencarnação “num nível inferior” (inclusivamente numa vida animal). Além disso, e embora haja várias escolas dentro do Budismo e do Hinduísmo, (cada qual com as suas características próprias), uma das notas gerais é que a “salvação” seria justamente a libertação deste ciclo de reencarnações, já que estas não são algo desejável em si, mas uma triste fatalidade.

Ora, no Ocidente, esta conceção de salvação foi derivando, ao ponto da reencarnação passar a ser confundida com a própria salvação. Este facto talvez não seja de espantar, uma vez que vem ao encontro de certos aspetos da nossa mentalidade (e inseguranças!). Reencarnar traz, de certo modo, uma espécie de reconciliação com a má gestão que fazemos do tempo, concretamente com o flagelo do FOMO (fear of missing out), já que nos dá uma espécie de possibilidade de regresso à vida terrena para “acabar o que tínhamos que acabar” ou para “experimentar coisas novas”. Esta ideia de segunda oportunidade é especialmente atrativa numa cultura que tem dificuldades em assumir algo como definitivo, contribuindo para a diminuição da angústia que possamos sentir em relação à nossa própria finitude e à ideia terrível de ver a vida e o destino decididos de modo irredutível.

Mas tudo isto são derivações de uma questão mais fundamental: se afinal as nossas raízes judaico-cristãs são por demais evidentes – se não por convicção, pelo menos por osmose – qual será a relação possível entre o Cristianismo e a doutrina da reencarnação?

Enunciarei brevemente três pontos de reflexão como ponto de partida (outros mais poderiam ser chamados à equação), deixando o resto do caminho à consideração de cada consciência diante do seu próprio destino.

Em primeiro lugar: a reencarnação põe em causa a unidade da pessoa humana, como sujeito único e insubstituível diante de Deus. Esta doutrina, assente na ideia do ser humano como uma espécie de dualismo corpo + alma, acaba por desprezar o corpo, visto como uma simples roupagem periodicamente substituída e por isso sem valor, e reduz a alma a uma espécie de princípio que muda o seu modo de ser a cada existência, e cujo destino final parece ser a diluição em algo abstrato. Pelo contrário, para o cristianismo, a unidade e o valor insubstituível de cada pessoa devem-se ao facto de cada uma das suas dimensões ser amada e assumida por Deus (obedecendo à própria lógica da encarnação). Assim, o Homem é chamado à salvação na sua totalidade e de modo integral, e não como se tívessemos de “descascar” alguma parte de nós, deitando fora o que é menor.

Em segundo lugar: seria muito difícil enquadrar a figura de Cristo num esquema reencarnacionista. Basta imaginar o estranho que seria se a Sua encarnação não fosse mais que a reencarnação de um ser excecional, como uma espécie de avatar ou algum tipo de manifestação do divino, mas que permanece rigorosamente inscrito no ciclo de reencarnações. Isso prejudicaria o carácter único e definitivo de Cristo como mediador entre Deus e os Homens, e da Sua encarnação como grande revelação de Deus na História.

Em terceiro lugar: a doutrina da reencarnação traduz um movimento que vai do Homem em direção ao “divino” assente numa dinâmica voluntarista, que busca aproximar-se pouco a pouco da libertação suprema pelas próprias forças, numa espécie de pelagianismo cósmico que deixa pouco espaço à Graça. É a busca do Homem mais pela sua própria “pureza moral” do que pelo seu encontro com Deus, contrariando uma visão cristã que anuncia a prioridade de um Deus que busca o Homem (que nos amou primeiro) e que vai ao seu encontro para o atrair a Si.

Em jeito de conclusão, que é sempre uma janela aberta: ao contrário do modelo cíclico da reencarnação, a proposta cristã propõe-nos a ressurreição como destino último e definitivo da vida humana, convidando-nos a jogar mais perfeitamente um jogo de Amor que compreende a fragilidade das coisas e da nossa própria vida como bênção e caminho, e não como fatalidade a ultrapassar em nome de qualquer coisa que nunca será maior que a nossa relação com Deus.


Vejo um Ramo de Amendoeira

PAPA FRANCISCO

ANGELUS

Praça São Pedro
Domingo, 22 de janeiro de 2023

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje o Evangelho da Liturgia (Mt 4, 12-23) narra a chamada dos primeiros discípulos que, no lago da Galileia, deixam tudo para seguir Jesus. Alguns deles já O tinham conhecido, graças a João Batista, e Deus tinha posto neles a semente da fé (cf. Jo 1, 35-39). E eis que agora Jesus volta para os procurar onde vivem e trabalham. O Senhor procura-nos sempre; o Senhor aproxima-se sempre de nós, sempre. E desta vez dirige-lhes uma chamada direta: «Vinde!» (Mt 4, 19). E eles «imediatamente deixaram as redes e seguiram-no» (v. 20). Reflitamos sobre esta cena: é o momento do encontro decisivo com Jesus, aquele que recordarão para o resto da vida e que entra no Evangelho. A partir daí, seguem Jesus e, para o seguir, deixam.

Deixar para seguir. Com Jesus é sempre assim. Pode-se começar de alguma forma a sentir o seu fascínio, talvez graças a outros. Depois o conhecimento pode tornar-se mais pessoal e acender uma luz no coração. Torna-se algo belo para partilhar: “Sabes, aquela passagem do Evangelho comoveu-me, aquela experiência de serviço tocou-me”. Algo que toca o coração. E assim devem ter feito também os primeiros discípulos (cf. Jo 1, 40-42). Contudo mais cedo ou mais tarde chega o momento no qual é necessário deixar para o seguir (cf. Lc 11, 27-28). E há que tomar uma decisão: deixo algumas certezas e parto para uma nova aventura, ou permaneço como sou? É um momento decisivo para cada cristão, porque nisto está em questão o sentido de todo o resto. Se não encontrarmos a coragem de nos pôrmos a caminho, há o risco de permanecermos espectadores da própria existência e de viver a fé sem convicção.

Por conseguinte, estar com Jesus requer a coragem de deixar, de se pôr a caminho. O que devemos deixar? Certamente os nossos vícios, os nossos pecados, que são como âncoras que nos bloqueiam na margem e impedem de nos fazermos ao largo. Para começar a deixar, é justo que comecemos por pedir perdão: perdão pelas coisas que não eram boas: deixo aquilo e vou em frente. Mas também devemos deixar para trás o que nos impede de viver plenamente, por exemplo, medos, cálculos egoístas, garantias de permanecer em segurança vivendo sem arriscar. E também se deve renunciar ao tempo que se perde em tantas coisas inúteis. Como é belo deixar tudo isto para trás para experimentar, por exemplo, o risco fadigoso, mas gratificante do serviço, ou dedicar tempo à oração, de modo a crescer em amizade com o Senhor. Penso também numa jovem família, que deixa a vida tranquila para se abrir à imprevisível e bela aventura da maternidade e da paternidade. É um sacrifício, mas basta olhar para as crianças para compreender que foi correto deixar certos ritmos e confortos, para ter esta alegria. Penso em certas profissões, por exemplo um médico ou um agente da saúde que renunciou a tanto tempo livre para estudar e preparar-se, e agora fazem o bem dedicando muitas horas do dia e da noite, muita energia física e mental aos doentes. Penso nos trabalhadores que deixam as comodidades, que abandonam o não fazer nada a fim de levar o pão para casa. Em suma, para realizar a vida, é preciso aceitar o desafio de deixar. A isto convida Jesus cada um de nós.

E sobre isto deixo-vos algumas perguntas. Antes de tudo: lembro-me de algum “momento forte” no qual me encontrei com Jesus? Cada um de nós pense na própria história: na minha vida houve algum momento forte em que me encontrei com Jesus? E houve algo belo e significativo que aconteceu na minha vida por ter deixado para trás outras coisas menos importantes? E hoje, há alguma coisa a que Jesus me pede para renunciar? Quais são as coisas materiais, os modos de pensar, os hábitos que preciso deixar para lhe dizer deveras “sim”? Ajude-nos Maria a dizer, como ela, um sim pleno a Deus, a saber deixar algo para trás a fim de o seguir melhor. Não tenhais medo de deixar se for para seguir Jesus, sempre nos sentiremos melhor e seremos melhores.


Depois do Angelus

Prezados irmãos e irmãs!

Este terceiro domingo do Tempo Comum é dedicado de uma forma especial à Palavra de Deus. Redescubramos com admiração o facto de que Deus nos fala, particularmente através das Sagradas Escrituras. Leiamo-las, estudemo-las, meditemo-las, recitemo-las. Todos os dias leiamos um excerto da Bíblia, especialmente do Evangelho: ali Jesus fala-nos, ilumina-nos, guia-nos. E recordo-vos o que já disse noutras ocasiões: tende um pequeno Evangelho, um Evangelho de bolso, para que o leveis na vossa bolsa, sempre convosco; e quando houver um momento durante o dia, lede algo do Evangelho. É Jesus que nos acompanha. Um pequeno Evangelho de bolso, sempre connosco.

Hoje desejo formular votos de paz e de todo o bem a quantos no Extremo Oriente e em várias partes do mundo celebram o Ano Novo Lunar. Contudo, nesta ocasião jubilosa não posso deixar de expressar a minha proximidade espiritual àqueles que estão a atravessar tempos difíceis causados pela pandemia do coronavírus, na esperança de que as dificuldades atuais sejam superadas em breve. Por fim, espero que a gentileza, a sensibilidade, a solidariedade e a harmonia, que nestes dias se experimentam nas famílias tradicionalmente reunidas, possam sempre permear e caraterizar as nossas relações, familiares e sociais, para que possamos ter uma vida serena e feliz. Bom Ano!

Dirijo com pesar o meu pensamento, em particular ao Myanmar, onde a Igreja de Nossa Senhora da Assunção na aldeia de Chan Thar, um dos lugares de culto mais antigos e importantes do país, foi incendiada e destruída. Estou próximo da população civil indefesa, que em muitas cidades está submetida a duras provações. Queira Deus que termine depressa este conflito e se abra um novo tempo de perdão, de amor e de paz. Rezemos juntos a Nossa Senhora pelo Myanmar. [“Ave Maria...”]

Além disso, convido-vos a rezar para que tenham fim as ações de violência no Peru. A violência extingue a esperança de uma solução justa para os problemas. Encorajo todas as partes envolvidas a empreender o caminho do diálogo entre irmãos da mesma nação, com pleno respeito pelos direitos humanos e pelo Estado de direito. Uno-me aos Bispos peruanos para dizer: ¡No a la violencia, venga de donde venga! ¡No más muertes! Há peruanos aqui na praça!

Chegam dos Camarões sinais positivos, que dão esperança de progresso para a resolução do conflito nas regiões anglófonas. Encorajo todas as partes signatárias do Acordo a perseverarem na via do diálogo e da compreensão recíproca, pois só no encontro o futuro pode ser planeado.

Nestes dias, enquanto rezamos em particular pela plena unidade de todos os cristãos, não nos esqueçamos, por favor, de invocar a paz para a martirizada Ucrânia: o Senhor conforte e sustente aquele povo que tanto sofre! Sofre muito!

Desejo a todos bom domingo. Também aos jovens da Imaculada. E por favor não vos esqueçais de rezar por mim. Bom almoço e até à vista.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Ano novo “a ferro e fogo”

ESPECIAL 2023

P. Tiago Neto | 2 Janeiro 2023 | in Ponto SJ

“A ferro e fogo” parece-me ser uma expressão metafórica que nos ajuda a compreender o modo como a Igreja Católica será chamada a viver durante o ano de 2023. O ferro aponta para resistência, dureza, solidez, etc. O fogo, de entre os seus múltiplos sentidos, pode significar destruição, mas também purificação. Na sagrada escritura, o fogo é um dos sinais da presença renovadora do Espírito Santo que permite “ver novas todas as coisas” (cf. At 2, 1-4). Ferro e fogo quando fundidos forjam o universo do moldável, da criatividade e da reconfiguração.

É à luz desta simbologia que gostaria de abordar aqueles que a meu ver constituem os dois maiores desafios para a Igreja que caminha em Portugal: a gestão da crise dos abusos sexuais a propósito da publicação do relatório da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, prevista para fevereiro de 2023, e a projeção da Jornada Mundial da Juventude. Estes acontecimentos constituem como que pesos quase opostos de uma mesma balança, o primeiro destacando a fraqueza da instituição, o segundo exaltando-a. O que requer é um olhar espiritualmente ajustado à realidade que ajude a Igreja a examinar-se a si própria, descobrindo as oportunidades que espreitam.

No que diz respeito à crise dos abusos sexuais, sem querer antecipar os resultados do relatório, existem alguns aspetos que convém considerar. O primeiro tem a ver com a justificação da forma de atuação da Igreja. Mesmo que atualmente existam normas aplicáveis e cumpridas, a Igreja terá muita dificuldade em justificar o caráter “sistémico” dos abusos sexuais contra menores, particularmente no que se refere à sua inoperância em tomar medidas para lidar com estes casos de forma adequada, de os prevenir e impedir. Um segundo aspeto refere-se diretamente ao modo de gerir a crise. Se, ao nível mediático, a Igreja não conseguir refutar as narrativas do “encobrimento” e da “passividade”, que nem o “silêncio” ou o pedido formal de perdão conseguem fazer esquecer, é necessária uma política de governação que aposte na prevenção e na formação.

Ao nível local, as paróquias, colégios e outras instituições devem fazer por merecer a confiança que as pessoas nelas depositam, promovendo a implementação de sistemas de proteção e cuidado que funcionem em harmonia com as instituições e grupos já existentes. Serve também para nós a recomendação da Convenção dos Direitos da Criança segundo a qual se devem adotar medidas “apropriadas para proteger a criança contra todas as formas de violência física ou mental, ofensas ou abusos, negligência ou tratamento displicente, maus-tratos ou exploração, inclusive abuso sexual” (Art. 19, nº 1). Deve ser claro para todos que as medidas impostas aos adultos não servem para fomentar o medo ou a desconfiança, mas para salvaguardar um conjunto de procedimentos que possam fazer dos ambientes eclesiais lugares mais seguros e onde se sabe como agir em caso de alguma sinalização.

Finalmente, se ao nível mediático, a Igreja andará a “ferro e fogo”, esta crise pode constituir uma oportunidade para que o fogo purifique e dê a consistência do ferro a um novo pacto da Igreja com a sociedade.

A Jornada Mundial da Juventude chega neste ano de 2023 à sua fase de implementação e execução. Para além dos aspetos sociais, económicos, financeiros, ecológicos e políticos que podem fazer a Igreja andar a “ferro e fogo” quanto a este acontecimento, gostaria de salientar dois elementos que me parecem centrais para que o “fogo” deste acontecimento não seja fugaz, mas se torne o mais duradouro possível. Estes elementos estão diretamente relacionados com a gestão de espectativas referentes não apenas ao evento em si mesmo, mas às que lhe sucedem. Se é certo que um acontecimento não tem poder, por si só, de transformar a realidade, ele pode ser um elemento catalisador de um novo modo de ser e de estar. Por isso, torna-se necessário pensar no pós-JMJ e na atitude pastoral da Igreja nessa situação. Um dos elementos que pode contribuir para a vivência desse tempo será apostar em formas pastorais de tonalidade querigmática assentes num primeiro anúncio de Cristo realizado de modo “informal” e “secular”. O envolvimento da sociedade civil na preparação da JMJ constitui uma porta que se abre de diálogo da Igreja com a sociedade que deve e merece ser aprofundada.

Um segundo elemento refere-se à capacidade imaginativa da Igreja em criar pedagogias de ordem mistagógica que ajudem a aprofundar e a celebrar o vivido. Dinamizar propostas que valorizem a memória e a narrativa dos acontecimentos pode dar origem a procedimentos mais em linha com aquele que se considera o evento modelar de evangelização da juventude.

2023 será um ano a “ferro e fogo” para a Igreja. Certamente um tempo de purificação e de crise, mas, simultaneamente, de gestação no Espírito de novas oportunidades mais sólidas e consistentes.


Vejo um Ramo de Amendoeira

O Natal, a Espera e a Esperança

ESPECIAL NATAL

P. Vasco Pinto de Magalhães, sj | 28 Dezembro 2022 | in Ponto SJ

São duas realidades e atitudes bem distintas, embora, por vezes, não pareça e a nossa linguagem nos confunda. A espera tem mais a ver com algo ou alguém que vem de fora. A esperança diz respeito ao cuidado e à atenção com o que levamos dentro e queremos dar à luz, ou queremos que cumpra a sua função. Maria estaria à espera que Jesus lhe caísse nos braços, vindo do céu? Não. Não é como quem espera o autocarro ou a vez no dentista. Maria cuidava de viver a sua gravidez, atenta e responsável por aquele que, já presente e desejado na longa história da humanidade, deveria ser dado à luz por ela. A espera é mais passiva, a esperança é activa: é uma virtude, uma força interior (e um dom do Espirito) para pôr em prática aquilo que pode ter futuro, aquilo que cada um está convencido que vale a pena e se pode, e deve, manifestar. Esse trabalho de parto chama-se esperança. No Natal, a esperança é a fortaleza de criar condições para que Jesus venha à luz: seja reconhecido e amado.

Neste Natal (2022), fez dez meses que começou a lamentável invasão da Ucrânia pela Rússia. E agora? Há quem esteja à espera que alguma coisa, algum “milagre” aconteça ao senhor Putin e ao mundo… Sim, poderia ser! Outros, porém, têm esperança no diálogo e “vamos lá a ver como pode ser possível…”, ou apostam nas retaliações que acordem o bom senso, etc. Outros põem a sua esperança no ajudar as vítimas desta agressão arriscando, de modo criativo, animando, oferecendo-se nessa luta pela justiça, mesmo quando parece uma gota de água e não se vê o fundo do túnel… mas se tem a consciência de que esse é o único caminho. Essa convicção está baseada na Fé, que é a certeza de que Deus nos ama e só nos pede que cada um faça o que realmente pode e o faça do melhor modo. Esta é a virtude da Esperança: o uso da inteligência e da boa vontade humana que, sob a inspiração do Espirito de amor e de verdade, poderá dar à luz uma humanidade nova e um mundo de justiça e de paz. Assim, há também os que rezam, porque rezar não é acordar ou mobilizar Deus; é discernir sobre o que Deus nos pede que façamos, solidários com quem sofre e responsáveis por um mundo melhor. Esta oração é um acto de Esperança.

O mundo sem Deus está à espera da sorte… de gozar alguns momentos! E, como não acredita em milagres, afasta-se das questões, ocupa-se de fantasias, fecha-se com medo ou torna-se indiferente; discute sobre as culpas e sobre quem vai ganhar; vai-se divertindo com anedotas que “é o que se leva desta vida!”

O Natal – Deus connosco – é fruto da Esperança de um povo que crê no amor.

O Papa Francisco quando veio a Fátima (Maio de 2017) resumiu assim a sua mensagem aos portugueses: “não deixem que vos roubem a esperança!”

Bom Natal.


Vejo um Ramo de Amendoeira

MENSAGEM URBI ET ORBI
DO PAPA FRANCISCO

NATAL 2022

Domingo, 25 de dezembro de 2022

Queridos irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro, feliz Natal!

Que o Senhor Jesus, nascido da Virgem Maria, traga a todos vós o amor de Deus, fonte de confiança e esperança, juntamente com o dom da paz, que os anjos anunciaram aos pastores de Belém: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado» (Lc 2, 14).

Neste dia de festa, voltemos o olhar para Belém. O Senhor vem ao mundo numa gruta e é recostado numa manjedoura para os animais, porque os seus pais não conseguiram encontrar hospedagem, apesar de estar quase na hora de Maria dar à luz. Vem entre nós no silêncio e escuridão da noite, porque o Verbo de Deus não precisa de holofotes nem do clamor das vozes humanas. Ele mesmo é a Palavra que dá sentido à existência. Ele é a luz que ilumina o caminho. «O Verbo era a Luz verdadeira que, ao vir ao mundo – diz o Evangelho –, a todo o homem ilumina» (Jo 1, 9).

Jesus nasce no meio de nós, é Deus-connosco. Vem para acompanhar a nossa vida quotidiana, partilhar tudo connosco, alegrias e amarguras, esperanças e inquietações. Vem como menino indefeso. Nasce ao frio, pobre entre os pobres. Carecido de tudo, bate à porta do nosso coração para encontrar calor e abrigo.

Como os pastores de Belém, deixemo-nos envolver pela luz e saiamos para ver o sinal que Deus nos deu. Vençamos o torpor do sono espiritual e as falsas imagens da festa que fazem esquecer Quem é o Festejado. Saiamos do tumulto que anestesia o coração induzindo-nos mais a preparar ornamentações e prendas do que a contemplar o Evento: o Filho de Deus nascido para nós.

Irmãos, irmãs, voltemo-nos para Belém, onde ressoa o primeiro choro do Príncipe da paz. Sim, porque Ele mesmo – Jesus – é a nossa paz: aquela paz que o mundo não se pode dar a si mesmo e Deus Pai concedeu-a à humanidade enviando o seu Filho ao mundo. São Leão Magno tem uma frase que, na sua concisão latina, bem resume a mensagem deste dia: «Natalis Domini, Natalis est pacis – o Natal do Senhor é o Natal da paz» (Sermão 26, 5).

Jesus Cristo é também o caminho da paz. Com a sua encarnação, paixão, morte e ressurreição, abriu a passagem de um mundo fechado, oprimido pelas trevas da inimizade e da guerra, para um mundo aberto, livre para viver na fraternidade e na paz. Irmãos e irmãs, sigamos este caminho! Mas, para o podermos fazer, para sermos capazes de seguir os passos de Jesus, devemos despojar-nos dos pesos que nos enredam e bloqueiam.

E quais são esses pesos? Que vem a ser este entulho que nos sobrecarrega? Trata-se das mesmas paixões negativas que impediram o rei Herodes e a sua corte de reconhecer e acolher o nascimento de Jesus, isto é, o apego ao poder e ao dinheiro, o orgulho, a hipocrisia, a mentira. Estes pesos impedem de ir a Belém, excluem da graça do Natal e fecham o acesso ao caminho da paz. Na realidade, é com tristeza que devemos constatar como, enquanto nos é dado o Príncipe da paz, ventos de guerra continuam a soprar, gelados, sobre a humanidade.

Se queremos que seja Natal, o Natal de Jesus e da paz, voltemos o olhar para Belém e fixemo-lo no rosto do Menino que nasceu para nós! E, naquele rostinho inocente, reconheçamos o das crianças que, em todas as partes do mundo, anseiam pela paz.

O nosso olhar se encha com os rostos dos irmãos e irmãs ucranianos que vivem este Natal na escuridão, ao frio ou longe das suas casas, devido à destruição causada por dez meses de guerra. O Senhor nos torne disponíveis e prontos para gestos concretos de solidariedade a fim de ajudar todos os que sofrem, e ilumine as mentes de quantos têm o poder de fazer calar as armas e pôr termo imediato a esta guerra insensata! Infelizmente, prefere-se ouvir outras razões, ditadas pelas lógicas do mundo. Mas a voz do Menino, quem a escuta?

O nosso tempo vive uma grave carestia de paz também noutras regiões, noutros teatros desta terceira guerra mundial. Pensamos na Síria, ainda martirizada por um conflito que passou para segundo plano, mas não terminou; e pensamos na Terra Santa, onde nos últimos meses aumentaram as violências e os confrontos, com mortos e feridos. Supliquemos ao Senhor para que lá, na terra que O viu nascer, retomem o diálogo e a aposta na confiança mútua entre palestinenses e israelitas. Jesus Menino ampare as comunidades cristãs que vivem em todo o Médio Oriente, para que se possa viver, em cada um daqueles países, a beleza da convivência fraterna entre pessoas que pertencem a crenças diferentes. De modo particular ajude o Líbano para que possa, finalmente, erguer-se com o apoio da Comunidade Internacional e com a força da fraternidade e da solidariedade. A luz de Cristo ilumine a região do Sahel, onde a convivência pacífica entre povos e tradições é transtornada por confrontos e violências. Encaminhe para uma trégua duradoura no Iémen e para a reconciliação no Myanmar e no Irão, para que cesse completamente o derramamento de sangue. E, no continente americano, inspire as autoridades políticas e todas as pessoas de boa vontade a trabalharem para pacificar as tensões políticas e sociais que afetam vários países; penso de modo particular na população haitiana, que está a sofrer há tanto tempo.

Neste dia, em que sabe bem encontrar-se ao redor da mesa recheada, não desviemos o olhar de Belém – que significa «casa do pão» – e pensemos nas pessoas que padecem fome, sobretudo as crianças, enquanto diariamente se desperdiçam quantidades imensas de alimentos e se gastam tantos recursos em armas. A guerra na Ucrânia agravou ainda mais a situação, deixando populações inteiras em risco de carestia, especialmente no Afeganistão e nos países do Corno de África. Toda a guerra – bem o sabemos – provoca fome e serve-se do próprio alimento como arma, ao impedir a sua distribuição às populações já atribuladas. Neste dia, aprendendo com o Príncipe da paz, empenhemo-nos todos – a começar pelos que têm responsabilidades políticas – para que o alimento seja só instrumento de paz. Enquanto saboreamos a alegria de nos reunirmos com os nossos, pensemos nas famílias mais atribuladas pela vida e naquelas que, neste tempo de crise económica, atravessam dificuldades por causa do desemprego e carecem do necessário para viver.

Queridos irmãos e irmãs, hoje como há dois mil anos Jesus, a luz verdadeira, vem a um mundo achacado de indiferença – uma feia doença! – que não O acolhe (cf. Jo 1, 11); antes, rejeita-O como acontece a muitos estrangeiros, ou ignora-O como fazemos nós muitas vezes com os pobres. Hoje não nos esqueçamos dos numerosos deslocados e refugiados que batem à nossa porta à procura de conforto, calor e alimento. Não nos esqueçamos dos marginalizados, das pessoas sós, dos órfãos e dos idosos – a sabedoria dum povo – que correm o risco de acabar descartados, dos presos que olhamos apenas sob o prisma dos seus erros e não como seres humanos.

Irmãos e irmãs, Belém mostra-nos a simplicidade de Deus, que Se revela, não aos sábios e entendidos, mas aos pequeninos, a quantos têm o coração puro e aberto (cf. Mt 11, 25). Como os pastores, vamos também nós sem demora e deixemo-nos maravilhar pelo Evento incrível de Deus que Se faz homem para nossa salvação. Aquele que é fonte de todo o bem faz-Se pobre [1] e pede de esmola a nossa pobre humanidade. Deixemo-nos comover pelo amor de Deus e sigamos Jesus, que Se despojou da sua glória para nos tornar participantes da sua plenitude. [2]

Feliz Natal para todos!


[1] Cf. São Gregório Nazianzeno, Discurso 45.
[2] Cf. ibidem.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Um outro canto de Moisés

Eduardo Amaral, sj | 9 Dezembro 2022 | in Ponto SJ

Senhor, és ainda a nossa força e o nosso canto. Temos ainda os olhos cingidos à tua memória, como os nossos pais. Eles contaram-nos do teu braço forte que liberta e nós pedimos “Contem-nos também do seu braço de ternura que nos aconchega”. Deles aprendemos como os socorreste quando chamaram o teu nome. Agora aprendemos a espera de ser atendidos. A pedagogia de uma esperança que nos molda e purifica.

Eles contaram-nos como o teu sopro abriu as águas, como a tua direita esmagou a mão que os sufocava. Como os conduziste na aridez sem que as roupas envelhecessem no corpo, sem que os pés inchassem, sem que os corações endurecessem além da tua misericórdia.
Ainda assim – eles nos contam – desconfiados voltavam o rosto para Egito e diziam “Lá, ao menos…”. E tu, lento para a ira, respondias “Aqui há quanto precisas”.

E nós, como eles, tão cegos quanto assombrados pela tua luz. Tão confiantes quanto vacilantes. Tão débeis quanto firmes.

Somos uma deslocação, tal como os nossos pais no deserto. Por vezes um ponto desacertado no mapa, uma coordenada inexata. Talvez acesos do lado errado das manhãs, mas só para acordar a aurora. Acesos, contudo, na tua luz.

Se olhamos os nossos dias e vemos neles um ouro pálido, apenas o fazemos por esperar um brilho maior. O ouro da tua cidade, do lugar que nos preparas.

E tu ainda ergues o sol nas manhãs. Ainda penduras as estrelas, esse estranho modo de acender a noite. Ainda repetes “Conta-as porque a tua descendência será assim sem número”. Que lâmpada esta que acendeste em nós!

Ainda escutamos a mesma promessa renovada: um futuro de esperança, uma terra onde corre leite e mel. Onde além do alimento tu nos dás o sabor dos dias. Assim compreendemos como o teu amor vai além do óbvio: não nos dás apenas o que basta. Não queres que sobrevivamos apenas, mas que prosperemos na tua abundância. Reservaste-nos um ponto na história onde não nos dás apenas o pão que sustenta, mas a beleza que santifica e enobrece.

Mas quando, de olhos já atentos, nos abrimos às tensões do mundo, descobrimos também uma terra deserta e desolada, tão estéril quanto viúva. Ou então terra gasta, explorada até à secura, espremida até à ganância.

É aqui que nos lembramos de quem somos: filhos de uma promessa. E a promessa é a tensão. Já temos uma das mãos no seu cumprimento, que nos é ainda velado. Temos ainda a outra mão neste mundo que também nos deste. A primeira é a mão que toca a tua misericórdia: o teu amor preparou-nos a eternidade. A segunda é a mão que toca a tua justiça: o teu zelo pede-nos um mundo à imagem do teu amor. A primeira ganha a forma da esperança: a mão onde imprimes o teu selo. A segunda oferece a esperança: aponta a terra deserta e diz-lhe “Desposada”, aponta o estrangeiro e diz-lhe “Meu povo”.

Postos entre estes caminhos que se cruzam, aprendemos que a liberdade de caminhar nos próprios passos implica o desamparo, a dúvida quanto à direção e o risco de decidir. Mas em tudo isto, Senhor, és tu o nosso chão, tu firmas os nossos pés e acolhes a nossa rota.

E agora, Senhor, olha de novo para o teu rebanho, uma geração jovem, tanto do deserto como da terra prometida, tão alegre quanto frágil: assim a nossa alegria é consciente e a nossa fragilidade entusiasmada.

Ensinas-nos a caminhar como quem acompanha, em modos misteriosos, é certo.

A nossa espera é também a tua. A tua aliança exige os nossos passos: esperamos-te, mas vamos a ti, que nos esperas.

Diz-nos onde nos aguardas, a nós que somos a tua herança, a geração que procura o teu rosto. Ao teu nome ainda se ajoelham os nossos olhos, ainda os nossos ouvidos se inclinam.

Vem também trazer-nos a casa onde reinarás para sempre.


Vejo um Ramo de Amendoeira

O Verbo faz-se carne

P. José Frazão Correia sj | 30 Novembro 2022 | in Ponto SJ

Orientamo-nos, de novo, para o Natal. Com ele, os cristãos fazem memória e renovam a sua exposição ao mistério da encarnação do Verbo – o Verbo faz-se carne que nós podemos ouvir, ver e tocar e, n’Ele, ter a vida (cf. Jo 1, 14 e 1 Jo 1, 1-2) – e à estrutura sacramental da vida cristã – não se dá presença de Deus sem corpo, sem palavras, sem formas culturais, mas, também, sem que qualquer lugar da realidade, matéria, palavra ou forma possa pretender esgotar a totalidade do Espírito.

O Natal começa por nos pôr em contacto com o que nos é mais elementar. Somos corpo real, lugar delimitado e tangível que habita um tempo, que ocupa um espaço, que tem a sua linguagem, que é interface de múltiplas relações. Pelo corpo, somos possibilidade e limite. Por ele, somos parentes da criação: alimentamo-nos, protegemo-nos, reproduzimo-nos. Sendo seres vivos como uma árvore ou um animal, somos, porém, bastante mais. A comida é bem mais do que alimento que sacia a fome, como a roupa é bem mais do que agasalho ou o sexo bem mais do que instrumento de reprodução. Elevamo-nos do chão como seres afetivos, simbólicos, espirituais. Somos ambas as coisas, ainda que em tensão nem sempre fácil de manter: somos “húmus” e somos “sopro”, argila beijada por Deus, segundo a imagem do livro do Génesis. Pelo contacto corpóreo com o mundo e com os outros, contacto que é tátil e acústico, visual, olfativo e gustativo, tomamos consciência de nós próprios como relação e abertura. O nosso-ser-corpo é pele, superfície de contacto, necessidade de proteção, estratégia de reprodução; o nosso-ser-corpo-espiritual é caixa-de-ressonância, exercício de apreço e de discernimento do sentido que faz vibrar a alma, que ilumina a inteligência, que põe em movimento a vontade. Por isso, para nós, humanos, tocar é também ser tocado, ouvir é pressentir, ver é ser visto e ser interpelado, cheirar e gostar é apreciar. A realidade não é só coisa a usar e a consumir; é lugar simbólico, caixa de ressonância de sentido, abertura espiritual à transcendência. Vale para a comida, para o sexo, para a natureza e para tantos outros lugares humanos, que são capazes tanto da maior elevação como da maior degradação. Quando o corpo e o espírito se ignoram e se separam, excluindo-se mutuamente, é um e é o outro que se corrompem.

O mistério da encarnação do Verbo assume e eleva este húmus humano, impedindo de justificar espiritualmente a negação ou a evasão do corpo e da história. Sim, o mundo, com as suas coisas, pode ser ilusão, corrupção e degradação. Mas seríamos injustos e não colheríamos a sua verdade se o reduzíssemos ao avesso dessa desordem. O corpo e os sentidos, a pele e o que é ordinário, o particular e o parcial, o periférico e o marginal são capazes de fazer ecoar o Espírito. A revelação cristã coloca Deus à altura do corpo e da história, das linguagens e das culturas, com as suas aberturas e possibilidades e com as suas ambivalências, ambiguidades e corrupções. Contra uma gnose espiritualizante, sentimental ou etérea, a encarnação vincula a fé cristã à salvaguarda da forma corpórea do divino e à força espiritual do corpo e das suas linguagens – desde o início do cristianismo, o gnosticismo é a grande contestação da encarnação, com a força enganadora de parecer mais espiritual: com as suas muitas variações históricas, orienta o conhecimento de Deus para fora do corpo e da história e conduz a elevação do espírito humano pelo caminho da rejeição do mundo e das vicissitudes da história como se fossem coisa más, onde Deus não poderia ser reconhecido e correspondido. Mas a ortodoxia cristã resiste a esse canto sedutor do espírito sem corpo, da verdade do divino sem a radicalidade da encarnação, quando se alicerça sobre o reconhecimento de Jesus Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Verdadeiro homem, porque o Logos faz-se carne na história de vida de Jesus de Nazaré, que vemos e ouvimos, tocamos e apreciamos: se não assumisse tudo o que é humano não salvaria tudo o que é humano; verdadeiro Deus porque a história de Jesus de Nazaré, filho de Maria, com toda a sua vida, as suas palavras, os seus encontros, os seus atos, as suas parábolas, é a presença real entre nós do Filho gerado pelo Pai deste toda a eternidade. O seu nascimento, a vida pública, a cruz, a morte, a ressurreição, a ascensão, que podemos identificar como expressões do corpo de Jesus, são fenómenos da qualidade de Deus. Sabemos quem é Deus nesses lugares existenciais da vida de Jesus de Nazaré, o Filho encarnado; sem eles, não saberíamos quem é Deus. «O Redentor não é o Filho de Deus, mas o Filho de Deus feito carne: Jesus», distinção que importa ter presente. Por isso, «não existe um momento da vida de Jesus onde Ele não esteja em contacto com o mundo e o mundo em contacto com Ele. A humanidade do Filho de Deus é a Sua carne em con-tacto com o mundo, con-sentindo com o mundo» (G. C. Pagazzi).

Como consequência, como sublinha o escritor F. Hadjadj, o cristianismo reclama a salvaguarda de uma mística da carne, que desmascare e supere a separação entre o corporal e o espiritual, que se manifesta, por exemplo, na surpreendente afinidade entre o jargão do materialismo e do hedonismo, tendencialmente licencioso, vulgar e consumista, e aquele espiritualista e etéreo, místico e sentimentalista, que defende a fuga do real para o ideal (hoje, tende a identificar-se com o virtual). Afirmar que o espírito é espiritual, parece decorrer de si. Que sejamos corpo também é dado que se nos impõe, ainda que, o que é estranho, pareçam ser os cristãos, cuja fé se edifica sobre a encarnação do Verbo e a sacramentalidade da realidade, aqueles que, em discursos e práticas, tendem a desconsiderar tal evidência. A liturgia, por exemplo, é um campo significativo em que o corpo é o grande ausente. Ora, a ousadia cristã e, talvez, a urgência cultural, estará no resgate daquilo que na matéria não se reduz ao material, ao neuronal ou ao químico, para que o corpo não seja reduzido a “coisa” que simplesmente se tem, que se alimenta e que faz exercício, a “máquina” que se estuda, em vista da sua melhoria orgânica, a “mente” cuja performance se potencia. Importa reconhecer na sensibilidade e na identidade sexuada do corpo, na sua ubicação espácio-temporal, na sua expressividade linguística e gestual, lugares simbólicos e operativos de forças espirituais que nos elevam e nos mantêm em vida. Resistindo à idolatria ou denunciando a sua profanação, o corpo é, de facto, lugar de ressonância do Espírito, exposição e custódia do mistério que Deus é.

O mistério da Encarnação implica-nos, pois, na atenção e na salvaguarda da força espiritual das nossas formas corporais e existenciais, linguísticas e culturais, lugares que são da presença do Verbo. Na carne do Filho de Deus – no seu contacto com o mundo – nos é dada a vida. Aí a reconhecemos e lhe poderemos corresponder.


Vejo um Ramo de Amendoeira

PAPA FRANCISCO

ANGELUS

Catedral de Asti
Domingo, 20 de novembro de 2022

No final desta celebração, gostaria de expressar a minha gratidão à Diocese, à Província e à Cidade de Asti: obrigado pelo caloroso acolhimento que me reservastes! Estou também muito grato às autoridades civis e religiosas pelos preparativos que tornaram possível esta desejada visita. A todos vós, gostaria de dizer que a la fame propri piasi’ encuntreve! [gostei de me encontrar convosco]; e desejar-vos: ch’a staga bin! [ficai bem!].

Gostaria de dirigir aos jovens um pensamento especial e um abraço - obrigado por terdes vindo em tão grande número -. Desde o ano passado, precisamente na Solenidade de Cristo Rei, a Jornada mundial da juventude tem sido celebrada nas Igrejas particulares. O tema, o mesmo da próxima JMJ em Lisboa, para a qual renovo o meu convite a participar, é «Maria levantou-se e foi apressadamente» (Lc 1, 39). Nossa Senhora fez isto quando era jovem, e diz-nos que o segredo para permanecer jovem reside precisamente nesses dois verbos, levantar-se e ir. Gosto de pensar em Nossa Senhora que foi apressadamente, foi apressada, foi depressa e muitas vezes peço-lhe, a Nossa Senhora: “Mas, apressa-te e resolve este problema! Levantar-se e ir: não ficar parado, pensando em si mesmo, desperdiçando a vida a perseguir conforto ou a última moda, mas apostar no Alto, pôr-se a caminho, sair dos medos para estender a mão aos necessitados. E hoje precisamos de jovens que sejam verdadeiramente “transgressivos”, não conformistas, que não sejam escravos de um telemóvel, mas que mudem o mundo como Maria, levando Jesus aos outros, cuidando dos outros, construindo comunidades fraternas com outros, realizando sonhos de paz!

O nosso tempo está a passar por uma carestia de paz. Pensemos nos muitos lugares do mundo atormentados pela guerra, especialmente na martirizada Ucrânia. Despachemo-nos e continuemos a rezar pela paz! Rezemos também pelas famílias das vítimas do grave incêndio que ocorreu recentemente num campo de refugiados em Gaza, na Palestina, onde morreram várias crianças. Que o Senhor receba no céu quantos perderam a vida e conforte aquela população tão provada por anos de conflito. E invoquemos agora a Rainha da Paz, Nossa Senhora, a quem esta bela Catedral é dedicada. A ela confio as nossas famílias, os doentes e cada um de vós, com as preocupações e as boas intenções que tendes no coração.


Vejo um Ramo de Amendoeira

No Porto, de 11 a 13 de novembro

Encontro internacional Juntos pela Europa põe cristãos em diálogo para dar resposta a novos desafios

Clara Raimundo | 11 Nov 2022 | in 7 Margens

Portugal acolhe pela primeira vez o encontro internacional da rede ecuménica Juntos pela Europa (JpE), que arranca ao final do dia desta sexta-feira, 11, e decorre até domingo, na cidade do Porto. São esperados perto de 150 participantes, vindos de 18 países diferentes, e representando diversas igrejas e movimentos cristãos. O grande objetivo é pô-los em diálogo e a pensar no “contributo que, juntos, podem dar para os desafios que a Europa está a atravessar”, desde a guerra às alterações climáticas.

“Não podemos contar só com o que é feito ao nível institucional, não podemos esperar pelos tempos das hierarquias. Temos, neste encontro, um sentido de premência, justamente devido à guerra, aos desafios sociais, ecológicos, climáticos, económicos…”, explica ao 7MARGENS Júlio Martín da Fonseca, membro da comissão nacional do JpE e um dos responsáveis pela organização do encontro em Portugal.

Depois de um período de pandemia, que impediu a realização de encontros presenciais nos últimos dois anos, e face ao contexto da guerra na Ucrânia e da aceleração das alterações climáticas, “é tempo de os cristãos estarem mais presentes, de dar mais visibilidade às experiências e dinâmicas nos quais têm estado envolvidos, e de pô-los a todos em diálogo fraterno para que daí possam sair sinergias”, defende o professor e membro do Movimento Católico de Profissionais (Metanoia).

Até porque “respeitar e celebrar a diversidade do cristianismo, vendo-a como uma riqueza” é o que está na génese do Juntos pela Europa, assinala Júlio Martín da Fonseca. “E é trágico que estejam a lutar cristãos contra cristãos. É trágico que esta guerra seja, de alguma forma, consequência da separação entre os cristãos”, sublinha, recordando o que dizia Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Sant’Egidio: “se foi na Europa que os cristãos se separaram, é na Europa que devem voltar a encontrar-se”.

Dar “um novo fôlego” ao movimento

Por estes dias, na Associação Católica do Porto, onde decorrerá o encontro do JpE, essa união tornar-se-á, de facto, uma realidade, sendo esperados, inclusivamente, participantes ucranianos e russos.

O programa começa com uma apresentação de Portugal e, em particular, da cidade do Porto, porque “é importante os participantes terem conhecimento desta realidade mais ibérica”, justifica Júlio Martín da Fonseca, lembrando que as jornadas internacionais anteriores se realizaram sempre em cidades do centro da Europa.

E enquanto nos encontros passados o foco esteve essencialmente no “ultrapassar de séculos de alguma conflitualidade entre os cristãos” e na sua “reconciliação”, agora o objetivo “é dar um passo à frente para que se comece a projetar uma visão de futuro, é dar um outro fôlego, outro ânimo” ao movimento.

O tema escolhido para o encontro no Porto, “Uma nova missão para a Europa” é a prova disso mesmo. Ao longo do dia de sábado, haverá dois painéis para ajudar a refletir sobre ele: “A Europa de hoje – desafios e oportunidades” e “Que Europa sonhamos e o que fazemos para a construir?”.

Júlio, que será um dos moderadores, destaca a presença de oradores como o teólogo português João Manuel Duque, a historiadora alemã e religiosa evangélica Nicole Grochowina, ou jornalista espanhola Victoria Martín de la Torre, porta-voz no Parlamento Europeu do Grupo Parlamentar Socialista e Sociais Democratas.

A palavra aos jovens

Em destaque estarão também os movimentos e dinâmicas juvenis, nomeadamente o projeto universitário Missão País, e o evento 3 Milhões de Nós, organizado pela Família Missionária Católica Verbum Dei. “A regularidade, intensidade e variedade destas dinâmicas em Portugal é de salientar, e os outros países ficaram muito interessados em conhecer os nossos exemplos” neste encontro, afirma Júlio Martín da Fonseca.

O dia de sábado terminará com uma oração ecuménica pela paz, às 21h, na Igreja da Cedofeita, a qual “será aberta a todos”, e não apenas aos inscritos no encontro.

Domingo será tempo de pensar e preparar os “próximos passos”. Falar-se-á da Assembleia Continental do Sínodo, que acontece em fevereiro de 2023, das iniciativas para a Jornada da Europa do próximo ano, e do encontro alargado dos Amigos do JpE, que já está agendado para 16 a 19 de novembro em Timisoara, na Roménia.

Todas as intervenções contarão com tradução simultânea nas cinco línguas oficiais JpE (alemão, italiano, francês, inglês e português).

Criada há mais de 20 anos, a rede Juntos pela Europa preocupa-se com a ideia de construir dinâmicas ecuménicas a partir das bases, congregando movimentos e associações cristãs que extravasam os limites geográficos da própria União Europeia.

Tem sido uma “experiência muito rica de construir uma rede de relações”, diz Júlio Martin, desde que, em 31 de Outubro de 1999, líderes católicos e evangélicos alemães assinaram uma “Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação” em Ausburgo, no mesmo local em que, segundo a tradição, Lutero formalizou a sua ruptura com a Igreja Católica.

Mais de 300 movimentos e comunidades cristãs, de todo o continente europeu, juntaram-se entretanto à rede durante estas duas décadas, com a proposta de um “pacto de amor recíproco” inspirado pelo Evangelho que os une estreitamente. A ideia de indivíduos e povos diferente que se podem acolher, conhecer-se, reconciliar-se e aprender a estimar-se e apoiar-se mutuamente está também presente nesta dinâmica. Periodicamente, várias cidades acolhem jornadas europeias com o lema “Juntos pela Europa”.


Vejo um Ramo de Amendoeira

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
AO REINO DO BAHREIN
por ocasião do "Bahrain Forum for Dialogue: East and West for Human Coexistence"
(3 - 6 DE NOVEMBRO DE 2022)

ENCONTRO ECUMÊNICO E ORAÇÃO PELA PAZ

DISCURSO DO SANTO PADRE

Catedral de Nossa Senhora das Arábias em Awali
Sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Alteza Real,
Senhor Ministro da Justiça,
obrigado pela vossa presença que nos honra.

«Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia cirenaica, colonos de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e árabes ouvimo-los anunciar, nas nossas línguas, as maravilhas de Deus» (At 2, 9-11).

Santidade, caro Irmão Bartolomeu, amados irmãos e irmãs, estas palavras parecem escritas para nós, hoje: de tantos povos e tantas línguas, de tantas partes e tantos ritos, estamos aqui juntos, e fazemo-lo por causa das maravilhas realizadas por Deus! Estamos em paz, como naquela manhã de Pentecostes em que não se compreendia nada! Em Jerusalém, no dia de Pentecostes, apesar de virem de muitas regiões, sentiram-se unidos num só Espírito: hoje, como então, a variedade de origens e línguas não é um problema, mas um recurso. Um autor antigo escreveu: «Se alguém nos diz “se recebeste o Espírito Santo, porque não falas em todas as línguas?”, devemos responder-lhe «falo certamente em todas as línguas, porque sou membro do Corpo de Cristo, isto é, da sua Igreja, que se exprime em todas as línguas”» (Sermão de um Autor africano do século VI: PL 65, 743).

Irmãos, irmãs, isto é válido também para nós, porque, «num só Espírito, fomos todos batizados para formar um só corpo» (1 Cor 12, 13). Infelizmente, com as nossas dilacerações, ferimos o corpo santo do Senhor, mas o Espírito Santo, que une todos os membros, é maior do que as nossas divisões carnais. Por isso é justo afirmar que, quanto nos une, supera em muito quanto nos divide e que, quanto mais caminharmos segundo o Espírito, tanto mais seremos levados a desejar e, com a ajuda de Deus, a restabelecer a plena unidade entre nós.

Voltemos ao texto de Pentecostes. Ao meditar nele, ressoaram em mim dois elementos, que me parecem úteis para o nosso caminho de comunhão, desejando por isso partilhá-los convosco; são a unidade na diversidade e o testemunho de vida.

A unidade na diversidade. No Pentecostes – dizem os Atos dos Apóstolos –, os discípulos «encontravam-se todos reunidos no mesmo lugar» (2, 1). Notemos como o Espírito, apesar de Se pousar sobre cada um, todavia escolhe o momento em que estão todos juntos. Podiam adorar a Deus e fazer bem ao próximo mesmo separadamente, mas é convergindo em unidade que se abrem de par em par as portas à obra de Deus. O povo cristão é chamado a reunir-se, para que aconteçam as maravilhas de Deus. O facto de estar aqui no Bahrein como um pequeno rebanho de Cristo, disperso em vários lugares e confissões, ajuda a sentir a necessidade da unidade, da partilha da fé: assim como neste arquipélago não faltam ligações seguras entre as ilhas, assim aconteça também entre nós, para não estarmos isolados, mas em comunhão fraterna.

Irmãos e irmãs, pergunto-me: Como fazer para aumentar a unidade, se a história, a habituação, as obrigações e as distâncias nos parecem atrair para outras partes? Qual é o «lugar de encontro», o «cenáculo espiritual» da nossa comunhão? É o louvor de Deus, que o Espírito suscita em todos. A oração de louvor não isola, nem nos fecha em nós mesmos e nas nossas necessidades, mas introduz-nos no coração do Pai e, assim, nos liga a todos os irmãos e irmãs. A oração de louvor e adoração é a mais elevada: gratuita e incondicional, atrai a alegria do Espírito, purifica o coração, reconstitui a harmonia, sanifica a unidade. É o antídoto contra a tristeza, a tentação de nos deixarmos turbar pela nossa pequenez interior e pela insignificância exterior dos nossos números. Quem louva, não presta atenção à pequenez do rebanho, mas à beleza de sermos os pequeninos do Pai. O louvor, que permite ao Espírito derramar em nós a sua consolação, é um bom remédio contra a solidão e a nostalgia de casa. Permite-nos notar a proximidade do Bom Pastor, mesmo quando pesa a falta de Pastores próximos, caso frequente nestes lugares. Precisamente nos nossos desertos, o Senhor gosta de abrir novos e inesperados caminhos e fazer brotar fontes de água viva (cf. Is 43, 19). O louvor e a adoração conduzem-nos até lá, até às fontes do Espírito, levando-nos de novo às origens, à unidade.

Será bom continuar a alimentar o louvor de Deus, para serdes ainda mais sinal de unidade para todos os cristãos! Continuai também com o bom costume de colocar à disposição doutras comunidades os edifícios de culto para adorar o único Senhor. Na realidade, não só aqui na terra, mas também no Céu, há um rasto de louvor que nos une: é o rasto dos inúmeros mártires cristãos de várias confissões. Quantos houve, nestes últimos anos, no Médio Oriente e em todo o mundo! Quantos!!! Agora formam um único céu estrelado, que aponta a estrada a quem caminha nos desertos da história: temos a mesma meta, somos todos chamados à plenitude da comunhão em Deus.

Lembremo-nos, porém, de que a unidade para a qual caminhamos sobrevive na diferença. É importante ter isto em consideração: a unidade não é fazer «todos iguais», não! É feita na diferença. A narração de Pentecostes especifica que cada um ouvia os apóstolos falarem «na sua própria língua» (At 2, 6): o Espírito não cunha uma linguagem idêntica para todos, mas permite a cada um falar línguas alheias (cf. 2, 4), de modo que cada um possa ouvir, de outros, o próprio idioma (cf. 2, 11). Em suma, não nos encerra na uniformidade, mas predispõe-nos para nos acolhermos nas diferenças. Isto acontece a quem vive segundo o Espírito: aprende a encontrar cada irmão e irmã na fé como parte do corpo a que pertence. Este é o espírito do caminho ecuménico.

Caríssimos, perguntemo-nos a nós mesmos como avançamos neste caminho. Eu, pastor, ministro, fiel, sou dócil à ação do Espírito? Vivo o ecumenismo como um peso, como um compromisso extra, como um dever institucional, ou então como o desejo veemente de Jesus de que nos tornemos «um só» (Jo 17, 21), como uma missão que brota do Evangelho? Concretamente, que faço eu por aqueles irmãos e irmãs que acreditam em Cristo e não são dos «meus»? Conheço-os, procuro-os, interesso-me por eles? Mantenho as distâncias comportando-me de maneira formal ou então procuro compreender a sua história e apreciar as suas particularidades, sem as considerar obstáculos intransponíveis?

Depois da unidade na diversidade, passemos ao segundo elemento: o testemunho de vida. No Pentecostes, os discípulos abrem-se, saem do Cenáculo. A partir de então, irão a todos os lugares do mundo. Jerusalém, que parecia o seu ponto de chegada, torna-se o ponto de partida duma aventura extraordinária. Já ninguém se recorda do medo que os mantinha, fechados, em casa! Agora vão por todo o lado, não para se distinguir dos outros, nem mesmo para revolucionar a ordem da sociedade e a organização do mundo, mas para irradiar por todos os cantos a beleza do amor de Deus através da sua vida. Com efeito, o nosso anúncio não é tanto um discurso feito de palavras, como sobretudo um testemunho que se há de mostrar com os factos; a fé não é um privilégio que se há de reivindicar, mas um dom a partilhar. Como diz um texto antigo, os cristãos «não têm cidades próprias, não usam uma linguagem peculiar, e a sua vida nada tem de excêntrico (…). Toda a terra estrangeira é sua pátria (…). Habitam na terra, mas a sua cidade é o Céu. Obedecem às leis estabelecidas, mas pelo seu modo de vida superam as leis. Amam a todos» (Epístola a Diogneto, 5). Amam a todos: aqui está o distintivo cristão, a essência do testemunho. O facto de estar aqui, no Bahrein, permitiu a muitos de vós voltar a descobrir e praticar a genuína simplicidade da caridade: penso na assistência aos irmãos e irmãs que chegam, numa presença cristã que com humildade quotidiana testemunha, nos locais de trabalho, compreensão e paciência, alegria e mansidão, benevolência e espírito de diálogo. Numa palavra: paz.

Será bom interrogar-nos também sobre o nosso testemunho, porque, com o passar do tempo, podemos avançar apenas por inércia e esmorecer em mostrar Jesus através do espírito das Bem-aventuranças, a coerência e a bondade da vida, a conduta pacífica. Agora que nos encontramos a rezar juntos pela paz, perguntemo-nos: Somos verdadeiramente pessoas de paz? Estamos possuídos pelo desejo de manifestar, por todo o lado e sem esperar nada em troca, a mansidão de Jesus? Fazemos nossas – trazendo-as no coração e à oração – as fadigas, as feridas e as desuniões que vemos à nossa volta?

Irmãos e irmãs, quis partilhar convosco estes pensamentos sobre a unidade, que o louvor fortalece, e sobre o testemunho, que a caridade fortifica. Unidade e testemunho são coessenciais: não se pode testemunhar verdadeiramente o Deus do amor, se não estivermos unidos entre nós como Ele deseja; e não se pode estar unido seguindo cada um por conta própria, sem se abrir ao testemunho, nem dilatar os confins dos próprios interesses e das próprias comunidades em nome do Espírito que abraça toda a língua e anseia por conquistar a cada um. Permitam-me acrescentar uma reflexão: naquele dia, o Espírito Santo cria uma grande diversidade, que parece uma grande desordem. Mas o mesmo Espírito que dá a diversidade dos carismas é o mesmo que cria a unidade, mas a unidade como harmonia. O Espírito é harmonia, como dizia um grande Padre da Igreja: «Ipse harmonia est – Ele é a harmonia». Por isto é que nós rezamos: para que aconteça entre nós esta harmonia. Ele une e envia, reúne em comunhão e manda em missão. Na oração, confiemos-Lhe o nosso percurso comum e invoquemos sobre nós a sua efusão, um renovado Pentecostes que dê olhares novos e passos pressurosos ao nosso caminho de unidade e paz.


Vejo um Ramo de Amendoeira

PAPA FRANCISCO

AUDIÊNCIA GERAL

Praça São Pedro
Quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Catequeses sobre o discernimento 7. A matéria do discernimento. A desolação

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Como vimos nas catequeses anteriores, o discernimento não é principalmente um procedimento lógico; ele incide sobre as ações, e as ações têm uma conotação também afetiva, que deve ser reconhecida, porque Deus fala ao coração. Então, abordemos a primeira modalidade afetiva, objeto do discernimento: isto é, a desolação. De que se trata?

A desolação foi definida assim: «Obscuridade da alma, perturbação interior, impulso para coisas baixas e terrenas, inquietação devida a várias agitações e tentações: assim a alma inclina-se para a desconfiança, fica sem esperança e sem amor, torna-se indolente, tíbia, triste e como que separada do seu Criador e Senhor» (Santo Inácio de Loyola, Exercícios espirituais, 317). Todos nós temos esta experiência. Acredito que, de um modo ou de outro, vivemos esta experiência da desolação. O problema é como poder lê-la, pois também ela tem algo importante para nos dizer, e se tivermos pressa de nos livrar dela, correremos o risco de a perder.

Ninguém gostaria de se sentir desolado, triste: isto é verdade. Todos gostaríamos de uma vida sempre jubilosa, alegre e realizada. E, no entanto, isto, além de não ser possível – pois não é possível – também não seria bom para nós. Com efeito, a mudança de uma vida orientada para o vício pode começar a partir de uma situação de tristeza, de remorso pelo que se fez. É deveras bonita a etimologia desta palavra, “remorso”: o remorso da consciência, todos conhecemos isto. Remorso: literalmente, é a consciência que morde, que não dá paz. Alessandro Manzoni, em Os noivos, ofereceu-nos uma maravilhosa descrição do remorso, como ocasião para mudar de vida. Trata-se do célebre diálogo entre o cardeal Federico Borromeo e o Inominado que, depois de uma noite terrível, se apresenta transtornado ao cardeal, que se dirige a ele com palavras surpreendentes: «“Tem uma boa notícia para me dar, e faz-me suspirar tanto?”. “Boa notícia, eu? – disse o outro - Tenho o inferno no coração [...]. Diga-me, se o souber, qual é esta boa notícia?”. “Que Deus tocou o seu coração e quer fazê-lo seu”, retorquiu pacatamente o cardeal» (cap. XXIII). Deus toca o coração e vem-te algo dentro, a tristeza, o remorso por alguma coisa, e é um convite a iniciar um caminho. O homem de Deus sabe observar profundamente o que se move no coração.

É importante aprender a ler a tristeza. Todos sabemos o que é a tristeza: todos. Mas sabemos lê-la? Sabemos compreender o que ela significa para mim hoje? No nosso tempo – a tristeza – é considerada sobretudo negativamente, como um mal a evitar custe o que custar, e ao contrário pode ser um indispensável sinal de alarme para a vida, convidando-nos a explorar paisagens mais ricas e férteis que a fugacidade e a evasão não permitem. S. Tomás define a tristeza como uma dor da alma: como os nervos para o corpo, ela desperta a atenção diante de um possível perigo, ou de um bem ignorado (cf. Summa Th. I-II, q. 36, a. 1). Por isso, é indispensável para a nossa saúde, protege-nos para não nos ferirmos a nós próprios e aos outros. Seria muito mais grave e perigoso não ter este sentimento e ir em frente. A tristeza às vezes age como semáforo: “Pare, pare! Está vermelho, aqui. Pare”.

Ao contrário, para quem tem o desejo de praticar o bem, a tristeza é um obstáculo com que o tentador quer desencorajar-nos. Neste caso, deve-se agir exatamente ao contrário em relação ao que é sugerido, determinado a continuar o que se tinha proposto cumprir (cf. Exercícios espirituais, 318). Pensemos no trabalho, no estudo, na oração, num compromisso assumido: se os deixássemos, assim que sentíssemos tédio ou tristeza, nunca realizaríamos nada. Também esta é uma experiência comum à vida espiritual: o caminho para o bem, recorda o Evangelho, é estreito e íngreme, requer um combate, uma vitória de si mesmo. Começo a rezar ou dedico-me a uma boa obra e, é estranho, precisamente nesse momento vêm-me à mente coisas urgentes a fazer – para não rezar e não fazer as coisas boas. Todos temos esta experiência. Para quem quer servir o Senhor, é importante não se deixar enganar pela desolação. E isto que… “Mas não, não tenho vontade, isto é aborrecedor…”: estai atentos. Infelizmente, alguns decidem abandonar a vida de oração, ou a escolha feita, o matrimónio ou a vida religiosa, impelidos pela desolação, sem primeiro fazer uma pausa para considerar este estado de espírito, e sobretudo sem a ajuda de um guia. Uma regra sábia diz para não fazer mudanças quando se está desolado. O tempo seguinte, e não o humor do momento, mostrará a bondade ou não das nossas escolhas.

É interessante observar, no Evangelho, que Jesus afasta as tentações com uma atitude de firme determinação (cf. Mt 3, 14-15; 4, 1-11; 16, 21-23). As situações de provação advêm-lhe de várias partes, mas sempre, encontrando n’Ele esta firmeza decidida a cumprir a vontade do Pai, esmorecem e deixam de impedir o caminho. Na vida espiritual, a provação é um momento importante, como a Bíblia recorda explicitamente, diz assim: «Se quiseres servir a Deus, prepara a tua alma para a provação» (Eclo 2, 1). Se quiseres ir pelo bom caminho, prepara-te: há obstáculos, tentações, momentos de tristeza. É como quando um professor examina o estudante: quando vê que conhece os pontos essenciais da matéria, não insiste: passou a prova! Mas deve superar a prova.

Se soubermos atravessar a solidão e a desolação com abertura e consciência, poderemos sair revigorados sob os aspetos humano e espiritual. Nenhuma prova está fora do nosso alcance; nenhuma prova será superior ao que nós podemos fazer. Mas não fujamos das provas: verificar o que significa esta prova, o que significa que estou triste: por que estou triste? O que significa que neste momento sinto desolação? O que quer dizer que estou em desolação e não posso ir em frente? São Paulo lembra que ninguém é tentado além das próprias possibilidades, pois o Senhor nunca nos abandona e, tendo Ele perto, poderemos vencer todas as tentações (cf. 1 Cor 10, 13). E se não a vencermos hoje, erguemo-nos outra vez, caminhamos e vencê-la-emos amanhã. Mas não permaneçamos mortos – digamos assim – não permaneçamos vencidos por um momento de tristeza, de desolação: vamos em frente! Que o Senhor vos abençoe neste caminho – corajoso! – da vida espiritual, que é sempre caminhar.


Vejo um Ramo de Amendoeira

PAPA FRANCISCO

ANGELUS

Praça São Pedro
Domingo, 23 de outubro de 2022

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho da Liturgia de hoje apresenta-nos uma parábola que tem dois protagonistas, um fariseu e um publicano (cf. Lc 18, 9-14), ou seja, um homem religioso e um pecador confesso. Ambos sobem ao templo para rezar, mas só o publicano se eleva verdadeiramente a Deus, porque humildemente desce à verdade de si mesmo e se apresenta como é, sem máscaras, com a sua pobreza. Poderíamos então dizer que a parábola se situa entre dois movimentos, expressos por dois verbos: subir e descer.

O primeiro movimento é subir. Na verdade, o texto começa dizendo: «Dois homens subiram ao templo para rezar» (v. 10). Este aspeto recorda muitos episódios da Bíblia, nos quais para encontrar o Senhor se sobe à montanha da sua presença: Abraão sobe a montanha para oferecer o sacrifício; Moisés sobe ao Sinai para receber os mandamentos; Jesus sobe à montanha, onde é transfigurado. Portanto, subir exprime a necessidade do coração de se desligar de uma vida monótona para ir ao encontro do Senhor; de se erguer das planícies do nosso ego para ascender até Deus - livrar-se do próprio eu; de recolher o que vivemos no vale para o levar perante o Senhor. Isto é “subir”, e quando rezamos, ascendemos.

Mas para vivermos o encontro com Ele e sermos transformados pela oração, para nos elevarmos a Deus, precisamos do segundo movimento: descer. Porquê? O que significa isto? Para ascender até Ele devemos descer dentro de nós: cultivar a sinceridade e a humildade de coração, que nos dão um olhar honesto sobre as nossas fragilidades e as nossas pobrezas interiores. Com efeito, na humildade tornamo-nos capazes de levar a Deus, sem fingimento, o que realmente somos, as limitações e feridas, os pecados, as misérias que pesam sobre o nosso coração, e de invocar a sua misericórdia para que nos cure, nos sare, nos levante. É Ele quem nos ergue, não nós. Quanto mais descermos com humildade, mais Deus nos elevará.

De facto, o publicano na parábola pára humildemente à distância (cf. v. 13) - não se aproxima, envergonha-se -, pede perdão, e o Senhor eleva-o. Ao contrário, o fariseu exalta-se, seguro de si, convencido de que está bem: ali parado, começa a falar apenas de si mesmo ao Senhor, elogiando-se, enumerando todas as boas obras religiosas que pratica, e despreza os outros: “Não sou como aquele ali...”. Porque a soberba espiritual isso faz – “Mas padre, por que nos fala de soberba espiritual?”. Porque todos nós corremos o risco de cair nisto. Ela leva-nos a pensar que somos bons e a julgar os outros. Esta é a soberba espiritual: “Estou bem, sou melhor que os outros: isto é a tal coisa, aquele é a outra…”. E assim, sem nos darmos conta, adoramos o nosso eu e cancelamos o nosso Deus. É rodar em volta de si mesmo. É a oração sem humildade.

Irmãos, irmãs, o fariseu e o publicano dizem-nos respeito de perto. Pensando neles, olhemos para nós mesmos: verifiquemos se em nós, como no fariseu, existe «a íntima presunção de ser justo» (v. 9) que nos leva a desprezar os outros. Acontece, por exemplo, quando procuramos elogios e enumeramos sempre os nossos méritos e boas obras, quando nos preocupamos em aparecer em vez de ser, quando nos deixamos apanhar pelo narcisismo e pelo exibicionismo. Vigiemos sobre o narcisismo e o exibicionismo, fundados na vanglória, que também nos leva a nós cristãos, nós sacerdotes, nós bispos a ter sempre uma palavra nos lábios, qual palavra? “Eu”: “eu fiz isto, eu escrevi aquilo, eu disse, eu compreendi-o antes de vós”, e assim por diante. Onde há muito eu, há pouco Deus. Na minha terra estas pessoas são chamadas “eu-comigo para-mim só-eu”, este é o nome dessas pessoas. E uma vez falava-se de um sacerdote que era assim, centrado em si mesmo, e as pessoas brincavam, dizendo: “Ele quando faz a incensação, fá-la em volta de si, incensa-se”. Assim, faz com que caias até no ridículo.

Peçamos a intercessão de Maria Santíssima, a humilde serva do Senhor, imagem viva do que o Senhor gosta de realizar, derrubando os poderosos dos tronos e elevando os humildes (cf. Lc 1, 52).


Depois do Angelus

Prezados irmãos e irmãs!

Hoje celebramos o Dia Mundial das Missões, que tem como tema «Sereis minhas testemunhas». É uma ocasião importante para reavivar em todos os batizados o desejo de participar na missão universal da Igreja, através do testemunho e do anúncio do Evangelho. Encorajo todos a apoiar os missionários com a oração e a solidariedade concreta, para que possam continuar a obra de evangelização e de promoção humana em todo o mundo.

Abrem-se hoje as inscrições para a Jornada mundial da Juventude que terá lugar em Lisboa, em agosto de 2023. Convidei dois jovens portugueses a estarem aqui comigo enquanto me registo como peregrino. Fá-lo-ei agora... (clicou no tablet). Pronto, inscrevi-me. Tu, já te inscreveste? Fá-lo... E tu, já o fizeste? Fá-lo… Permanecei aqui. Queridos jovens, convido-vos a inscrever-vos neste encontro no qual, após um longo período de distância, redescobriremos a alegria do abraço fraterno entre os povos e entre as gerações, de que tanto precisamos!

Ontem, em Madrid, foram beatificados Vicente Nicasio Renuncio Toribio e onze companheiros da Congregação do Santíssimo Redentor, assassinados por ódio à fé em 1936, na Espanha. Que o exemplo destas testemunhas de Cristo, até ao derramamento de sangue, nos estimule a ser coerentes e corajosos; que a sua intercessão sustente quantos lutam hoje para semear o Evangelho no mundo. Um aplauso aos novos Beatos!

Com trepidação, acompanho a situação de conflito contínuo na Etiópia. Mais uma vez, repito com sincera preocupação que a violência não resolve a discórdia, mas apenas aumenta as suas trágicas consequências. Apelo aos responsáveis políticos para que ponham fim ao sofrimento da população indefesa e encontrem soluções equitativas para uma paz duradoura em todo o país. Que os esforços das partes para o diálogo e a busca do bem comum conduzam a um caminho concreto de reconciliação. Que as nossas orações, a nossa solidariedade e a ajuda humanitária necessária não faltem aos nossos irmãos etíopes, tão duramente provados.

Entristecem-me as inundações que estão a atingir vários países em África e que causaram morte e destruição. Rezo pelas vítimas e estou próximo dos milhões de deslocados, e espero que haja um maior esforço comum para prevenir estas calamidades.

(…)

Depois de amanhã, terça-feira 25 de outubro, irei ao Coliseu para rezar pela paz na Ucrânia e no mundo, juntamente com os representantes das Igrejas e Comunidades Cristãs e das Religiões mundiais, reunidos em Roma para o encontro “O grito da paz”. Convido-vos a unir-vos espiritualmente a esta grande invocação a Deus: a oração é a força da paz. Rezemos, continuemos a rezar pela Ucrânia tão martirizada.

Desejo a todos bom domingo. Por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Bom almoço e até à vista!


Vejo um Ramo de Amendoeira

PAPA FRANCISCO

AUDIÊNCIA GERAL

Praça São Pedro
Quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Catequeses sobre o discernimento 5. Os elementos do discernimento. O desejo

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Nestas catequeses, revemos os elementos do discernimento. Depois da oração e do conhecimento de si, isto é, rezar e conhecer-se a si mesmo, hoje gostaria de falar sobre outro “ingrediente”, por assim dizer, indispensável: hoje gostaria de falar sobre o desejo. Com efeito, o discernimento é uma forma de busca, e a busca deriva sempre de algo que nos falta, mas que de certo modo, conhecemos, intuímos.

De que tipo é este conhecimento? Os mestres espirituais indicam-no com o termo “desejo” que, na raiz, é uma nostalgia de plenitude que nunca encontra realização total, e é o sinal da presença de Deus em nós. O desejo não é a vontade do momento, não. A palavra italiana vem de um termo latino muito bonito, isto é curioso: de-sidus, literalmente “a falta da estrela”, desejo é uma falta da estrela, falta do ponto de referência que orienta o caminho da vida; ela evoca um sofrimento, uma carência e, ao mesmo tempo, uma tensão para alcançar o bem que nos falta. Então, o desejo é a bússola para compreender onde estou e para onde vou, aliás é a bússola para compreender se estou parado ou a caminhar, uma pessoa que nunca deseja é uma pessoa parada, talvez doente, quase morta. É a bússola que indica se estou a caminhar ou parado. E como é possível reconhecê-lo?

Pensemos, um desejo sincero sabe tocar profundamente as cordas do nosso ser, e por isso não se extingue perante as dificuldades ou contratempos. É como quando estamos com sede: se não encontramos algo para beber, não renunciamos; pelo contrário, a busca ocupa cada vez mais os nossos pensamentos e ações, até nos dispormos a fazer qualquer sacrifício para a poder saciar, quase obcecados. Obstáculos e fracassos não sufocam o desejo, não; pelo contrário, tornam-no ainda mais vivo em nós.

Ao contrário da vontade ou da emoção do momento, o desejo dura no tempo, até por muito tempo, e tende a concretizar-se. Se, por exemplo, um jovem desejar tornar-se médico, deverá empreender um percurso de estudos e de trabalho que ocupará vários anos da sua vida e, consequentemente, deverá estabelecer limites, dizer “não”, em primeiro lugar a outros percursos de estudos, mas também a possíveis lazeres e distrações, especialmente nos momentos mais intensos de estudo. No entanto, o desejo de dar um rumo à sua vida e de alcançar aquela meta – chegar a ser médico era o exemplo - permite-lhe superar tais dificuldades. O desejo torna-te forte, corajoso, faz com que vás em frente sempre porque queres chegar àquilo: “Eu desejo aquilo”.

Com efeito, um valor torna-se belo e mais facilmente realizável quando é atraente. Como alguém disse, «mais do que ser bom é importante ter o desejo de se tornar bom». Ser bom é atraente, todos queremos ser bons, mas temos a vontade de nos tornarmos bons?

É impressionante que Jesus, antes de realizar um milagre, frequentemente questione a pessoa sobre o seu desejo: “Queres ser curado?”. E às vezes esta pergunta parece inoportuna, mas vê-se que está doente! Por exemplo, quando encontra o paralítico na piscina de Betesda, que já estava ali havia muitos anos e nunca conseguia encontrar o momento certo para entrar na água. Jesus pergunta-lhe: «Queres ser curado?» (Jo 5, 6). Porquê? Na realidade, a resposta do paralítico revela uma série de estranhas resistências à cura, que não dizem respeito somente a ele. A pergunta de Jesus era um convite a esclarecer o seu coração, para acolher um possível salto de qualidade: deixar de pensar em si próprio e na sua vida “de paralítico”, transportado por outros. Mas o homem na maca não parece estar tão convencido disto. Dialogando com o Senhor, aprendemos a compreender o que verdadeiramente queremos da nossa vida. Aquele paralítico é o exemplo típico das pessoas: “Sim, sim, quero, quero”, mas não quero, não quero, não faço nada. O querer fazer torna-se como uma ilusão e não se dá o passo para o fazer. As pessoas que querem e não querem. Isto é terrível, e aquele doente de 38 anos, sempre com lamentações: “Não, sabes Senhor, mas sabes que quando as águas se movem – que é o momento do milagre – tu sabes, vem alguém mais forte do que eu, entra e eu chego atrasado”, e lamenta-se e lamenta-se. Mas estai atentos que as lamentações são um veneno, um veneno para a alma, um veneno para a vida pois não te fazem crescer o desejo de ir em frente. Estai atentos com as lamentações. Quando se lamentam em família, lamentam-se os cônjuges, lamentam-se uns dos outros, os filhos dos pais ou os sacerdotes do bispo ou os bispos de muitas outras coisas… Não, se vos encontrardes no meio de lamentações, estai atentos, é quase pecado, pois não deixa crescer o desejo.

Muitas vezes, é precisamente o desejo que faz a diferença entre um projeto de sucesso, coerente e duradouro, e os milhares de veleidades e tantos bons propósitos com que, como se diz, “é pavimentado o inferno”: “Sim, eu queria, queria, queria…” mas nada faz. A época em que vivemos parece favorecer a máxima liberdade de escolha, mas ao mesmo tempo atrofia o desejo – queres satisfazer-te continuamente - reduzido principalmente à vontade do momento. E devemos estar atentos a não atrofiar o desejo. Somos bombardeados por mil propostas, projetos e possibilidades, que correm o risco de nos distrair e de não nos permitir avaliar com calma o que realmente queremos. Muitas vezes, encontramos pessoas – pensemos nos jovens por exemplo – com o telemóvel na mão e procuram, olham… “Mas tu paras para pensar?” – “Não”. Sempre extroverso, para com o outro. Assim o desejo não pode crescer, tu vives o momento, saciado no momento e o desejo não cresce.

Muitas pessoas sofrem porque não sabem o que querem da própria vida; provavelmente nunca entraram em contacto com o seu desejo mais profundo, nunca souberam: “O que queres da tua vida?” – “não sei”. Daqui deriva o risco de passar a existência entre tentativas e expedientes de vários tipos, sem nunca chegar a lado algum, desperdiçando oportunidades preciosas. E assim certas mudanças, embora desejadas em teoria, quando se apresenta a ocasião, nunca são postas em prática, falta o desejo forte de levar algo adiante.

Se hoje, por exemplo, a qualquer um de nós, o Senhor nos dirigisse a pergunta que fez ao cego de Jericó: «Que queres que te faça?» (Mc 10, 51) – imaginemos que o Senhor pergunte hoje a cada um de nós: “que queres que eu faça por ti” - como responderíamos? Talvez finalmente pudéssemos pedir-lhe que nos ajude a conhecer o profundo desejo d’Ele que o próprio Deus colocou no nosso coração: “Senhor, que eu conheça os meus desejos, que eu seja uma mulher, um homem de grandes desejos” talvez o Senhor nos conceda a força para o realizar. É uma graça imensa, na base de todas as outras: permitir que o Senhor, como no Evangelho, faça milagres para nós: “Concedei-nos o desejo e fazei-o crescer, Senhor”.

Porque também Ele tem um grande desejo em relação a nós: tornar-nos partícipes da sua plenitude de vida. Obrigado.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Economia de Francisco: acompanhar os jovens na criação de um futuro promissor

ESPECIAL A ECONOMIA DE FRANCISCO

Afonso Espregueira, sj | Outubro 2022 | in Ponto SJ

Quando, em 2019, o Papa Francisco, convidou os jovens economistas, empreendedores e agentes de mudança de todo o mundo para um encontro em Assis, onde se buscaria “uma economia diferente, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a devasta”, estávamos longe de imaginar que esse encontro teria de ser adiado três anos devido a uma pandemia causada por um vírus respiratório. Estávamos também longe de imaginar que esse evento adiado, que podia ter morrido perante todas as dificuldades, se tornaria num movimento mundial com milhares de jovens do mundo inteiro envolvidos. Da mesma forma, havia alguma dificuldade em compreender o que era esse movimento chamado “Economia de Francisco”.

Três anos depois, entre 22 e 24 de setembro, foi finalmente possível encontrarmo-nos em Assis, mais de 1000 jovens de 120 países! Durante três dias, Assis foi uma verdadeira aldeia global, onde se partilhou uma vocação comum a criar uma nova economia, talvez com mais perguntas que respostas.

Ao contrário do que se possa pensar, a Economia de Francisco não é uma nova ideologia político-económica ou o pensamento económico do Papa Francisco posto em prática; tampouco tem soluções “prontas a vender” para os desafios que hoje enfrentamos. A Economia de Francisco, cujo nome deve ao santo de Assis, é simplesmente uma comunidade global de jovens que partilham o desejo e o empenho de promover uma economia que não deixe ninguém para trás, cuide da casa comum e seja geradora de paz. O seu mérito, como disse o Papa no encontro com os participantes, foi “reuni-[los], dar-[lhes] um horizonte mais amplo, fazê-[los] sentir parte de uma comunidade mundial de jovens que têm a mesma vocação”. Parece pouco, mas é muito. Porque, se nos encontramos com outras pessoas que partilham connosco a missão, mesmo que os pontos de vista e os lugares de origem sejam muito diferentes, ganhamos ânimo – pois descobrimos que não vamos sozinhos – e torna-se possível o diálogo, de onde podem surgir muitas ideias e oportunidades de colaboração.

Um projeto muito concreto que nasceu da Economia de Francisco, por exemplo, é a Farm of Francesco, criada por 9 jovens de 8 países diferentes, que procura praticar uma agricultura mais resiliente, sustentável e justa, enquanto defende as preocupações dos agricultores em eventos internacionais como a COP26. Existe já uma “quinta-piloto” na Nigéria. A Economia de Francisco é, pois, um processo, um lugar de encontro e profecia, que abre caminhos novos de pensamento e trabalho em conjunto.

Estar em Assis permitiu sentir esta comunidade de forma mais real, já sem a distância dos ecrãs, e ganhar novo fôlego para o tanto que há para fazer, em Portugal e no mundo. A presença do Papa foi também muito animadora, pela sua visão entusiasmante e pela confiança que deposita nos jovens, que desafiou a serem “artesãos e construtores da casa comum”: “isto vos digo a sério: conto convosco! Por favor, não nos deixeis tranquilos, dai-nos o exemplo! E eu digo-vos a verdade: para viver sobre esta estrada, quer-se coragem e, às vezes, uma pitada de heroicidade.”

Mas não é só o Papa Francisco que confia na juventude, é também o próprio Deus: na Bíblia, são muitos aqueles que o Senhor chama ao seu serviço para grandes missões, quando são ainda jovens, tais como Samuel e Jeremias, Ezequiel, Daniel ou David.

O encontro de Assis foi também ocasião de o Papa Francisco assinar com os jovens um pacto pela Economia, que aponta linhas orientadoras para o futuro, que faziam falta ao movimento. Não sendo diretrizes rígidas, são linhas de fundo inspiradoras, que apontam o fim a que aspiramos – uma “economia do Evangelho” –, mas sem definir os meios para lá chegar. De facto, os desafios da economia de hoje não se comprazem com as soluções de sempre já predefinidas.

Com o horizonte bem claro, porém, será mais fácil de avaliar se estamos a ir pelo caminho certo ou não. E, neste caminho, podem surgir soluções de todo o tipo, quiçá totalmente novas e cruzando fronteiras de pensamento, se tivermos o espírito aberto e livre de preconceitos ideológicos. Na linguagem do Princípio e Fundamento, trata-se de ter bem presente o fim a que apontamos e de usar os meios tanto quanto eles nos ajudem a alcançar esse mesmo fim.

A Economia de Francisco é, pois, um movimento a fazer-se, um exercício de diálogo e de salvar a proposição do próximo, cheio de perguntas e à procura de respostas, com os olhos postos no Bem Comum, inspirado no Evangelho e em S. Francisco de Assis. É e quer ser um movimento liderado por jovens – apoiados por seniors, certamente –, que dá voz às periferias e a várias dimensões da realidade, abrindo-se à novidade que daí possa vir. Por isso, com alguma ousadia, podemos mesmo dizer que a Economia de Francisco encaixa perfeitamente e nos dá um modelo inspirador para abordar a terceira preferência apostólica da Companhia de Jesus: “acompanhar os jovens na criação de um futuro promissor”.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Pequena Teresa, aquilo que aprendo de ti

ESPECIAL DIA DE SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS

Eduardo Amaral,sj | 30 Setembro 2022 |in Ponto SJ

Pequena Teresa, aquilo que aprendo de ti, vejo-o, não é meu. Ultrapassa-me e contraria-me, mas é um nó cego dado entre as minhas mãos instáveis e as tuas mãos vazias. Inesperadamente vejo que a tua amizade é uma força misteriosa e, sem compreender os caminhos daquele que os amanhece, dispõe e aponta, vejo como Ele te ofereceu a mim. Mais ainda, como ele me oferece o teu abrigo. Como mostras estar perto e guardar aqueles que amo. Acredito na tua promessa de passares o céu a fazer o bem na terra. Nas tuas palavras quando, perto de encontrares aquele que o nosso coração ama, disseste que estava agora para começar “a missão de dar às almas o meu pequeno caminho”.

Tenho aprendido de ti que há esse “pequeno caminho muito direito, muito curto; um pequeno caminho completamente novo”. “Caminho de confiança e amor” onde pus um pé e outro pé. Onde devo agora perder os passos e estender os braços para que só o pai me leve ao colo.

Que não ver nenhuma luz é como quando o silêncio basta. E que aquilo que basta pode ter o peso de uma falta, reclamar uma ausência. Aí, nesse tempo obscuro em que a tempestade atinge a barca e o Amado dorme à proa dos destinos, a fidelidade é o lugar de ser posto no crisol. A perseverança é ser consumido até ao ouro.

Mas o Amado está no crisol e está no ouro. No crisol, oculto e silencioso. No ouro do mesmo modo: só os meus olhos aprenderam a arder.

Que um dia semeei uma lâmpada: agora preciso escavar a luz – há um fruto que cresce encoberto e pode bem ser o suor dos dias.

Que o colo é o lugar da subida. Lugar onde escolho o amor à virtude.

Há quem siga pela escada das virtudes, a esforço, na ilusão de ganhar o céu a músculo. Não, não devo. Devo, sim, a confiança e o abandono: a queda como lugar de ascensão.

Imagino então a extensão dos braços, uma criança erguida como quando a chuva regressa ao berço das graças depois de regar a terra. Uma criança embalada na torrente que sobe.

Que virtude, que músculo ou que grandeza tem ela? No entanto, sobe. Mais veloz que os homens pesados pela fibra da virtude. Sobe porque o pai a eleva. Que mal há no cansaço de trocar as escadas pelo ascensor? “O ascensor que me eleva ao céu são os teus braços, ó Jesus!”

Que o Amado não vem procurar a nossa virtude. Seria como se a Fonte viesse matar a sede a um poço seco. Tudo o que podemos é o amor do cântaro vazio. E isso basta.

“É fácil agradar a Jesus, encantar o seu coração. Basta amá-lo sem olhar para nós mesmos, sem examinar demasiado os nossos defeitos”. Que erro seria contar as minhas obras como quem guarda notas na carteira. Sei como Ele te ensinou a não contar, “a fazer tudo por amor, a não lhe recusar nada, a ficar contente quando ele me dá uma ocasião para lhe mostrar que o amo”. E que isto se faz no abandono. “É Jesus que faz tudo e eu não faço nada.”

Que amor é dar tudo e depois, tendo nada, dar-se. Dar-se até ao lugar das mãos vazias.

Tu tens-me mostrado como a glória da árvore é não guardar frutos.

Que o caminho da vida é ser desfolhado como quem floresce.

Que se não tiver onde reclinar a cabeça posso ser o ombro.

Pouco a pouco percebo, amiga, porque me dizes para ser pequeno. Que é fácil ser santo. “Basta reconhecer o próprio nada e abandonar-se como uma criança nos braços de Deus.”

Basta a pequenez: ela atrai os braços do Amado.

Que um dia posso entrar pela tua mão no reino dos pequenos. Passar à larga pela porta estreita. É larga a porta para quem deixa que o amor consuma a vida.

Que aí terei, junto a ti, um lugar como um degrau de mármore onde nos sentarmos aos pés do pai. Lugar onde ele há-de descansar a mão nas nossas cabeças como quem desenha tranças e bênção.

* As citações entre aspas (“”) são retiradas de textos de Santa Teresa do Menino Jesus, presentes em Santa Teresa do Menino Jesus, Obras Completas (Edições Carmelo, 1996).


Vejo um Ramo de Amendoeira

Diretor d'A Economia de Francisco, ao 7M

Luigino Bruni: “Se organizarmos a JMJ Lisboa como há dez anos, será um falhanço total”

Clara Raimundo, em Assis (Itália) | 26 Set 2022 | in 7 Margens

Em março de 2018, escreveu ao Papa pedindo-lhe dez minutos para apresentar a sua ideia de como renovar a economia. Para sua surpresa, Francisco propôs-lhe uma audiência privada no Vaticano. E dez minutos não foram suficientes porque, logo ali, começaram a sonhar juntos aquele que viria a ser o movimento d’A Economia de Francisco. Professor de Economia Política da Universidade Lumsa de Roma, e consultor do Dicastério para os Leigos, Luigino Bruni é um apaixonado pela Bíblia e pelo cruzamento entre disciplinas como a Ética e a Economia, como se pode verificar na série de textos O Mercado e o Templo, aqui já publicada. No final do encontro global d’A Economia de Francisco, do qual é o diretor científico, conversou com o 7MARGENS sobre o balanço que faz desta iniciativa, e deixou alguns conselhos aos organizadores da Jornada Mundial da Juventude 2023, que irá realizar-se em Lisboa.

Francisco não é o primeiro Papa a apelar a uma nova economia. Em 2009, na encíclica Caritas in Veritate, Bento XVI falava na “urgência da reforma da arquitetura económica e financeira internacional”… Porque é que foi necessário Francisco renovar este apelo, dez anos depois?

Eu vejo uma continuidade entre João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Mas quando o Papa Bento XVI escreveu a Caritas in Veritate o contexto era muito diferente. Estávamos a recuperar depois de uma crise financeira, havia um otimismo geral em relação ao crescimento dos mercados, a crise climática não era tão urgente… Entretanto, o mundo mudou, a pobreza aumentou, veio a pandemia, a guerra na Ucrânia, a crise climática tomou enormes proporções… Quando, em 2019, o Papa Francisco escreveu a carta aos jovens [a convidá-los para se juntarem ao movimento d’A Economia de Francisco e participarem no encontro em Assis], nós estávamos no início destas outras mudanças, e foi uma carta profética. De qualquer modo, a abordagem do Papa Francisco à vida e à economia é diferente da dos seus antecessores. Ele dá mais atenção à pobreza, à economia que mata, à cultura do descarte. E esta Economia de Francisco está voltada em primeiro lugar para os bens comuns e não para os bens privados, como a economia que se ensina normalmente nas faculdades.

Numa das conferências do segundo dia do encontro, o padre jesuíta e economista Gaël Giraud referiu que, para que haja uma verdadeira mudança na economia, é necessário que os bancos consigam libertar-se dos ativos que dependem dos combustíveis fósseis, e que isso só é possível com a intervenção do Banco Central Europeu. Concorda? E, nesse caso, o que é que está nas mãos dos jovens fazer?

Eu concordo que nós necessitamos de uma mudança radical no sistema financeiro. Mas a receita concreta não é fácil, porque a Ásia, a África, a América Latina… são diferentes da Europa ou dos EUA. Independentemente disso, é verdade que precisamos de algo novo… O ativismo da sociedade civil e dos jovens clama por um modelo diferente. Há muita gente a pensar sobre este tema, de uma forma académica e teórica, incluindo eu próprio, e n’A Economia de Francisco juntamos os académicos e os empreendedores, o que não é muito comum (porque habitualmente os académicos só falam entre si e não gostam de empreendedores, e vice-versa). [Risos] Mas esta união é muito importante e penso que pode fazer a diferença.

Este encontro presencial aconteceu dois anos depois do previsto, tendo sido adiado por causa da pandemia. Agora que realmente pôde realizar-se, correspondeu às expetativas?

Foi muito além! Eu fiquei verdadeiramente surpreendido e esmagado pelo que aconteceu: a adesão e o envolvimento tão forte de jovens economistas, académicos e empreendedores deixou-nos impressionados. Estou muito grato ao Papa Francisco por ter confiado nestes jovens (de resto, é uma das poucas pessoas no mundo que o faz), e muito feliz por ver como aquilo que era um desejo pessoal se tornou realidade e superou todas as expetativas. Nunca na história da Igreja tinha havido um movimento de jovens economistas tão global. Foram apresentadas centenas de projetos, um sinal de que os jovens não são apenas sonhadores utópicos. Agora espero que mantenham a fé na fraternidade e na justiça, e que continuem este caminho nos seus países, para que o movimento seja cada vez mais amplo e possa mudar realmente a economia.

Estamos a menos de um ano de outro encontro do Papa com os jovens: a Jornada Mundial da Juventude, que irá realizar-se em Lisboa. A Economia de Francisco deveria ser um dos temas a abordar nesse grande encontro?

Penso que esta ideia de organizar os jovens por aldeias temáticas pode ser aproveitada para Lisboa e A Economia de Francisco deveria ser uma das aldeias, sem dúvida. E acho que temos de mudar a forma como organizamos a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), porque hoje a juventude é diferente do que era no século XX. A juventude reúne-se em torno de um processo, de uma mudança social, e não apenas porque é bonito estarmos juntos, cantarmos e dançarmos. Isso já não é suficiente. Eles são muito mais maduros do que no passado… Pensemos na ativista ambiental Greta Thunberg, no movimento Fridays for Future… Os jovens querem compromisso e não apenas cantar e dançar. Por isso, tempos de envolvê-los na política, na economia, no ambiente, nas artes. Temos de estar atentos e perceber que o mundo mudou, a Igreja também está a mudar, e a juventude mudou mesmo muito. Temos de organizar a JMJ ao nível da juventude de hoje, não da juventude de há dez anos. Se organizarmos a JMJ Lisboa como há dez anos, será um falhanço total.


Vejo um Ramo de Amendoeira

PAPA FRANCISCO

ANGELUS

Praça São Pedro
Domingo, 18 de setembro de 2022

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

A parábola que o Evangelho da liturgia de hoje nos apresenta (cf. Lc 16, 1-13) parece-nos um pouco difícil de compreender. Jesus narra uma história de corrupção: um administrador desonesto, que rouba e depois, descoberto pelo seu patrão, age com astúcia para sair daquela situação. Perguntemo-nos: no que consiste esta esperteza - é um corrupto aquele que a usa - e que nos quer dizer Jesus?

Pela narração vemos que o administrador corrupto acaba em apuros porque se aproveitou dos bens do seu patrão; agora terá de prestar contas e perderá o seu emprego. Mas ele não desiste, não se resigna ao seu destino e não se comporta como vítima; pelo contrário, age com astúcia, procura uma solução, é engenhoso. Jesus parte desta história para nos lançar uma primeira provocação: «Os filhos deste mundo – diz – são mais sagazes que os filhos da luz» (v. 8). Ou seja, acontece que aqueles que se movem nas trevas, de acordo com certos critérios mundanos, sabem como sair dos problemas, sabem ser mais espertos que os outros; por outro lado, os discípulos de Jesus, isto é, nós, por vezes estamos a dormir, ou somos ingénuos, não sabemos como tomar a iniciativa para procurar vias de saída das dificuldades (cf. Evangelii gaudium, 24). Por exemplo, penso nos momentos de crise pessoal, social, mas também eclesial: por vezes deixamo-nos vencer pelo desânimo, ou caímos em lamentos e vitimismos. Em vez disso - diz Jesus - também poderíamos ser sagazes segundo o Evangelho, estar alerta e atentos para discernir a realidade, ser criativos para procurar boas soluções, para nós e para os outros.

Mas há também outro ensinamento que Jesus nos oferece. Com efeito, em que consiste a esperteza do administrador? Ele decide fazer um desconto àqueles que estão endividados, e por isso eles tornam-se seus amigos, esperando que o possam ajudar quando o patrão o despedir. Antes acumulava riquezas para si, agora usa-as para fazer amigos que o possam ajudar no futuro. Nas mesmas modalidades, roubar. E Jesus, então, oferece-nos um ensinamento sobre o uso dos bens: «arranjai amigos com o vil dinheiro para que, quando este faltar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos» (v. 9). Para herdar a vida eterna não é necessário acumular os bens deste mundo, mas o que conta é a caridade que teremos vivido nas nossas relações fraternas. Eis então o convite de Jesus: não useis os bens deste mundo apenas para vós mesmos e para o vosso egoísmo, mas usai-os para gerar amizades, para criar boas relações, para atuar na caridade, para promover a fraternidade e exercer o cuidado para com os mais débeis.

Irmãos e irmãs, também no mundo de hoje existem histórias de corrupção como aquela do Evangelho; condutas desonestas, políticas injustas, egoísmos que dominam as escolhas dos indivíduos e das instituições, e muitas outras situações obscuras. Mas a nós cristãos não é permitido o desânimo ou, pior ainda, deixar que as coisas corram, permanecer indiferentes. Pelo contrário, somos chamados a ser criativos em praticar o bem, com a prudência e astúcia do Evangelho, utilizando os bens deste mundo - não só os materiais, mas todos os dons que recebemos do Senhor - não para nos enriquecer, mas para gerar amor fraterno e amizade social. Isto é muito importante: com a nossa atitude, gerar amizade social.

Rezemos a Maria Santíssima, para que nos ajude a ser como ela, pobres em espírito e ricos em caridade recíproca.


Depois do Angelus

Prezados irmãos e irmãs!

Dou graças a Deus pela viagem que pude realizar nos dias passados ao Cazaquistão, por ocasião do sétimo Congresso dos Líderes das Religiões mundiais e tradicionais. Proponho-me falar sobre isto na próxima quarta-feira, na Audiência Geral.

Entristecem-me os recentes combates entre o Azerbaijão e a Arménia. Expresso a minha proximidade espiritual às famílias das vítimas, e exorto as partes a respeitarem o cessar-fogo, em vista a um acordo de paz. Não esqueçamos: a paz é possível quando se silenciam as armas e começa o diálogo! E continuemos a rezar pelo atormentado povo ucraniano e pela paz em todas as terras ensanguentadas pela guerra.

Desejo assegurar a minha oração pelas populações das Marcas atingidas por uma violenta inundação. Rezo pelos mortos e pelos seus familiares, pelos feridos e por quantos sofreram danos graves. Que o Senhor dê força a essas comunidades!

Desejo a todos um feliz domingo. Por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Bom almoço e até à vista!


Vejo um Ramo de Amendoeira

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
PARA A XXXVII JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE 2022-2023

«Maria levantou-se e partiu apressadamente» (Lc 1, 39)

Queridos jovens!

O tema da JMJ do Panamá era este: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). Depois daquele evento, retomamos o caminho para uma nova meta – Lisboa 2023 –, deixando ecoar nos nossos corações o premente convite de Deus a levantar-nos. Em 2020, meditamos nesta palavra de Jesus: «Jovem, Eu te digo, levanta-te!» (cf. Lc 7, 14). No ano passado, serviu-nos de inspiração a figura do apóstolo São Paulo, a quem o Senhor ressuscitado dissera: «Levanta-te! Eu te constituo testemunha do que viste» (cf. At 26, 16). No troço de estrada que ainda nos falta para chegar a Lisboa, caminharemos juntos com a Virgem de Nazaré, que, imediatamente depois da Anunciação, «levantou-se e partiu apressadamente” (Lc 1, 39) para ir ajudar a prima Isabel. Comum aos três temas é o verbo levantar-se, palavra (é bom lembrá-lo!) que significa também «ressuscitar», «despertar para a vida».

Nestes últimos tempos tão difíceis, em que a humanidade já provada pelo trauma da pandemia, é dilacerada pelo drama da guerra, Maria reabre para todos e em particular para vós, jovens como Ela, o caminho da proximidade e do encontro. Espero e creio fortemente que a experiência que muitos de vós ireis viver em Lisboa, no mês de agosto do próximo ano, representará um novo começo para vós jovens e, convosco, para toda a humanidade.

Maria levantou-se

Depois da Anunciação, Maria teria podido concentrar-se em si mesma, nas preocupações e temores derivados da sua nova condição; mas não! Entrega-se totalmente a Deus! Pensa, antes, em Isabel. Levanta-se e sai para a luz do sol, onde há vida e movimento. Apesar do inquietante anúncio do Anjo ter provocado um «terremoto» nos seus planos, a jovem não se deixa paralisar, porque dentro d’Ela está Jesus, poder de ressurreição. Dentro d’Ela, traz já o Cordeiro Imolado mas sempre vivo. Levanta-se e põe-se em movimento, porque tem a certeza de que os planos de Deus são o melhor projeto possível para a sua vida. Maria torna-se templo de Deus, imagem da Igreja em caminho, a Igreja que sai e se coloca ao serviço, a Igreja portadora da Boa Nova.

Experimentar na própria vida a presença de Cristo ressuscitado, encontrá-Lo «vivo», é a maior alegria espiritual, uma explosão de luz que não pode deixar ninguém «parado». Imediatamente põe em movimento impelindo a levar aos outros esta notícia, a testemunhar a alegria deste encontro. É aquilo que anima a pressa dos primeiros discípulos nos dias que se seguiram à ressurreição: «Afastando-se apressadamente do sepulcro, cheias de temor e grande alegria, as mulheres correram a dar a notícia aos discípulos» (Mt 28, 8).

As narrações da ressurreição usam muitas vezes dois verbos: acordar e levantar-se. Através deles, o Senhor impele-nos a sair para a luz, a deixar-se conduzir por Ele para superar o limiar de todas as nossas portas fechadas. «É uma imagem significativa para a Igreja. Também nós, como discípulos do Senhor e como Comunidade Cristã, somos chamados a erguer-nos apressadamente para entrar no dinamismo da ressurreição e deixar-nos conduzir pelo Senhor ao longo dos caminhos que Ele nos queira indicar» (Francisco, Homilia na Solenidade de São Pedro e São Paulo, 29/VI/2022).

A Mãe do Senhor é modelo dos jovens em movimento, jovens que não ficam imóveis diante do espelho em contemplação da própria imagem, nem «alheados» nas redes. Ela está completamente projetada para o exterior. É a mulher pascal, num estado permanente de êxodo, de saída de si mesma para o Outro, com letra grande, que é Deus e para os outros, os irmãos e as irmãs, sobretudo os necessitados, como estava então a prima Isabel.

...e partiu apressadamente

Santo Ambrósio de Milão escreve, no seu comentário ao Evangelho de Lucas, que Maria partiu apressadamente para a montanha, «porque estava feliz com a promessa e desejosa de prestar devotadamente um serviço, com o entusiasmo que lhe vinha da alegria interior. Agora, cheia de Deus, para onde poderia apressar-se se não em direção ao alto? A graça do Espírito Santo não admite morosidades». Por isso a pressa de Maria é ditada pela solicitude do serviço, do anúncio jubiloso, duma pronta resposta à graça do Espírito Santo.

Maria deixou-se interpelar pela necessidade da sua prima idosa. Não se escusou, não ficou indiferente. Pensou mais nos outros do que em si mesma. E isto conferiu dinamismo e entusiasmo à sua vida. Cada um de vós pode perguntar-se: Como reajo perante as necessidades que vejo ao meu redor? Busco imediatamente uma justificação para não me comprometer, ou interesso-me e torno-me disponível? É certo que não podeis resolver todos os problemas do mundo; mas talvez possais começar por aqueles de quem está mais próximo de vós, pelas questões do vosso território. Uma vez disseram a Madre Teresa que «quanto ela fazia não passava duma gota no oceano». E ela respondeu: «Mas, se não o fizesse, o oceano teria uma gota a menos».

Perante uma necessidade concreta e urgente, é preciso agir apressadamente. No mundo, quantas pessoas esperam uma visita de alguém que cuide delas! Quantos idosos, doentes, presos, refugiados precisam do nosso olhar compassivo, da nossa visita, de um irmão ou uma irmã que ultrapasse as barreiras da indiferença!

Quais são as «pressas» que vos movem, queridos jovens? O que é que vos faz sentir de tal maneira a premência de vos moverdes que não conseguis ficar parados? Há muitos que, impressionados por realidades como a pandemia, a guerra, a migração forçada, a pobreza, a violência, as calamidades climáticas, se interrogam: Porque é que me acontece isto? Porquê precisamente a mim? Porquê agora? Mas a pergunta central da nossa existência é esta: Para quem sou eu? (cf. Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 286).

A pressa da jovem mulher de Nazaré é a pressa típica daqueles que receberam dons extraordinários do Senhor e não podem deixar de partilhar, de fazer transbordar a graça imensa que experimentaram. É a pressa de quem sabe colocar as necessidades do outro acima das próprias. Maria é exemplo de jovem que não perde tempo a mendigar a atenção ou a aprovação dos outros – como acontece quando dependemos daquele «gosto» nas redes sociais –, mas move-se para procurar a conexão mais genuína, aquela que provem do encontro, da partilha, do amor e do serviço.

A partir da Anunciação, desde aquela primeira vez quando partiu para ir visitar a sua prima, Maria não cessa de atravessar espaços e tempos para visitar os filhos carecidos da sua ajuda carinhosa. Os nossos passos, se habitados por Deus, levam-nos diretamente ao coração de cada um dos nossos irmãos e irmãs. Quantos testemunhos nos chegam de pessoas «visitadas» por Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe. Em quantos lugares remotos da terra, ao longo dos séculos, Maria visitou o seu povo com aparições ou graças especiais. Praticamente não há lugar, na Terra, que não tenha sido visitado por Ela. Movida por uma solícita ternura, a Mãe de Deus caminha no meio do seu povo e cuida das suas angústias e vicissitudes. E onde quer que haja um santuário, uma igreja, uma capela a Ela dedicada, lá acorrem numerosos os seus filhos. Quantas expressões de piedade popular! As peregrinações, as festas, as súplicas, o acolhimento das imagens nas casas e muitas outras iniciativas são exemplos concretos da relação viva entre a Mãe do Senhor e o seu povo, que se visitam reciprocamente.

Uma pressa boa impele-nos sempre para o alto e para o outro

Uma pressa boa impele-nos sempre para alto e para o outro. Mas há também uma pressa não boa, como, por exemplo, a pressa que nos leva a viver superficialmente, tomar tudo levianamente sem empenho nem atenção, sem nos envolvermos verdadeiramente no que fazemos; a pressa de quando vivemos, estudamos, trabalhamos, convivemos com os outros sem colocarmos nisso a cabeça e menos ainda o coração. Pode acontecer nas relações interpessoais: na família, quando nunca ouvimos verdadeiramente os outros nem lhes dedicamos tempo; nas amizades, quando esperamos que um amigo nos faça divertir e dê resposta às nossas exigências, mas, se virmos que ele está em crise e precisa de nós, imediatamente o evitamos e procuramos outro; e mesmo nas relações afetivas, entre noivos, poucos têm a paciência de se conhecerem e compreenderem a fundo. E, a mesma atitude, podemos tê-la na escola, no trabalho e noutras áreas da vida quotidiana. Ora, todas estas coisas vividas com pressa dificilmente darão fruto; há o risco de permanecerem estéreis. Assim se lê no livro dos Provérbios: «Os projetos do homem diligente têm êxito, mas quem se precipita [a pressa má] cai certamente na ruína» (21, 5).

Quando Maria, finalmente, chega à casa de Zacarias e Isabel, sucede um encontro maravilhoso. Isabel experimentou em si mesma uma intervenção prodigiosa de Deus, que lhe deu um filho na velhice. Teria todas as razões para falar, primeiro, de si mesma; mas não o fez, toda propensa a acolher a jovem prima e o fruto do seu ventre. Logo que ouve a sua saudação, Isabel fica cheia do Espírito Santo. Acontecem estas surpresas e irrupções do Espírito quando vivemos uma verdadeira hospitalidade, quando colocamos no centro o hóspede, e não a nós próprios. Vemos isto mesmo também na história de Zaqueu, que lemos em Lucas: «Quando chegou àquele local [onde estava Zaqueu], Jesus levantou os olhos e disse-lhe: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa”. Ele desceu imediatamente e acolheu Jesus cheio de alegria» (19, 5-6).

Já aconteceu a muitos de nós sentir que, inesperadamente, Jesus vem ao nosso encontro: n’Ele, pela primeira vez, experimentamos uma proximidade, um respeito, uma ausência de preconceitos e condenações, um olhar de misericórdia que nunca tínhamos encontrado nos outros. Mais, sentimos também que, a Jesus, não Lhe bastava olhar-nos de longe, mas queria estar connosco, queria partilhar a sua vida connosco. A alegria desta experiência suscitou em nós a pressa de O acolher, a urgência de estar com Ele e conhecê-Lo melhor. Isabel e Zacarias hospedaram Maria e Jesus. Aprendamos daqueles dois anciãos o significado da hospitalidade. Perguntai aos vossos pais e aos vossos avós, bem como aos membros mais idosos das vossas comunidades, que significa para eles serem hospitaleiros para com Deus e com os outros. Fazer-vos-á bem escutar a experiência de quem vos precedeu.

Queridos jovens, é tempo de voltar a partir apressadamente para encontros concretos, para um real acolhimento de quem é diferente de nós, como acontece entre a jovem Maria e a idosa Isabel. Só assim superaremos as distâncias entre gerações, entre classes sociais, entre etnias, entre grupos e categorias de todo o género, e superaremos também as guerras. Os jovens são sempre a esperança duma nova unidade para a humanidade fragmentada e dividida. Mas somente se tiverem memória, apenas se escutarem os dramas e os sonhos dos idosos. «Não é por acaso que a guerra tenha voltado à Europa no momento em que está a desaparecer a geração que a viveu no século passado» (Francisco, Mensagem para o II Dia Mundial dos Avós e do Idosos). Há necessidade da aliança entre jovens e idosos, para não esquecer as lições da história, para superar as polarizações e os extremismos deste tempo.

Ao escrever aos Efésios, São Paulo anunciou: «Em Cristo Jesus, vós, que outrora estáveis longe, agora estais perto, pelo Sangue de Cristo. Com efeito, Ele é a nossa paz, Ele que, dos dois povos, fez um só e destruiu o muro de separação, a inimizade, na sua carne» (2, 13-14). Jesus é a resposta de Deus face aos desafios da humanidade em todos os tempos. E esta resposta, Maria leva-a dentro de si quando vai ao encontro de Isabel. A maior prenda que Maria oferece à sua parente idosa é levar-lhe Jesus: certamente também a ajuda concreta foi muito preciosa; mas nada teria podido encher a casa de Zacarias com uma alegria tão grande e um significado assim pleno como o fez a presença de Jesus no ventre da Virgem, que se tornara o tabernáculo do Deus vivo. Naquela região montanhosa, Jesus, com a mera presença, sem dizer uma palavra, pronuncia o seu primeiro «discurso da montanha»: proclama em silêncio a bem-aventurança dos pequeninos e dos humildes que se entregam à misericórdia de Deus.

A minha mensagem para vós jovens, a grande mensagem de que é portadora a Igreja é Jesus! Sim, Ele mesmo, o seu amor infinito por cada um de nós, a sua salvação e a vida nova que nos deu. E Maria é o modelo de como acolher este imenso dom na nossa vida e comunicá-lo aos outros, fazendo-nos por nossa vez portadores de Cristo, portadores do seu amor compassivo, do seu serviço generoso, à humanidade sofredora.

Todos juntos em Lisboa!

Maria era uma jovem como muitos de vós. Era uma de nós. Assim escrevia acerca dela o bispo D. Tonino Bello: «Santa Maria, (…) bem sabemos que foste destinada a navegar no alto mar. Mas, se te constrangemos a navegar junto da costa, não é porque queremos reduzir-te aos níveis da nossa pequena navegação costeira. É porque, vendo-te tão perto das praias do nosso desânimo, possa apoderar-se de nós a consciência de sermos chamados, também nós, a aventurar-nos, como Tu, nos oceanos da liberdade» (Maria, mulher dos nossos dias, Cinisello/Balsamo 2012, 12-13).

Como recordei na primeira Mensagem desta trilogia, nos séculos XV e XVI, muitos jovens (incluindo tantos missionários) partiram de Portugal rumo a mundos desconhecidos, inclusive para partilhar a sua experiência de Jesus com outros povos e nações (cf. Francisco, Mensagem JMJ 2020). E a esta terra, no início do século XX, Maria quis fazer uma visita especial, quando de Fátima lançou a todas as gerações a mensagem forte e maravilhosa do amor de Deus que chama à conversão, à verdadeira liberdade. A cada um e cada uma de vós renovo o meu caloroso convite a participar na grande peregrinação intercontinental dos jovens que culminará na JMJ de Lisboa em agosto do próximo ano; e recordo-vos que, no próximo 20 de novembro, Solenidade de Cristo Rei, celebraremos a Jornada Mundial da Juventude nas Igrejas particulares espalhadas pelo mundo inteiro. A propósito, o recente documento do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida – Orientações pastorais para a celebração da JMJ nas Igrejas particulares – pode ser de grande ajuda para todas as pessoas que trabalham na pastoral juvenil.

Sonho, queridos jovens, que na JMJ possais experimentar novamente a alegria do encontro com Deus e com os irmãos e as irmãs. Depois dum prolongado período de distanciamento e separação, em Lisboa – com a ajuda de Deus – reencontraremos juntos a alegria do abraço fraterno entre os povos e entre as gerações, o abraço da reconciliação e da paz, o abraço duma nova fraternidade missionária! Que o Espírito Santo acenda nos vossos corações o desejo de vos levantardes e a alegria de caminhardes todos juntos, em estilo sinodal, abandonando falsas fronteiras. O tempo de nos levantarmos é agora. Levantemo-nos apressadamente! E, como Maria, levemos Jesus dentro de nós, para O comunicar a todos. Neste belíssimo momento da vossa vida, avançai, não adieis o que o Espírito pode realizar em vós! De coração abençoo os vossos sonhos e os vossos passos.

Roma, São João de Latrão, na Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria,15 de agosto de 2022.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Formação sinodal

Georgino Rocha | 5 Set 2022| in 7 Margens

O nó górdio da Igreja está no desafio de desatar os nós da instituição para lançar as pontes de união indispensáveis para vivermos em comunhão missionária. Esta dinâmica passa necessariamente pela formação sinodal como tem sido atestado pelos relatos diocesanos.

“Que é isso?” – questiona um canonista que com a sua jurisprudência se apressa a fazer uma leitura do que acontece na Igreja e acrescenta: “Não se fala disso nem se manifesta alguma curiosidade.”

Realismo? Distância crítica? Outras hipóteses são possíveis. Assumo neste artigo os relatos dos mencionados autores e proponho-me fazer uma espécie de retrato da situação.

Renovar e restaurar a esperança

Na formação sinodal, um dos desafios da Igreja Católica é o de renovar e restaurar a esperança, face ao desencanto e ao deixar correr, declarava o padre Virgílio Mota, da diocese de Leiria-Fátima, na assembleia de apresentação dos resultados da caminhada sinodal nas respectivas paróquias, a 4 de Janeiro de 2022. E enumerava outros como a poluição dos mares, os desequilíbrios do homem com a natureza e com os recursos que a terra produz, as dinâmicas suicidas, realidades que nós temos de cuidar.

Outros desafios, adiantava, são o comunicar nos ambientes digitais sem proselitismo, o trabalhar com a gramática, a linguagem do nosso tempo, porque “com discursos herméticos, fechados, falamos só para nós”. Neste sentido, “as paróquias devem ser comunidades sinodais, no espírito de Emaús (…), devem ser lugares de abertura, onde é necessário perguntar sempre o que é melhor para todos, em verdadeiro sentido de comunidade”.

Formação sinodal e eucaristia

“A formação sinodal é formação eucarística; embora seja necessária mais reflexão para elaborar esta abordagem integrada. (Padre Louis J. Camelli”, na Unisinos).

A Liturgia é simultaneamente o cume para o qual se encaminha a acção da Igreja e a fonte de onde dimana toda a sua energia. A consciência da missão no contexto da liturgia é chamamento perene para integrar o culto e a vida além do templo. (Vaticano II, Constituição sobre a Sagrada Liturgia, 10).

A metáfora do cume do monte envolve a encosta da subida e a da descida. No centro fica a celebração da caridade e nos lados está a evangelização e a esperança, que há-de impregnar e animar o compromisso social dos cristãos.

O movimento de oração-encontro-escuta-discernimento acontece quando nos encontramos com o Senhor e uns com os outros na Palavra e no Sacramento. Este sentido de ser sujeitos e agentes activos da Igreja é a chave para a participação plena nos mistérios sacramentais.

Radical conversão pessoal e pastoral

Em tempos tão turbulentos como os nossos, “a todos peço uma radical conversão pessoal e pastoral”, escreve D. António Couto, em documento sobre as nomeações canónicas para o ano pastoral de 2022-2023. É urgente que este ideário da evangelização a todos nos envolva a tempo inteiro, transforme a nossa mentalidade e molde em nós novas atitudes missionárias, que vão para além da simples manutenção pastoral… É obrigação e alegria nossa levar o Evangelho a todas as pessoas e a todos os recantos”. (Ecclesia, 25 de Agosto de 2022)

Prolongar e aplicar a experiência sinodal

O bispo da Guarda, D. Manuel Felício, escreveu uma “carta ao povo de Deus” da sua diocese, pelo início do ano pastoral 2022-2023, e anuncia que serão repensados e, se possível, aplicados os resultados da experiência sinodal, dando “atenção” às famílias e à juventude… “Temos o objetivo de continuarmos a aplicar o método sinodal, quanto possível, ao conjunto das atividades pastorais que desenvolvemos e sobretudo aos processos das decisões que precisamos de tomar”. (Ecclesia, 25 Agosto de 2022)

Novas atitudes missionárias, viver a experiência sinodal, participar a tempo inteiro na vida da Igreja, dedicar um amor especial à Eucaristia, restaurar e renovar a esperança são caminhos a percorrer na Igreja sinodal. Caminhos que nos levam a situar a missão da Igreja numa sociedade secular. Será o objectivo do próximo trabalho.

Georgino Rocha é padre católico da diocese de Aveiro e desempenhou já o cargo de vigário diocesano da pastoral.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Fase continental

Sínodo: processo de “diálogo sem precedentes na história da Igreja”

Manuel Pinto | 26 Ago 2022| in 7 Margens

Pelo menos 100 das 114 conferências episcopais católicas fizeram já chegar a Roma as respetivas sínteses da primeira fase da consulta sinodal, “Um diálogo sem precedentes na história de Igreja” à escala planetária que deverá ter envolvido, até agora, em números redondos, 20 milhões de pessoas.

Estes dados foram divulgados esta sexta-feira no Vaticano pelo cardeal Jean-Claude Hollerich, que é relator-geral do Sínodo dos Bispos, além de presidente da Comissão das Conferências Episcopais da Europa, numa conferência de imprensa acompanhada pelo 7Margens, que se destinou a fazer um ponto de situação da realização do Sínodo sobre a Sinodalidade e apresentar a segunda etapa do processo – de âmbito continental.

O encontro com os jornalistas foi presencial e por videoconferência e contou com a participação dos três membros do secretariado-geral do Sínodo, que é presidido pelo cardeal Mario Grech.

“Há um ano, recordou este purpurado, o Sínodo era uma folha em branco. Neste tempo decorrido, fez-se uma auscultação inédita no interior da Igreja Católica e fora dela e houve espaço para o discernimento dos pastores. O caminho feito mostrou uma igreja viva e uma comunidade que celebra a alegria do Evangelho”, disse. “Mas não temos a ilusão de que o princípio da consulta se tenha aplicado com o mesmo vigor em todas as dioceses”- acrescentou o cardeal, numa alusão evidente a bispos e padres que se mantiveram reticentes neste processo.

O cardeal Hollerich falou, a seguir, do “impressionante entusiasmo” que sentiu na multiplicidade de grupos sinodais que se constituíram nos contextos mais diversos. Agradeceu a todos os que participaram, sublinhando também o papel dos institutos religiosos, de movimentos e associações e até de vários dos dicastérios da Cúria. “Yes, the Church is in Synod” [Sim, a Igreja está em Sínodo], exclamou, referindo as centenas de milhares de encontros sinodais e as 110 mil respostas resultantes desses grupos, mas sublinhando a riqueza desses contributos.

“As nossas paróquias não poderão ser as mesmas depois de terem passado por esta experiência”, acrescentou o cardeal que é também arcebispo do Luxemburgo.

Ambos os vice-presidentes do secretariado-geral, o bispo Luis Marin e a religiosa xaveriana Nathalie Becquart, exprimiram uma avaliação global amplamente positiva, que fizeram quer a partir dos muitos contactos, presenças e ações no terreno, quer através da leitura das sínteses que foram chegando.

Luis Marin mostrou-se convicto de que a Igreja está já “num processo irreversível, com diferentes velocidades, cheio de nuances e esclarecimentos necessários, mas sem retorno”.

Nathalie Becquart, por sua vez, acrescentou ter sentido “um grande desejo de prosseguir” o processo sinodal e enalteceu as auscultações que apostaram em nas questões das mulheres, em ambientes problemáticos como os estabelecimentos prisionais, bem como iniciativas sinodais de envolvimento das crianças. Destacou ainda o quanto a sensibilizou a participação nesta fase de do Sínodo de países que se encontram em situações muito difíceis, exemplificando com os casos da Nicarágua, Ucrânia, Haiti, Líbano, República Centro-Africana, entre outros. Terminou com a frase de um jovem que se lamentava e, ao mesmo tempo, congratulava de ter sido a primeira vez que foi solicitado a pronunciar-se sobre a Igreja.

Segue-se, agora, a fase continental que já vai poder ter por base um instrumento de trabalho (instrumentum laboris) que é a síntese geral que um grupo de trabalho está a iniciar, a partir das sínteses nacionais e de muitas outras que chegaram (e ainda irão chegar – os Estados Unidos da América, por exemplo, só enviarão a sua na próxima semana) ao secretariado geral.

Ao nível de cada continente, os bispos são convidados a dinamizar assembleias com lideranças continentais, procurando sublinhar, a partir das sínteses nacionais e do Instrumentum Laboris, as preocupações e sonhos comuns, as particularidades e os pontos que, enquanto realidade específica, gostariam de levar ao Sínodo dos bispos, em outubro de 2023.

O cardeal Grech foi bastante enfático ao sublinhar perante os jornalistas que há toda a vantagem em fazer voltar às igrejas locais tanto a síntese nacional como a síntese continental que vier a ser produzida. Isto para enriquecer a “circularidade” que deve existir entre a “profecia” e o “discernimento”, observou. Até para colmatar eventuais lacunas que os sucessivos processos de filtragem possam ter deixado em aberto, como também frisou.

No período de perguntas e respostas, um momento significativo aconteceu quando um jornalista confrontou o cardeal Hollerich com declarações que prestou em várias entrevistas, nos últimos meses, em que defendeu posições em matérias fraturantes, que poderiam colidir com a doutrina da Igreja. O cardeal relator geral do Sínodo dos Bispos aproveitou para esclarecer que entende que o que tem defendido não toca na doutrina; que, no exercício das suas funções sinodais, não tem “uma agenda própria”; e que terá, enquanto relator, uma atitude de abertura e de escuta.


Vejo um Ramo de Amendoeira

A propósito do abuso sexual de crianças por membros da Igreja Católica

ESPECIAL LIVRO UMA ANATOMIA DO PODER ECLESIÁSTICO

P. João Eleutério | 5 Agosto 2022 | in Ponto SJ

Há histórias que dão livros. E todos os livros têm a sua própria história. A obra Uma anatomia do poder eclesiástico tem a ambição de ter uma história ainda nos seus primeiros passos. Trata-se de um conjunto de textos da autoria de diversos teólogos inscritos na realidade da Igreja Católica portuguesa que olham para o problema do abuso sexual de crianças por membros da Igreja. O intuito deste texto é o de apresentar a história deste projeto. Apresentá-lo-ei na primeira pessoa do singular. Poderá levar ao franzir de sobrolho de alguns sobre a objetividade, paciência.

Esta obra é uma das muitas iniciativas que se inscrevem no âmbito do projeto CUIDAR desenvolvido pelo CEPCEP – Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa – da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa. Após este enquadramento institucional entremos nos detalhes de natureza mais histórica e orgânica da génese deste conjunto de estudos.

Em setembro de 2020, o P. Luís Marinho, assistente nacional do CNE – Corpo Nacional de Escutas – e um dos atores do projeto CUIDAR, desafiou-me na minha qualidade de teólogo a apresentar uma reflexão sobre o flagelo do abuso sexual de crianças por membros da Igreja. Achei o desafio pertinente e exigente. Durante algum tempo, e contradizendo o meu entendimento da dimensão eclesial da reflexão teológica, pensei num projeto de natureza individual. Isto é, pensei publicar algo que seria a minha reflexão e análise deste flagelo a partir do meu lugar de observação, o qual é o da Eclesiologia. Era para mim claro que o problema obrigava a colocar a questão da ministerialidade na e da Igreja.

Vivia-se um tempo estranho. Ora saíamos do confinamento devido à pandemia da covid, ora mantínhamos ritmos de vida eclesial alterados e afetados pela mesma. A própria vida académica tinha sobressaltos: aulas por meios telemáticos, aulas em regime semi-presencial… enfim, um conjunto de exigências novas e prementes a não permitirem uma dedicação exclusiva ao projeto. E ainda bem! Fui percebendo que o assunto teria de ser abordado, mesmo partindo da perspetiva teológica, de uma forma pluridisciplinar e colegial. Em dezembro de 2020 tomei a decisão de alargar o olhar sobre o problema do abuso sexual de crianças por membros da Igreja a mais vozes entre os meus pares.

Não sou jornalista, nem tão pouco um bom relações públicas. Tive de me socorrer dos bons ofícios dos diretores dos dois centros de investigação da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, o CEHR – Centro de Estudos de História Religiosa – e o CITER – Centro de Investigação de Teologia e Estudos da Religião. Os professores Alexandre Palma (CITER) e Paulo Fontes (CEHR) indicaram-me um conjunto de possíveis interessados em participar no projeto, o qual ainda não tinha nome. Para convocar e “provocar” os possíveis interessados redigi um texto apresentando o projeto “Uma anatomia do poder eclesiástico”. Uma boa parte desse texto constitui a apresentação da obra que ganhou o título a partir da designação do projeto. Estávamos em janeiro de 2021. O documento enviado continha, também, uma abundante bibliografia sobre o assunto compilada em grande parte pelo P. Luís Marinho e com algum complemento da minha parte com bibliografia do mundo anglo~saxónico sobre o tema.

As respostas foram surgindo à minha interpelação. Umas positivas, outras declinando o desafio por se encontrarem envolvidos noutras atividades e projetos. Em junho de 2021 tinha o elenco de sete autores cujos trabalhos a obra dá a conhecer. Temos enquadramentos eclesiais diferentes. Também temos percursos teológicos diversos. Mas esta variedade enriqueceu o projeto e valoriza a obra. Enquanto coordenador do projeto fui falando com cada um dos autores. Fui percebendo, pelo menos na descrição de cada um, do como pretendia abordar a questão, de convergência e complementaridade nas formas de pensar o assunto. Em setembro de 2021 propus uma reunião em formato “virtual”, afinal a pandemia veio acelerar formas de trabalho onde a distância deixou de ser um problema. A reunião aconteceu no princípio de outubro de 2021. Cada autor “apresentou-se” (alguns de nós já nos conhecemos e temos muita história vivida em conjunto, mas não era o caso do Alex Villas-Boas e da Sónia Monteiro) e apresentou o seu ângulo de abordagem. Estabeleceu-se, ainda, o prazo de 20 de novembro de 2021 para a entrega dos textos.

Entretanto o problema continuava a surgir nas notícias. Por um lado tínhamos os diferentes artigos do jornalista do Observador, João Francisco Gomes, denunciando um conjunto de situações existentes de abuso sexual de crianças por parte de membros da Igreja católica em Portugal. Essas diferentes situações acabaram por ser publicadas na obra Roma, temos um problema, divulgada em outubro de 2021, e trata-se de uma obra decisiva para o conhecimento dos factos e também para o conhecimento dos diferentes relatórios que foram sendo publicado um pouco por todo o mundo sobre o mesmo tipo de situação. Por outro lado, no início de novembro de 2021, um conjunto de membros da Igreja católica tinha assinado e enviado uma petição aos bispos portugueses pedindo a criação de uma Comissão Independente. A publicação do relatório da Comissão independente para o abuso sexual de crianças (CIASE) em França tinha publicado números avassaladores sobre a questão. Ainda estamos a viver as ondas de choque do sucedido em vários países e, seguramente, também teremos sintomas deste mal na realidade da Igreja portuguesa. Quando a Comissão Independente foi criada, no entanto, já existiam alguns dos textos deste projeto. Na verdade, o texto da Sónia Monteiro interrogando-se sobre a possibilidade do perdão neste caso do abuso sexual de crianças por membros da Igreja foi o primeiro a ser entregue. Pareceu-me uma interpelação profética a toda a Igreja, a todos nós e decidi fechar o livro com aquele texto mesmo não tendo ainda ideia da forma como os outros autores tinham desenvolvido os seus artigos. Os outros autores que entregaram os seus textos antes da criação da Comissão Independente em Portugal foram o Alex Villas Boas, o P. José Manuel Pereira de Almeida e o Alfredo Teixeira. Ainda faltavam três contributos.

Em janeiro de 2022, a Rita Mendonça Leite conseguiu entregar o seu texto. Começou a colocar-se o desafio de estruturar o livro. Tratando-se de contribuições diversas, estabelecer uma estrutura onde a ordem dos fatores não parecesse uma pura arbitrariedade era o objetivo principal. Decidi colocar como primeiro texto a reflexão em torno da interrogação “Servir ou servir-se?” do P. José Manuel. A resposta parece ser evidente para todos, mas nem sempre as práticas ministeriais parecem traduzir essa evidência. O texto final estava decidido desde novembro. A minha contribuição e a do P. Peter Stilwell apenas ficaram concluídas em março de 2022. Decidi colocar o meu contributo sobre as diversas configurações da ministerialidade na história e vida da Igreja como segundo texto e o do P. Peter sobre a expressão “in persona Christi” tantas vezes usada e “abusada” para falar do ministério sacerdotal. Em quarto lugar coloquei o texto da Rita onde ela discute a relação clericalismo e anticlericalismo como “agentes de mudança”, em particular porque o clericalismo é um dos sintomas tantas vezes apontados pelo Papa Francisco associado a este problema do abuso sexual de crianças. Em quinto lugar coloquei o texto do Alfredo Teixeira, onde ele faz uma crítica da razão institucional a partir da grelha de leitura da antropologia das instituições e como ele afirma: “Compreendendo que uma instituição é uma gramática da vida social, um habitat, (…) procura-se chegar a uma compreensão da razão institucional que reproduz a lógica do segredo face à evidência do abuso, por parte dos que representam a instituição”. Em sexto lugar coloquei o texto do Alex Villas Boas, onde se dialoga com Michel Foucault e se mostra a exigência de se passar de um “do poder pastoral ao cuidado pastoral”.

Desde o início tomei uma opção metodológica: a de não partilhar nenhum dos textos recebidos com os outros autores, apesar de alguns terem manifestado imediatamente esse desejo. Apenas conheceram o conteúdo final e o contributo de todos os outros quando o livro foi publicado no final de junho de 2022. Tinha, e tenho, em mente a continuação do debate: uns com os outros, assim como de o alargar a quem nele queira participar. O nosso intuito e desejo é o de prevenir e contribuir para uma erradicação de qualquer tipo de abuso, seja sexual de autoridade ou de consciência. Conforme o referi no início, este livro tem a ambição de fazer parte de uma história, a de uma escuta do que o “Espírito diz às Igrejas” (Ap 3, 22) do nosso tempo.


Vejo um Ramo de Amendoeira

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
AOS PARTICIPANTES NA CONFERÊNCIA EUROPEIA DA JUVENTUDE

[PRAGA, 11-13 de JULHO DE 2022]

Queridos jovens!

Estou muito contente com esta possibilidade de me dirigir a vós que tomais parte na Conferência Europeia da Juventude. Tenho algo a dizer-vos que me está muito a peito. Antes de mais nada, quero convidar-vos a transformar o «Velho Continente» num «continente novo», e isto só é possível convosco. A vossa geração apresenta-se dotada de particulares recursos – sois jovens atentos, menos ideologizados, habituados a estudar noutros países europeus, abertos a experiências de voluntariado, sensíveis às temáticas do meio-ambiente –, por isso sinto que há uma esperança.

Vós, jovens europeus, tendes uma missão importante. Se outrora os vossos antepassados se aventuraram para outros continentes, nem sempre por interesses nobres, agora compete-vos a vós apresentar ao mundo um novo rosto da Europa.

Quanto à origem do nome «Europa», ainda não há uma certeza. De entre as várias hipóteses, há uma que é particularmente sugestiva: o nome derivaria da expressão eurús op, ou seja, «vista grande», «amplo olhar», que evoca a capacidade de olhar mais além. Figura mitológica que fizera os deuses enamorarem-se dela, Europa era chamada «a donzela dos olhos grandes». Apraz-me pensar-vos assim, jovens europeus, como pessoas de olhar amplo, aberto, capazes de ver mais além.

Talvez tenhais já ouvido falar da iniciativa, lançada em setembro de 2019, designada Pacto Educativo Global. Trata-se duma aliança entre os educadores de todo o mundo com a finalidade de educar as gerações jovens para a fraternidade. Mas, vendo como está a andar este mundo guiado por adultos e idosos, parece que deveríeis antes ser vós a educar os adultos para a fraternidade e a convivência pacífica!

Entre os primeiros compromissos do Pacto Educativo, aparece o de ouvir as crianças, os adolescentes e os jovens. Por isso, queridos jovens, fazei ouvir a vossa voz! Se não vos ouvirem, gritai ainda mais forte, fazei rumor, tendes todo o direito de dar a vossa opinião sobre o que diz respeito ao vosso futuro. Encorajo-vos a ser empreendedores, criativos e críticos: como sabeis, quando um professor tem alunos exigentes, críticos e atentos nas aulas, sente-se estimulado a empenhar-se mais e preparar melhor as lições.

Neste Pacto, não há «remetentes» e «destinatários», mas todos somos chamados a educar-nos em comunhão, como sugeria o pedagogo brasileiro Paulo Freire. Portanto, não tenhais medo de ser exigentes: tendes o direito de receber o melhor para vós próprios, tal como os vossos educadores têm o dever de dar o melhor de si mesmos.

De entre as várias propostas do Pacto Educativo Global, recordo duas que vi referidas também na vossa Conferência.

A primeira é «abrir-se ao acolhimento», ou seja, o valor da inclusão: não vos deixeis arrastar por ideologias míopes que pretendem mostrar-vos o outro, o diverso como um inimigo. O outro é uma riqueza. A experiência de milhões de estudantes europeus que aderiram ao «Projeto Erasmus» atesta que o encontro entre indivíduos de povos diversos ajuda a abrir os olhos, a mente e o coração. É bom ter «olhos grandes» para se abrir aos outros. Nenhuma discriminação contra ninguém, por nenhuma razão. Sejamos solidários com todos; não só com quem se parece comigo ou mostra uma imagem de sucesso, mas também com aqueles que sofrem, independentemente da sua nacionalidade e condição social. Não esqueçamos que, no passado, milhões de europeus tiveram de emigrar para outros continentes em busca de um futuro. Também eu sou filho de italianos que emigraram para a Argentina.

O objetivo principal do Pacto Educativo é educar a todos para uma vida mais fraterna, baseada, não na competitividade, mas na solidariedade. Que a vossa maior aspiração, queridos jovens, não seja a de entrar nos ambientes formativos de elite, aonde pode aceder apenas quem tem muito dinheiro. Frequentemente tais instituições têm interesse em manter o estado em que as coisas se encontram, em formar pessoas que garantam o funcionamento do sistema assim como está. Ao contrário, há que apreciar as realidades que unem a qualidade formativa com o serviço ao próximo, sabendo que a finalidade da educação é o crescimento da pessoa orientada para o bem comum. Serão estas experiências solidárias que hão de mudar o mundo; não as experiências «exclusivas» (e de exclusão) das escolas de elite. Excelência sim, mas para todos! Não apenas para alguns...

Proponho-vos a leitura da Encíclica Fratelli tutti (3 de outubro de 2020) e o Documento sobre a Fraternidade Humana (4 de fevereiro de 2019) que assinei em conjunto com o Grande Imã de Al-Azhar. Sei que muitas universidades e escolas muçulmanas estão a aprofundar, com interesse, estes textos e espero que possam entusiasmar-vos também a vós. Educação, pois, não só para «se conhecer a si próprio», mas também para conhecer o outro.

A outra proposta que quero recordar diz respeito ao cuidado pela casa comum.

Também aqui notei com prazer que, enquanto as gerações anteriores falavam muito e concluíam pouco, vós, ao contrário, sois capazes de iniciativas concretas. Por isso digo que esta pode ser a ocasião boa. Se não conseguirdes vós dar uma viragem decisiva a esta tendência autodestrutiva, será difícil que o consigam outros no futuro. Não vos deixeis seduzir pelas sereias que propõem uma vida de luxo reservada a uma pequena porção do mundo: oxalá tenhais «olhos grandes» para ver todo o resto da humanidade, que não se reduz à pequena Europa; oxalá aspireis a uma vida digna, mas sóbria, sem luxo nem desperdícios, para que todos possam habitar o mundo com dignidade. É urgente reduzir o consumo não só de combustíveis fósseis, mas também de muitas coisas supérfluas; e de igual modo é conveniente, em certas regiões do mundo, consumir menos carne: também isto pode ajudar a salvar o meio ambiente.

A propósito, far-vos-á bem – se é que ainda não o fizestes – ler a Encíclica Laudato si’, onde crentes e não-crentes têm encontrado sólidas motivações para se empenhar a favor duma ecologia integral. Educar, pois, para conhecer, além de si mesmo e do outro, também a criação.

Queridos jovens, ao mesmo tempo que estais a realizar a vossa Conferência, na Ucrânia (que não é União Europeia, mas é Europa), combate-se uma guerra absurda. Esta, juntando-se aos numerosos conflitos em curso em diversas regiões do mundo, torna ainda mais urgente um Pacto Educativo que a todos instrua para a fraternidade.

A ideia duma Europa Unida brotou dum forte anseio de paz, depois de tantas guerras travadas no Continente, e levou a um período de paz que durou setenta anos. Agora todos nos devemos empenhar para pôr fim a esta loucura da guerra, onde, como de costume, uns poucos poderosos decidem e mandam a combater e morrer milhares de jovens. Em casos como este, é legítimo rebelar-se!

Disse alguém que, se o mundo fosse governado pelas mulheres, não haveria tantas guerras, porque elas que têm a missão de dar a vida não podem abraçar opções de morte. De modo semelhante apraz-me pensar que, se o mundo fosse governado pelos jovens, não haveria tantas guerras: aqueles que têm toda a vida diante de si, não a querem esfrangalhar e malbaratar, mas vivê-la em plenitude.

Queria convidar-vos a conhecer a figura extraordinária de um jovem objetor, um jovem europeu dos «olhos grandes», que lutou contra o nazismo durante a II Guerra Mundial, Franz Jägerstätter, proclamado Beato pelo Papa Bento XVI. Franz era um jovem agricultor austríaco que, devido à sua fé católica, fez objeção de consciência perante a ordem de jurar fidelidade a Hitler e ir para a guerra. Franz era um jovem alegre, simpático, descontraído que ao crescer, graças também à sua esposa Francisca com quem teve três filhos, mudou a sua vida e maturou convicções profundas. Quando foi chamado às armas, recusou-se, porque sentia injusto matar vidas inocentes. Esta sua decisão desencadeou reações duras contra ele da parte da sua comunidade, do Presidente da Câmara, e mesmo de familiares. Um sacerdote tentou dissuadi-lo para bem da sua família. Todos estavam contra ele, exceto a sua esposa Francisca, a qual, embora ciente dos perigos tremendos que corriam, sempre esteve da parte do marido e apoiou-o até ao fim. Não obstante as adulações e as torturas, Franz preferiu ser morto do que matar. Considerou a guerra totalmente injustificada. Se todos os jovens chamados às armas tivessem feito como ele, Hitler não teria conseguido realizar os seus planos diabólicos. Para vencer, o mal precisa de cúmplices.

Franz Jägerstätter foi morto na prisão, onde se encontrava encarcerado também o seu coetâneo Dietrich Bonhoeffer, jovem teólogo luterano alemão, antinazista, que conheceu o mesmo trágico fim.

Estes dois jovens «dos olhos grandes» foram mortos, porque se mantiveram fiéis até ao fim aos ideais da sua fé. E aqui está a quarta dimensão da educação: depois do conhecimento de si mesmo, dos outros e da criação, temos enfim o conhecimento do princípio e do fim de tudo. Queridos jovens europeus, convido-vos a olhar mais além, para o Alto, procurando sempre o sentido da vossa vida, a vossa origem, o fim, a Verdade, porque não se vive se não se busca a Verdade. Caminhai com os pés bem assentes na terra, mas com um olhar amplo, aberto para o horizonte, para o céu. Poder-vos-á ajudar nisto a leitura da Exortação apostólica Christus vivit, dirigida especialmente aos jovens. E depois convido-vos a todos para a Jornada Mundial da Juventude do próximo ano em Lisboa, onde podereis partilhar os vossos sonhos mais belos com jovens de todo o mundo.

E quero concluir com um voto: que sejais jovens generativos, capazes de gerar novas ideias, novas visões do mundo, da economia, da política, da convivência social; e não só novas ideias, mas sobretudo novos caminhos para serem percorridos juntos. E que sejais generosos também em gerar novas vidas, sempre e só por amor! Amor ao vosso marido e à vossa esposa, amor à família, amor aos vossos filhos, e também amor à Europa a fim de ser, para todos, terra de paz, liberdade e dignidade.

Bom encontro e bom caminho! De coração vos envio a minha saudação e a minha bênção. E peço-vos, por favor, que rezeis por mim.

Roma, São João de Latrão, 6 de julho de 2022.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Diocese do Porto

Plano Diocesano de Pastoral 2022|2023

Abraça o presente!

Juntos por um caminho novo.

I. Pórtico: para um novo estilo pastoral

A nível pastoral, a nossa Diocese do Porto está a viver um triénio sob a designação genérica: “Juntos por um caminho novo”. Cada uma destas palavras constitui, por si, um verdadeiro programa: “juntos” exige escuta e partilha capazes de gerar a unidade e fazer de nós uma Diocese coesa na dinâmica evangelizadora; a noção do “caminho”, possibilidade sempre em aberto, remete para um percurso sinodal, lado a lado, com quem é dotado de «boas pernas» para andar, mas também com aqueles que se cansaram ou até desistiram da caminhada e que nos merecem o maior respeito e uma enorme solicitude; enfim, a criatividade implícita no adjetivo “novo” alerta-nos para a certeza de que os caminhos de ontem já não servem para conduzir uma enorme multidão que obriga a novos critérios de percurso, muitas vezes desconhecidos para nós, mas que temos de descobrir, ainda que tateando na noite.

Neste segundo ano, as grandes coordenadas do nosso Plano andarão à volta do tema da escuta e da hospitalidade. Sabemos bem quais os motivos diretos: o Sínodo em curso e o acolhimento hospitaleiro de milhares de jovens que por aqui passarão rumo à Jornada Mundial da Juventude (JMJ), bem como os símbolos da mesma, durante o mês de outubro de 2022. O que nos vai empenhar muito. Motiva-nos o exemplo da Santíssima Virgem Maria que, ao saber da gravidez da sua prima, partiu, saudou, abraçou e fez morada na família de Santa Isabel e Zacarias. Porém, ainda que estas razões não existissem, a escuta e o acolhimento já se imporiam por si, como imagens de marca da Igreja de Jesus Cristo.

Não é aqui o lugar para fazer um longo discurso sobre isto. Mas, de facto, sabemos que o passado próximo eclesial, o que nos restava do regime de cristandade, se caracterizava por uma forte dimensão coletiva: o centro repousava na noção genérica do “povo” e não da pessoa na sua individualidade. A pastoral consistia numa «condução» do povo, mas sem se preocupar muito com as necessidades específicas de cada um. Entretanto, as coisas mudaram: a nossa cultura contemporânea ancorou-se nos direitos humanos, de base fortemente individualista, e as pessoas começaram mesmo a valorizar a sua «diferença» específica, critério de identidade. E a reclamar atenção, escuta, acolhimento, simpatia, disponibilidade.

Este era o modelo de Jesus. Embora fosse especialista na liderança com multidões, o que mais nos chama a atenção é o tempo disponibilizado em favor dos «proscritos», o acolhimento dos «infiéis» e estrangeiros, a palavra individualizada dirigida aos «pecadores», os gestos de cura feitos em benefício de pessoas em situação dramática que Ele Se esforçava por conhecer. A única exceção era para com os autossuficientes fariseus e doutores da lei: porque esses, em nome da religião, desprezavam a pessoa, a única “imagem e semelhança” de Deus à face da Terra.

Nesta linha, formemo-nos para a escuta e para o acolhimento. Vejamos nestas atitudes as condições básicas para um renovado estilo sinodal da nossa pastoral. E da maneira de ser de Deus. Criemos estruturas para lhes dar corpo. Pelo menos nas vilas, cidades e centros populacionais maiores, ou por onde costumam passar mais pessoas, seria maravilhoso se, nas igrejas, estivesse alguém disponível para acolher quem chega, para escutar quem deseja. Poderiam ser leigos devidamente formados, com algum identificativo, em local visível e com condições de privacidade, disponíveis não tanto para falar, mas mais para acolher na simpatia e na amabilidade. Por exemplo, membros do Conselho Paroquial Pastoral – e outros! – de acordo com um específico horário.

Creio que, nas nossas circunstâncias atuais, este poderá ser um verdadeiro ministério confiado a pessoas que a ele se queiram dedicar de maneira permanente e primordial. Pelo menos, os vários «Conselhos» diocesanos poderiam refletir sobre essa possibilidade. Mas, mesmo que não venha a ser «instituído», parece importantíssimo, a exemplo do que encontramos no centro da Europa.

Do mesmo modo, peço aos fiéis leigos que sejam “parceiros fiáveis em percursos de diálogo social, cura, reconciliação, inclusão e participação, reconstrução da democracia, promoção da fraternidade e da amizade social” (Doc. Preparatório do Sínodo, Introdução, n.º 2). Para tal, muito pode contribuir a inserção em movimentos de espiritualidade e grupos de apostolado. O Papa Bento XVI, na peregrinação a Fátima, em maio de 2010, testemunhava-nos: “Confesso a agradável surpresa que tive ao contactar com os movimentos e novas comunidades eclesiais. Observando-os, tive a alegria e a graça de ver como, num momento de fadiga da Igreja, num momento em que se falava de «inverno da Igreja», o Espírito Santo criava uma nova primavera, fazendo despertar nos jovens e adultos a alegria de serem cristãos, de viverem na Igreja”. Porquê? Porque no seu interior respira-se acolhimento, simpatia, familiaridade, capacidade de cada um exprimir os seus próprios sentimentos. Ora, a nossa Diocese do Porto tem constituído a porta de entrada de muitos movimentos e obras em Portugal. Não a fechemos e continuemos, no futuro, a dinâmica que nos vem do passado.

Desejo ardentemente que este novo ano pastoral nos capacite para fundamentarmos a pastoral nas atitudes humanamente gratificantes da escuta mútua e do acolhimento cordial. Em todos os âmbitos e setores: das estruturas territoriais à catequese, de todas as obras aos cristãos na sua individualidade. E que intentemos dar corpo e organização a essa única maneira de ser discípulo do Senhor.

Que o Espírito de Deus, que faz “novas todas as coisas” (Ap 21, 5), renove o nosso coração, a nossa mente e os nossos critérios pastorais. E abençoe a nossa Igreja do Porto que muito deseja corresponder sempre mais ao seu plano salvador.

+ Manuel Linda, Bispo do Porto

+ Pio Alves, Bispo Auxiliar do Porto

+ Armando Esteves, Bispo Auxiliar do Porto

+ Vitorino Soares, Bispo Auxiliar do Porto


Vejo um Ramo de Amendoeira

X ENCONTRO MUNDIAL DAS FAMÍLIAS

DISCURSO DO PAPA FRANCISCO
NO FESTIVAL DAS FAMÍLIAS

Sala Paulo VI
Quarta-feira, 22 de junho de 2022

Queridas famílias!

Sinto-me feliz por estar aqui convosco, depois dos acontecimentos que transtornaram as nossas vidas nos últimos tempos: primeiro, a pandemia e, agora, a guerra na Europa, que veio juntar-se às outras guerras que afligem a família humana.

Agradeço ao Cardeal Farrell, ao Cardeal Donatis e a todos os colaboradores tanto do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida como da Diocese de Roma, cuja dedicação tornou possível este encontro.

Depois quero agradecer às famílias presentes, vindas de diversas partes do mundo, e de modo particular àquelas que nos deram o seu testemunho: Obrigado, de coração! Não é fácil falar a um público tão amplo acerca da própria vida, das dificuldades ou dos dons, maravilhosos mas íntimos e pessoais, que recebestes do Senhor. Os vossos testemunhos serviram de «amplificadores»: destes voz à experiência de tantas famílias no mundo que, como vós, vivem as mesmas alegrias e inquietações, as mesmas tribulações e esperanças.

Por isso me dirijo, agora, quer a vós aqui presentes quer aos esposos e famílias que nos escutam em todo o mundo. Desejo fazer-vos sentir a minha proximidade justamente onde vos encontrais, na vossa condição concreta de vida. E este é precisamente o meu primeiro encorajamento: começai da vossa situação real e, a partir desta, tentai caminhar juntos; juntos como esposos, juntos na vossa família, juntos com as outras famílias, juntos com a Igreja. Penso na parábola do bom samaritano que encontra pela estrada um homem ferido: aproxima-se dele, toma-o ao seu cuidado e ajuda-o a retomar o caminho. Queria que a Igreja fosse precisamente isto para vós: um bom samaritano que se faz próximo, se aproxima de vós e vos ajuda a continuar o vosso caminho, vos ajuda a dar «um passo mais», nem que seja pequeno. E não esqueçais que a proximidade é o estilo de Deus: proximidade, compaixão, ternura. Este é o estilo de Deus. E o tal «passo mais» a dar juntos pode tomar várias direções, que tento agora indicar-vos retomando os testemunhos que ouvimos.

1. «Um passo mais» rumo ao matrimónio

Agradeço-vos, Luigi e Serena, por terdes contado com grande honestidade a vossa experiência, com as suas dificuldades e aspirações. Penso que é doloroso para todos aquilo que contastes: «Não conseguimos encontrar uma comunidade que, de braços abertos, nos apoiasse assim como somos». Isto é penoso; deve fazer-nos refletir. Temos de nos converter e caminhar como Igreja acolhedora, para que as nossas dioceses e paróquias se tornem cada vez mais «comunidades que, de braços abertos, apoiem a todos». Há tanta necessidade disso, nesta cultura da indiferença! Providencialmente, vós encontrastes apoio noutras famílias, que, na realidade, são Igrejas em miniatura.

Entretanto veio-me consolar a explicação do motivo que vos levou a batizar os vossos filhos. Dissestes uma frase muito linda: «Ainda que empregássemos os mais nobres esforços humanos, não nos bastaríamos a nós mesmos». É verdade! Podemos ter os mais belos sonhos, os mais elevados ideais, mas no fim embatemos também nos nossos limites – revela sabedoria conhecer os próprios limites –, limites que não superamos sozinhos, mas abrindo-nos ao Pai, ao seu amor, à sua graça. Este é o significado dos sacramentos do Batismo e do Matrimónio: são a ajuda concreta que Deus nos dá para não nos deixar sozinhos, porque «não nos bastaríamos a nós mesmos». Fez-me muito bem ouvir esta frase: «não nos bastaríamos a nós mesmos».

Podemos dizer que, quando um homem e uma mulher se apaixonam, Deus oferece-lhes um presente: o matrimónio. Um dom maravilhoso, que contém em si a força do amor divino: forte, duradouro, fiel, capaz de se restabelecer depois de qualquer fracasso ou fragilidade. O matrimónio não é uma formalidade a ser cumprida. Não vos casais para ser católicos «com a etiqueta», para obedecer a uma regra ou porque a Igreja assim o diz ou então para fazer uma festa. Não! Casais-vos, porque quereis fundar o matrimónio no amor de Cristo, que é firme como uma rocha. No matrimónio, Cristo dá-Se a vós para terdes a força de vos dar um ao outro. Por isso, coragem! A vida familiar não é uma missão impossível. Com a graça do sacramento, Deus torna-a uma viagem maravilhosa que se há de fazer juntamente com Ele; nunca sozinhos. A família não é um ideal, belo mas na realidade inatingível. Deus garante a sua presença no matrimónio e na família, não só no dia do casamento, mas ao longo da vida inteira. Apoia-vos todos os dias no vosso caminho.

2. «Um passo mais» para abraçar a cruz.

Agradeço-vos, Roberto e Maria Anselma, por nos terdes contado a história comovente da vossa família, particularmente de Chiara. Falastes-nos da cruz, que faz parte da vida de cada pessoa e de cada família. E destes testemunho de que a dura cruz da doença e da morte de Chiara não destruiu a família nem eliminou a serenidade e a paz dos vossos corações. Isto mesmo é visível também nos vossos olhos. Não sois pessoas abatidas, desesperadas e zangadas com a vida. Pelo contrário! De vós transparece uma grande serenidade e uma grande fé. Dissestes: «A serenidade de Chiara abriu-nos uma janela para a eternidade». Ver como ela viveu a prova da doença ajudou-vos a levantar o olhar, não ficando prisioneiros da tribulação, mas abrindo-vos para algo maior: os desígnios misteriosos de Deus, a eternidade, o Céu. Obrigado por este testemunho de fé! Citastes também esta frase que Chiara dizia: «Deus coloca a verdade em cada um de nós, não é possível retorcê-la». No coração de Chiara, Deus colocou a verdade duma vida santa e, por isso, quis salvar a vida do seu filho à custa da própria vida. E como esposa, ao lado do marido, percorreu o caminho do Evangelho da família de forma simples e espontânea. No coração de Chiara, entrou também a verdade da cruz como dom de si mesma: uma vida doada à sua família, à Igreja, ao mundo inteiro. Precisamos sempre de ter diante dos olhos grandes exemplos: sirva-nos Chiara de inspiração no nosso caminho de santidade, e que o Senhor sustente e torne fecundas as variadas cruzes que as famílias carregam.

3. «Um passo mais» rumo ao perdão

Paul e Germaine, tivestes a coragem de contar a crise que vivestes no vosso matrimónio. Agradeço-vos por isso. Com efeito, há crises em todo o casamento: há que o reconhecer, devemos fazê-lo saber e procurar o caminho para as resolver. E não procurastes suavizar a realidade; mas chamastes pelo nome a todas as causas da crise: a falta de sinceridade, a infidelidade, o mau uso do dinheiro, os ídolos do poder e da carreira, o rancor crescente e o endurecimento do coração. Acho que, enquanto faláveis, todos revivemos a dolorosa experiência sentida perante situações semelhantes de famílias divididas. Ver a família desagregar-se é um drama que não nos pode deixar indiferentes. O sorriso dos esposos desaparece, os filhos sentem-se perdidos, de todos desaparece a serenidade. E, na maioria dos casos, não se sabe o que fazer.

Por isso, a vossa história transmite esperança. Paul disse que, justamente no momento mais escuro da crise, o Senhor respondeu ao desejo mais profundo do seu coração e salvou o seu casamento. É mesmo assim. O desejo que existe no fundo do coração de cada um é que o amor não acabe, que a história construída juntamente com a pessoa amada não se interrompa, que os frutos nela gerados não se percam. Todos têm este desejo. Ninguém quer um amor de «curto prazo» ou com «prazo estabelecido». E por isso sofre-se tanto, quando as falhas, as negligências e os pecados humanos fazem naufragar um casamento. Entretanto, mesmo no meio da tempestade, Deus vê o que se passa no coração. Providencialmente, vós encontrastes um grupo de leigos que se dedica precisamente às famílias. Aí começou um caminho de reaproximação e cura da vossa relação. Voltastes a falar entre vós, a abrir-vos com sinceridade, a reconhecer as culpas, a rezar juntamente com outros casais, e tudo isso levou à reconciliação e ao perdão.

O perdão, irmãos e irmãs, o perdão cura todas as feridas; o perdão é um dom que brota da graça com a qual Cristo inunda o casal e a família inteira, quando se deixa Ele agir, quando se volta para Ele. Foi muito bom terdes celebrado a vossa «festa do perdão», com os vossos filhos, renovando as promessas matrimoniais na Celebração Eucarística. Isto traz-me ao pensamento a festa que o pai organiza para o filho pródigo na parábola de Jesus (cf. Lc 15, 20-24). Só que desta vez foram os pais que se extraviaram, não o filho! Os «pais pródigos». Mas também isto é bom, revelando-se um grande testemunho para os filhos. Com efeito eles, ultrapassada a infância, apercebem-se de que os pais não são «super-heróis», não são omnipotentes e sobretudo não são perfeitos. Os vossos filhos viram em vós algo muito mais importante: viram a humildade de pedir mutuamente perdão e a força que recebestes do Senhor para vos levantar da queda. E os filhos têm verdadeiramente necessidade disto! De facto, também eles cometerão erros na vida e descobrirão que não são perfeitos; então lembrar-se-ão que o Senhor nos levanta, que todos somos pecadores perdoados, que devemos pedir perdão aos outros e por nossa vez deveremos também nós perdoar. Esta lição que de vós receberam permanecerá no seu coração para sempre. E, a nós, também nos fez bem ouvir-vos: obrigado por este testemunho de perdão! Muito obrigado!

4. «Um passo mais» rumo ao acolhimento

Agradeço-vos, Iryna e Sofia, pelo vosso testemunho. Destes voz a muitas pessoas, cuja vida foi transtornada pela guerra na Ucrânia. Em vós, vemos os rostos e as histórias de tantos homens e mulheres que tiveram de fugir da sua terra. Obrigado por não terdes perdido a fé na Providência, vendo como Deus atua em vosso favor inclusivamente através das pessoas concretas que vos fez encontrar: famílias hospitaleiras, médicos que vos ajudaram e tantas pessoas de bom coração. A guerra confrontou-vos com o cinismo e a brutalidade humana, mas encontrastes também pessoas de grande humanidade. O pior e o melhor do ser humano! É importante, para todos, não permanecer fixados no pior, mas valorizar o melhor, o bem imenso de que é capaz todo ser humano e, a partir daí, recomeçar...

Agradeço também a vós, Pietro e Erika, por terdes narrado a vossa história e pela generosidade com que acolhestes Iryna e Sofia no seio da vossa já numerosa família. Confidenciastes-nos tê-lo feito por gratidão a Deus e com espírito de fé, como um apelo do Senhor. Erika disse que o acolhimento foi uma «bênção do Céu». De facto, o acolhimento é precisamente um «carisma» das famílias, sobretudo das numerosas! Pensa-se que, numa casa onde já estão muitos, seja mais difícil acolher outros; mas na realidade não é assim, porque as famílias com muitos filhos estão treinadas para dar espaço aos outros. Conseguem sempre encontrar espaço para os outros.

E esta, no fim de contas, é a dinâmica própria da família. Na família, vive-se uma dinâmica de acolhimento, porque antes de mais nada os esposos acolheram-se mutuamente, como disseram um ao outro no dia do casamento: «Eu … recebo-te a ti …». E depois, ao trazer os filhos ao mundo, acolheram a vida de novas criaturas. E enquanto, nos contextos anónimos, quem é mais frágil acaba frequentemente rejeitado, já nas famílias é natural acolhê-lo: um filho portador duma deficiência, uma pessoa idosa necessitada de cuidados, um parente em dificuldade que não tem ninguém... E isto dá esperança. As famílias são lugares de acolhimento, e ai de nós se deixassem de existir! Ai de nós! Sem famílias acolhedoras, a sociedade tornar-se-ia fria e inabitável. Estas famílias acolhedoras e generosas são de certo modo o calor da sociedade.

5. «Um passo mais» rumo à fraternidade

Agradeço-te, Zakia, por nos teres contado a tua história. É maravilhoso e consolador ver que continua vivo aquilo que construístes juntos, tu e Luca. A vossa história nasceu e assentou na partilha de ideais muito altos, que tu assim descreveste: «Baseamos a nossa família no amor autêntico, com respeito, solidariedade e diálogo entre as nossas culturas». E nada disto se perdeu, nem mesmo depois da trágica morte de Luca. De facto, não só permanecem vivos e interpelam a consciência de muitos o exemplo e a herança espiritual de Luca, mas a própria organização que Zakia fundou de certo modo continua a sua missão. Mais, podemos dizer que a missão diplomática de Luca agora tornou-se uma «missão de paz» de toda a família. Vê-se bem, na vossa história, como se podem entrelaçar aquilo que é humano e aquilo que é religião, dando ótimos frutos. Em Zakia e Luca, encontramos a beleza do amor humano, a paixão pela vida, o altruísmo e também a fidelidade ao próprio credo e à própria tradição religiosa, fonte de inspiração e de força interior.

Na vossa família, expressa-se o ideal da fraternidade. Além de serdes marido e mulher, vivestes como irmãos na humanidade, como irmãos nas várias experiências religiosas, como irmãos no compromisso social. Também esta é uma escola que se aprende em família. Vivendo juntos com quem é diverso de mim, na família aprende-se a ser irmãos e irmãs. Aprende-se a superar divisões, preconceitos, fechamentos e a construir juntos algo grande e belo a partir daquilo que temos em comum. Exemplos vivos de fraternidade, como o de Luca e Zakia, dão-nos esperança e fazem-nos olhar com mais confiança para o nosso mundo dilacerado por divisões e inimizades. Obrigado por este exemplo de fraternidade! E não quero terminar esta lembrança de ambos, tu e Luca, sem mencionar a tua mãe. A tua mãe que está aqui e sempre te acompanhou no teu percurso: aqui vemos o bem que as sogras fazem numa família: as boas sogras, as boas mães! Agradeço-lhe por ter vindo hoje contigo.

Queridos amigos, cada uma das vossas famílias tem uma missão a cumprir no mundo, um testemunho a dar. De modo particular nós, os batizados, somos chamados a ser «uma mensagem que o Espírito Santo extrai da riqueza de Jesus Cristo e dá ao seu povo» (Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate, 21). Por isso proponho-vos que ponhais a vós mesmos esta pergunta: Qual é a palavra que o Senhor quer dizer, com a nossa vida, às pessoas que encontramos? Qual «passo mais» pede hoje à nossa família? Melhor: à minha família, pois cada um se deve interrogar sobre isto. Colocai-vos à escuta. Deixai-vos transformar por Ele, para que também vós possais transformar o mundo e torná-lo «casa» para quem tem necessidade de ser acolhido, para quem precisa de encontrar Cristo e sentir-se amado. Devemos viver com os olhos voltados para o Céu; como diziam os Beatos Maria e Luigi Beltrame Quattrocchi aos seus filhos, ao enfrentar as canseiras e as alegrias da vida, «olhemos sempre do telhado para cima».

Obrigado por terdes vindo aqui. Agradeço-vos pelo empenho com que levais por diante as vossas famílias. Avante! Com coragem, com alegria… E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim.


Vejo um Ramo de Amendoeira

O primado da realidade

P. José Frazão Correia sj | 15 Junho 2022 | in Ponto SJ

No dia 19 de maio de 2022, os diretores das revistas culturais europeias da Companhia de Jesus, rede da qual a Brotéria faz parte, reuniram-se em audiência com o Papa Francisco, em Roma. Começando por declarar que não tinha um discurso preparado, convidou os presentes a que, de forma espontânea e livre, lhe colocassem questões. «Se dialogarmos, a nossa reunião será mais rica», disse Francisco. No sítio da Brotéria, o leitor poderá encontrar a transcrição integral desse diálogo, do qual o Ponto SJ fez eco.

Dos vários temas abordados – a guerra na Ucrânia e as relações com o Patriarca Ortodoxo de Moscovo, os sinais de renovação na Igreja Católica e as posições de rejeição do Concílio Vaticano II, a evangelização em países nórdicos já sem tradição religiosa, as tensões atuais na Igreja alemã e a relação da Igreja com os jovens – destaco um. Logo no início da conversa, sendo perguntado ao Papa Francisco qual seria o significado e a missão das revistas culturais da Companhia de Jesus, recordou um ponto que lhe é particularmente caro: a ligação à realidade, à experiência e às pessoas. «Com isto quero dizer que não basta comunicar ideias: não é suficiente. Importa comunicar ideias que provenham da experiência. Isto, para mim, é muito importante. As ideias devem resultar da experiência». Depois, acrescentou: «as ideias podem discutir-se. A discussão é algo bom, mas, para mim, não é suficiente. É a realidade humana que pode ser discernida. O discernimento é o que realmente conta», é o «discernimento que leva à ação». Porque, «quando se entra no mundo das puras ideias e nos afastamos da realidade, acaba-se no ridículo». Importa, por isso, «trabalhar sobre a realidade, que é sempre superior à ideia». É ela que toca, que comove e que põe em movimento. E, «se a realidade é escandalosa, melhor ainda».

No documento programático do seu pontificado, A alegria do Evangelho (EG), de 2014, o Papa Francisco já tinha apresentado e desenvolvido esse mesmo princípio de que «a realidade é mais importante do que a ideia» (EG 231-233), juntamente com outros três primados: do tempo sobre o espaço («o tempo é superior ao espaço»), da unidade sobre o conflito («a unidade prevalece sobre o conflito»), do todo sobre a parte («o todo é superior à parte»). Em grande medida, estamos perante quatro linhas que desenham o quadro mental e orientam o modo de proceder do Papa Francisco. Em contacto atento, inteligente e discernido com a realidade, tal como se apresenta, para se deixar tocar por ela e a poder assinalar evangelicamente, é por entre essas quatro linhas, por vezes tortas ou com múltiplos nós, que procura discernir o direito da escrita de Deus e é com elas que procura que a Igreja teça hoje a sua missão, em movimento corajoso de saída, mesmo que sob o risco de se sujar.

O primado da realidade sobre a ideia não desqualifica de todo a necessidade de que as ações sejam iluminadas, as palavras interpretadas, as imagens explicadas. Se a fé não é uma teoria, não deixa de implicar e de abrir estradas ao pensamento. Se perdesse a razão perder-se-ia a si mesma. Afirmar que a “realidade é mais importante do que a ideia” não significa, por isso, negar a ideia, o conceito, o pensamento sistemático – se assim fosse, não haveria lugar para a teologia –, mas dirigir a atenção primeira para a realidade real, passando o pleonasmo, tal como se apresenta e se impõe, com o seu direito e os seus avessos, a sua complexidade e contradições, as suas particularidades e parcialidades, dinâmicas e tempos longos. Não se move, por isso, a partir de definições, declarações ou sínteses pré-estabelecidas de forma abstrata e rígida, nem se regula simplesmente pelo que seria suposto, devido, imaginado ou desejável. Afirma o Papa Francisco que é «ao serviço da captação, compreensão e condução da realidade» (EG 232) que devem estar as ideias e as elaborações conceptuais, e não o contrário. Trata-se de atenção à realidade (“captação”), de atitude de acolhimento (“compreensão”), de implicação nos processos de transformação (“condução”). Diferentes são as construções abstratas que ocultam ou que se edificam à margem ou mesmo à revelia da realidade – Francisco põe na mesma lista «os purismos angélicos, os totalitarismos do relativo, os nominalismos declaracionistas, os projetos mais formais que reais, os fundamentalismos anti-históricos, os éticos sem bondade, os intelectualismos sem sabedoria» (EG 231). Comentando os quatro princípios atrás referidos, a teóloga Stella Morra faz notar que estas são as construções que se realizam estabelecendo e confirmando um princípio. Declinam-no, depois, em geral, através de numa explicação. Por fim, corrigem a realidade onde ela não corresponde ao princípio (Deus não se cansa. A misericórdia como forma eclesial., AO: Braga, 2016, 167-173). Se virmos bem, é com este quadro mental que muitos, na Igreja, pensam a identidade eclesial, a tradição, a liturgia, a moral familiar e sexual, o ministério ordenado, etc. Tudo estaria claramente definido à partida. Bastaria conhecer – por isso, o esforço maior é posto na explicação e na aprendizagem –, deduzir, aplicar e corrigir a realidade que não se lhe conforma. A ideia, portanto, seria mais importante do que a realidade. Se a realidade não se conforma à ideia, força-se. Se resiste, é porque já está demasiado corrompida ou porque tem má vontade. Por isso, “seja anátema”.

O primado da realidade faz justiça tanto ao mistério da encarnação como à dimensão sacramental da realidade. Também nas palavras de Stella Morra, «se acreditamos na Encarnação, já não podemos ver alguma coisa sem nos lembrarmos que é habitada por Deus. Os irmãos, o mundo, a história são um modo – indireto – no qual Deus fala». Não encontramos, por isso, Deus em Si mesmo, mas, precisamente, nos irmãos, no mundo, na história, tal como são. A experiência que podemos fazer de Deus é sempre mediada pela realidade que se impõe. Esta, como diziam os antigos, é capaz de Deus: está à altura de O dizer e de mediar a Sua atuação. O Espírito, esse, «é o grande intérprete que conduz à verdade, é a ideia pensada e a palavra dita acerca da realidade. É o nome das coisas como elas são, não viciadas pelo meu desejo de controlo e pela minha possibilidade de manipular».

Cabe assumir a realidade e o mistério divino que age nela como critério, «com olhos que escutam», expressão usada pelo Papa Francisco na nota que enviou à La Civiltà Cattolica, em 2020, por ocasião do 170º aniversário dessa revista. Escutar bem o mundo para melhor escutar a Palavra de Deus e mais adequadamente a apresentar, assumindo o nome das coisas como elas são, o lugar real onde se está, os processos pessoais e culturais que atravessamos e nos atravessam, a matéria da vida e o corpo da história por onde passa o Espírito do Senhor Ressuscitado. Paralelamente, cabe assumir o critério «de uma Palavra já encarnada e sempre procurando encarnar-se» (EG 233). Como estará, então, Deus a agir na realidade e quais serão os sinais que os nossos tempos estarão a enviar à Igreja, através dos quais Deus lhe fala, e que lhe cabe, por isso, hospedar com abertura, descrever com atenção, interpretar com juízo reto, discernir em liberdade? Terá algo de bom e de necessário – de evangélico – a colher, por exemplo, da sensibilidade do nosso tempo à pluralidade e à diferença, da contestação da hierarquia dos sexos ou das lutas pela igualdade de género? Para onde poderão apontar os movimentos femininos e as gerações jovens? O que diz à Igreja a arte contemporânea, as inquietações existenciais de hoje, novas sedes e buscas espirituais? O que diz dela a ferida dos abusos sexuais, a falta de reconhecimento da pertinência da fé para a vida, as igrejas vazias? Como a interpelam as múltiplas ofensas à humanidade que partilhamos e à coesão social das nossas sociedades, à casa comum que habitamos, ao futuro que deixaremos em herança às gerações vindouras? Como poderá esta atitude de hospitalidade generosa e arriscada – o hóspede pode ser hostil, a proximidade tem os seus riscos – alargar, aprofundar, elevar a leitura que a Igreja faz do Evangelho? E a que releitura da tradição e a que exercício de tradução, talvez mais rico, mais completo, mais profundo, poderá conduzir, por exemplo, no campo das práticas e da participação litúrgica, das linguagens pastorais, da compreensão dos mistérios e dos ministérios, também do ministério ordenado, do exercício da autoridade, da organização eclesial?

Levar a sério o sublinhado do Papa Francisco de que a realidade é mais importante do que a ideia, sendo ela que se discerne em vista da ação, passará, em concreto, por não nos furtarmos à exigência de questões como estas, entre tantas outras – o caminho mais fácil costuma ser fazer de conta, ficar na superfície ou adiar, acusar a realidade, diminuir os outros, repetir frases feitas e insistir em práticas vazias. Será uma questão de tato, literalmente de ser tocados e de tocar, com a coragem, a inteligência e a paciência de quem se expõe ao Espírito a agir nos tempos e nos lugares, “o grande intérprete que conduz à verdade”. É a partir da realidade que o Espírito fala às Igrejas. À Igreja portuguesa, o que estará a querer dizer?

Juntamente com o grande custo pelas mudanças que a realidade presente pede à Igreja, mudanças inevitáveis e de fundo, podemos acreditar sem hesitação que lhe reserva um tempo particularmente favorável e um lugar bem situado para realizar as promessas que traz consigo desde os inícios.


Vejo um Ramo de Amendoeira

CARTA ÀS FAMÍLIAS

Caras Famílias da nossa Diocese do Porto,

Saúdo-vos muito afetuosamente e apresento-vos os mais calorosos cumprimentos.

Esta época que nos é dado viver, maravilhosa em muitos aspetos, duvida das grandes instituições da humanidade, incluindo a mais básica e estruturante, a família. Porém, não obstante as dificuldades e os sacrifícios típicos de toda a existência humana, a família deve ser sempre fonte de alegria: é no interior da família que sentis o amparo da outra parte, do marido ou da esposa; que viveis um amor intenso e de felicidade; que sonhais e programais; que decidis em conjunto as melhores formas de resolver as problemáticas da vida; que gerais vidas e as colocais no mundo, com um misto de espanto e de muito sonho; que vedes crescer os filhos e os inseris na sociedade e na Igreja; que os educais na escolarização e na fé; enfim, sentis-vos realmente colaboradores de Deus na obra da Criação e de fazer este mundo mais belo no amor, nas novas vidas com sentido e na abertura à esperança e ao futuro.

Reparai neste processo: uma mulher e um homem que deixam a família em que viviam, a dos pais e irmãos, e se abrigam na intimidade e serenidade de um novo lar. Lá acontecem os grandes momentos que tecem a existência: geram os filhos, criam-nos, educam-nos, dialogam à procura dos melhores caminhos a seguir, gerem os conflitos, celebram os momentos de alegria e, porventura, também abafam um ou outro soluço e limpam algumas lágrimas. Do lar nasce também uma relação de abertura ao exterior, seja na relação com as estruturas do mundo, seja na participação da vida da comunidade da fé, concretamente da Paróquia.

Por isso a Igreja pede que, na amizade e na dedicação, cada família se ligue a outras famílias para lhes levar um gesto de ânimo, uma palavra de conforto nas situações difíceis, uma ajuda quando tudo parece que falha. E também para as evangelizar. Sim, é preciso ajudá-las a abrirem-se à fé que dá sentido à vida, é preciso fazer-lhes ver que a prática religiosa liberta, é preciso fazer-lhes compreender que há valores humanos e cristãos que só se transmitem na catequese e, se os seus filhos a não frequentarem, vão menos preparados para o mundo complexo e para a vida ativa. Peço-vos, pois, que partilheis com as outras famílias os muitos dons que Deus vos concede. A começar pelo dom da fé. Dedicai-vos aos outros.

Daqui a poucos dias, vai celebrar-se, em Roma, com o Papa Francisco, o 10º Encontro Mundial das Famílias. Nós associamo-nos, aqui no Porto, com vários atos; convido-vos, em especial, para o grande encontro em Vilar no sábado 25 de junho, com o tema e mote: “O Amor na família: vocação e caminho de santidade”.

Sim, caras famílias, o amor é possível e necessário. Apresentemos ao mundo o amor como a salvação da humanidade no Deus que o Apóstolo definiu como amor: “Deus é amor” (1 Jo 4, 8). Por isso é que todos somos chamados ao amor. E porque o amor humano é participação no amor de Deus, aí é que se constrói santidade.

Caras famílias, rezo por vós. Rezai também por mim. Tenho muita admiração e confiança nas famílias crentes da nossa Diocese! Em vós! Deus vos ajude a cumprir integralmente a vossa alta e difícil missão. E que Ele vos abençoe e vos conceda muita alegria e felicidade.

+ Manuel, Bispo do Porto


Vejo um Ramo de Amendoeira

(Continuação da parte transcrita na secção Ninguém Nasce Cristão)

“O sentido de resposta é a chave de compreensão da minha vida”

Especial entrevista ao P. António Vaz Pinto

Rita Carvalho | 2 Junho 2022 | in Ponto SJ

Um espírito arquitetónico e de construtor. É assim que, aos 80 anos, o P. António Vaz Pinto define o traço comum da sua vida, na qual ergueu várias obras para responder a necessidades. Neste dia do seu aniversário, uma entrevista de vida.

Como foram os primeiros anos de padre?

A ideia de virmos a fundar um centro universitário já existia nessa altura, com o P. Vasco Pinto Magalhães, éramos grandes amigos, que entrou na Companhia na mesma semana do que eu. Aliás, foi muito engraçado porque eu tomei a decisão de entrar e convidei cerca de 30 pessoas para minha casa para me despedir. Disse: ‘Vasco, vem cá a casa despedir-te porque eu vou para jesuíta’. E ele: ‘Vais? Olha, é que eu também vou!’ Vivemos juntos desde o primeiro ano no Colégio São João de Brito e nunca trocamos uma palavra sobre isto.

Nas conversas que vínhamos tendo, eu e o P. Vasco, que vínhamos do meio universitário, tínhamos consciência das carências enormes neste meio. Quer se goste ou não, o futuro passa pela universidade. O que havia nesse tempo era o Partido Comunista e a Juventude Universitária Católica (JUC), com belíssimas figuras, – Marcelo Rebelo de Sousa, António Guterres – mas não era uma presença suficiente. A ideia de fundar um centro com a nossa espiritualidade no meio da universidade já nos acompanhava, a mim, sobretudo. O P. Vasco, no início, estava um bocadinho renitente, depois foi-se aproximando, e curiosamente, por uma questão de organização de estudos, eu fiquei pronto um ano mais cedo do que ele. Mas não ia fundar um centro com uma pessoa só. O P. Alberto Brito, que é meu primo e ia um ano à minha frente, tinha sido já nomeado mestre de noviços, mas não tinha ainda noviços. Falei com ele e com o Provincial que disse: ‘Muito bem, se ele estiver disposto, tenho muito gosto’. Por isso, quem realmente iniciou em Coimbra foi o P. Alberto e eu e o P. Vasco estava na cabeça e no coração, mas só no segundo ano nos juntamos os três. E fizemos essa obra que ficou de matriz para os centros universitários.

E como foi começar do zero, literalmente pelas paredes?

Paredes poucas… Tivemos a sorte de ficar com uma casa, mas que entrava água pelo telhado, sem janelas, sem condições, muitíssimo degradada. Não conhecíamos ninguém, foi pesca à linha, andar a ver as pessoas, ir os lares universitários. Havia também o Instituto de Justiça e Paz, (sucessor de uma coisa que teve muita importância na primeira metade do século XX que é o Centro da Democracia Cristã, onde andou Salazar e o cardeal Cerejeira), onde nós íamos almoçar e jantar para tomar contacto com os universitários. Nós vínhamos todos fresquinhos, bem-dispostos, e as coisas foram crescendo sempre com a mesma lógica: responder às necessidades dos que se iam aproximando de nós.

E foi uma lufada de ar fresco na pastoral de Coimbra?

Foi, foi, dávamo-nos muito bem com a diocese, os bispos, o clero. Foi de facto uma experiência muito boa, marcante, e também muito apreciada ao nível da Província. Entretanto, teoricamente, o Noviciado estava em Soutelo e começou-se a pensar que era preciso uma comunidade que o envolvesse. Então, transferiu-se provisoriamente para Coimbra.

No seu livro sublinha muito a importância da vida comunitária, o facto de os três terem uma ligação muito forte, rezarem muito em conjunto, terem um discernimento conjunto.

É curioso, pois agora em Évora, onde estou, o esquema mantém-se, através do P. Alberto, que estava lá em Coimbra nessa altura. Tínhamos todas as semanas a reunião comunitária, com oração, partilha, missa, havia uma vida comunitária. De início, nem tínhamos ninguém que nos preparasse os almoços e jantares, íamos às compras, fazíamos essas coisas todas. Isso deu-nos uma coesão enorme. Estávamos sempre muito disponíveis: ‘É preciso ir ali, quem é que vai?’ Não tínhamos coutadas, embora tivéssemos especializações – pois uns têm mais jeito para uma coisa do que para outra – que tentávamos respeitar. Era uma vida com uma vida comunitária muito intensa, mas muito flexível e leve.

Queria voltar um pouco atrás cronologicamente. Quando foi ordenado padre voltou para Lisboa e em Portugal vivia-se o 25 de abril. Como foram esses primeiros tempos de padre, que teve intervenção cívica, que coisas fez nesta altura?

Eu estava em Frankfurt nessa altura e tinha sempre dificuldade em acordar. Havia um suíço, que era um chato, que chegava lá e dizia: ‘Oito horas’, e eu virava-me para o lado. E havia um americano, muito divertido, que fazia um truque formidável: ouvia os noticiários e inventava notícias: ‘Houve um atentado contra o Papa’, e eu levantava-me logo. Até que um dia disse: ‘Houve uma revolução em Portugal’. E eu respondi: ‘É pá, já é a terceira revolução em Portugal…’ Mas desta vez era mesmo…
É evidente que eu, como tanta gente em Portugal, sentia que o país tinha que dar uma volta colossal. Recebi o 25 de Abril com uma grande alegria e esperança. Mas, passado pouco tempo, comecei a perceber que as coisas não se estavam a encaminhar muito bem e foi nessa altura que, com autorização dos meus superiores, vim para Portugal para me meter nas coisas. Transferi umas aulas para a Universidade Católica e estive em tudo: nas mocas de Rio Maior, no comício de todos os partidos, no 25 de Novembro, contactei com a esquerda e a direta. Nunca ocultei a minha identidade, era uma espécie de espectador interessado.

Viveu as coisas por dentro…

Sim. As pessoas respeitavam-me, nunca tive problemas, e vivi uns episódios caricatos. No chamado verão quente, os grandes intervenientes foram o Partido Comunista (PC) e a Igreja Católica, e a comunicação social, à exceção da Rádio Renascença, estava toda nas mãos do PC e da extrema esquerda, pelo que era muito difícil fazer-se ouvir outra voz. O Mário Soares e o Partido Socialista eram muito valentes e muito hábeis. A Igreja começou a fazer umas manifestações de protesto contra os atentados, começou em Aveiro, Coimbra e Braga, e eu lá estive. Os governantes não se atreviam a proibir uma manifestação organizada pelo bispo. Na de Braga, aquilo aqueceu muito e alguns dos extremistas, na saída, junto à Sé, passaram pela sede do PC e, mesmo com pessoas lá dentro, deitaram-lhe fogo. Fui eu que os fui libertar, impus-me às pessoas e fui eu que os safei!

Até jornalista foi nessa altura…

Sim, com coisas engraçadíssimas, até entrevistei líderes do Conselho de Revolução. Foi um período muito rico e eu vivia isso também com um certo humor. Um trágico humor. Dá-me uma certa consolação dizer isto. Uma coisa fez-me sempre impressão: como é que o PC e a extrema esquerda, que dominavam as Forças Armadas e os meios de comunicação, permitiram que se fizessem as primeiras eleições para a Assembleia Constituinte, que foi o fim da revolução. Como é que permitiram? Eles tinham capacidade para boicotar tudo. Fiquei com a suspeita de que eles estavam convencidos de que iam ter uma maioria total. Mais tarde, vim a conhecer a Zita Seabra, que era do PC e próxima do Cunhal – ela publicou o meu livro – e perguntei-lhe: ‘Vocês na altura estavam convencidos de que iam ganhar as eleições, não estavam?’ E ela: ‘Estávamos’.

Depois dessa experiência em Coimbra, onde esteve cerca de dez anos, veio para Lisboa com essa missão de construir um centro universitário semelhante?

Dados os bons resultados de Coimbra, convinha replicar o modelo. Havia duas hipóteses, um espaço na Duque de Ávila, e estes edifícios, mais deslocados (onde é o CUPAV). Eu não tive dúvidas: é para aqui que vamos, pois precisamos de uma coisa com futuro e largueza. Foi uma luta tremenda, pois isto estava arrendado à RTP, eram estúdios. Foi o fim do mundo, mas lá consegui….

Com muita persistência e conhecimentos…

Sim, muita persistência e coisas engraçadas pelo meio.

Ao contrário de Coimbra, que se calhar não tinha tanta necessidade apostólica, aqui em Lisboa existia muita, certo?

Sim, existia e o crescimento foi muito mais rápido. Um ano depois de ter começado, o CUPAV estava em pleno funcionamento, com todas as coisas de Coimbra: serões, exercícios, cursos de iniciação à fé. Era tal a carência que nós tínhamos amigos de Lisboa que iam às nossas coisas de Coimbra. Em Coimbra tinha surgido a ideia dos Leigos para o Desenvolvimento (LD), com rapazes e raparigas que tinham acabado o curso e diziam: ‘E agora, vamos fazer o quê? Ganhar dinheiro, entrar na sociedade de consumo? Podíamos fazer mais alguma coisa, pôr os nossos talentos ao serviço de populações que necessitassem e de expressão portuguesa’. Quando cheguei a Lisboa encontrei algumas dessas pessoas e outras com a mesma ideia. Por isso aqui é que surgiram os Leigos, gerados lá, mas nascidos aqui.

Como foram os primeiros tempos dos Leigos? Implicou ir para o terreno, conhecer as pessoas e necessidades?

Fui à Guiné e a São Tomé, pois Angola e Moçambique estavam em guerra. Fomos muito bem recebidos em São Tomé, mas foi tudo difícil. Os primeiros seis leigos que foram, os fundadores, souberam que iam partir no próprio dia, pois a partida foi adiada sete vezes, faltava sempre alguma coisa. Viveram meses de expectativa. No CUMN tínhamos o núcleo de 3 jesuítas e associamos logo um conjunto de animadores. No CUPAV estava sozinho, por isso o papel dos leigos foi logo de início muito forte. Há oito fundadores do CUPAV e só um é jesuíta. Desde a primeira hora que não se fez nada aqui sem eles.

Isso não foi uma relativa novidade na vida da Igreja?

Sim, mas correu tudo lindamente. Nunca houve um problema. Eu às vezes é que sou rabugento, e tal, mas faz parte…

E os outros projetos?

Pediram-me também para ficar à frente do Centro Social da Musgueira e da Rádio Renascença. Aí estive anos, ia lá várias vezes por semana, gravava muitas coisas e tinha uma voz que se ouvia em muitos sítios. Foi uma experiência jornalística muito boa.

Foi também aí que começou a ser uma voz mais requisitada para estar nos media, como comentador?

Sim. Nessa altura pôs-se também o projeto das televisões privadas…

Pois, o P. António também esteve no projeto da TVI. Mas esse não correu bem…

Eu dei força, mas não fui dos cabeças da coisa. No CUPAV fundei uma produtora de televisão, a Futuro, que produziu uma série de conteúdos religiosos, muito razoáveis, que passaram na televisão. Depois entrou-se na questão da concorrência, da economia, e estragou-se tudo.

Outra experiência foi a construção do Banco Alimentar. Como surgiu essa ideia?

Esta é uma história engraçada e quase familiar. No CUPAV reuniam-se à noite muitos grupos, como hoje, sobretudo comunidades de vida cristã (CVX). Havia um membro desse grupo que ficava muito impressionado, quando chegava às 21h15 para a reunião, ao ver sempre um homem a esgravatar no caixote do lixo. E perguntava-se o que podia fazer. Ele trabalhava em hotelaria. Aquilo ficou-me na cabeça… Havia um irmão meu, que já morreu, que também trabalhava em hotelaria, a quem perguntei: ‘Não se podia arranjar maneira de recolher as sobras dos hotéis para serem distribuídas?’ Ele foi falar com os colegas e disse que não havia nada a fazer porque não sobrava nada, distribuíam-se as sobras entre os funcionários. Um mês depois, veio ter comigo com uma revista francesa que dizia Banque Alimentaire Contra la Faim, e um número de telefone. Falou para lá e explicaram-lhe a ideia, e depois foi a França e tomou contacto com a coisa. Mas ele não tinha muitas ligações com a área social, algo que eu tinha. Arranjamos uma equipa, começámos no CUPAV e depois entraram mais pessoas e conseguiu-se um armazém. Estive desde os inícios e durante imenso tempo estive na direção do Banco Alimentar.

Portanto, uma obra que também cresceu imenso e tem um papel incrível no combate à fome em Portugal.

Formidável. Dá-me muito gosto o que se faz, os milhares de pessoas que comem devido ao Banco Alimentar.

Como é que no meio de uma vida tão intensa, com tantos desafios e responsabilidades, se mantém uma vida espiritual, sacramental e comunitária?

A vida comunitária era mais reduzida do que em Coimbra, mas almoçava sempre com a comunidade. Sempre tive a vantagem de ser notívago, tinha os grupos até às 23h30-00h00 e depois tinha o meu tempo, também de oração, até às 3 da manhã. Foi aí que escrevi os livros.

Mas é muito disciplinado…

Sim, bastante. Como não tinha que acordar muito cedo, de manhã ia à Renascença, à Musgueira. O CUPAV tinha missa diária. Tive uma vida espiritual que nunca descarrilou. E eu tenho uma coisa que gostava que outros fizessem mais do que fazem: sei dizer que não. Sempre soube dizer não. Há pessoas que dizem sim a tudo, é uma estupidez. O nosso sistema de vida não pode ser acumular, mas selecionar, senão as pessoas ficam esgotadas. Nestes anos todos, chegava a altura das férias e eu não precisava de descansar, descansava por obrigação. Às vezes vejo os mais novos, duas gerações abaixo de mim, esgotados…

Mas o P. António também tem muita energia…

Tenho, mas também me defendo. Se dissesse que sim a tudo estava tramado. Sempre deleguei muito, responsabilizo as pessoas, não ando sempre em cima delas, tenho uma supervisão das coisas. E uma relação muito fraterna e próxima. E isso faz com que as coisas não estejam todas em cima de mim. Distribuo bem a carga.

Depois deste tempo intenso, de maior exposição e contacto com os outros, foi para Braga para uma vida completamente diferente. Como foi essa mudança?

Um dia disse ao Provincial que só tinha trabalhado em centros universitários, e que sabia fazer mais coisas, não queria ficar até à morte preso nisto. Pedi-lhe que me arranjasse outra missão e, se pudesse, que não fosse em Lisboa, pois não queria ficar aqui a fazer sombra. Fui para a Comunidade Pedro Arrupe (Juniorado/Filosofado, casa em que vivem os jesuítas na segunda etapa de formação, em Braga) para ser reitor. Uma vida completamente diferente, caseira, com mais tempo para escrever, investigar, dar aulas. Mas um reitor é sobretudo um pai, no bom sentido, sem paternalismos. O que tinha era de acompanhar, estar presente, dar exemplo, contar histórias. Também fiz lá umas obras completamente disparatas, ou engraçadíssimas…

O famoso terraço?

O terraço e outra. Eu sempre tive uma lata e um descaramento total… Éramos uma comunidade grande, de 24 pessoas, e um dia toquei à porta da vizinha e disse: ‘Sabe, felizmente, temos tido muitas vocações e não cabemos bem na sala de jantar. Não quer ir viver para outro lado? Eu arranjo-lhe um sítio e a senhora vende-me isto’. E assim foi. Foi um tempo muito interessante, dei-me muito bem. Eu não tenho tempos de adaptação, onde Deus me põe eu estou bem.

E precisa apenas de 15 minutos para se preparar…

Sim. Eu tinha esse sonho de precisar só de 15 minutos para me adaptar. Mas será que preciso mesmo? Daí segui para o Porto.

E aí, antes de lançar obra, fez uma espécie de discernimento coletivo com algumas pessoas. Como foi isso?

Nós estávamos no Porto há muito tempo, mas se a parte espiritual estava bem coberta (missas, catequese, exercícios), a parte social não. Então, fizemos um conjunto de reuniões, durante 4 ou 5 meses, em que eu lançava a pergunta: ‘Se tivessem oportunidade, qual seria a maior necessidade social a resolver?’ E daí saiu o apoio aos imigrantes. Nessa altura estávamos na primeira vaga de imigração dos os ucranianos, moldavos. Comecei nesse trabalho, a Província cedeu-me um edifício e, quando já estava metido nisso, fui nomeado para Alto Comissário para as Migrações. Fiz umas exigências que foram todas cumpridas, e quis fazer a coisa como deve ser: tive de pedir licença ao Padre Geral, ao Patriarca de Lisboa, fui falar com o líder da oposição, pois eu não era de um partido nem de outro. Nessa altura fui a Timor visitar uma comunidade dos Leigos e, quando o avião pousa lá, vem o embaixador e diz: ‘Sr. P. Vaz Pinto, está aqui ao telefone o Sr. Ministro da Presidência a perguntar se pode anunciar na Assembleia da República que o senhor aceitou ser o Alto Comissário para as Migrações’. E eu: ‘Mas com todas as condições que pus?’ E ele: ‘Sim’. Eu: ‘Então, pode’. Tive um colaborador magnífico, e que o tem sido em muitas obras, o Dr. Rui Marques, juntou-se uma equipa muito boa. Estendeu-se a ação aos imigrantes a todo o país, com os CLAI (centro local de apoio ao imigrante) e os CNAI (Centro Nacional de Apoio ao Imigrante), para centralizar tudo o que o imigrante precisa: apoio, vistos, emprego, língua, etc. E mudou-se a lei da imigração. Conseguiu-se fazer uma obra que, segundo as instâncias internacionais, é notável.

Mas foi também uma grande mudança de mentalidades?

Sim, muito grande. Teve que se lutar contra muitas coisas. Estive aí três anos. Fui convidado a continuar, mas disse que não, pois tinha-me comprometido com três anos. Quem me sucedeu foi o Rui Marques. Entretanto, ainda não tinha tido as licenças para a construção do Centro São Cirilo, no Porto. Depois pude debruçar-me outra vez sobre isto e fundar o centro, que continua vigoroso. É um edifício magnífico, mas custou muito dinheiro… Aqui aconteceu uma coisa que nunca me tinha acontecido, e era um peso que eu tinha em cima das costas: larguei o São Cirilo com uma dívida colossal. Agora já está tudo pago. Senti aquilo que os miúdos devem sentir quando chegam a casa e tiram a mochila: foi um peso que saiu.

Daí veio para Lisboa para integrar a comunidade da Brotéria. Foi um tempo mais calmo e para escrever?

Sempre escrevi, mas nunca dirigi uma revista. O Provincial pediu-me e eu disse: ‘Concerteza’, mas até um bocadinho temerário, pois a revista Brotéria tem uma grande tradição, um grande nome. Por lá fiquei uma série de anos, renovei completamente o Conselho de Redação, pois aquilo estava mortiço, e pus lá leigos com muita categoria.

Foi nessa altura que se foi esboçando a Brotéria enquanto centro cultural…

Sim, essa ideia já tinha história. Um antecessor do Pedro Santana Lopes (Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa) veio falar comigo sobre uma possível colaboração com a Brotéria e fizemos um protocolo. A ideia era ser num edifício dentro da SCML, mas depois veio esta proposta e negociou-se e ficou ali num sítio privilegiado, não podia ser melhor.

E nesses tempos ficou reitor de São Roque também?

Sim, exatamente.

Como foi esse tempo de viver no centro de Lisboa, trabalhar no coração da cidade, numa igreja com uma história importantíssima para a Companhia?

Foi muito bem. Gosto muito de História, de São Roque, foi lá que celebrei a minha primeira missa. Animou-se muito, o que foi uma coisa consoladora. Mas pronto, a gente não fica para sempre e já estava na altura de partir para outro sítio e lá fui para Évora.

Como têm sido estes tempos em Évora?

Muito bem! É muito diferente, muito mais pacato e parado, não tem a grande vitalidade destes centros, mas está em expansão e crescimento.

Aos 80 anos sente que há alguma coisa importante que gostava de ter feito e que ainda não fez?

Não, não me lembro. Sempre tive uma ótima relação com a morte, nunca me assustou. A morte é a porta da ressurreição. Por isso, se me disserem que eu vou morrer amanhã, não me afeta nada, não preciso de mais de um quarto de hora. É só mudar de casa. O que acho agora é que tenho de continuar o que estou a fazer. Tive a surpresa de saber que vou receber as provas finais do segundo livro “A história de Deus comigo”. Estou a escrever uma coisa pequenina chamada “Caminhos de Santidade” e vou respondendo ao quotidiano.

Como olha para a igreja hoje, com um Papa jesuíta, em caminho sinodal? O que o anima e desanima nestes tempos?

Este Papa aborda as coisas de uma maneira muito nova e corajosa, sacode muito a Igreja. Isso provoca, como é óbvio, reações muito positivas e negativas. Acho que está a fazer uma obra formidável e que o próximo Papa já vai ter que ser papa de outra maneira. Já não é possível ser-se papa como antes deste. O estilo de vida, o não viver no palácio, marcou definitivamente este estilo e é muito mais próximo do Evangelho. Muito exigente e muito positivo.

A Igreja tem problemas de corrosão e esta coisa horrível e nojenta do abuso infantil, na qual eu suponho que estamos agora a caminhar para uma muito melhor solução. Houve falhas, mas a grande falha foi o escondimento. Estão a pagar caro. A mentalidade era outra, pensava-se ‘Claro que não se pode saber porque se se sabe é uma vergonha’… Havia esta estupidez que nos está a sair caríssima. Em todo o caso, faz-se disto uma mancha completamente desproporcionada da realidade. Mas acho que vai limpar muito a Igreja.

Só mais uma coisa… Há os pessimistas e os otimistas e há uma série deles que dizem ‘Eu sou realista, nem uma coisa nem outra’. Não sei bem onde é que eu me situo, mas mais nos otimistas do que os pessimistas. E tenho um argumento formidável. No dia em que Deus achar que isto não vale a pena, não tem cura, acaba com isto. Por isso, se isto continua é porque Deus acha que isto vale a pena. É porque tem uma visão positiva. O positivo supera o negativo.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Os jacarandás já estão em flor

Maria Luísa Ribeiro Ferreira | 27 Maio 2022 | in 7 Margens

Há meses que somos inundados com imagens terríveis de uma guerra longínqua que nos afecta a todos. Acredito que ninguém fica insensível com a visão diária dos campos devastados, das cidades em ruína, das gentes que vivem em condições terríveis mas que, apesar de tudo, conseguem manter intacta a sua dignidade de seres humanos, com gestos de coragem, de abnegação e de partilha.

No bairro em que vivo, todos os anos, pelo mês de Maio, somos surpreendidos por uma onda de beleza – os jacarandás em flor. E durante muitos dias envolve-nos esse esplendor lilás que paulatinamente se vai transformando num pó arroxeado a pintar os passeios.

Das cidades ucranianas que vamos conhecendo pelos telejornais temos uma visão devastadora e admiramo-nos com entrevistas em que as pessoas têm a coragem de falar do tudo o que lhes foi tirado, não perdendo a esperança de uma vida melhor e de uma paz que cada vez se afigura mais longínqua.

Ao ouvir estes testemunhos sou levada a recordar Etty Hillesum, alguém que em circunstâncias dramáticas de guerra e de perseguição, nunca perdeu a confiança em Deus, nem o sentido da beleza das coisas, em comunhão com a natureza.

Etty foi uma judia holandesa, durante muito tempo desconhecida do grande público. As Cartas e Diário que nos deixou relatam a situação dos judeus holandeses durante a última guerra. A sua publicação tardia [1] permitiu-nos conhecer o percurso de alguém que nas condições terríficas de um campo de refugiados, e posteriormente em Auschwitz, nunca deixou de admirar a beleza do mundo natural, conseguindo, no meio da lama extasiar-se com uma flor:

“Eu estou com os esfomeados, com os maltratados e com os moribundos, todos os dias. Mas estou também com o jasmim e com aquele pedaço de céu para lá da minha janela; há lugar para tudo na nossa vida.” (Etty Hillesum, Diário, p. 214).

Etty solidarizou-se com os perseguidos, cujo destino partilhou. Sofreu na pele a sorte trágica que recaiu sobre os judeus, primeiro como membro do Conselho Judaico, actuando em Westerbork, um campo de passagem antes do destino final em Auschwitz. Para os que com ela lidaram nesse contexto, foi uma presença luminosa, o conforto possível dado pela palavra e pelo abraço – “o coração pensante da barraca.” E no cuidado que a tudo e a todos dispensou, Etty não esqueceu a Natureza, colocando-a no centro da sua atenção. O campo, o rio, as flores, eram motivo de pequenas alegrias que constantemente lhe lembravam a presença de Deus. Um Deus que ela se propunha ajudar sendo sensível à beleza da criação e congratulando-se com ela. Por isso escreveu:

“Não te trago somente as minhas lágrimas e pressentimentos temerosos, até te trago, nesta tempestuosa e parda manhã de Domingo, jasmim perfumado. E hei de trazer-te todas as flores que encontre pelo caminho, meu Deus, e a sério que são muitas. Hás de ficar sinceramente tão bem instalado em minha casa quanto é possível. (…) Se eu estivesse encerrada numa cela acanhada e uma nuvem passasse ao longo da minha janela gradeada, então eu iria trazer-te essa nuvem, meu Deus, se pelo menos ainda tivesse forças para isso.” (Diário, p. 253)

A contemplação de uma flor proporcionava-lhe momentos de alegria, mesmo quando a encontrava num terreno cheio de lama. E por isso foi capaz de gestos gratuitos como a compra de um ramo de rosas, ao regressar a casa, depois de um dia de trabalho no campo de deportados.

* * * * *

Nos noticiários que diariamente nos informam da guerra não vemos campos de trigo nem flores – vemos feridos, famílias destroçadas, crianças e adolescentes que viajam sozinhos. Um dos meus netos que foi à Ucrânia buscar refugiados levou-os à praia, quando chegaram a Portugal. Vou sugerir que os leve a ver os jacarandás em flor pois, como diz o poeta (que traduzo livremente), “tudo quanto é belo é uma fonte perene de alegria.”

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

Nota:
[1] Escritos nos anos 40 do século passado, só nos anos 80 foram editados em holandês e posteriormente traduzidos noutras línguas. Entre nós, as versões portuguesas apareceram em 2008 e 2009, na Assírio e Alvim.


Vejo um Ramo de Amendoeira

PAPA FRANCISCO

REGINA CAELI

Praça São Pedro
Domingo, 22 de maio de 2022

Estimados irmãos e irmãs, bom domingo!

No Evangelho da Liturgia de hoje, despedindo-se dos seus discípulos na Última Ceia, Jesus diz, quase como uma espécie de testamento: «Deixo-vos a paz». E imediatamente acrescenta: «Dou-vos a minha paz» (Jo 14,27). Reflitamos sobre estas breves frases.

Antes de tudo, deixo-vos a paz. Jesus despede-se com palavras que exprimem afeto e serenidade, mas fá-lo num momento em que nada é sereno. Judas sai para o trair, Pedro está prestes a negá-lo, e quase todos prontos para o abandonar: o Senhor sabe disso, mas não repreende, não usa palavras severas, não faz discursos ásperos. Em vez de mostrar agitação, permanece gentil até ao fim. Um provérbio diz que se morre como se viveu. As últimas horas de Jesus são na realidade como a essência de toda a sua vida. Ele sente medo e dor, mas não dá espaço a ressentimentos ou protestos. Não se deixa amargurar, não desabafa, não é impaciente. Ele está em paz, uma paz que vem do seu coração manso, habitado pela confiança. E disto flui a paz que Jesus nos deixa. Pois não se pode deixar a paz aos outros se não a tivermos em nós mesmos. Não podemos dar a paz se não estivermos em paz.

Deixo-vos a paz: Jesus mostra que a mansidão é possível. Ele encarnou-a precisamente no momento mais difícil; e quer que nos comportemos assim também, que sejamos herdeiros da sua paz. Ele quer que sejamos mansos, abertos, dispostos a ouvir, capazes de desativar as controvérsias e de tecer concórdia. Isto é testemunhar Jesus e vale mais do que mil palavras e muitos sermões. O testemunho da paz. Perguntemo-nos se, nos lugares onde vivemos, nós, discípulos de Jesus, nos comportamos assim: aliviamos as tensões, extinguimos os conflitos? Estamos também em atrito com alguém, sempre prontos a reagir, a explodir, ou sabemos como responder com a não-violência, sabemos como responder com palavras e gestos de paz? Como devo reagir? Que todos se perguntem isto.

Claro que esta mansidão não é fácil: como é difícil, a todos os níveis, interromper os conflitos! Aqui a segunda frase de Jesus vem em nosso auxílio: dou-vos a minha paz. Jesus sabe que sozinhos não somos capazes de preservar a paz, que precisamos de ajuda, um dom. A paz, que é o nosso compromisso, é, antes de mais, um dom de Deus. Com efeito Jesus diz: «Dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá» (v. 27). Que paz é esta que o mundo não conhece e que o Senhor nos dá? Esta paz é o Espírito Santo, o mesmo Espírito de Jesus. É a presença de Deus em nós, é a “força de paz” de Deus. É Ele, o Espírito Santo, que desarma o coração e o enche de serenidade. É Ele, o Espírito Santo, que desfaz a rigidez e extingue as tentações de atacar os outros. É Ele, o Espírito Santo, que nos lembra que há irmãos e irmãs ao nosso lado, não obstáculos e adversários. É Ele, o Espírito Santo, que nos dá a força para perdoar, para recomeçar, para iniciar de novo, porque com as nossas forças não podemos. E é com Ele, com o Espírito Santo, que nos tornamos homens e mulheres de paz.

Prezados irmãos e irmãs, nenhum pecado, nenhum fracasso, nenhum rancor deve desencorajar-nos de pedir insistentemente o dom do Espírito Santo que nos dá a paz. Quanto mais sentimos que o nosso coração está agitado, quanto mais sentimos nervosismo, impaciência, raiva dentro de nós, tanto mais devemos pedir ao Senhor o Espírito da paz. Aprendamos a dizer todos os dias: “Senhor, dá-me a tua paz, dá-me o Espírito Santo”. É uma bela oração. Recitemo-la juntos? “Senhor, dá-me a tua paz, dá-me o Espírito Santo”. Não ouvi bem, outra vez: “Senhor, dá-me a tua paz, dá-me o Espírito Santo”. E peçamo-lo também por aqueles que vivem ao nosso lado, por quantos encontramos todos os dias, e pelos responsáveis das nações.

Que Nossa Senhora nos ajude a receber o Espírito Santo para sermos construtores de paz.


Depois do Regina Caeli

Estimados irmãos e irmãs!

Esta tarde, em Lião, será beatificada Pauline Marie Jaricot, fundadora da Obra da Propagação da Fé, para o apoio das missões. Esta fiel leiga, que viveu na primeira metade do século XIX, foi uma mulher corajosa, atenta às mudanças dos tempos com uma visão universal da missão da Igreja. Que o seu exemplo suscite em todos o desejo de participar, com oração e caridade, na difusão do Evangelho no mundo. Aplaudamos a nova Beata!

Hoje começa a Semana Laudato si’, para ouvir cada vez mais atentamente o grito da Terra, que nos exorta a agir em conjunto no cuidado da casa comum. Agradeço ao Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral e às muitas organizações que aderiram, e convido todos a participar.

(…)

Saúdo quantos participaram em Roma no evento nacional “Escolhamos a Vida”. Agradeço o vosso empenho a favor da vida e em defesa da objeção de consciência, cujo exercício tentamos muitas vezes limitar. Infelizmente, nos últimos anos houve uma mudança na mentalidade comum e hoje estamos cada vez mais inclinados a pensar que a vida é um bem à nossa total disposição, que podemos optar por manipular, fazer nascer ou morrer a nosso bel-prazer, como o resultado exclusivo de uma escolha individual. Lembremo-nos que a vida é um dom de Deus! É sempre sagrada e inviolável, e não podemos silenciar a voz da consciência.

Bom domingo a todos vós! Por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Bom almoço e até à vista!


Vejo um Ramo de Amendoeira

Corajosamente

Joaquim Félix | 12 Mai 2022 | in 7 Margens

1. Três versículos. Três breves versos, segundo s. João (Jo 10,27-30).
Tão pouco! E, não obstante, para nós, são tanto, tanto!
São um desafio a ouvir coisas breves, as migalhas dos dias presentes,
como se fossem uma seta disparada ao alvo de ouvidos atentos,
a um coração de carne que quer fazer da boca, dos olhos e das mãos a sua fonte.
Ou, neste tempo de guerra, como na caricatura de Pawel Kuczynski,
pães autopropulsados a partir de lançadores de morteiros.
Sim, pães e também remédios lançados a pessoas como nós,
cercadas e escondidas em subterrâneos de cidades,
donde sobem colunas de fumo nas ruínas de suas casas, fábricas, hospitais, escolas…
Saboreemos, por isso, estas breves palavras,
esta boa notícia que s. João nos narrou da corajosa vida de Jesus.

2. Depois de curar um cego de nascença,
− até para mostrar que nem um pecado, herdado ou praticado, o castigara;
mas para que nele se manifestassem os ‘sinais’ de Deus (cf. Jo 9,3) −,
Jesus contou a conhecida parábola do ‘belo pastor’ (cf. Jo 10,1-19).
Todavia, as palavras dos três versículos são póstumas, ruminadas.
Elas aparecem após um cerco, no caso, por pessoas que decidem matar Jesus.
Estando no Templo, no dia da festa da sua dedicação,
os judeus rodeiam-no, como o frio do inverno, e perguntam-lhe diretamente:
«Até quando nos manterás em suspenso?
Se és o Cristo, diz-nos abertamente» (Jo 10,24).
Mais aberto e claro Jesus não o podia ter sido, como lhes diz.
Porém, mais fechados que as pedras do templo, não o creem.

3. Eis que, então, estabelecendo um contraponto, lhes diz
as palavras que, abrindo-se, ecoam neste incisivo tríptico evangélico.
Algo de semelhante ocorreu na rejeição das palavras que Paulo e Barnabé,
em Antioquia da Pisídia,
dirigiram a um sábado na sinagoga (cf. At 13.14.43-52).
Há um advérbio que define bem a sua ousadia
perante a surdez, a inveja e a resposta de blasfémia dos judeus:
«Corajosamente». É verdade, repitamo-lo, «corajosamente».
Paulo e Barnabé, como testemunhas do Evangelho de Jesus,
declaram que conheciam a prioridade da Palavra do Senhor,
mas, perante a rejeição dos primeiros destinatários,
elegeram quem improvavelmente os escutaria, os gentios.
O que era fonte de alegria, tanto para eles como para os discípulos.

4. Onde é que nós, hoje, depreendemos esta ‘coragem’ na evangelização?
Não faltam dificuldades no tempo atual, bem sabemos. E sempre haverá.
Parecemo-nos, e mais ainda o somos, um «pequenino rebanho»:
para uns, saudosistas, como se fôssemos um resto da «cristandade»;
para outros, uma malga de «fermento» para a próxima primavera da Igreja.
Mas quem é que, hoje, tem coragem de ousar uma mudança de ‘agulhas’,
como fizeram Paulo e Barnabé?
Quem poderá ousar outros destinatários? outras direções?
Onde se estará a ver isso, perante tanta rejeição, até dentro das igrejas?
No templo, na sinagoga e nas igrejas. Sim, dentro. Bem dentro.
E de que modo se romperá o cerco das blasfémias dos ‘influentes’
e as invejas de quem ataca os ‘corajosos’ e ‘corajosas’,
que relembram a ‘geografia dos confins’, na base do dito de Jesus:
«Fiz de ti a luz das nações, para levares a salvação até aos confins da terra» (At 13,47)?
Como promover este abraço largo da fé, na ampla ‘divulgação’?
E, de forma inesperada, mas desejada (e, por isso promovida),
aumentar a alegria e a ansiada ‘cheia’, a alagar-nos, do Espírito Santo?
Por estes dias, um teólogo disse-me isto:
«Há uma imagem, é apenas isso, que me ficou sempre gravada,
num dos filmes de Olmi, “Il Villaggio di Cartone”,
de uma porta entreaberta,
entre a penumbra e a luz da infância,
a possibilidade de habitar a ruína, ou de saída dela
sem a esquecermos em absoluto…
pois ela é a memória do que foi
e abertura daquilo que ainda não é…» (João Paulo Costa).

5. Com a palavra de Deus a desimpedir-nos de escamas,
Jesus nos curará a cegueira,
de nascença ou adquirida, dos ouvidos e dos olhos, dos sentidos apagados,
para passarmos a ver, não a desejada multidão da fossilizada ‘cristandade’,
mas, como João, no Livro do Apocalipse, uma «multidão imensa»,
formada por incomensuráveis riquezas do ‘diverso’ de todos os povos.
Cujo culto, diga-se, será praticado na tenda do mundo transfigurado,
na presença do Cordeiro apascentador que, com o seu sangue,
tinge de vida pascal, de brancura em transfiguração,
as nossas palavras, os gestos e as túnicas,
e nos conduz continuamente, sem prejuízo de sóis ou de ventos,
«às fontes de água viva» e ao enxugo de todas as lágrimas dos nossos olhos.
Não é isso que João diz, na sua visão apocalíptica, e o Salmo 23 recenseia?

6. Nunca desfoquemos a nossa audição desta palavra.
Durante a Semana de oração de Oração pelas vocações,
poderíamos ser tentados a perder do ouvido e da vista o horizonte fontal,
que nos rasga de alto a baixo os véus com que nos amedrontarmos
e nos fecham dentro de paradigmas e paisagens que já terminaram.
O Papa Francisco escreveu uma mensagem
para o 59º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, a qual convido a ler,
mesmo a quem tenha dificuldade em descarregá-la da internet.
Caso isso aconteça, nesta solidariedade que ainda é possível,
até os avós podem pedir aos netos: «’Serginho’, ou então ‘Sarinha’,
imprime aquela mensagem daquele velhinho,
que, agora, de cadeira de rodas, anda com um joelho a receber infiltrações.»
E a Sara ou o Sérgio, que até podem desconhecê-lo, logo podem perguntar:
«Quem é esse velhinho, avó? De quem, avô?».
E vós direis: «É o Papa Francisco, que tanto tem lutado contra a guerra na Ucrânia,
e procura, através de iniciativas surpreendentes, corajosas mesmo,
colocar-nos a todos como ‘chamados a construir a família humana’ (da Mensagem)».

7. Escultor de estátuas ‘falantes’, como por exemplo a Pietà, David ou Moisés,
atribuem-se a Miguel Ângelo Buonarroti as seguintes palavras:
«No interior de cada bloco de pedra,
há uma estátua, cabendo ao escultor a tarefa de a descobrir».
Nessa sequência, dizia ele que só tinha de «tirar o que estava a mais».
Uma forma eloquente deste libertar os ‘prisioneiros’ das pedras,
é oferecida a caminho da escultura de David, na Accademia, em Florença.
Quem preferir, porém, pode ver o filme “O Pecado – O furor de Michelangelo”,
escrito e realizado por Andrei Konchalovsky;
e ainda, de forma breve, “Moisés”,
uma curta-metragem realizada por Michelangelo Antonioni.
Nesta mesma linha do olhar afinado pelo que vai além do visível,
um provérbio do Extremo Oriente diz:
«Um sábio, ao olhar um ovo, sabe ver a águia;
ao olhar a semente, vislumbra uma grande árvore;
ao olhar um pecador, sabe entrever um santo».
Estes exemplos, citados na Mensagem do Papa Francisco,
despertam-nos para aquilo que ele persuade com estas palavras de síntese:
«Esta é a dinâmica de cada vocação:
somos alcançados pelo olhar de Deus, que nos chama».
Respondamos, atentamente e com generosidade,
a este diálogo de olhares com Deus,
que nos fará não só ver coisas novas,
mas promoverá em nós a novidade de vida,
na semelhança da ressurreição de Jesus,
sendo mais protagonistas na missão, com coragem,
no cuidado de uns para com os outros e a criação,
até à construção de um mundo mais fraterno, que promove a paz.

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Triságia.

Nota: Este texto tem como referência o texto do Evangelho de João (Jo 10, 27-30), proclamado na liturgia católica de domingo, 8 de maio, Domingo IV do Tempo Pascal — 59º Dia Mundial de Oração pelas Vocações 2022 e corresponde a uma versão corrigida da homilia desse dia.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Receber a Vida

João Duque | in Ponto SJ | 3 Maio 2022

Estando nós ainda em ambiente pascal, seria inevitável abordar, antes de tudo, a questão da Ressurreição; para além disso, porque “se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé” (1Cor, 15,14). Mas não vou fazê-lo de forma direta, até porque a Ressurreição é “algo” não captável diretamente. Proponho uma aproximação a partir do que parece ser o seu contrário: precisamente a morte. Parto, por isso, de uma noção de Ressurreição que a situa numa relação especial entre a morte e a vida, sobretudo no âmbito daquilo que legitimamente podemos esperar.

No entanto, uma aproximação ao “fenómeno” da morte é tudo menos unívoca. Seguiremos, por isso, um caminho que nos levará através dos vários significados daquilo que nos é mais certo, mas que em realidade ninguém experimenta. A morte é, antes de tudo, o fim de uma vida, do ponto de vista biológico. Enquanto tal, não é problemática para os humanos, pois seria impensável a nossa existência sem um fim biológico; aliás, em certo sentido – muito reforçado em contexto bíblico – ela constitui uma espécie de proteção contra a pretensão humana de poder absoluto, estabelecendo uma igualdade fundamental entre poderosos e não poderosos. Por outro lado, ao retirar alguém do nosso campo de comunicação corpórea, não deixa de ser um problema, que legitimamente esperamos seja algum “dia” superado. Relativamente a esta primeira dimensão da morte, a Ressurreição não é o regresso à vida biológica – reanimação, revivificação ou ressuscitação – que passaria a não ter fim; mas poderá significar a recuperação de um modo de comunicação com os que morreram, mesmo que não nos seja possível determinar como.

Mas a morte pode ter vários rostos. A morte de Jesus foi violenta e implicou a vitimação de um inocente. Nesse sentido, a cruz representa, antes de tudo, o grau de maldade a que pode chegar o mecanismo vitimador. A morte deixa de ser apenas o fim da vida biológica, para reunir em si toda a maldade de que nós, humanos, somos capazes. Enquanto tal, não tem justificação nem bondade possíveis. É condenável e, por isso, abre à legítima esperança de que não tenha sobre nós a última palavra, mas que haja possibilidade de uma vida em que a vitimação do inocente seja superada.

O problema do mal, simbolizado na morte por vitimação, aproxima-nos da questão da ausência de Deus – na experiência de que Deus nos abandona mas, sobretudo, na experiência de que nós O abandonamos. Um dos sentidos dessa ausência pode ser interpretado como morte. Poderíamos chamar-lhe, biblicamente, morte eterna, coincidente com o estado de pecado e representada simbolicamente no sheol ou nos infernos. É neste sentido específico que o pecado leva à morte. E esta é a “pior” dimensão da morte. Na morte por vitimação, a vítima pode esperar a sua reabilitação; mas o vitimador, mergulhado no pecado do seu ato, está condenado à morte eterna – ou seja, à dimensão da ausência de Deus ou do inferno. A não ser que seja perdoado.

A possibilidade do perdão conduz-nos ao núcleo da relação entre vida e morte, como possibilidade de Ressurreição. Per-doar é dar; e a uma dádiva corresponde sempre uma receção, caso contrário não se realiza. A vida que nasce do perdão é uma vida que se articula na dinâmica entre dar e receber. Quem perdoa, dá a vida; que é perdoado, recebe a vida. Potencialmente, todos damos e recebemos a vida. Em rigor, a verdadeira vida é recebida, para ser dada. Uma vida que seja acolhida como dom e seja dada gratuitamente, é uma vida que garante a receção da vida. Mas dar a vida é morrer. Logo, a oposição entre morte e vida não é total.

Se relacionarmos entre si todas as dimensões da morte abordadas anteriormente, a própria vida biológica pode – ou não – se acolhida como dádiva. Se o for, abre-se o caminho para ser dada aos outros – ser dada no quotidiano da relação aos outros e ser dada como desfecho final da existência, até ao sacrifício da vida biológica, se for o caso. Mas a dádiva da vida tem muitas outras dimensões para além da vida biológica.

Foi em todas as dimensões referidas anteriormente – incluindo a biológica – que Jesus deu a vida na cruz. A cruz (de Jesus) significa, também, essa dádiva da vida. Na circunstância específica em que foi dada – livremente, por amor – incluiu a dádiva do perdão. Por isso, a dádiva completa da (sua) vida é também fonte da (nossa) vida, dada aos humanos, que assim são perdoados. Da morte (como doação da vida) surge, por isso, a vida (como vida dada e recebida). A morte, como ato supremo de amor, transforma-se por isso em vida – e a essa transformação chamamos Ressurreição.

Nessa transformação, a morte eterna – como resultado do pecado – dá lugar à vida eterna, como efeito do perdão. O humano, sujeito à morte eterna, recebe a vida eterna, como dádiva gratuita do perdão. A verdadeira dimensão da vida – que é a dimensão da existência (biológica ou não) na dimensão de Deus – é, por isso, vida dada e recebida.

Mas o que significa, da nossa parte, receber a vida? Basta estar aí, para que essa vida magicamente nos atinja? É certo que, em Jesus Cristo, Deus oferece a vida plena a todo o ser humano. Mas, para a receber, é preciso corresponder a essa dádiva. E o modo de correspondência coincide com o seguimento de Jesus, ou seja, está paradigmaticamente definido pela sua existência histórica.

A primeira condição para receber a vida é assumir que ela é uma dádiva, em todas as suas dimensões, e não algo merecido ou conquistado pelas capacidades de cada um. Só recebe a vida quem admitir que não é o seu proprietário e que não tem poder sobre ela (a própria e a dos outros).

Mas há mais: condição para receber a vida, segundo a dimensão de Deus – que é a dimensão da vida eterna em caridade – é a doação da vida, enquanto dádiva de si mesmo, quotidianamente, àqueles que nos surgem no caminho (especialmente aos que estão caídos na margem desse caminho). Em caso extremo, até à dádiva da vida biológica por eles. Em certo sentido, morrer é condição de vida; morrer para a pretensão de poder sobre a vida, para a receber como dom gratuito. Porque “quem quiser salvar a vida há de perdê-la…” (Lc 9,24).

E qual o lugar da vida biológica, no interior deste processo? É fundamental. Porque a definição de nós mesmos, enquanto identidade pessoal única e irrepetível, acontece precisamente como vida biológica. Cada vida é uma oportunidade única. Não há qualquer forma de modificar ou construir uma identidade pessoal – que acolhe ou recusa a vida, dando a vida ou guardando-a para si – senão no seu estatuto de vida biológica, como corpo que nos constitui únicos, de uma vez por todas. Por isso, a Ressurreição de cada um não pode prescindir dessa identidade construída no tempo de uma vida biológica. Não é, pois, simples imortalidade de uma entidade espiritual comum. É a possibilidade de vida eterna de uma pessoa, cuja identidade se formou como corpo. É a Ressurreição da carne – não o regresso à vida biológica, mas a sua transfiguração.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Mãe do Céu, mãe de Misericórdia

Teresa Vasconcelos | 1 Mai 2022 | in 7 Margens

É Dia da Mãe, este 1º de Maio de 2022. Tenho saudades da minha Mãe Teresa há já quase 14 anos na plenitude de Deus, a zelar por nós. Pus umas flores junto à sua fotografia de mulher sábia e inteligente. Acendi uma vela. Doem-me fisicamente as saudades da sua mão nodosa e comprida, de veias salientes, já cega, sobre a minha cabeça cansada ou triste pousada no seu colo. Nunca mais, pensei eu, quando ela partiu.

Muitas vezes lhe rezo e, com ela, a Nossa Senhora. Quando arrumei as suas coisas descobri que ela tinha no missal, a marcar o dia, uma oração a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que rezava todas as noites de joelhos ao lado da cama, antes de se deitar. Assim a vi fazer ao longo dos anos, sobretudo desde que o meu Pai partiu tão prematuramente. Saudades da sua mão… Tenho uma grande “devoção” por esta Nossa Senhora do Perpétuo Socorro a quem chamo “Mãe da Misericórdia”.

Estive uns dias no mosteiro do Sobrado (Galiza) logo a seguir à Páscoa. Uma tranquilidade imensa depois de dois anos confinados, seguidos desta absurda e fratricida guerra. Ao longo dos dias acompanhei a liturgia das horas no lindíssimo oratório dos monges. Não sei se pelo tempo que estamos a viver, se pelo meu próprio estado de espírito ou simples cansaço, dei por mim a comover-me às lágrimas – os monges, no último momento das Completas, viravam-se para o ícone iluminado de Nossa Senhora e, quase às escuras, entoavam a Salve Regina em latim: a nossa conhecida Salvé Rainha, do final dos cinco mistérios do terço.

Mas desta vez, no último dia, experimentei uma espécie de “epifania” e tomei consciência de como esta é uma das mais belas orações da tradição da/s Igreja/s. Conversamos e rezamos com essa “mãe de misericórdia” – que sofreu e tantas vezes não entendeu o que se passava na sua vida – que soube escutar e estar atenta ao que Deus (ou a vida…) lhe dizia, derramando “vida e doçura e esperança” em nós. Ainda sei esta oração de cor:

Salve Rainha, Mãe de misericórdia,
vida, doçura e esperança nossa, salve!
A vós bradamos,
os degredados filhos de Eva.
A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas.
Eia, pois, advogada nossa,
esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei.
E depois deste desterro, nos mostrai Jesus, bendito fruto de vosso ventre.
Ó clemente! Ó piedosa!
Ó doce sempre Virgem Maria!
Rogai por nós Santa Mãe de Deus.
Para que sejamos dignos
das promessas de Cristo. Ámen.

Hoje bem precisamos que ela seja “advogada nossa”, nos dê força para alimentarmos a esperança, porque realmente vivemos num tempo que se assemelha a “um vale de lágrimas” para muitos. Por isso lhe bradamos: Volve para nós os teus olhos de misericórdia! Ajuda-nos a receber o Cristo, Espírito de Deus, para continuarmos teimosamente a ser caminheiros/as pela paz, justiça e respeito pela criação. Em tempos tão sombrios ajuda-nos a cultivar a amável esperança, essa petite fleur de rien du tout (Péguy) que nos faz acreditar para lá do imediato.

Somos seres incompletos que caminhamos construindo plenitude até à Plenitude Final. Que Maria nos ajude neste caminho. Mas que ultrapassemos o uso empobrecedor e limitado que se fez desta oração, ultrapassando estereótipos do que é ser-se mulher ou homem, e vertendo sobre Maria a nossa angústia. Ouço, em modo de encantamento a Ladainha a Nossa Senhora cantada por dona Canô, mãe de Maria Bethânia.

O meu desejo mais profundo é que Maria, Nossa Senhora e nossa Mãe seja abordada de uma forma teologicamente recriadora por esta Igreja em caminho sinodal. Lembro um sonho que tive há mais de 20 anos, quando vivia um tempo muito doloroso da minha vida: que uma Nossa Senhora-guerreira de vestido branco com um largo cinto vermelho e cabelos esvoaçantes me aparecia ao longe gritando: “Tu podes!” Gosto dessa Maria que dá forças onde não as há….

Foram precisos muitos anos para eu aprender a combinar dentro de mim a Salvé Rainha, a mãe guerreira e poderosa dos meus sonhos, e um dos mais belos poemas de Eugénio de Andrade:

‪Poema à mãe

No mais fundo de ti,
‪eu sei que traí, mãe!
‪Tudo porque já não sou
‪o retrato adormecido
‪no fundo dos teus olhos!
‪Tudo porque tu ignoras‪que há leitos on
de o frio não se demora
‪e noites rumorosas de águas matinais!
‪Por isso, às vezes, as palavras que te digo
‪são duras, mãe,
‪e o nosso amor é infeliz.
‪Tudo porque perdi as rosas brancas
‪que apertava junto ao coração
‪no retrato da moldura!
‪Se soubesses como ainda amo as rosas,
‪talvez não enchesses as horas de pesadelos…
‪Mas tu esqueceste muita coisa!
‪Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
‪que todo o meu corpo cresceu,
‪e até o meu coração
‪ficou enorme, mãe!
‪Olha – queres ouvir-me? -,‪às vezes ainda sou o menino
‪que adormeceu nos teus olhos;
‪ainda aperto contra o coração
‪rosas tão brancas
‪como as que tens na
moldura;
‪ainda oiço a tua voz:
‪”Era uma vez uma princesa
‪no meio de um laranjal…”
‪Mas – tu sabes! – a noite é enorme
‪e todo o meu corpo cresceu…
‪Eu saí da moldura,
‪dei às aves os meus olhos a beber.
‪Não me esqueci de nada, mãe.
‪Guardo a tua voz dentro de mim.
‪E deixo-te as rosas…
‪Boa noite. Eu vou com as aves!

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior aposentada e integra o Movimento do Graal


Vejo um Ramo de Amendoeira

Na Páscoa, aprender a ser feliz

P. José Maria Brito, sj | in Ponto SJ | 17 Abril 2022

Manhã de Páscoa. Ressoam como se fossem o refrão de um salmo os versos de Sophia inspirados no Duque de Gandia (S. Francisco de Borja):

“Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
(…)
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.”

Há tantas coisas que morrem e que amamos como se fossem eternas: poderes e prestígios que passam, riquezas sem celeiros que as guardem no céu.
Os passos da vida de Jesus culminam na cruz, denunciando a precaridade de todas essas coisas às quais confiamos, demasiadas vezes, a nossa felicidade. Mas aquilo que nos consome e atormenta, aquilo que nos rouba o ânimo, que nos faz correr atrás de fontes ilusórias que não saciam a sede mais profunda de sentido, não pode trazer-nos felicidade.

Jesus não se ressuscitou a si mesmo. Foi o Pai que o ressuscitou e essa foi a Sua resposta à fidelidade do Filho que levou o Amor até ao fim. Aprendemos assim na Páscoa que a felicidade é o fruto da fidelidade. Não a recebemos por decreto, não a podemos exigir como se fosse uma vassalagem que o mundo nos deve. É o fruto de um amor gratuito livremente assumido sem medo das consequências.

A felicidade pede paciência

Na manhã de Páscoa os discípulos estavam confusos. Os apóstolos demoraram a acreditar, desconfiaram das mulheres classificando as suas palavras como um “desvario” (Lc 24, 11). Tomé desconfiou da comunidade (cf. Jo 20, 25). Não somos mais, nem menos do que todos eles. Precisamos de tempo. E, no modo como celebramos a Páscoa, podemos ter por vezes a tentação de um salto apressado passando da contemplação da dor a uma euforia que ignora o tempo da espera, a lentidão necessária para que o olhar possa reparar nos frutos que nascem das feridas da entrega e do amor. A felicidade pede lentidão, atenção e paciência.

A felicidade não apaga a dor

Fazemos da alegria e da tristeza, da felicidade e a dor opostos irreconciliáveis. Jesus ressuscitado mostra as marcas da cruz, os sinais da vida oferecida gratuitamente. É desses rasgos que nascem os frutos, a felicidade eterna. A cruz florida que, em algumas zonas do nosso país, visita as casas neste domingo de Páscoa recorda-nos esta verdade da nossa fé. A felicidade não passa por ignorar a dor. A felicidade é o sentido encontrado pelo caminho estreito de um amor que sabe ser o último e o mais pequeno para poder entrar no mais recôndito dos lugares. A felicidade é saber que a vida recebida de Jesus é mais forte do que qualquer dor, mal, pecado ou sofrimento.

A felicidade não é uma experiência privada

Jesus ressuscitado diz a Madalena: “Não me detenhas” (Jo 20, 17). Não quer que as mulheres de quem vai ao encontro no caminho fiquem a conversar com ele, envia-as a anunciar a ressurreição (cf Mt 28, 10). E os discípulos de Emaús, depois de reconhecerem Jesus, já não precisam de O ver, perdem o medo da noite e regressam à comunidade para anunciar a grande alegria (Lc 24, 31-35). Não somos felizes sozinhos. O reino de Deus está no meio de nós e apenas entre nós podemos reconhecer a presença do Ressuscitado. É daí que Ele nos convoca para o serviço gratuito, para O seguir no caminho da entrega que tem a felicidade como fruto.

Na Páscoa somos tocados pelo Amor que não morre. Aprendemos a felicidade como o fruto da fidelidade. Aquele que servimos vive para sempre! A nossa felicidade é eterna.

Aleluia! Santa Páscoa!


Vejo um Ramo de Amendoeira

PAPA FRANCISCO

AUDIÊNCIA GERAL

Sala Paulo VI
Quarta-feira, 13 de abril de 2022

A paz de Páscoa

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Estamos a meio da Semana Santa, que vai desde o Domingo de Ramos até ao Domingo de Páscoa. Ambos os domingos são caraterizados pela festa que tem lugar em torno de Jesus. Mas são duas festas diferentes.

No domingo passado vimos Cristo entrar solenemente em Jerusalém, como uma festa, acolhido como Messias: e para Ele mantos foram estendidos pelo caminho (cf. Lc 19, 36) e ramos cortados das árvores (cf. Mt 21, 8). A multidão exultante bendiz «aquele que vem, o Rei», e aclama: «Paz no céu e glória no mais alto dos céus» (Lc 19, 38). Estas pessoas celebram, pois veem na entrada de Jesus a chegada de um novo rei, que traria paz e glória. Esta era a paz que aquele povo esperava: uma paz gloriosa, fruto de uma intervenção real, a de um poderoso messias que libertaria Jerusalém da ocupação romana. Outros provavelmente sonharam com a restauração de uma paz social e viram em Jesus o rei ideal, que iria alimentar as multidões com pães, como ele já tinha feito, e realizar grandes milagres, trazendo assim mais justiça ao mundo.

Mas Jesus nunca fala sobre isto. Ele tem uma Páscoa diferente à sua frente, não uma Páscoa triunfal. A única coisa que lhe interessa na preparação da sua entrada em Jerusalém é montar «um jumentinho atado em que nunca montou pessoa alguma» (v. 30). É assim que Cristo traz a paz ao mundo: através da mansidão e da doçura, simbolizada por aquele jumento preso sobre o qual ninguém jamais montou. Ninguém, porque a maneira de Deus de fazer as coisas é diferente da do mundo. Com efeito, pouco antes da Páscoa, Jesus explica aos discípulos: «Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá» (Jo 14, 27). São duas modalidades diversas: um modo como o mundo nos dá a paz e um modo como Deus nos dá a paz. São diferentes.

A paz que Jesus nos dá na Páscoa não é a paz que segue as estratégias do mundo, que acredita poder obtê-la através da força, da conquista e de várias formas de imposição. Esta paz, na realidade, é apenas um intervalo entre guerras: sabemo-lo bem. A paz do Senhor segue o caminho da mansidão e da cruz: é ocupar-se do próximo. Com feito, Cristo assumiu sobre si o nosso mal, o nosso pecado e a nossa morte. Assumiu sobre si tudo isto. Desta forma, ele libertou-nos. Ele pagou por nós. A sua paz não é o fruto de algum compromisso, mas nasce do dom de si mesmo. Esta paz mansa e corajosa, no entanto, é difícil de aceitar. De facto, a multidão que aclamava Jesus é a mesma que alguns dias depois grita “Crucifica-o” e, com medo e desilusão, não levanta um dedo por Ele.

A este propósito, uma grande história de Dostoievski, a chamada Lenda do Grande Inquisidor, é sempre relevante. Fala de Jesus que, após vários séculos, regressa à Terra. É imediatamente recebido pela multidão festiva, que o reconhece e o aclama. “Ah, voltaste! Vem, vem connosco!”. Mas, depois é preso pelo Inquisidor, que representa a lógica do mundo. O Inquisidor interroga-o e critica-o ferozmente. A última razão para a reprimenda é que Cristo, embora pudesse, nunca quis tornar-se César, o maior rei deste mundo, preferindo deixar o homem livre em vez de o subjugar e resolver os seus problemas com a força. Ele poderia ter estabelecido a paz no mundo, submetendo o coração livre, mas precário, do homem pela força de um poder superior, mas ele não queria fazê-lo: respeitou a nossa liberdade. «Tu – diz o Inquisidor a Jesus – aceitando o mundo e a púrpura dos Césares, terias fundado o reino universal e dado a paz universal» (Os irmãos Karamazov, Milão 2012, 345); e com uma sentença incisiva conclui: «Se há alguém que tenha merecido mais do que ninguém a nossa fogueira, esse alguém és tu» (348). Eis o engano que se repete na história, a tentação de uma falsa paz, baseada no poder, que depois leva ao ódio e à traição de Deus e a tanta amargura na alma.

No final, segundo esta narração, o Inquisidor gostaria que Jesus «lhe dissesse algo, talvez até algo amargo, algo terrível». Mas Cristo reage com um gesto dócil e concreto: «aproxima-se dele em silêncio, e beija-o suavemente nos seus lábios velhos e exangues» (352). A paz de Jesus não domina os outros, nunca é uma paz armada: nunca! As armas do Evangelho são a oração, a ternura, o perdão e o amor gratuito ao próximo, o amor a todos. Esta é a forma de trazer a paz de Deus ao mundo. É por isso que a agressão armada destes dias, como qualquer guerra, representa um ultraje contra Deus, uma traição blasfema ao Senhor da Páscoa, preferindo ao seu rosto manso o do falso deus deste mundo. A guerra é sempre uma ação humana para levar à idolatria do poder.

Antes da sua última Páscoa, Jesus disse aos seus discípulos: «Não vos perturbeis, nem temais» (Jo 14, 27). Sim, porque enquanto o poder mundano só deixa destruição e morte – vimos isto nesses dias – a sua paz constrói a história, a começar pelo coração de cada homem que a acolhe. A Páscoa é então a verdadeira festa de Deus e do homem, porque a paz que Cristo conquistou na cruz no dom de si mesmo é-nos distribuída. É por isso que o Ressuscitado aparece aos discípulos no dia de Páscoa; e como os saúda? «A paz esteja convosco!» (Jo 20, 19.21). Esta é a saudação de Cristo vencedor, de Cristo ressuscitado.

Irmãos, irmãs, Páscoa significa “passagem”. Especialmente este ano, é a ocasião abençoada para passar do Deus mundano para o Deus cristão, da avidez que levamos dentro de nós para a caridade que nos liberta, da expectativa de uma paz trazida pela força para o compromisso de testemunhar concretamente a paz de Jesus. Irmãos e irmãs, coloquemo-nos perante o Crucificado, fonte da nossa paz, e peçamos-lhe paz do coração e paz no mundo.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Semana Santa: tempo de lamentar

P. Francisco Martins, sj | in Ponto SJ | 8 Abril 2022

Nota prévia

Ainda que a invasão russa da Ucrânia já dure há mais de seis semanas, a flagrante injustiça do que está a suceder ao povo ucraniano, a barbárie da guerra e a crise de refugiados continuam a reclamar a nossa atenção como nenhum outro evento ou circunstância nacional ou internacional. O que aqui se propõe quer ser uma ajuda na luta contra um possível cansaço mediático em nome da obediência ao exigente imperativo da compaixão pelos que sofrem.

Nos inícios do período em que vivi na Terra Santa, muito possivelmente no meu primeiro ano em Jerusalém, tive a graça de participar numa cerimónia singular que teve lugar – espante-se o leitor! – num dos telhados do bairro judeu da cidade velha de Jerusalém. Por intermédio da Universidade, acabei, eu e mais três colegas norte-americanos, a celebrar o “Tish’a B’Av” com um grupo relativamente jovem de judeus ortodoxos. O “Tish’a B’Av” – expressão que significa tão simplesmente “o nono [dia do mês] de Av” (o quinto mês do calendário hebraico clássico, que coincide com os meses de julho-agosto no calendário gregoriano) – é o dia anual de jejum no qual a comunidade judaica recorda e lamenta, entre outras tantas trágicas efemérides, as destruições tanto do Primeiro como do Segundo Templo de Jerusalém, em 586 a.C. e 70 d.C., respetivamente. Ao centro da celebração está a leitura integral do livro das Lamentações, um livro bíblico tradicionalmente atribuído ao profeta Jeremias no qual se descreve e lamenta a calamidade que se abateu sobre Jerusalém, o Templo e o povo de Israel em 586 a.C.. Naquela noite de Verão, sobre os telhados da cidade e com os olhos postos no que é hoje a esplanada das mesquitas, as imagens e a força poética das Lamentações de Jeremias transportaram-me ao coração da desgraça e despertaram em mim um fascínio e uma reverência por esse género de oração tão antigo e tão esquecido: a lamentação.

Pessoalmente e durante anos, associei as palavras lamentação e lamento às performances, a mais das vezes trágico-cómicas, das carpideiras dos filmes e dos livros. O choro e os gritos de quem emprestava cor e som ao silêncio pálido da família enlutada pareciam-me espetáculo grotesco e quase infame. Experiências como aquela, sobre os telhados de Jerusalém, deram-me novo alento para redescobrir esta arte espiritual das palavras de desolação, das lágrimas derramadas em nome próprio e alheio, da lancinante pergunta “Até quando…?”.

Neste assunto, como em tantos outros, o testemunho bíblico da fé do povo de Israel oferece-nos sendas alternativas. Para nós, herdeiros de muitos séculos de tradição cristã, gestos como o jejum ou a abstinência têm, antes de mais, um caráter penitencial: são sinais exteriores do nosso desejo de conversão e instrumentos eficazes desse movimento de regresso a Deus e à vida que nasce d’Ele. Esta perceção está profundamente enraizada nas Escrituras de Israel (ou Antigo Testamento), mas não é a única nem, muito provavelmente, a mais antiga resposta ao quê e porquê daqueles gestos. Nas culturas do Antigo Oriente Próximo, e também na cultura religiosa do Israel Antigo, o jejum e a lamentação eram as duas faces – física e verbal – de um grito de socorro, que se erguia diante dos outros e de Deus sob forma de protesto. Talvez nos pareça contraintuitivo e até chocante, mas o jejum e a lamentação pela desgraças sofridas ou recordadas eram, na origem, uma forma de “forçar a mão” dos outros e, sobretudo, de Deus: pelo jejum (pela renúncia a alimentar-se), o crente colocava-se fisicamente numa situação de “não-vida” (de morte simbólica), à qual a lamentação dava voz e (con)texto, com o intuito de protestar o abandono sentido e reclamar a salvação esperada. Num certo sentido, o jejum (e a lamentação) era(m) uma espécie de “greve de fome” às portas tanto da terra como do céu.

A invasão russa da Ucrânia está a deixar um indescritível rastro de destruição num país e num povo que se vê injustamente atacado e que apenas deseja viver em paz e democracia. Todos estamos a ser afetados mais ou menos diretamente pela guerra e as suas consequências, mas ninguém sofre como as vítimas imediatas deste conflito e de todos os conflitos e guerras que continuam a assolar o mundo e a multiplicar a dor. Impõe-se a todos o exigente dever de fazer o possível para terminar a guerra e ajudar quem sofre e, felizmente, não têm faltado os gestos de generosidade. Para quem crê, este é também o tempo da oração mais intensa. E, é esse o sentido deste artigo, talvez possamos redescobrir no jejum e, sobretudo, na lamentação essa forma adequada de comungar na desgraça do povo ucraniano e de todos os povos e pessoas que sofrem e de erguer com eles, por eles e como eles um grito feito de pergunta e esperança. Não se trata evidentemente de “falsificar” a dor que não sentimos ou as lágrimas que não nos correm na cara, mas de exercitar e cumprir, com a ajuda de uma prática milenar, a compaixão a que estamos chamados.

Estamos às portas da Semana Santa, que começa já este domingo, com a entrada de Jesus em Jerusalém, onde vai entregar a vida pela salvação do mundo. Na tradição litúrgica da Igreja, a celebração do mistério da morte e ressurreição de Cristo incluía, até à mais recente reforma, a leitura integral do livro das Lamentações nos três dias que precediam o domingo de Páscoa, durante o chamado “Ofício de trevas”. Esses eram também dias de jejum e/ou de abstinência. Sem abraçar “saudosismos litúrgicos”, talvez possamos repropor-nos este exercício de ler (ou escutar: veja-se o vídeo em baixo) este livro num dos dias desta semana maior e reencontrar nas palavras de Jeremias a oração-apelo-grito-protesto que coloca o sofrimento da Ucrânia e a dor e sofrimento de todos os homens e mulheres, presentes, passados e futuros, nos lábios e no coração de quem “reclama” de Deus, com confiança, a paz, a justiça e a vida.


Vejo um Ramo de Amendoeira

A Quaresma e a luz que trespassa o linho

Verónica Sousa |30 Março 2022 | in Ponto sj

Centrar o nosso coração no essencial da fé: a irradiação viva e nova do rosto de Cristo em nós.

Quatro semanas volvidas, a nossa Quaresma avança a galope. A cor roxa impõe-se nas Igrejas e o apelo à prática da oração, do jejum e da esmola faz-se ouvir em meditações e homilias. Tudo por um motivo: centrar o nosso coração no essencial da fé: a irradiação viva e nova do rosto de Cristo em nós. Estes 40 dias despertam-nos para preparar dignamente os dias da sua Paixão, Morte e Ressurreição, como quem prepara uma morada onde Ele possa ressuscitar.

Figura ímpar nesta preparação é o misterioso José de Arimateia de quem nos falam os Evangelistas, quando narram os eventos de Sexta-Feira Santa:

«Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia de nome José, que se tinha tornado também ele discípulo de Jesus. Este, indo ter com Pilatos, pediu-lhe o corpo de Jesus. Tomando o corpo, José envolveu-o num lençol puro e pô-lo num sepulcro novo, escavado na rocha.» (Mt 27, 57-61)

José de Arimateia é um personagem enigmático. Durante a vida pública de Jesus, nada ouvimos dizer sobre ele. Está, todavia, presente nos seus mistérios dolorosos: desce Jesus da cruz após a sua crucifixão, juntamente com Nicodemos, e traz consigo um pano de linho puro para usar na sua sepultura. A audácia da sua fé ficou assim marcada para a História como aquele que não teve medo de se aproximar do condenado porque ousou ver mais longe.

Encontramos em José de Arimateia a revelação da nossa missão e identidade, nesta Quaresma. Vivemos o tempo favorável para “tecer” o pano de linho puro, que será oferecido ao Senhor. Ele é feito com as agulhas da esmola, da oração e do jejum; com as linhas da fé, da esperança e da caridade.

A candura deste lençol recorda-nos a veste branca que nos revestiu no dia do nosso batismo, sinal da vida nova que nos foi oferecida. As manchas do pecado que se vão acumulando, por mais entranhadas que pareçam, desaparecem, estes dias, na confissão que fazemos. É a ação branqueadora de Deus nas nossas vidas que nos prepara para viver os mistérios pascais.

O pano branco que envolveu Cristo é o mesmo que foi encontrado no Domingo de Páscoa pelos discípulos, quando correram ao sepulcro. É o Santo Sudário que está presente, segundo a tradição, na Basílica de Turim, em Itália.

Dizem os entendidos na matéria que algumas das marcas presentes nesta relíquia são, como seria de esperar, de sangue. Mas outras não. Após longos estudos, chegou-se à conclusão de que são consequência de uma forte e inexplicável irradiação que deixou impresso o rosto e o corpo do Senhor no pano de linho. Afinal, o pano de José deixou de lhe pertencer para passar a ser um “retrato” de Jesus.

Esta é uma das marcas decisivas da nossa fé: tudo aquilo que oferecemos a Deus é-nos restituído de um modo completamente novo e transfigurado. Damos segundo a nossa medida e recebemos de acordo com a medida de Deus. José ofereceu um lençol branco, e o Pai encarregou-se de gravar com luz a verdadeira imagem do seu Filho.

É verdade que somos nós quem traz o pano. Pomos todo o nosso esforço em entrelaçar os fios da fé, da esperança e da caridade no concreto da nossa vida. No entanto, é Deus quem marca a fogo o seu rosto em nós. E isso acontece sempre no segredo do nosso íntimo.

Poderíamos, com razão, dirigir-nos a este pano branco alterando as palavras do Precónio (que se reza na Vigília Pascal): «Ó Sudário bendito, o único a ter conhecimento o tempo e a hora em que o Cristo ressuscitou do sepulcro». E poderíamos perguntar-lhe: como é ser trespassado pela luz do ressuscitado? Como é ter gravado em si o rosto de Cristo? Como dizia São João Paulo II em verso: «O meu nome nasceu no próprio instante // em que o teu coração se fez imagem, semelhança da verdade. // Teu nome nasceu ao invadir-te a Beleza».


Vejo um Ramo de Amendoeira

CELEBRAÇÃO DA PENITÊNCIA COM O ATO DE CONSAGRAÇÃO AO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO

Basílica de São Pedro
Sexta-feira, 25 de março de 2022

No Evangelho da Solenidade de hoje, o Anjo Gabriel toma a palavra por três vezes para se dirigir à Virgem Maria.

A primeira vez, quando A saúda com estas palavras: «Alegra-Te, ó cheia de graça: o Senhor está contigo» ( Lc 1, 28). O motivo para rejubilar, o motivo da alegria, é desvendado em poucas palavras: o Senhor está contigo. Irmão, irmã, hoje podes ouvir estas palavras dirigidas a ti, dirigidas a cada um de nós; podes fazê-las tuas sempre que te abeiras do perdão de Deus, porque nessa ocasião te diz o Senhor: «Eu estou contigo». Muitas vezes pensamos que a Confissão consiste em ir de cabeça inclinada ao encontro de Deus. Mas voltar para o Senhor não é primariamente obra nossa; é Ele que nos vem visitar, cumular da sua graça, alegrar com o seu júbilo. Confessar-se é dar ao Pai a alegria de nos levantar de novo. No centro daquilo que vamos viver, não estão os nossos pecados; estarão, mas não estão no centro. O seu perdão: este é o centro. Tentemos imaginar se, no centro do Sacramento, estivessem os nossos pecados: então dependeria quase tudo de nós, do nosso arrependimento, dos nossos esforços, do nosso empenhamento. Mas não, no centro está Ele, que nos liberta e põe de pé.

Restituamos à graça o primado e peçamos o dom de compreender que a Reconciliação consiste antes de tudo, não num passo nosso para Deus, mas no seu abraço que nos envolve, deslumbra, comove. É o Senhor que entra em nossa casa, como na de Maria em Nazaré, e traz um deslumbramento e uma alegria antes desconhecidos: a alegria do perdão. Como primeiro plano foquemos a perspetiva em Deus: voltaremos a gostar da Confissão. Precisamos dela, porque cada renascimento interior, cada viragem espiritual começa daqui, do perdão de Deus. Não negligenciemos a Reconciliação, mas voltemos a descobri-la como o Sacramento da alegria. Sim, o Sacramento da alegria, onde o mal que nos faz envergonhar se torna ocasião para experimentar o abraço caloroso do Pai, a força suave de Jesus que nos cura, a «ternura materna» do Espírito Santo. Aqui está o coração da Confissão.

E então, queridos irmãos e irmãs, aproximemo-nos para receber o perdão. Vós, irmãos que administrais o perdão de Deus, sede aqueles que oferecem a quem se aproxima de vós a alegria deste anúncio: Alegra-te, o Senhor está contigo. Sem qualquer rigidez, por favor, sem criar obstáculos nem incómodos; portas abertas à misericórdia! De forma especial na Confissão, somos chamados a personificar o Bom Pastor que toma as suas ovelhas nos braços e as acaricia; somos chamados a ser canais de graça que derramam, na aridez do coração, a água viva da misericórdia do Pai. Se um sacerdote não tem este comportamento, se não tem estes sentimentos no coração, é melhor que não vá confessar.

A segunda vez que o Anjo fala a Maria, perturbada com a saudação recebida, é para Lhe dizer: «Não temas» ( Lc 1, 30). A primeira: «O Senhor está contigo»; a segunda palavra: «Não temas». Na Sagrada Escritura, quando Deus aparece, gosta de dirigir estas duas palavras a quem O acolhe: não temas. Di-las a Abraão (cf. Gn 15, 1), repete-as a Isaac (cf. Gn 26, 24), a Jacob (cf. Gn 46,3) e a muitos outros até chegarmos a José (cf. Mt 1, 20) e a Maria: não temas, não temas. Deste modo transmite-nos uma mensagem clara e reconfortante: sempre que a vida se abre a Deus, o medo deixa de poder ter-nos como reféns. Pois o medo mantém-nos reféns. Tu, irmã, irmão, se os teus pecados te assustam, se o teu passado te preocupa, se as tuas feridas não cicatrizam, se as quedas constantes te desmoralizam e cresce a sensação de teres perdido a esperança, por favor não temas. Deus conhece as tuas fraquezas e é maior que as tuas falhas. Deus é maior do que os nossos pecados: é muito maior! Só te pede uma coisa: as tuas fragilidades, as tuas misérias, não as guardes dentro de ti; leva-as a Ele, entrega-as a Ele e, de motivo de desolação, tornar-se-ão oportunidade de ressurreição. Não temas! O Senhor pede-nos os nossos pecados. Vem-me ao pensamento a história daquele monge do deserto, que tinha dado tudo a Deus, tudo, e levava uma vida de jejum, de penitência, de oração. Mas o Senhor pedia-lhe mais. «Senhor, dei-Vos tudo – diz o monge – que falta?». «Dá-me os teus pecados». O mesmo nos pede o Senhor. Não temas!

A Virgem Maria acompanha-nos: Ela mesma deixou a sua perturbação em Deus. O anúncio do Anjo dava-Lhe razões sérias para não temer. Propunha-Lhe algo de inimaginável, que estava para além das suas forças e, sozinha, não poderia levá-lo para diante: haveria muitas dificuldades, problemas com a lei mosaica, com José, com as pessoas da sua terra e do seu povo. Todas estas são dificuldades: não temas!

Mas Maria não levanta objeções. Basta-Lhe aquele não temas, basta-Lhe a garantia de Deus. Agarra-Se a Ele, como queremos nós fazer esta noite. Porque muitas vezes fazemos o contrário: partimos das nossas certezas e, só quando as perdemos, é que vamos ter com Deus. Nossa Senhora ensina-nos o contrário: partir de Deus, com a confiança de que, assim, tudo o mais nos será dado (cf. Mt 6, 33). Convida-nos a ir à fonte, ir ao Senhor, que é o remédio radical contra o medo e os perigos da existência. No-lo recorda uma bela frase, gravada num confessionário aqui no Vaticano, que se dirige a Deus com estas palavras: «Afastar-se de Vós é cair, voltar a Vós é ressuscitar, permanecer em Vós é existir» (cf. Santo Agostinho, Soliloquium I, 3).

Nestes dias, notícias e imagens de morte continuam a entrar pelas nossas casas dentro, enquanto as bombas destroem as casas de muitos dos nossos irmãos e irmãs ucranianos inermes. A guerra brutal, que se abateu sobre tantos e que a todos faz sofrer, provoca em cada um medo e consternação. Notamos dentro de nós uma sensação de impotência e inadequação. Precisamos de ouvir dizer-nos: «não temas». Mas não bastam as garantias humanas, é necessária a presença de Deus, a certeza do perdão divino, o único que apaga o mal, desativa o rancor, restitui a paz ao coração. Voltemos a Deus, voltemos ao seu perdão.

E, pela terceira vez, o Anjo retoma a palavra, para dizer a Nossa Senhora: «O Espírito Santo virá sobre Ti» ( Lc 1, 35). «O Senhor está contigo»; «Não temas» e agora a terceira palavra: «o Espírito Santo virá sobre Ti». É assim que Deus intervém na história: dando o seu próprio Espírito. Porque nas coisas que contam, não bastam as nossas forças. Por nós sozinhos somos incapazes de resolver as contradições da história ou mesmo as do nosso coração. Precisamos da força sapiente e suave de Deus, que é o Espírito Santo. Precisamos do Espírito de amor, que dissolve o ódio, apaga o rancor, extingue a ganância, desperta-nos da indiferença. Aquele Espírito que nos dá harmonia, porque Ele é harmonia. Precisamos do amor de Deus, porque o nosso amor é precário e insuficiente. Pedimos tantas coisas ao Senhor, mas muitas vezes esquecemo-nos de Lhe pedir o que é mais importante e que Ele nos deseja dar: o Espírito Santo, isto é, a força para amar. Com efeito, sem amor, o que é que havemos de oferecer ao mundo? Alguém disse que um cristão sem amor é como uma agulha que não cose: pica, fere, mas se não cose, se não tece, se não conjunge, é inútil. Eu ousaria dizer: não é cristão. Por isso há necessidade de beber do perdão de Deus a força do amor, beber o mesmo Espírito que desceu sobre Maria.

Pois, se quisermos que mude o mundo, tem de mudar primeiro o nosso coração. Para o conseguirmos, deixemos hoje que Nossa Senhora nos leve pela mão. Olhemos para o seu Imaculado Coração, onde Deus descansou, para o único Coração de criatura humana sem sombras. Ela é «cheia de graça» ( Lc 1, 28) e, portanto, vazia de pecado: n’Ela não há vestígios de mal e, assim, com Ela Deus pôde iniciar uma história nova de salvação e de paz. Naquele ponto, a história deu uma viragem. Deus mudou a história, batendo à porta do Coração de Maria.

E hoje também nós, renovados pelo perdão de Deus, batemos à porta daquele Coração. Em união com os Bispos e os fiéis do mundo inteiro, desejo solenemente levar ao Imaculado Coração de Maria tudo o que estamos a viver: renovar-Lhe a consagração da Igreja e da humanidade inteira e consagrar-Lhe de modo particular o povo ucraniano e o povo russo, que, com afeto filial, A veneram como Mãe. Não se trata duma fórmula mágica; não é isto! Trata-se dum ato espiritual. É o gesto da entrega plena dos filhos que, na tribulação desta guerra cruel, desta guerra insensata que ameaça o mundo, recorrem à Mãe. Como as crianças que, quando estão assustadas, vão ter com a mãe a chorar, à procura de proteção, recorremos à Mãe, lançando no seu Coração medo e sofrimento, entregando-nos nós mesmos a Ela. É colocar naquele Coração límpido, incontaminado, onde Deus Se espelha, os bens preciosos da fraternidade e da paz, tudo quanto temos e somos, para que seja Ela – a Mãe que o Senhor nos deu – a proteger-nos e guardar-nos.

Dos lábios de Maria brotou a frase mais bela que o Anjo pudesse referir a Deus: «Faça-se em Mim segundo a tua palavra» ( Lc 1, 38). Esta aceitação por parte de Nossa Senhora não é uma aceitação passiva nem resignada, mas o desejo vivo de aderir a Deus, que tem «desígnios de paz e não de desgraça» ( Jr 29, 11). É a participação mais íntima no seu plano de paz para o mundo. Consagramo-nos a Maria para entrar neste plano, para nos colocarmos à inteira disposição dos desígnios de Deus. A Mãe de Deus, depois de ter dito o seu sim, empreendeu uma longa viagem subindo até uma região montanhosa para visitar a prima grávida (cf. Lc 1, 39). Foi apressadamente. Gosto de pensar em Nossa Senhora com pressa, sempre assim, Nossa Senhora que Se apressa para nos ajudar, para nos guardar. Hoje que Ela tome pela mão o nosso caminho e o guie, através das veredas íngremes e cansativas da fraternidade e do diálogo, o guie pela senda da paz.


Vejo um Ramo de Amendoeira

PAPA FRANCISCO

ANGELUS

Praça São Pedro
Domingo, 20 de março de 2022

Estimados irmãos e irmãs, bom domingo!

Estamos no coração do caminho quaresmal e hoje o Evangelho apresenta inicialmente Jesus que comenta alguns acontecimentos. Enquanto a memória de dezoito pessoas que morreram quando uma torre desabou ainda estava viva na sua mente, falam-lhe de alguns galileus que Pilatos tinha mandado matar (cf. Lc 13,1). E há uma questão que parece acompanhar estes trágicos relatórios: quem é o culpado destes terríveis acontecimentos? Eram porventura estas pessoas mais culpadas do que outras e Deus castigou-as? São interrogações sempre atuais; quando nos sentimos esmagados pelas notícias do crime e nos sentimos impotentes perante o mal, perguntamo-nos frequentemente: será talvez o castigo de Deus? É Ele que nos envia uma guerra ou uma pandemia para nos castigar pelos nossos pecados? E por que o Senhor não intervém?

Devemos estar atentos: quando o mal nos oprime, corremos o risco de perder a lucidez e, a fim de encontrar uma resposta fácil para o que não podemos explicar, acabamos por dar a culpa a Deus. E muitas vezes o terrível e mau hábito da blasfémia vem daqui. Quantas vezes atribuímos a Ele as nossas desgraças, as desventuras do mundo Àquele que, ao contrário, nos deixa sempre livres e por isso nunca intervém impondo-se, apenas propondo; Àquele que nunca usa a violência e, aliás, sofre por nós e connosco! Na realidade, Jesus recusa e desafia fortemente a ideia de imputar os nossos males a Deus: as pessoas assassinadas por Pilatos e aquelas que morreram debaixo da torre não eram mais culpadas do que outras e não são vítimas de um Deus impiedoso e vingativo, que não existe! O mal nunca pode vir de Deus porque ele «não nos trata segundo os nossos pecados» ( Sl 103, 10), mas segundo a sua misericórdia. Esse é o estilo de Deus. Ele não pode tratar-nos de outra forma. Trata-nos sempre com misericórdia.

Mas em vez de dar a culpa a Deus, diz Jesus, devemos olhar dentro de nós próprios: é o pecado que produz a morte; é o nosso egoísmo que dilacera as relações; são as nossas escolhas erradas e violentas que desencadeiam o mal. Nesta altura, o Senhor oferece a verdadeira solução. Qual é? A conversão: «Se não vos converterdes», diz, «todos perecereis do mesmo modo» ( Lc 13, 5). É um convite urgente, especialmente neste tempo de Quaresma. Aceitemo-lo com o coração aberto. Convertamo-nos do mal, renunciemos ao pecado que nos seduz, abramo-nos à lógica do Evangelho: pois onde reina o amor e a fraternidade, o mal já não tem poder!

Contudo, Jesus sabe que a conversão não é fácil e quer ajudar-nos nisto. Ele sabe que muitas vezes voltamos a cair nos mesmos erros e pecados; que nos desencorajamos e talvez nos pareça que o nosso compromisso com o bem é inútil num mundo onde o mal parece reinar. E assim, após o seu apelo, encoraja-nos com uma parábola que fala da paciência de Deus. Devemos pensar na paciência de Deus, na paciência de Deus connosco. Ele oferece-nos a imagem consoladora de uma figueira que não dá frutos no momento estabelecido, mas que não é cortada: é-lhe dado mais tempo, outra possibilidade. Gosto de pensar que um bom nome para Deus seria “o Deus de outra possibilidade”: Ele dá-nos sempre outra possibilidade, sempre, sempre. Essa é a sua misericórdia. Isto é o que o Senhor faz connosco: não nos corta do seu amor, não perde a coragem, não se cansa de nos devolver a nossa confiança com ternura. Irmãos e irmãs, Deus acredita em nós! Deus confia em nós e acompanha-nos com paciência, a paciência de Deus connosco. Não desanima, mas coloca sempre esperança em nós. Deus é Pai e olha para ti como um pai: como o melhor dos pais, ele não vê os resultados que ainda não conseguiste, mas os frutos que ainda podes dar; ele não conta os teus fracassos, mas encoraja as tuas possibilidades; não se detém no teu passado, mas aposta confiante no teu futuro. Porque Deus está perto de nós, Ele está perto de nós. O estilo de Deus, não nos esqueçamos é a proximidade, Ele está perto, com misericórdia e ternura. E é assim que Deus nos acompanha: próximo, misericordioso e terno. Portanto, peçamos à Virgem Maria que nos dê esperança e coragem, e que acenda em nós o desejo da conversão.


Vejo um Ramo de Amendoeira

“Na Ucrânia, o mal não terá a última palavra”

Ir. Aloïs, prior de Taizé | in 7Margens | 6 Mar 2022

No início da Quaresma de 2022, o semanário católico francês La Vie publica uma meditação espiritual do irmão Aloïs, prior da comunidade monástica ecuménica de Taizé, em que se manifesta a esperança de que na Ucrânia o mal não tenha a última palavra. Perante o que se está a passar, o irmão Aloïs lança um apelo: “Rezemos para que a guerra não aumente as divisões no seio das Igrejas e das famílias e para que os líderes das Igrejas acompanhem todos os que são afectados por esta terrível provação.”

Para o prior de Taizé, como toda a vida humana conta aos olhos de Deus, importa pensar nos combatentes de todos os países envolvidos e também nas suas famílias, particularmente “naquelas avós que vêem os seus netos partir para a frente de uma guerra que não escolheram nem desejaram”. Prevê o irmão Aloïs que, “talvez, um dia, elas saiam às ruas para o gritar…”

“Como este tempo de Quaresma começa sob sombrios auspícios, somos chamados a viver estes 40 dias em comunhão com aqueles que, não só na Europa, mas em todo o mundo, são afectados pela violência”, diz ainda o prior de Taizé, lembrando: “Na cruz, Cristo abriu os braços para abraçar toda a humanidade. Uma humanidade muitas vezes dilacerada, mas para sempre unida no coração de Deus.”

A revista La Vie publica ainda uma oração de Taizé, escrita pelo irmão Aloïs especialmente para este início da Quaresma:

“Cristo ressuscitado, em silêncio diante de ti, permitimos que se levante esta oração ardente: que cesse o fogo das armas na terra da Ucrânia! Acolhe no teu amor os que morrem da violência e da guerra, consola as famílias enlutadas, ampara os que tiveram que seguir o caminho do êxodo. Diante de um sofrimento incompreensível, acreditamos, no entanto, que as tuas palavras de amor e de paz nunca passarão. Tu deste a vida na cruz e abriste-nos um futuro, mesmo além da morte. Por isso, imploramos-te: dá-nos a tua paz. Tu és a nossa esperança.”


Vejo um Ramo de Amendoeira

Superiora do mosteiro de Montserrat

“Podemos nunca ver para que serve, mas rezamos”

7Margens | 26 Fev 2022

Por que razão rezar quando rezar parece tão inútil? – pergunta a superiora do mosteiro de Beneditinas de Montserrat, Maria del Mar Albajar, retomando a questão que muitos crentes hoje se colocam perante a desolação e o sofrimento provocados pela invasão russa da Ucrânia. A resposta da irmã beneditina foi publicada sexta, 25 de fevereiro, no Catalunya Religió num curto texto por ela assinado e que o 7MARGENS publica na íntegra:

“’Rezem pelo mundo’, pediu-me esta manhã um amigo jornalista. E nós, com muitos daqui e de todos os lugares, rezamos. Rezamos com o coração partido, rezamos. A guerra começou. A guerra alastra. Rezamos. Putin e o seu governo iniciam uma guerra destruindo a vida de jovens e de civis que não podem fugir. E nós rezamos. E porque rezamos quando rezar parece ser tão inútil, com tão poucos resultados visíveis? Podemos nunca ver para que serve, mas rezamos. Rezamos como expressão da Vida. Rezamos com o gemido de quem não se conforma com menos do que a própria Vida. Rezamos, num grito desprotegido e confiante, ao Amor que bate no coração do mundo. Rezamos na conversa incessante entre dois corações que se amam e se procuram. Oração que é vida chamada a Viver, que é sede da Fonte e que é o próprio Amor abraçando e sustentando a vida.

Temos de nos erguer pela paz. Alguns fazem-no em frente às embaixadas e consulados russos. Onde quer que seja. De muitos modos. Erguemo-nos pela paz porque a Vida que nos habita nos faz viver de pé, conscientes da sacralidade da vida, de toda a vida. Erguemo-nos pela paz porque a paz precisa da nossa consciência e da nossa escolha em acreditar que o amor é sempre maior do que qualquer forma de guerra. Erguemo-nos para podermos cuidar, em paz, dos que estão ao nosso lado e quebrar qualquer círculo de violência. Erguemo-nos pela paz porque rezamos pelo mundo e o Amor, que nos ama, envia-nos a amá-lo.”

Maria del Mar Albajar,
Mosteiro de S. Benet, Montserrat (Catalunha)


Vejo um Ramo de Amendoeira

PAPA FRANCESCO

ANGELUS

Praça de São Pedro
Domingo, 20 de fevereiro de 2022

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

No Evangelho da Liturgia de hoje, Jesus dá aos discípulos algumas indicações fundamentais de vida. O Senhor refere-se às situações mais difíceis, aquelas que constituem o nosso banco de prova, aquelas que nos colocam na frente daqueles que são nossos inimigos e hostis, aqueles que sempre tentam prejudicar-nos. Nestes casos, o discípulo de Jesus é chamado a não ceder ao instinto e ao ódio, mas a ir mais longe, muito mais longe. Vá além do instinto, vá além do ódio. Jesus diz: "Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam" ( Lc 6,27 ). E ainda mais concreto: “A quem te bater numa face, oferece também a outra” (v. 29). Quando ouvimos isto, parece-nos que o Senhor está a pedir o impossível. Além disso, porquê amar os inimigos? Se não reagirmos aos agressores, todo o abuso recebe luz verde, e isso não é justo. Mas será realmente assim? O Senhor pede-nos realmente coisas impossíveis , na verdade, injustas ? Será assim mesmo?

Consideremos primeiro aquele sentimento de injustiça que sentimos ao "dar a outra face". E pensemos em Jesus: durante a paixão, no seu julgamento injusto perante o sumo sacerdote, a certa altura recebe uma bofetada na cara de um dos guardas. E como é que Ele se comporta? Não o insulta, não, diz ao guarda: «Se falei mal, mostra-me onde está o mal. Mas se falei bem, porque me bates?" ( Jo 18:23). Ele pede uma conta do mal recebido. Dar a outra face não significa sofrer em silêncio, ceder à injustiça. Com a sua pergunta, Jesus denuncia o que é injusto. Mas Ele fá-lo sem raiva, sem violência, na verdade com bondade. Ele não quer provocar uma discussão, mas desarmar o ressentimento, isso é importante: extinguir o ódio e a injustiça juntos, tentando recuperar o irmão culpado. Isso não é fácil, mas Jesus fez isso e diz-nos para fazermos também. Isso é dar a outra face: a mansidão de Jesus é uma resposta mais forte do que o golpe que recebeu. Dar a outra face não é o recuo do perdedor, mas a ação de quem tem maior força interior. Dar a outra face é vencer o mal com o bem, o que abre uma brecha no coração do inimigo, expondo o absurdo do seu ódio. E essa atitude, esse dar a outra face, não é ditado pelo cálculo ou pelo ódio, mas pelo amor. Queridos irmãos e irmãs, é o amor gratuito e imerecido que recebemos de Jesus que gera no coração um modo de fazer semelhante ao seu, que rejeita toda vingança. Estamos acostumados à vingança: "Fizeste-me isto, eu faço-te isto”, isto é, a guardar no coração este rancor, um rancor que provoca dano, destrói a pessoa.

Vamos à outra objeção: é possível que uma pessoa consiga amar os seus inimigos? Se dependesse apenas de nós, seria impossível. Mas lembremos que quando o Senhor pede algo, ele quer dá-lo. O Senhor nunca nos pede algo que Ele não nos tenha dado antes. Quando ele me diz para amar os inimigos, Ele quer dar-me a capacidade de o fazer. Sem essa capacidade não poderíamos, mas Ele diz “ama o inimigo” e dá essa capacidade de amar. Santo Agostinho rezou assim - ouçam esta bela oração -: Senhor, "dá-me o que pedes e pede-me o que queres" ( Confissões, X, 29.40), porque Tu mo deste antes. Que perguntar-Lhe? O que é que Deus fica feliz em dar-nos? A força para amar, que não é uma coisa, mas sim o Espírito Santo. A força para amar é o Espírito Santo, e com o Espírito de Jesus podemos responder ao mal com o bem, podemos amar aqueles que nos prejudicam. Assim fazem os cristãos. Como é triste quando pessoas e povos orgulhosos de serem cristãos veem os outros como inimigos e pensam em fazer guerra! É muito triste.

E nós, procuramos viver os convites de Jesus? Pensemos numa pessoa que nos maltratou. Todos pensam numa pessoa. É comum termos sofrido algum mal de alguém, pensemos nessa pessoa. Talvez haja um rancor dentro de nós. Assim, ao lado desse rancor, coloquemos a imagem de Jesus, manso, durante o julgamento, após a bofetada. E então peçamos ao Espírito Santo para agir em nossos corações. Por fim, rezemos por essa pessoa: rezemos por aqueles que nos fizeram mal (cf. Lc6.28). nós, quando nos fizeram mal, vamos imediatamente contar aos outros e sentimo-nos vítimas. Paremos e rezemos ao Senhor por essa pessoa, para que a ajude, e assim esse sentimento de rancor desaparece. Rezar por aqueles que nos fez mal é a primeira coisa para transformar o mal em bem. A oração. Que a Virgem Maria nos ajude a ser construtores de paz para com todos, especialmente para aqueles que nos são hostis e não gostam de nós.


Vejo um Ramo de Amendoeira

CARTA DO PAPA FRANCISCO
AO ARCEBISPO RINO FISICHELLA PELO JUBILEU 2025

Ao amado Irmão
Arcebispo RINO FISICHELLA
Presidente do Pontifício Conselho
para a Promoção da Nova Evangelização

O Jubileu representou sempre na vida da Igreja um acontecimento de grande relevância espiritual, eclesial e social. Desde que Bonifácio VIII, em 1300, instituiu o primeiro Ano Santo – com recorrência centenária, passando depois, segundo o modelo bíblico, a cinquentenária e por fim fixada de vinte e cinco em vinte e cinco anos –, o fiel e santo povo de Deus viveu esta celebração como um dom especial de graça, caraterizado pelo perdão dos pecados e, em particular, pela indulgência, expressão plena da misericórdia de Deus. Os fiéis, frequentemente no final duma longa peregrinação, dessedentam-se no tesouro espiritual da Igreja atravessando a Porta Santa e venerando as relíquias dos Apóstolos Pedro e Paulo guardadas nas Basílicas romanas. Milhões e milhões de peregrinos, ao longo dos séculos, vieram até estes lugares sagrados dando vivo testemunho da fé de sempre.

O Grande Jubileu do ano 2000 introduziu a Igreja no terceiro milénio da sua história. Tanto o aguardou e desejou São João Paulo II, com a esperança de que todos os cristãos, superadas as divisões históricas, pudessem celebrar juntos os dois mil anos do nascimento de Jesus Cristo, o Salvador da humanidade. Agora aproxima-se a meta dos primeiros vinte e cinco anos do século XXI, e somos chamados a realizar uma preparação que permita ao povo cristão viver o Ano Santo em todo o seu significado pastoral. Neste sentido, constituiu uma etapa significativa o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, que nos permitiu redescobrir toda a força e ternura do amor misericordioso do Pai a fim de, por nossa vez, sermos testemunhas do mesmo.

Mas, nos últimos dois anos, não houve nação que não tenha sido transtornada pela inesperada epidemia que, além de nos ter feito tocar de perto o drama da morte na solidão, a incerteza e o caráter provisório da existência, modificou o nosso modo de viver. Como cristãos, sofremos juntamente com todos os irmãos e irmãs os mesmos sofrimentos e limitações. As nossas igrejas estiveram fechadas, bem como as escolas, as fábricas, os escritórios, as lojas e os locais dedicados ao tempo livre. Todos vimos algumas liberdades limitadas e a pandemia, além do sofrimento, por vezes suscitou no íntimo de nós mesmos a dúvida, o medo, a perplexidade. Os homens e mulheres de ciência encontraram, com grande celeridade, um primeiro remédio que permite regressar pouco a pouco à vida quotidiana. Temos plena confiança de que a epidemia possa ser superada e o mundo volte a ter os seus ritmos de relações pessoais e de vida social. Isto será conseguido mais facilmente se agirmos com solidariedade efetiva de modo que não sejam negligenciadas as populações mais carentes, mas se possa partilhar com todos quer as descobertas da ciência quer os medicamentos necessários.

Devemos manter acesa a chama da esperança que nos foi dada e fazer todo o possível para que cada um recupere a força e a certeza de olhar para o futuro com espírito aberto, coração confiante e mente clarividente. O próximo Jubileu poderá favorecer imenso a recomposição dum clima de esperança e confiança, como sinal dum renovado renascimento do qual todos sentimos a urgência. Por isso escolhi o lema Peregrinos de esperança. Entretanto tudo isto será possível se formos capazes de recuperar o sentido de fraternidade universal, se não fecharmos os olhos diante do drama da pobreza crescente que impede milhões de homens, mulheres, jovens e crianças de viverem de maneira digna de seres humanos. Penso de modo especial nos inúmeros refugiados forçados a abandonar as suas terras. Que as vozes dos pobres sejam escutadas neste tempo de preparação para o Jubileu que, segundo o mandamento bíblico, restitui a cada um o acesso aos frutos da terra: «O que a terra produzir durante o seu descanso, servir-vos-á de alimento, a ti, ao teu escravo, à tua serva, ao teu jornaleiro e ao inquilino que vive contigo. Também o teu gado, assim como os animais selvagens da tua terra, poderão alimentar-se com todos esses frutos» (Lv 25, 6-7).

Por conseguinte, que a dimensão espiritual do Jubileu, que convida à conversão, se combine com estes aspetos fundamentais da vida social, de modo a constituir uma unidade coerente. Sentindo-nos todos peregrinos na terra onde o Senhor nos colocou para a cultivar e guardar (cf. Gn 2, 15), não nos desleixemos, ao longo do caminho, de contemplar a beleza da criação e cuidar da nossa casa comum. Almejo que o próximo Ano Jubilar seja celebrado e vivido também com esta intenção. Com efeito, um número cada vez maior de pessoas, incluindo muitos jovens e adolescentes, reconhece que o cuidado da criação é expressão essencial da fé em Deus e da obediência à sua vontade.

Confio-te, amado Irmão, a responsabilidade de encontrar as formas adequadas para que o Ano Santo possa ser preparado e celebrado com fé intensa, esperança viva e caridade operosa. O Dicastério que promove a nova evangelização saberá fazer deste momento de graça uma etapa significativa na pastoral das Igrejas Particulares, latinas e orientais, que nestes anos são chamadas a intensificar o empenho sinodal. Nesta perspetiva, a peregrinação rumo ao Jubileu poderá reforçar e exprimir o caminho comum que a Igreja é chamada a empreender para ser, cada vez mais e melhor, sinal e instrumento de unidade na harmonia das diversidades. Será importante ajudar a redescobrir as exigências da vocação universal à participação responsável, valorizando os carismas e ministérios que o Espírito Santo não cessa jamais de conceder para a construção da única Igreja. As quatro Constituições do Concílio Ecuménico Vaticano II, juntamente com o magistério destes decénios, continuarão a orientar e guiar o santo povo de Deus, a fim de que progrida na missão de levar a todos o jubiloso anúncio do Evangelho.

Como é costume, a Bula de Promulgação, que será emanada no devido tempo, conterá as indicações necessárias para celebrar o Jubileu de 2025. Neste tempo de preparação, desde já me alegra pensar que se poderá dedicar o ano anterior ao evento jubilar, o 2024, a uma grande «sinfonia» de oração. Oração, em primeiro lugar, para recuperar o desejo de estar na presença do Senhor, escutá-Lo e adorá-Lo. Oração, depois, para agradecer a Deus tantos dons do seu amor por nós e louvar a sua obra na criação, que a todos compromete no respeito e numa ação concreta e responsável em prol da sua salvaguarda. Oração, ainda, como voz de «um só coração e uma só alma» (cf. At 4, 32), que se traduz na solidariedade e partilha do pão quotidiano. Oração, além disso, que permita a cada homem e mulher deste mundo dirigir-se ao único Deus, para lhe expressar tudo o que traz no segredo do coração. E oração como via mestra para a santidade, que leva a viver a contemplação inclusive no meio da ação. Em suma, um ano intenso de oração, em que os corações se abram para receber a abundância da graça, fazendo do «Pai Nosso» – a oração que Jesus nos ensinou – o programa de vida de todos os seus discípulos.

Peço à Virgem Maria que acompanhe a Igreja no caminho de preparação para o acontecimento de graça que é o Jubileu e, agradecido, envio-te de coração, a ti e aos colaboradores, a minha Bênção.

Roma, São João de Latrão, na Memória de Nossa Senhora de Lurdes, 11 de fevereiro de 2022.


Vejo um Ramo de Amendoeira

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA FRANCISCO
PARA O XXX DIA MUNDIAL DO DOENTE

(11 de fevereiro de 2022)

«Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» (Lc 6, 36). Colocar-se ao lado de quem sofre num caminho de caridade»

Queridos irmãos e irmãs!

Há trinta anos, São João Paulo II instituiu o Dia Mundial do Doente para sensibilizar o povo de Deus, as instituições sanitárias católicas e a sociedade civil para a solicitude com os enfermos e quantos cuidam deles.

Agradecemos ao Senhor o caminho feito durante estes anos nas Igrejas particulares de todo o mundo. Já se deram muitos passos em frente, mas há ainda um longo caminho a percorrer para garantir a todos os doentes, mesmo nos lugares e situações de maior pobreza e marginalização, os cuidados de saúde, de que necessitam, e também o devido acompanhamento pastoral para conseguirem viver o período da doença unidos a Cristo crucificado e ressuscitado. Que o XXX Dia Mundial do Doente – por causa da pandemia, a sua celebração culminante não poderá ter lugar em Arequipa, no Perú, mas vai realizar-se na Basílica de São Pedro, no Vaticano – nos ajude a crescer na proximidade e no serviço às pessoas enfermas e às suas famílias.

1. Misericordiosos como o Pai

O tema escolhido para este trigésimo Dia Mundial – «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» (Lc 6, 36) – faz-nos, antes de mais nada, voltar o olhar para Deus, «rico em misericórdia» (Ef 2, 4), que olha sempre para os seus filhos com amor de pai, mesmo quando se afastam d’Ele. Com efeito a misericórdia é, por excelência, o nome de Deus, que expressa a sua natureza não como um sentimento ocasional, mas como força presente em tudo o que Ele faz. É conjuntamente força e ternura. Por isso podemos dizer, cheios de maravilha e gratidão, que a misericórdia de Deus tem nela mesma tanto a dimensão da paternidade como a da maternidade (cf. Is 49, 15), porque Ele cuida de nós com a força dum pai e com a ternura duma mãe, sempre desejoso de nos dar vida nova no Espírito Santo.

2. Jesus, misericórdia do Pai

Suprema testemunha do amor misericordioso do Pai para com os enfermos é o seu Filho unigénito. Quantas vezes os Evangelhos nos narram os encontros de Jesus com pessoas que sofriam de várias doenças! Ele «começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando entre o povo todas as doenças e enfermidades» (Mt 4, 23). Podemos perguntar-nos: Porquê esta atenção particular de Jesus para com os doentes, a ponto da mesma se tornar também a atividade principal na missão dos apóstolos, enviados pelo Mestre a anunciar o Evangelho e curar os enfermos (cf. Lc 9, 2)?

Um pensador do século XX sugere-nos uma razão: «A dor isola duma forma absoluta e é deste isolamento absoluto que nasce o apelo ao outro, a invocação ao outro». Quando uma pessoa experimenta na própria carne fragilidade e sofrimento por causa da doença, também o seu coração se sente acabrunhado, cresce o medo, multiplicam-se as dúvidas, torna-se mais impelente a questão sobre o sentido de tudo o que está a acontecer. A propósito, como não recordar os numerosos enfermos que, durante este tempo de pandemia, viveram a última parte da sua existência na solidão duma Unidade de Terapia Intensiva, certamente cuidados por generosos profissionais de saúde, mas longe dos afetos mais queridos e das pessoas mais importantes da sua vida terrena? Daqui vemos a importância de se ter ao lado testemunhas da caridade de Deus, que a exemplo de Jesus, misericórdia do Pai, derramem sobre as feridas dos enfermos o óleo da consolação e o vinho da esperança.

3. Tocar a carne sofredora de Cristo

O convite de Jesus a ser misericordiosos como o Pai adquire um significado particular para os profissionais de saúde. Penso nos médicos, enfermeiros, técnicos de laboratório, auxiliares e cuidadores dos enfermos, bem como nos numerosos voluntários que doam tempo precioso a quem sofre. Queridos profissionais da saúde, o vosso serviço junto dos doentes, realizado com amor e competência, ultrapassa os limites da profissão para se tornar uma missão. As vossas mãos que tocam a carne sofredora de Cristo podem ser sinal das mãos misericordiosas do Pai. Permanecei cientes da grande dignidade da vossa profissão e também da responsabilidade que ela acarreta.

Bendizemos o Senhor pelos progressos que a ciência médica realizou sobretudo nestes últimos tempos; as novas tecnologias permitiram dispor de vias terapêuticas de grande utilidade para os doentes; a pesquisa continua a dar a sua valiosa contribuição para derrotar velhas e novas patologias; a medicina de reabilitação desenvolveu notavelmente os seus conhecimentos e competências. Tudo isso, porém, não deve jamais fazer esquecer a singularidade de cada doente, com a sua dignidade e as suas fragilidades. O doente é sempre mais importante do que a sua doença, e por isso qualquer abordagem terapêutica não pode prescindir da escuta do paciente, da sua história, das suas ansiedades, dos seus medos. Mesmo quando não se pode curar, sempre é possível tratar, consolar e fazer sentir à pessoa uma proximidade que demonstre mais interesse por ela do que pela sua patologia. Espero, pois, que os percursos de formação dos operadores da saúde sejam capazes de os habilitar para a escuta e a dimensão relacional.

4. Os lugares de tratamento, casas de misericórdia

O Dia Mundial do Doente é ocasião propícia também para determos a nossa atenção nos lugares de tratamento. A misericórdia para com os enfermos levou a comunidade cristã a abrir, no decorrer dos séculos, inúmeras «estalagens do bom samaritano» (cf. Lc 10, 34), onde pudessem ser acolhidos e tratados doentes de todo o género, sobretudo aqueles que, por indigência, pela exclusão social ou pelas dificuldades no tratamento dalgumas patologias, não encontravam resposta ao seu pedido de saúde. Em tais situações, são sobretudo as crianças, os idosos e as pessoas mais fragilizadas que pagam o preço mais alto. Misericordiosos como o Pai, muitos missionários acompanharam o anúncio do Evangelho com a construção de hospitais, dispensários e lugares de tratamento. São obras preciosas, através das quais se concretizou a caridade cristã e se tornou mais credível o amor de Cristo, testemunhado pelos seus discípulos. Penso sobretudo nas populações das zonas mais pobres da Terra, onde por vezes é necessário percorrer longas distâncias para encontrar centros de tratamento que, embora com recursos limitados, oferecem tudo o que têm disponível. Ainda há um longo caminho a percorrer e, nalguns países, receber adequados tratamentos continua a ser um luxo. Testemunha-o, por exemplo, a escassa disponibilidade, nos países mais pobres, de vacinas contra a Covid-19 e ainda mais a falta de tratamentos para patologias que requerem medicamentos muito mais simples.

Neste contexto, desejo reafirmar a importância das instituições sanitárias católicas: são um tesouro precioso que deve ser preservado e sustentado; a sua presença caraterizou a história da Igreja pela sua proximidade aos doentes mais pobres e às situações mais esquecidas. Quantos fundadores de famílias religiosas souberam ouvir o clamor de irmãos e irmãs privados de acesso aos tratamentos ou mal atendidos, prodigalizando-se ao seu serviço! Ainda hoje, mesmo nos países mais desenvolvidos, a sua presença é uma bênção, porque, além de cuidar do corpo com toda a competência necessária, sempre podem oferecer também aquela caridade cujo centro da atenção são os doentes e os seus familiares. Numa época em que se difundiu a cultura do descarte e nem sempre se reconhece a vida como digna de ser acolhida e vivida, estas estruturas, como casas da misericórdia, podem ser exemplares na salvaguarda e no cuidado de cada existência, mesmo a mais frágil, desde o próprio início até ao seu termo natural.

5. A misericórdia pastoral: presença e proximidade

No caminho feito ao longo destes trinta anos, a própria pastoral da saúde viu o seu serviço ser cada vez mais reconhecido como indispensável. Na verdade, se a pior discriminação sofrida pelos pobres – e os doentes são pobres de saúde – é a falta dos cuidados espirituais, não podemos exonerar-nos de lhes oferecer a proximidade de Deus, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé. A propósito, gostaria de lembrar que a proximidade aos enfermos e o seu cuidado pastoral não competem apenas a alguns ministros especificamente deputados para o efeito; visitar os enfermos é um convite feito por Cristo a todos os seus discípulos. Quantos doentes e quantas pessoas idosas há que vivem em casa e esperam por uma visita! O ministério da consolação é tarefa de todo o batizado, recordando-se das palavras de Jesus: «Estive doente e visitastes-Me» (Mt 25, 36).

Queridos irmãos e irmãs, à intercessão de Maria, Saúde dos Enfermos, confio todos os doentes e as suas famílias. Unidos a Cristo, que carrega sobre Si o sofrimento do mundo, possam encontrar sentido, consolação e confiança. Rezo por todos os profissionais de saúde para que, ricos em misericórdia, ofereçam aos pacientes, juntamente com os tratamentos devidos, a sua proximidade fraterna.

De coração, a todos concedo a Bênção Apostólica.

Roma, São João de Latrão, na Memória de Nossa Senhora de Loreto, 10 de dezembro de 2021.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Contra a discriminação e o ódio

Eduardo Jorge Madureira | 30 Jan 22 | in 7 Margens

(Nota: Porque referi Martin Luther King na homilia de Domingo e não sabia da coincidência da data. Padre Mendes)

A 30 de Janeiro, há 66 anos, uma bomba destruía uma parte da casa de uma das mais influentes personalidades do século XX. “Explosão abala residência do líder do boicote aos autocarros”, dizia o título principal do jornal The Montgomery Advertiser de 31 de Janeiro de 1956. A notícia referia que, no dia anterior, a casa de Martin Luther King em Montgomery, no Alabama, tinha sido atacada à bomba. Dentro de casa, estavam a mulher de Martin Luther King, Coretta Scott, e a filha de sete semanas, Yolanda. A fachada foi danificada, mas ninguém ficou ferido.

As notícias, que circularam rapidamente por todos os Estados Unidos da América, deram conta de que, quando soube do ataque, após ter falado a uma vasta plateia congregada num templo, Martin Luther King, pastor da Igreja Baptista de Montgomery, correu para casa apreensivo. Temia pela vida da família. Quando chegou, na rua já o aguardava uma multidão, havendo gente de armas na mão, preparada para o defender. Depois de abraçar a mulher e a filha, Martin Luther King dirigiu-se às pessoas que continuavam a acorrer para o apoiar. Do que disse, sobressaiu o apelo: “Se têm armas, levem-nas para casa; se não as tiverem, por favor, não as procurem. Não podemos resolver este problema com violência. Devemos enfrentar a violência com a não-violência”.

A bomba não era um incidente isolado. Outros episódios de intimidação tinham já visado o reverendo Martin Luther King por causa do papel que desempenhava então na luta contra a discriminação racial, particularmente a que ocorria nos autocarros. O racismo ditava que, neles, os negros apenas pudessem ocupar alguns lugares traseiros e, mesmo assim, teriam de os ceder se os brancos não tivessem onde se sentar.

No dia 1 de Dezembro de 1955, Rosa Parks, uma mulher negra, havia sido intimada a levantar-se e dar o assento a um branco. Mas ela não se levantou. A recusa alvoroçaria a cidade e o país. O condutor parou e chamou a polícia, que a deteve. Rosa Parks não ficou na prisão a aguardar o julgamento porque outro negro, Edgar Nixon, pagou a fiança. Poucos dias depois, começava o boicote aos autocarros, que Martin Luther King foi instado a liderar. O boicote duraria quase um ano. Findou quando, por decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América, terminou oficialmente a segregação racial nos autocarros de Montgomery.

Em Força para amar, Martin Luther King legou um inesquecível testemunho do que representaram esses dias que o colocaram na primeira linha do combate contra a discriminação racial: “O telefone tocou e disse uma voz encolerizada: ‘Escuta, negro, estamos fartos de ti. Antes da próxima semana, estarás arrependido de teres vindo a Montgomery…’ Tinha atingido o ponto de saturação… Estava quase a abandonar… Havia decidido entregar o problema a Deus… Mas nesse momento tive consciência da presença divina como nunca. Era como se pudesse ouvir a tranquilidade e segurança de uma voz interior: ‘De pé para a justiça. De pé para a verdade! Deus estará sempre a teu lado’. A minha incerteza desapareceu e estarei pronto para a luta.”

Martin Luther King foi um admirável líder espiritual, defensor dos direitos cívicos, um activista adepto da não-violência, reconhecido com o Prémio Nobel da Paz em 1964. No dia 4 de Abril de 1968, foi assassinado por um segregacionista branco em Memphis, no Tennessee. Também o Mahatma Gandhi, em cujo exemplo Martin Luther King se inspirou, foi assassinado. Um fanático hindu matou-o no dia 30 de janeiro de 1948. Passam neste domingo 74 anos. Os que sonharam e lutam por um mundo mais fraterno, mais justo e mais livre tiveram contra si fanáticos perigosos, mas deixaram um poderoso incentivo a que o combate contra a discriminação e o ódio não enfraqueça.

A última palavra não pertence aos violentos.


Vejo um Ramo de Amendoeira

DOMINGO DA PALAVRA DE DEUS

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO

Basílica de São Pedro

III Domingo do Tempo Comum, 23 de janeiro de 2022

Encontramos, na primeira Leitura e no Evangelho, dois gestos paralelos: o sacerdote Esdras coloca em lugar elevado o livro da lei de Deus, abre-o e proclama-o diante de todo o povo; Jesus, na sinagoga de Nazaré, abre o rolo da Sagrada Escritura e, na frente de todos, lê uma passagem do profeta Isaías. Estas duas cenas comunicam-nos uma realidade fundamental: no centro da vida do povo santo de Deus e do caminho da fé, não estamos nós com as nossas palavras; no centro, está Deus com a sua Palavra.

Tudo teve início pela Palavra que Deus nos dirigiu. Em Cristo, sua Palavra eterna, o Pai «escolheu-nos antes da fundação do mundo» (Ef 1, 4). Com a sua Palavra, criou o universo: «Ele ordenou e tudo foi criado» (Sal 33, 9). Desde os tempos antigos, falou-nos por meio dos profetas (cf. Heb 1, 1); por fim, na plenitude do tempo (cf. Gal 4, 4), enviou-nos a sua própria Palavra, o Filho unigénito. Por isso no Evangelho, terminada a leitura de Isaías, Jesus anuncia uma coisa inaudita: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura» (Lc 4, 21). Cumpriu-se: a Palavra de Deus já não é uma promessa, mas realizou-se. Em Jesus, fez-Se carne. Por obra do Espírito Santo, veio habitar no meio de nós e quer habitar em nós, para satisfazer os nossos anseios e curar as nossas feridas.

Irmãs e irmãos, tenhamos os olhos fixos em Jesus, como as pessoas na sinagoga de Nazaré (cf. Lc 4, 20) – fixavam-no, era um deles: Que fenómeno! Que fará este de quem tanto se fala? – e acolhamos a sua Palavra. Meditemos hoje em dois aspetos interligados da mesma: a Palavra desvenda Deus e a Palavra leva-nos ao homem. Está no centro: desvenda Deus e leva-nos ao homem.

Antes de mais nada, a Palavra desvenda Deus. Jesus, no início da sua missão, ao comentar aquela passagem particular do profeta Isaías, anuncia claramente uma opção: veio para libertar os pobres e os oprimidos (cf. 4, 18). Assim nos desvenda, precisamente através das Escrituras, o rosto de Deus como o d’Aquele que cuida da nossa pobreza e tem a peito o nosso destino. Não é patrão enrocado nos céus – uma imagem perversa de Deus! Ele não é assim -, mas o Pai que acompanha os nossos passos. Não é observador frio, distante e impassível, um Deus «matemático». É o Deus-connosco que Se apaixona pela nossa vida e empenha-Se nela a ponto de chorar as nossas lágrimas. Não é deus neutral e indiferente, mas o Espírito amante do homem, que nos defende, aconselha, toma posição a nosso favor, entra em campo e compromete-Se com a nossa dor. Nesta, sempre está presente. Eis «a Boa-Nova» (4, 18), que Jesus proclama diante do olhar atónito dos presentes: Deus está perto e quer cuidar de mim, de ti, de todos. Esta é o traço distintivo de Deus: a proximidade. Assim se define a Si próprio, quando diz ao povo no Deuteronómio: «Qual povo tem os seus deuses tão próximos de si, como Eu estou próximo de ti?» (cf. Dt 4, 7). O Deus próximo com uma proximidade compassiva e terna, quer aliviar-te dos pesos que te esmagam, quer aquecer o frio dos teus invernos, quer iluminar os teus dias sombrios, quer sustentar os teus passos incertos. E fá-lo através da sua Palavra, com a qual te fala para reacender a esperança por entre as cinzas dos teus medos, para te fazer reencontrar a alegria nos labirintos das tuas tristezas, para encher de esperança a amargura das solidões. Faz-te andar, mas não num labirinto; faz-te andar no caminho, para O encontrares dia a dia cada vez mais.

Irmãos, irmãs, perguntemo-nos: trazemos no coração esta imagem libertadora de Deus, o Deus próximo, o Deus compassivo, o Deus terno? Ou imaginamo-Lo como um juiz rigoroso, um rígido guarda alfandegário da nossa vida? A nossa é uma fé que gera esperança e alegria, ou – pergunto-me… – dentro de nós há ainda uma fé acabrunhada pelo medo, uma fé medrosa? Qual é o rosto de Deus que anunciamos na Igreja: o Salvador que liberta e cura, ou o Deus Temível que esmaga avivando os sentimentos de culpa? Para nos convertermos ao verdadeiro Deus, Jesus indica-nos por onde começar: pela Palavra. Esta, ao narrar a história do amor de Deus por nós, liberta-nos dos medos e preconceitos sobre Ele, que apagam a alegria da fé. A Palavra derruba os ídolos falsos, desmascara as nossas fantasias, destrói as representações demasiado humanas de Deus e traz-nos de volta ao seu rosto verdadeiro, à sua misericórdia. A Palavra de Deus alimenta e renova a fé: voltemos a colocá-la no centro da oração e da vida espiritual! No centro, a Palavra que nos revela como é Deus. A Palavra que nos aproxima de Deus.

E agora o segundo aspeto: a Palavra leva-nos ao homem. Leva-nos a Deus e leva-nos ao homem. Na verdade, quando descobrimos que Deus é amor compassivo, vencemos a tentação de nos fecharmos numa sacra religiosidade, que se reduz a um culto exterior, que não toca nem transforma a vida. Uma tal religiosidade é idolatria, idolatria sumida, idolatria rebuscada, mas é idolatria. A Palavra impele-nos a sair de nós mesmos caminhando ao encontro dos irmãos, animados unicamente com a força serena do amor libertador de Deus. É precisamente isto que nos revela Jesus, na sinagoga de Nazaré: Ele é enviado para ir ao encontro dos pobres (que somos todos nós!) e libertá-los. Não veio para entregar um elenco de normas nem para oficiar nalguma cerimónia religiosa, mas desceu às estradas do mundo para encontrar a humanidade ferida, acariciar os rostos macerados pelo sofrimento, curar os corações dilacerados, libertar-nos das correntes que nos agrilhoam a alma. Revela-nos assim qual é o culto mais agradável a Deus: cuidar do próximo. E desculpai se insisto nisto. Há momentos em que sobrevêm na Igreja as tentações da rigidez, que é uma perversão, e se pensa encontrar Deus tornando-se mais rígidos, com mais normas, acertando as coisas, pondo as coisas claras... Mas não é assim! Quando virmos propostas de rigidez, pensemos imediatamente: isto é um ídolo, não é Deus. O nosso Deus não é assim.

Irmãs e irmãos, a Palavra de Deus transforma-nos – a rigidez não nos transforma, dissimula – a Palavra de Deus transforma-nos penetrando na alma como uma espada (cf. Heb 4, 12). Com efeito, se por um lado consola, desvendando-nos o rosto de Deus, por outro provoca e sobressalta-nos, fazendo-nos cientes das nossas contradições. Põe-nos em crise. Não nos deixa tranquilos, se o preço a pagar por esta tranquilidade é um mundo dilacerado pela injustiça e pela fome e quem paga o preço são sempre os mais frágeis. Sempre pagam os mais frágeis. A Palavra põe em crise as nossas justificações que sempre fazem depender, aquilo que corre mal, duma coisa diferente e dos outros. Quanta amargura sentimos ao ver os nossos irmãos e irmãs morrerem no mar, porque não os deixam desembarcar! E isto é feito por alguns em nome de Deus. A Palavra de Deus convida-nos a sair às claras, a não nos escondermos atrás da complexidade dos problemas, atrás do «não há nada a fazer» – «é um problema deles», «o problema é seu» – ou «que posso fazer eu?», «Deixemo-los para lá!» Exorta-nos a agir, a unir o culto a Deus e o cuidado do homem. Porque a Sagrada Escritura não foi dada para nos entreter, para nos mimar numa espiritualidade angélica, mas para sair ao encontro dos outros e debruçar-nos sobre as suas feridas. Falei da rigidez, deste pelagianismo moderno, como uma das tentações da Igreja. E esta – a de procurar uma espiritualidade angélica – de algum modo é a outra tentação de hoje: os movimentos espirituais gnósticos, o gnosticismo, propondo-te uma Palavra de Deus que te coloca «em órbita» e não te faz tocar a realidade. A Palavra que Se fez carne (cf. Jo 1, 14), quer tornar-Se carne em nós. Não nos aliena da vida; mas mergulha-nos nela, nas situações do dia a dia, na auscultação dos sofrimentos dos irmãos, do clamor dos pobres, das violências e injustiças que ferem a sociedade e a terra, a fim de sermos, não cristãos indiferentes, mas diligentes, cristãos criativos, cristãos proféticos.

«Cumpriu-se hoje – diz Jesus – esta passagem da Escritura» (Lc 4, 21). A Palavra quer tornar-Se carne hoje, no tempo que vivemos, não num futuro ideal. Uma mística francesa do século passado, que escolheu viver o Evangelho nas periferias, escreveu que a Palavra do Senhor não é «“letra morta": é espírito e vida. (...) A acústica exigida de nós para bem ressoar a Palavra do Senhor é o nosso “hoje”: as circunstâncias da nossa vida quotidiana e as necessidades do nosso próximo» (M. Delbrêl, A alegria de acreditar, Milão 1994, 258). Perguntemo-nos então: queremos imitar Jesus, tornando-nos ministros de libertação e consolação para os outros, realizar a Palavra? Somos uma Igreja dócil à Palavra? Uma Igreja propensa a ouvir os outros, empenhada em estender a mão para aliviar os irmãos e as irmãs daquilo que os oprime, para desfazer os nós dos medos, libertar os mais frágeis das prisões da pobreza, do cansaço interior e da tristeza que apaga a vida? É isto que nós queremos?

Nesta celebração, são instituídos leitores e catequistas alguns dos nossos irmãos e irmãs. São chamados à importante tarefa de servir o Evangelho de Jesus, anunciá-lo para que a sua consolação, a sua alegria e a sua libertação cheguem a todos. Esta é também a missão de cada um de nós: ser arautos credíveis, profetas da Palavra no mundo. Por isso apaixonemo-nos pela Sagrada Escritura, deixemo-nos interpelar profundamente pela Palavra, que desvenda a novidade de Deus e leva-nos a amar incansavelmente os outros. Voltemos a colocar a Palavra de Deus no centro da pastoral e da vida da Igreja! Assim seremos libertos tanto de qualquer pelagianismo rígido, de qualquer rigidez, como da ilusão duma espiritualidade que nos coloca «em órbita» sem cuidar dos irmãos e irmãs. Voltemos a colocar a Palavra de Deus no centro da pastoral e da vida da Igreja. Ouçamo-la, rezemo-la, ponhamo-la em prática.


Vejo um Ramo de Amendoeira

PAPA FRANCISCO

ANGELUS

Praça São Pedro

Domingo, 16 de janeiro de 2022

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho da liturgia de hoje relata o episódio das bodas de Caná, onde Jesus transforma a água em vinho para a alegria dos noivos. E conclui-se assim: «Este foi o início dos sinais que Jesus realizou; Ele manifestou a sua glória e os seus discípulos acreditaram nele» (Jo 2, 11). Observamos que o evangelista João não fala de um milagre, ou seja, de um acontecimento poderoso e extraordinário que gera maravilha. Ele escreve que em Caná ocorre um sinal que suscita a fé dos discípulos. Podemos então perguntar-nos: o que é um “sinal” segundo o Evangelho?

Um sinal é um indício que revela o amor de Deus, isto é, que não chama a atenção para o poder do gesto, mas para o amor que o provocou. Ensina-nos algo do amor de Deus, que é sempre próximo, terno e compassivo. O primeiro sinal ocorre quando dois recém-casados se encontram em dificuldade no dia mais importante da sua vida. No meio da festa falta um elemento essencial, o vinho, e a alegria corre o risco de esvaecer no meio das críticas e da insatisfação dos convidados. Imaginemos como pode continuar uma festa de casamento só com água! É terrível, uma má figura que farão os noivos!

É Nossa Senhora que se dá conta do problema e o indica discretamente a Jesus. E Ele intervém sem clamor, quase sem que alguém se aperceba. Tudo se passa na discrição, “nos bastidores”: Jesus diz aos servos para encherem as ânforas com água, que se transforma em vinho. Deus age deste modo, com proximidade e discrição. Os discípulos de Jesus dão-se conta disto: veem que graças a Ele as bodas se tornaram ainda mais bonitas. E também veem o modo de agir de Jesus, o seu servir no escondimento – assim é Jesus: ajuda-nos, serve-nos no escondimento, naquele momento – de tal modo que os elogios pelo bom vinho são feitos ao noivo, ninguém percebe, apenas os servos. Assim a semente da fé começa a desenvolver-se neles, ou seja, acreditam que em Jesus está presente Deus, o amor de Deus.

É bom pensar que o primeiro sinal que Jesus realiza não é uma cura extraordinária nem um milagre no templo de Jerusalém, mas um gesto que responde a uma necessidade simples e concreta das pessoas comuns, um gesto doméstico, um milagre, por assim dizer, “na ponta dos pés”, discreto, silencioso. Ele está pronto para nos ajudar, para nos aliviar. E assim, se estivermos atentos a estes “sinais”, somos conquistados pelo seu amor e tornamo-nos seus discípulos.

Mas há outra caraterística distintiva do sinal de Caná. Geralmente, o vinho que se oferecia no final da festa era o menos bom; também hoje se faz desta forma, naquele ponto as pessoas já não distinguem muito bem se é um bom vinho ou um vinho ligeiramente regado. Jesus, ao contrário, certifica-se de que a festa se conclua com o melhor vinho. Simbolicamente, isto diz-nos que Deus quer o melhor para nós, Ele quer que sejamos felizes. Ele não estabelece limites nem cobra juros. No sinal de Jesus, não há lugar para segundos fins, para pretensões em relação aos noivos. Não, a alegria que Jesus deixa no coração é alegria plena e abnegada. Nunca é uma alegria diluída!

Por isso sugiro-vos um exercício que nos pode fazer muito bem. Tentemos hoje sondar as nossas memórias em busca dos sinais que o Senhor realizou na minha vida. Cada pessoa diga: na minha vida, que sinais realizou o Senhor? Quais os indícios da sua presença? Sinais que Ele realizou, para nos mostrar que nos ama; pensemos naquele momento difícil em que Deus me fez experimentar o seu amor... E perguntemo-nos: com quais sinais, discretos e atenciosos, Ele me fez sentir a sua ternura? Quando senti o Senhor mais próximo de mim, quando senti a sua ternura, a sua compaixão? Cada um de nós na nossa história viveu esses momentos. Procuremos esses sinais, façamos memória. Como descobri a sua proximidade? Como permaneceu no meu coração uma grande alegria? Revivamos os momentos em que experimentámos a sua presença e a intercessão de Maria. Ela, a Mãe, que como em Caná está sempre atenta, nos ajude a fazer tesouro dos sinais de Deus na nossa vida.

Depois do Angelus

Amados irmãos e irmãs!


De 18 a 25 de janeiro terá lugar a Semana de Oração pela unidade dos cristãos, que este ano se propõe espelhar-se na experiência dos Magos, que do Oriente foram a Belém para honrar o Rei Messias. Também nós, cristãos, na diversidade das nossas confissões e tradições, somos peregrinos a caminho rumo à unidade plena, e aproximamo-nos da meta quanto mais mantivermos o nosso olhar fixo em Jesus, nosso único Senhor. Durante a Semana de Oração, ofereçamos também os nossos esforços e os nossos sofrimentos pela unidade dos cristãos.


Vejo um Ramo de Amendoeira

(É muito interpelante esta homilia do papa Francisco na Festa da Epifania celebrada, em Itália, no dia 6 de Janeiro)

SANTA MISSA DA SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO

Basílica de São Pedro
Quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Os Magos estão de viagem para Belém. E a sua peregrinação interpela-nos também a nós, chamados a caminhar para Jesus, porque é Ele a estrela polar que ilumina os céus da vida e orienta os passos para a verdadeira alegria. Mas, qual foi o ponto de partida da peregrinação dos Magos ao encontro de Jesus? O que é que levou estes homens do Oriente a porem-se em viagem?

Tinham ótimas desculpas para não partir: eram sábios e astrólogos, tinham fama e riqueza; de posse duma tal segurança cultural, social e económica, podiam acomodar-se no que tinham e sabiam, deixando-se estar tranquilos. Mas não; deixam-se inquietar por uma pergunta e um sinal: «Onde está Aquele que nasceu? Vimos despontar a sua estrela» (Mt 2, 2). O seu coração não se deixa amortecer na choça da apatia, mas está sedento de luz; não se arrasta pesadamente na preguiça, mas está abrasado pela nostalgia de novos horizontes. Os seus olhos não estão voltados para a terra, mas são janelas abertas para o céu. Como afirmou Bento XVI, eram «pessoas de coração inquieto (...); homens à espera, que não se contentavam com seus rendimentos assegurados e com uma posição social (...); eram indagadores de Deus» (Homilia, 06/I/2013).

Mas esta saudável inquietação, que os levou a peregrinar, donde nasce? Nasce do desejo. Eis o seu segredo interior: saber desejar. Meditemos nisto. Desejar significa manter vivo o fogo que arde dentro de nós e nos impele a buscar mais além do imediato, mais além das coisas visíveis. Desejar é acolher a vida como um mistério que nos ultrapassa, como uma friesta sempre aberta que nos convida a olhar mais além, porque a vida não é «toda aqui», é também «noutro lugar». É como uma tela em branco que precisa de ser colorida. Um grande pintor, Van Gogh, escreveu que a necessidade de Deus o impelia a sair de noite para pintar as estrelas (cf. Carta a Theo, 09/V/1889). Isto deve-se ao facto de Deus nos ter feito assim: empapados de desejo; orientados, como os Magos, para as estrelas. Podemos dizer, sem exagerar, que nós somos aquilo que desejamos. Porque são os desejos que ampliam o nosso olhar e impelem a vida mais além: além das barreiras do hábito, além duma vida limitada ao consumo, além duma fé repetitiva e cansada, além do medo de arriscar, de nos empenharmos pelos outros e pelo bem. «A nossa vida – dizia Santo Agostinho – é uma ginástica do desejo» (Tratados sobre a primeira Carta de João, IV, 6).

Irmãos e irmãs, como no caso dos Magos, também a nossa viagem da vida e o nosso caminho da fé têm necessidade de desejo, de impulso interior. Às vezes vivemos um espírito de «parque de estacionamento», vivemos estacionados, sem este ímpeto do desejo que nos impele para diante. Será bom perguntar-nos: a que ponto estamos nós na viagem da fé? Não estaremos já há bastante tempo bloqueados, estacionados numa religião convencional, exterior, formal, que deixou de aquecer o coração e já não muda a vida? As nossas palavras e ritos despertam no coração das pessoas o desejo de caminhar ao encontro de Deus ou são «língua morta», que fala apenas de si mesma e a si mesma? É triste quando uma comunidade de crentes já não tem desejos, arrastando-se, cansada, na gestão das coisas, em vez de se deixar levar por Jesus, pela alegria explosiva e desinquietadora do Evangelho. É triste quando um sacerdote fechou a porta do desejo; é triste cair no funcionarismo clerical! É muito triste...

Na nossa vida e nas nossas sociedades, a crise da fé tem a ver também com o desaparecimento do desejo de Deus. Tem a ver com a sonolência do espírito, com o hábito de nos contentarmos em viver o dia a dia, sem nos interrogarmos acerca daquilo que Deus quer de nós. Debruçamo-nos demasiado sobre os mapas da terra, e esquecemo-nos de erguer o olhar para o céu; estamos empanturrados com muitas coisas, mas desprovidos da nostalgia do que nos falta. Nostalgia de Deus. Fixamo-nos nas necessidades, no que havemos de comer e vestir (cf. Mt 6, 25), deixando dissipar-se o anseio por aquilo que o ultrapassa. E deparamo-nos com a bulimia de comunidades que têm tudo e muitas vezes já nada sentem no coração. Pessoas fechadas, comunidades fechadas, bispos fechados, padres fechados, consagrados fechados. Porque a falta de desejo leva à tristeza, à indiferença. Comunidades tristes, padres tristes, bispos tristes.

Com os olhos pousados sobretudo em nós mesmos, perguntemo-nos: como está a viagem da minha fé? É uma pergunta que hoje nos podemos colocar, cada um de nós. Como está a viagem da minha fé? Está estacionada ou está em caminho? A fé, para partir uma vez e outra, precisa de ser deflagrada pelo detonador do desejo, de colocar-se em jogo na aventura duma relação sentida e vivaz com Deus. Mas o meu coração vive ainda animado pelo desejo de Deus? Ou deixo que o hábito e as deceções o apaguem? Hoje, irmãos e irmãs, é o dia bom para nos colocarmos estas perguntas. Hoje é o dia bom para voltar a alimentar o desejo. E como fazer? Vamos à «escola de desejo», vamos ter com os Magos. Ensinar-nos-ão, na sua escola do desejo. Fixemos os passos que dão e tiremos algumas lições.

Em primeiro lugar, partem quando aparece a estrela: ensinam-nos que é preciso voltar a partir sempre cada dia, tanto na vida como na fé, porque a fé não é uma armadura que imobiliza, mas uma viagem fascinante, um movimento contínuo e desinquietador, sempre à procura de Deus, sempre com o discernimento, naquele caminho.

Depois, os Magos em Jerusalém perguntam: perguntam onde está o Menino. Ensinam-nos que precisamos de interrogativos, de ouvir com atenção as perguntas do coração, da consciência; porque frequentemente é assim que fala Deus, que Se nos dirige mais com perguntas do que com respostas. Devemos aprender bem isto: Deus dirige-Se a nós mais com perguntas do que com respostas. Mas deixemo-nos desinquietar pelos interrogativos das crianças, pelas dúvidas, as esperanças e os desejos das pessoas do nosso tempo. A estrada é deixar-se questionar.

Além disso os Magos desafiam Herodes. Ensinam-nos que temos necessidade duma fé corajosa, que não tenha medo de desafiar as lógicas obscuras do poder, tornando-se semente de justiça e fraternidade numa sociedade onde, ainda hoje, muitos “herodes” semeiam morte e massacram pobres e inocentes, na indiferença da multidão.

Por fim, os Magos regressam «por outro caminho» (Mt 2, 12): provocam-nos a percorrer estradas novas. É a criatividade do Espírito, que faz sempre coisas novas. É também, neste momento, uma das tarefas do Sínodo que nós estamos a realizar: caminhar numa escuta conjunta, para que o Espírito nos sugira caminhos novos, estradas para levar o Evangelho ao coração de quem é indiferente, vive alheado, de quem perdeu a esperança mas procura aquilo que sentiram os Magos: uma «imensa alegria» (Mt 2, 10). Sair para mais além, caminhar para a frente.

No ponto culminante da viagem dos Magos, porém, há um momento crucial: tendo chegado ao destino, viram o Menino e «prostrando-se adoraram-No» (2, 11). Adoram. Lembremo-nos disto: a viagem da fé só encontra ímpeto e cumprimento na presença de Deus. Só se recuperarmos o gosto da adoração é que se renova o desejo. O desejo leva-te à adoração e a adoração renova em ti o desejo. Porque o desejo de Deus cresce apenas permanecendo diante de Deus. Porque só Jesus cura os desejos. De quê? Cura-os da ditadura das necessidades. Com efeito, o coração adoece quando os desejos coincidem apenas com as necessidades; ao passo que Deus eleva os desejos e purifica-os; cura-os, sanando-os do egoísmo e abrindo-nos ao amor por Ele e pelos irmãos. Por isso, não esqueçamos a Adoração, a oração de adoração que é pouco comum entre nós: adorar, em silêncio. Por isso não esqueçamos a adoração, por favor.

E procedendo assim, cada dia, como os Magos, teremos a certeza de que, mesmo nas noites mais escuras, brilha uma estrela. É a estrela do Senhor, que vem cuidar da nossa frágil humanidade. Ponhamo-nos a caminho rumo a Ele. Não demos à apatia e à resignação a força de nos cravar na tristeza duma vida medíocre. Abramo-nos à inquietude do Espírito, corações inquietos. O mundo espera dos crentes um renovado ímpeto para o Céu. Como os Magos, levantemos a cabeça, ouçamos o desejo do coração, sigamos a estrela que Deus faz brilhar sobre nós. E como indagadores inquietos, permaneçamos abertos às surpresas de Deus. Irmãos e irmãs, sonhemos, procuremos, adoremos.


Vejo um Ramo de Amendoeira

PAPA FRANCISCO

AUDIÊNCIA GERAL

Sala Paulo VI
Quarta-feira 22 de dezembro de 2021

O nascimento de Jesus

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje, poucos dias antes do Natal, gostaria de recordar convosco o acontecimento do qual a história não pode prescindir: o nascimento de Jesus.

A fim de cumprir o decreto do Imperador César Augusto que ordenava que todos se recenseassem na própria cidade de origem, José e Maria foram de Nazaré a Belém. Assim que chegaram, procuraram imediatamente uma hospedaria, porque o parto era iminente; mas infelizmente não a encontraram, e assim Maria foi obrigada a dar à luz numa manjedoura (cf. Lc 2, 1-7).

Pensemos: ao Criador do universo… a Ele não foi concedido um lugar para nascer! Talvez fosse uma antecipação do que o evangelista João diz: «Veio entre os seus, e os seus não o receberam» (1, 11); e do que o próprio Jesus dirá: «As raposas têm os seus covis e as aves do ar os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça» (Lc 9, 58).

Um anjo anunciou a simples pastores o nascimento de Jesus. E foi uma estrela que indicou aos Magos o caminho para Belém (cf. Mt 2, 1, 9-10). O anjo é um mensageiro de Deus. A estrela recorda-nos que Deus criou a luz (Gn 1, 3) e que aquele Menino será “a luz do mundo”, como Ele mesmo se autodefinirá (cf. Jo 8, 12.46), a «verdadeira luz [...] que ilumina todo o homem» (Jo 1, 9), que «resplandece nas trevas, mas as trevas não a admitiram» (v. 5).

Os pastores personificam os pobres de Israel, pessoas humildes que interiormente vivem com a consciência da própria falta, e precisamente por isto confiam mais do que os outros em Deus. Eles foram os primeiros a ver o Filho de Deus feito homem, e este encontro muda-os profundamente. O Evangelho observa que voltaram «glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto» (Lc 2, 20).

Os Magos estão também em volta de Jesus que acabou de nascer (cf. Mt 2, 1-12). Os Evangelhos não nos dizem que eles eram reis, nem o número, nem os nomes. Com certeza, sabe-se apenas que de um país distante do Oriente (pode-se pensar na Babilónia, na Arábia do Sul ou na Pérsia daquele tempo) partiram em busca do Rei dos Judeus, que nos seus corações identificaram com Deus, pois disseram que o queriam adorar. Os Magos representam os povos pagãos, em particular todos aqueles que ao longo dos séculos procuraram Deus e se propuseram encontrá-lo. Representam também os ricos e os poderosos, mas só aqueles que não são escravos da posse, que não estão “possuídos” pelas coisas que pensam possuir.

A mensagem dos Evangelhos é clara: o nascimento de Jesus é um acontecimento universal que diz respeito a todos os homens.

Amados irmãos e amadas irmãs, só a humildade é o caminho que nos conduz a Deus e, ao mesmo tempo, precisamente porque nos conduz a Ele, leva-nos também ao essencial da vida, ao seu verdadeiro significado, à razão mais fiável pela qual vale a pena viver a vida.

Só a humildade nos abre à experiência da verdade, da alegria genuína, do conhecimento que conta. Sem humildade, estamos “desligados”, somos excluídos da compreensão de Deus, da compreensão de nós mesmos. É preciso ser humilde para nos compreendermos a nós mesmos, e mais ainda para compreender Deus. Os Magos podiam ter sido grandes de acordo com a lógica do mundo, mas tornam-se pequenos, humildes, e por esta mesma razão conseguem encontrar Jesus e reconhecê-lo. Aceitam a humildade de procurar, de se pôr a caminho, de perguntar, de arriscar, de cometer erros...

Cada homem, no íntimo do seu coração, é chamado a procurar Deus: todos nós, temos aquela inquietação e o nosso trabalho consiste em não apagar aquela inquietação, mas deixá-la crescer, pois é a inquietação de procurar Deus; e, com a sua própria graça, pode encontrá-lo. Façamos nossa a oração de Santo Anselmo (1033-1109): «Senhor, ensinai-me a procurar-vos. Mostrai-vos, quando vos procuro. Não posso procurar-vos se não me ensinardes; nem encontrar-vos se não vos mostrardes. Que eu vos procure, desejando-vos e vos deseje procurando-vos! Que eu vos encontre, procurando-vos e vos ame, encontrando-vos! (Proslogion, 1).

Queridos irmãos e irmãs, gostaria de convidar todos os homens e mulheres a ir à gruta de Belém para adorar o Filho de Deus feito homem. Cada um de nós se aproxime do presépio que tem em casa ou na igreja, ou noutro lugar, e procure fazer um ato de adoração, intimamente: “Creio que tu és Deus, que este menino é Deus. Por favor, concede-me a graça da humildade para poder compreender isto”.

Em primeiro lugar, aproximando-nos do presépio e rezando, gostaria de colocar os pobres, que – como exortava São Paulo VI – «devemos amar, porque de certa forma eles são sacramento de Cristo; neles – nos famintos, nos sedentos, nos exilados, nos nus, nos doentes, nos encarcerados – Ele quis identificar-se misticamente. Devemos ajudá-los, devemos sofrer com eles, e também devemos segui-los, porque a pobreza é o caminho mais seguro para a plena posse do Reino de Deus» (Homilia, 1 de maio de 1969). Por isso devemos pedir a humildade como uma graça: “Senhor, que eu não seja soberbo, que não seja autossuficiente, que não me considere o centro do universo. Faz-me humilde. Dá-me a graça da humildade. E com esta humildade que eu possa encontrar-te. É o único caminho, sem humildade nunca encontraremos Deus: encontraremos nós mesmos. Pois uma pessoa sem humildade não tem horizontes diante de si, tem apenas um espelho: olha para si mesmo. Peçamos ao Senhor que quebre o espelho para que possamos olhar além, para o horizonte, onde Ele está. Mas isto deve ser feito por Ele: conceder-nos a graça e a alegria da humildade para percorrer este caminho.

Depois, irmãos e irmãs, gostaria de acompanhar a Belém, como fez a estrela com os Magos, todos aqueles que não têm uma inquietação religiosa, que não se colocam o problema de Deus, ou até lutam contra a religião, todos aqueles que são inadequadamente denominados ateus. Gostaria de lhes repetir a mensagem do Concílio Vaticano II: «A Igreja defende que o reconhecimento de Deus de modo algum se opõe à dignidade do homem, uma vez que esta dignidade se funda e se realiza no próprio Deus [...] a Igreja sabe perfeitamente que a sua mensagem está de acordo com os desejos mais profundos do coração humano» (Gaudium et spes, 21).

Voltemos para casa com o desejo dos anjos: «Paz na terra aos homens por Ele amados». Lembremo-nos sempre: «Não fomos nós que amámos Deus, mas foi ele que nos amou [...]. Ele amou-nos primeiro» (1 Jo 4, 10.19), procurou-nos. Não nos esqueçamos disto.

Esta é a razão da nossa alegria: fomos amados, fomos procurados, o Senhor procura-nos para nos encontrar, para nos amar ainda mais. Este é o motivo da alegria: saber que fomos amados sem qualquer mérito, somos sempre precedidos por Deus no amor, um amor tão concreto que se tornou carne e veio habitar entre nós, naquele Menino que vemos no presépio. Este amor tem um nome e um rosto: Jesus é o nome e o rosto do amor que é o fundamento da nossa alegria. Irmãos e irmãs, desejo-vos um feliz Natal, um bom e santo Natal. E gostaria que – sim, haverá os bons votos, as reuniões de família, isto é muito bonito, sempre – mas que haja também a consciência de que Deus vem “para mim”. Cada um diga: Deus vem para mim. A consciência de que para procurar Deus, para encontrar Deus, para aceitar Deus é necessária a humildade: olhar com humildade para a graça de quebrar o espelho da vaidade, da soberba, de olhar para nós mesmos. Olhar para Jesus, olhar para o horizonte, olhar para Deus que vem até nós e que toca o coração com aquela inquietação que nos conduz à esperança. Feliz e santo Natal!


Vejo um Ramo de Amendoeira

PAPA FRANCISCO

ANGELUS

Praça São Pedro
Domingo, 19 de dezembro de 2021

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho da Liturgia de hoje, quarto Domingo do Advento, narra a visita de Maria a Isabel (cf. Lc 1, 39-45). Tendo recebido o anúncio do anjo, a Virgem não fica em casa, a pensar no que aconteceu e considerando os problemas e imprevistos, que certamente não faltavam: porque, pobrezinha, não sabia o que fazer com aquela notícia, com a cultura da época... não compreendia... Ao contrário, pensa antes de mais nos necessitados; em vez de se concentrar nos seus problemas, pensa nos necessitados, pensa em Isabel, sua prima, de idade avançada e estava grávida: uma coisa estranha, milagrosa. Maria parte com generosidade, sem se deixar intimidar pelos desconfortos da viagem, respondendo a um impulso interior que a chama a estar perto e a ajudar. Uma longa estrada, quilómetros e quilómetros, e não havia autocarro: teve que ir a pé. Ela sai para ajudar, partilhando a sua alegria. Maria doa a Isabel a alegria de Jesus, a alegria que trazia no coração e no seio. Vai ter com ela e proclama os seus sentimentos, e esta proclamação dos sentimentos depois tornou- se uma oração, o Magnificat, que todos nós conhecemos. E o texto diz que Nossa Senhora «se levantou e foi à pressa» (v. 39).

Levantou-se e foi. No último trecho do caminho de Advento deixemo-nos guiar por estes dois verbos. Levantar e caminhar depressa: são os dois movimentos que Maria fez e que nos convida a fazer tendo em vista o Natal. Antes de mais, levantar-se. Após o anúncio do anjo, para a Virgem inicia um período difícil: a sua gravidez inesperada expunha-a a incompreensões e até a severas penas, inclusive o apedrejamento, na cultura da época. Imaginemos quantos pensamentos e turbamentos tinha! No entanto, não desanimou, não se abateu, mas levantou-se. Não olhou para baixo, para os problemas, mas para o alto, para Deus. E não pensou em pedir ajuda a alguém, mas a quem levar ajuda. Pensou sempre nos outros: assim é Maria, sempre a pensar nas necessidades dos outros. Fará o mesmo, depois, nas bodas de Caná, quando se dá conta de que não há vinho. É um problema de outras pessoas, mas ela pensa nisto e procura encontrar uma solução. Maria pensa sempre nos outros. Pensa também em nós.

Aprendamos de Nossa Senhora este modo de reagir: levantarmo-nos, sobretudo quando as dificuldades ameaçam esmagar-nos. Levantarmo-nos, para não ficarmos reféns dos problemas, afundando na autopiedade ou caindo numa tristeza que nos paralisa. Mas porquê levantar-se? Porque Deus é grande e está pronto para nos reerguer se lhe estendermos a mão. Portanto, lancemos n’Ele os pensamentos negativos, os receios que bloqueiam cada impulso e que nos impedem de seguir em frente. E depois façamos como Maria: olhemos para a nossa volta e procuremos alguém a quem possamos ser úteis! Há algum idoso que eu conheço a quem posso oferecer ajuda, companhia? Todos pensem nisto. Ou fazer um serviço para uma pessoa, uma gentileza, um telefonema? Mas a quem posso dar ajuda? Levanto-me e ofereço ajuda. Ao ajudarmos os outros, ajudamo-nos a nós mesmos a reerguermo-nos das dificuldades.

O segundo movimento é caminhar depressa. Não significa proceder com agitação, de forma afanada, não, não significa isso. Trata-se, ao contrário, de conduzir os nossos dias com um ritmo feliz, olhando em frente com confiança, sem nos arrastarmos, escravos de lamentações – as queixas arruínam tantas vidas, pois começamos a queixar-nos, a queixar-nos, e a vida desce a pique. Reclamar leva a estar sempre à procura de alguém a quem culpar. Indo em direção da casa de Isabel, Maria prossegue com o passo rápido de alguém cujo coração e vida estão cheios de Deus, cheios da sua alegria. Então perguntemo-nos, para nosso benefício: como é o meu “passo”? Sou proativo ou permaneço melancólico, na tristeza? Avanço com esperança ou fico parado e sinto pena de mim mesmo? Se prosseguirmos com o passo cansado dos resmungos e das tagarelices, não levaremos Deus a ninguém, levaremos apenas amarguras, coisas obscuras. Ao contrário, é tão bom cultivar um humor saudável, como faziam, por exemplo, São Tomás More ou São Filipe Néri. Podemos pedir também esta graça, a graça do humor saudável: faz muito bem. Não esqueçamos que o primeiro ato de caridade que podemos fazer ao próximo é oferecer-lhe um rosto sereno e sorridente. É levar-lhe a alegria de Jesus, como fez Maria com Isabel.

Que a Mãe de Deus nos pegue pela mão, nos ajude a levantarmo-nos e a caminhar depressa rumo ao Natal!


Vejo um Ramo de Amendoeira

Patrícia Dias | 7 Dezembro 2021 | in Ponto SJ

Que futuro queremos para os nossos jovens? E como o podemos construir?

A Fundação Francisco Manuel dos Santos publicou um retrato aprofundado dos jovens portugueses, contando com uma amostra de quase 5000 jovens entre os 15 e os 34 anos. Este retrato é mais cinzento do que os arco-íris que nos dava esperança.

Nas primeiras semanas de pandemia Covid-19, o arco-íris e a expressão “vai ficar tudo bem” encheu-nos o coração de esperança. O esforço e a coragem dos profissionais de saúde mostrou-nos o melhor da humanidade. Depois, as notícias sobre a diminuição da poluição e o retorno de animais a certos locais mostrou-nos que o nosso mundo pode efetivamente ser diferente.

Mas, passado algum tempo, o desconfinamento trouxe uma vontade quase irresistível de recuperar liberdades e prazeres perdidos, de conviver, de viajar, de consumir. Num estudo no qual colaborei, desenvolvido pelo Centro Comum de Estudos da Comissão Europeia entre abril e junho de 2020, e que envolveu 14 países da União Europeia, foi perguntado a crianças e jovens até aos 18 anos e aos seus progenitores se havia aprendizagens que tivessem retirado do período de confinamento, e se havia novas práticas que gostariam de manter. A resposta foi um retumbante ‘não’. O que todos desejavam era que o seu quotidiano voltasse a ser exatamente como era antes da pandemia.

Após quase dois anos de “vida pandémica”, já se tornou evidente que as nossas vidas não vão voltar ao normal. Estamos a aprender a viver com um novo normal. Na verdade, somos chamados a construir esse novo normal, a passarmos de uma atitude reativa e adaptativa, a outra proativa e construtiva. Mas eventos como a COP-26 demonstram que é preciso muito mais de cada um de nós.

Recentemente, a Fundação Francisco Manuel dos Santos publicou um retrato aprofundado dos jovens portugueses, contando com uma amostra de quase 5000 jovens entre os 15 e os 34 anos. Este retrato é bem mais cinzento do que os arco-íris que nos davam esperança. Por exemplo, para estes jovens, uma das facetas da vida que mais influencia a sua felicidade é o seu aspeto físico e bem-estar, e sentem-se altamente pressionados para serem fisicamente atrativos. Este aspeto está relacionado com o consumo de internet, particularmente de redes sociais, que vai além das 5 horas diárias para cerca de um quarto dos jovens inquiridos, sendo que outro quarto passa entre três a cinco horas diárias online. Os jovens também se sentem pressionados a serem bem sucedidos nos estudos ou profissionalmente e temem desiludir as suas famílias. Os outros esperam que eles se mostrem sempre bem-dispostos, alimentando assim uma vida fake. Em termos profissionais, olham para o futuro com desânimo, perspetivando uma carreira mal paga, com excesso de trabalho e com poucas oportunidades de melhoria. Mais de um terço dos jovens que já têm rendimentos próprios declara que é difícil viver com o que auferem. Sentem-se desiludidos ou aborrecidos com as suas carreiras. No caso dos casais, as despesas são partilhadas, mas as tarefas domésticas e o cuidar dos filhos continua a recair mais sobre as mulheres do que os homens (embora haja melhorias relativamente a gerações anteriores), e, portanto, as mulheres sentem mais dificuldade em conciliar as suas vidas profissionais e familiares. Estas são as principais razões para terem apenas um filho ou nenhum, embora a maior parte dos casais gostasse de ter mais do que um filho. Os solteiros não sabem quando irão sair de casa dos pais, mas acreditam que só o poderão fazer mais tarde do que gostariam. Cerca de um terço já se sentiu descriminado pela sua aparência física, e 15% pela sua orientação sexual. Um terço das mulheres já se sentiu descriminada pelo seu género.

O estudo identifica ainda fatores relevantes na diferenciação entre os perfis mais e menos favoráveis que encontram entre os jovens. Em geral, a educação está associada a percursos mais favoráveis, bem-sucedidos e felizes, bem como o grau de empoderamento, ou seja, até que ponto é que estes jovens acreditam que são capazes de, pela sua ação, construir o seu futuro e fazer a diferença. Entre os mais instruídos e empoderados, encontramos um estilo de vida saudável, com uma boa alimentação e exercício físico regular, ainda que se sintam cansados e lhes custe a acordar de manhã. Não consomem drogas nem fumam, mas tomam medicamentos para distúrbios do sono, ansiedade e depressão. Apenas 40% dos maiores de 18 anos já votaram, e os atos mais comuns de cidadania são assinarem petições online e boicotarem certos produtos ou marcas. Estão preocupados com as alterações climáticas, mas pouco mais fazem do que reciclar e preferir energias renováveis. Globalmente, são 38% os jovens que declaram que a sua vida fica aquém das suas expectativas e 36% os que se sentem pouco felizes. O que alguns vão fazendo não chega para pintar um panorama mais colorido para o futuro. Estes jovens precisam da nossa ajuda.

Não vai ficar tudo bem se não fizermos nada. É urgente mudarmos os nossos hábitos e adotarmos um estilo de vida mais saudável e sustentável. Mais do que por nós, pelas nossas crianças e jovens. Não chegam intenções, são necessárias ações. Que não passem por voltarmos à vida que tínhamos. Que construam uma nova vida, melhor. Também não se muda de um dia para o outro. Pode ser passo a passo. Um passo em direção a consumirmos e gastarmos menos. Outro passo em direção a sermos mais empáticos e a combatermos os preconceitos enraizados em nós. Outro passo em direção a pensarmos além dos modelos existentes de capitalismo e democracia, e a procurarmos soluções fora da caixa. Mas convém acelerarmos, porque o caminho é longo e o nosso mundo não tem o tempo todo.

Fontes:

Sagnier, L. & Morell, A. (2021). Os Jovens em Portugal: Quem são, que hábitos têm, o que pensam e o que sentem. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos. https://bit.ly/3ll04Lj


Vejo um Ramo de Amendoeira

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
A CHIPRE E À GRÉCIA
(2-6 DE DEZEMBRO DE 2021)

VISITA AOS REFUGIADOS

DISCURSO DO PAPA FRANCISCO

Domingo, 5 de dezembro de 2021

Queridos irmãos e irmãs,

Obrigado pelas vossas palavras! Agradeço-lhe, Senhora Presidente, a presença e as suas palavras. Irmãs, irmãos, vim de novo aqui para vos encontrar. Estou aqui para vos certificar da minha proximidade, e faço-o com o coração. Estou aqui para contemplar os vossos rostos, para ver-vos olhos nos olhos. Olhos cheios de medo e ansiedade, olhos que viram violência e pobreza, olhos sulcados por demasiadas lágrimas. Há cinco anos, nesta ilha, o Patriarca Ecuménico e querido Irmão Bartolomeu disse algo que me impressionou: «Quem tem medo de vós, não vos fixou nos olhos. Quem tem medo de vós, não viu os vossos rostos. Quem tem medo de vós, não vê os vossos filhos. Esquece que a dignidade e a liberdade transcendem o medo e a divisão. Esquece que a migração não é um problema do Médio Oriente e do norte da África, da Europa e da Grécia. É um problema do mundo inteiro» (Discurso, 16/IV/2016).

Sim, é um problema mundial, uma crise humanitária que diz respeito a todos. A pandemia atingiu-nos globalmente, fez com que todos nos sentíssemos no mesmo barco, fez-nos experimentar o que significa ter os mesmos temores. Compreendemos que as grandes questões devem ser enfrentadas em conjunto, porque, no mundo atual, são inadequadas as soluções fragmentadas. Mas, enquanto as vacinações se estão a efetuar fadigosamente a nível planetário e algo parece mover-se, embora por entre inúmeros atrasos e incertezas, na luta contra as mudanças climáticas, tudo parece baldar-se terrivelmente no que diz respeito às migrações. E, no entanto, há pessoas, vidas humanas em jogo. Está em jogo o futuro de todos, que, só poderá ser sereno, se for integrador. Só se aparecer reconciliado com os mais frágeis é que o futuro será próspero. Pois quando são repelidos os pobres, repele-se a paz. Fechamentos e nacionalismos – a história no-lo ensina – levam a consequências desastrosas. Com efeito, como recordou o Concílio Vaticano II, são «absolutamente necessárias para a edificação da paz (…) a vontade firme de respeitar a dignidade dos outros homens e povos e a prática assídua da fraternidade» (Gaudium et spes, 78). É uma ilusão pensar que seja suficiente salvaguardar-se a si mesmo, defendendo-se dos mais frágeis que batem à porta. O futuro colocar-nos-á ainda mais em contacto uns com os outros. Para bem encaminhá-lo, não servem ações unilaterais, mas políticas de longo alcance. A história – repito – no-lo ensina, mas ainda não aprendemos. Não se volte as costas à realidade, acabe o contínuo descarregar de responsabilidades para os outros, nem se delegue sempre para outros a questão migratória, como se a ninguém importasse e fosse apenas um peso inútil que alguém é obrigado a carregar.

Irmãs, irmãos, os vossos rostos, os vossos olhos pedem-nos para não vos virarmos as costas, não renegarmos a humanidade que nos irmana, para assumirmos as vossas histórias e não esquecermos os vossos dramas. Assim escreveu Elie Wiesel, testemunha da maior tragédia do século passado: «É porque recordo a nossa origem comum que me aproximo dos homens meus irmãos. É porque me recuso a esquecer que o futuro deles é tão importante como o meu» (From the Kingdom of Memory, Reminiscenses, Nova York, 1990, 10). Neste domingo, peço a Deus que nos acorde da indiferença por quem sofre, nos sacuda do individualismo que exclui, desperte os corações surdos às necessidades dos outros. E peço também ao homem, a todo o homem: superemos a paralisia do medo, a indiferença que mata, o desinteresse cínico que, com luvas de veludo, condena à morte quem está colocado à margem. Contrariemos na sua raiz o pensamento dominante, aquele que gira em torno do próprio eu, dos próprios egoísmos pessoais e nacionais que se tornam medida e critério de tudo.

Passaram-se cinco anos desde a visita que aqui fiz com os queridos Irmãos Bartolomeu e Ieronymos. Depois de todo este tempo, constatamos que pouca coisa mudou na questão migratória. Muitos, sem dúvida, se empenharam no acolhimento e na integração, e quero agradecer aos numerosos voluntários e a quantos nos vários níveis – institucional, social, caritativo, político – arcaram com grandes fadigas ocupando-se das pessoas e da questão migratória. Reconheço o esforço realizado para financiar e construir estruturas de acolhimento dignas e de coração agradeço à população local pelo grande bem que fizeram e os inúmeros sacrifícios que suportaram. E quero agradecer também às autoridades locais, que estão empenhadas em receber, abrigar e fazer avançar estas pessoas que chegam aqui. Obrigado! Obrigado por tudo o que fazem! Com amargura, porém, temos de admitir que este país, à semelhança de outros, continua sob pressão e que, na Europa, há quem persista em tratar o problema como um assunto que não lhe diz respeito. Isto é trágico. Recordo, [Senhora Presidente], as suas palavras finais: «Que a Europa faça o mesmo». E quantas condições indignas do homem! Quantos pontos de triagem onde migrantes e refugiados vivem em condições que estão no limite da suportação, sem se vislumbrar no horizonte qualquer solução! E todavia o respeito pelas pessoas e pelos direitos humanos, especialmente no continente que não deixa de os promover no mundo, deveria ser sempre salvaguardado e a dignidade de cada um deveria ter prioridade sobre tudo. É triste ouvir propor, como solução, o uso de fundos comuns para construir muros, para levantar barreiras de arame farpado. Estamos na época dos muros e do arame farpado. Claro, compreendem-se os medos e inseguranças, as dificuldades e perigos. Fazem-se sentir o cansaço e a frustração, agravados pelas crises económica e pandémica, mas não é erguendo barreiras que se resolvem os problemas e melhora a convivência. Antes pelo contrário, é unindo as forças para cuidar dos outros segundo as possibilidades reais de cada um e no respeito da legalidade, colocando sempre em primeiro lugar o valor incancelável da vida de cada homem, de cada mulher, de toda a pessoa. A propósito afirma o referido Elie Wiesel: «Quando as vidas humanas estão em perigo, quando a dignidade humana está em perigo, as fronteiras nacionais tornam-se irrelevantes» (Discurso ao receber o Prémio Nobel da Paz, 10/XII/1986).

Em várias sociedades, há quem esteja, de forma ideológica, a contrapor segurança e solidariedade, local e universal, tradição e abertura. Mais do que tomar partido pelas ideias, ajuda partir da realidade: parar, estender o olhar, fazê-lo penetrar nos problemas da maioria da humanidade, de tantas populações vítimas de emergências humanitárias que não criaram, mas têm de as suportar, frequentemente, depois de longas histórias de exploração ainda em curso. É fácil arrastar a opinião pública incutindo o medo do outro; mas por que motivo não se fala, com o mesmo brio, da exploração dos pobres, das guerras esquecidas e muitas vezes lautamente financiadas, dos acordos económicos feitos na pele do povo, das manobras ocultas para contrabandar armas e fazer proliferar o seu comércio? Por que motivo não se fala disto? Há que enfrentar as causas remotas, não as pessoas pobres que pagam as suas consequências, acabando até por ser usadas para propaganda política. Para remover as causas profundas, não basta apenas resolver as emergências. São necessárias ações concordadas. É preciso abordar as mudanças epocais com grandeza de visão, porque não há respostas fáceis para problemas complexos. Em vez disso, impõe-se acompanhar os processos a partir do seu interior para superar os guetos e favorecer uma integração lenta e indispensável, para acolher de modo fraterno e responsável as culturas e as tradições alheias.

Se queremos recomeçar, olhemos sobretudo os rostos das crianças. Tenhamos a coragem de nos envergonhar à vista delas, que são inocentes e constituem o futuro. Interpelam as nossas consciências, perguntando-nos: «Que mundo nos quereis dar?» Não fujamos apressadamente das cruas imagens dos seus corpinhos estendidos, inertes, nas praias. O Mediterrâneo, que uniu durante milénios povos diferentes e terras distantes, está a tornar-se um cemitério frio sem lápides. Esta grande bacia hidrográfica, berço de tantas civilizações, agora parece um espelho de morte. Não deixemos que o mare nostrum se transforme num desolador mare mortuum, que este lugar de encontros se transforme no palco de confrontos. Não permitamos que este «mar das memórias» se transforme no «mar do esquecimento». Por favor, irmãos e irmãs, paremos este naufrágio de civilização!

Nas margens deste mar, Deus fez-Se homem. A sua Palavra ecoou, trazendo o anúncio de Deus, que é «Pai e guia de todos os homens» (S. Gregório Nazianzeno, Discurso 7 para o irmão Cesário, 24). Ele ama-nos como filhos e quer-nos irmãos. Ao contrário, ofende-se Deus, desprezando o homem criado à sua imagem, deixando-o à mercê das ondas, num vaivém de indiferença, às vezes justificada até em nome de pretensos valores cristãos. Ao contrário, a fé pede compaixão e misericórdia; não esqueçamos qual é o estilo de Deus: proximidade, compaixão e ternura. A fé exorta à hospitalidade, àquela filoxenia que permeou a cultura clássica, encontrando depois em Jesus a sua manifestação definitiva, sobretudo na parábola do bom samaritano (cf. Lc 10, 29-37) e nas palavras do capítulo 25 do Evangelho de Mateus (cf. vv. 31-46). Não é ideologia religiosa, são raízes cristãs concretas. Jesus afirma solenemente que está ali no estrangeiro, no refugiado, no nu e no faminto. E o programa cristão é encontrar-se onde Jesus está. Sim, porque «o programa do cristão – escreveu o Papa Bento XVI – é “um coração que vê”» (Carta enc. Deus caritas est, 31). E não quero terminar estas minhas palavras sem agradecer o acolhimento praticado pelo povo grego. Muitas vezes este acolhimento torna-se um problema, porque não se encontram vias de saída para as pessoas irem para outro lugar. Obrigado, irmãos e irmãs gregos, por esta generosidade!

Agora rezemos a Nossa Senhora para que nos abra os olhos aos sofrimentos dos irmãos. Ela pôs-Se a caminho apressadamente para ir ter com a prima Isabel, que estava grávida. Quantas mães grávidas, apressadas e em viagem, encontraram a morte enquanto levavam no ventre a vida! Que a Mãe de Deus nos ajude a ter um olhar materno, que veja nos homens filhos de Deus, irmãs e irmãos que devemos acolher, proteger, promover, integrar e... amar ternamente. Que a Toda Santa nos ensine a colocar a realidade do homem antes das ideias e das ideologias, e a mover, rápido, os passos ao encontro de quem sofre.

Agora, todos juntos, rezemos a Nossa Senhora.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Igreja: Procura-se laboratório de visões

Desde há algum tempo, de várias partes, vai-se afirmando que as comunidades eclesiais vivem (ou deviam) um momento de grande mudança: uma mudança mais profunda e radical do que qualquer outra renovação vivida nos tempos passados.

Esta convicção é suportada pela retórica da mudança causada pela pandemia – acontecimento atualmente objeto de uma espalhada hermenêutica “apocalíptica” – interpretada como uma cesura epocal, uma aresta da história, quase como se fosse o primeiro acontecimento do género.

O que mudar?

Mas o que devemos entender como mudança? Em que consiste? É feita sobretudo de arquiteturas pastorais diferentes das adotadas até agora? De novos setores ou apenas de novos nomes dados a setores que já trabalhavam ou à sua colocação no interior de campos mais amplos de atividade?

Na realidade, nunca será a mudança das formas estruturais e organizativas a produzir uma verdadeira e estável transformação na consciência de uma comunidade. Aliás, as transformações exteriores poderão induzir à ilusão de se ter dado um passo para o denominado “novo”, mas de facto afastam-no, provocando o fenómeno «da imunidade à mudança», como foi definido por alguns estudiosos.

Como escreveu o padre Spadaro na revista “La Civiltà Cattolica”, «para fazer sínodo é preciso expulsar os comerciantes e derrubar as suas bancas… Mas quem são hoje os “comerciantes do templo”? Só uma reflexão impregnada de oração poderá ajudar-nos a identificá-los… Os comerciantes estão sempre próximos do templo, porque aí fazem negócios, aí vendem bens: formação, organização, estruturas, certezas pastorais. Os comerciantes inspiram o imobilismo das soluções velhas para problemas novos, isto é, o usado seguro que é sempre um “remendo”, como o define o pontífice. Os comerciantes vangloriam-se de estar “ao serviço” do religioso. Muitas vezes oferecem escolas de pensamento ou receitas prontas a usar e geolocalizam a presença de Deus, que está “aqui” e não “ali”».

Um processo comunitário

A verdadeira mudança acontece apenas quando todos aqueles que compõem uma comunidade avançam rumo a um outro e alto nível harmónico: por outras palavras, quando o seu fogo intrínseco («Eu vim lançar fogo sobre a Terra; e como gostaria que ele já se tivesse ateado!» (Lucas 12, 49)), a sua paixão, se tornam mais vivos e, por conseguinte, a luz que dele emana intensifica-se e atrai; quando tudo aquilo que faz parte da vida de uma comunidade – relações, conteúdos cognitivos, qualidade do pensamento, valores, planos e projetos, e assim por diante – é transportado conscientemente por um nível de luz e de energia mais cativante e mais prometedor.

A verdadeira mudança é aquilo que intensifica a consciência e a missão de cada componente e que envolve todos os membros da comunidade, cada qual segundo as suas possibilidades e a parte de serviço que exerce no interior do conjunto.

Sem visão, porém, a mudança é impossível. Cada programa de mudança precisa de uma visão. O problema principal, por isso, é a visão, uma visão que envolva coração, cabeça e mãos.

É óbvio que o agente fundamental deste género de mudança é a consciência humana, com o seu poder de incidir em tudo aquilo que a rodeia e sobre o qual pousa a sua atenção.

A mudança numa comunidade não pode derivar das propostas de formas diversas feitas por alguém, por muito boas que possam ser. Mas deve ser acompanhada por caminhos internos de cada um e de todos, com persistência: é esta universalidade que ativa a onda transformadora que sustenta quem nela participa rumo a uma nova etapa evolutiva. O importante é envolver-se, sentir-se parte ativa do processo em concretização, de maneira totalmente independente da dimensão visível da função e do papel que se exerce.

A vida do grupo só muda graças ao fogos acesos por cada um, que, convergindo, sustêm todos rumo ao futuro. Cada um deverá encontrar em si a sua maneira, porque esta não é igual para todos e não pode ser avaliada com base em manifestações exteriores, mas só pode ser percecionado por caminhos internos através do coração.

Visão e imaginação

É evidente, todavia, que para garantir o sucesso da mudança são necessárias uma visão e um envolvimento ativo de todos os membros da comunidade, através de uma liderança participativa (não autocrática) e uma clareza operativa, no momento de colocar a mudança em prática. Trata-se, do mesmo modo, de especificar uma equipa visionária, reconhecendo a qualidade eo talento das pessoas, dando-lhes confiança.

Sim, porque antes ainda de soluções e programações precisamos de visões. Afirmava Antoine de Saint-Exupéry: «Se queres construir uma barca, não juntes homens para cortar madeira, dividir as tarefas e distribuir ordens, mas ensina-lhes a nostalgia pelo mar vasto e infinito».

Mudar quer dizer olhar em frente, avançar rumo ao futuro. O que nos impele a fazê-lo é sempre um objetivo em devir, algo que queremos obter, alcançar, algo no amanhã que queremos conseguir. Em suma, uma visão do que queremos alcançar.

Em síntese, precisamos de ver o futuro antes que se realize, devemos imaginá-lo para depois o poder construir. A visão, ainda antes que projeto, é confiança, certeza numa perspetiva racionalmente impossível. A visão é uma sentinela, um alerta, mas também um caminho para uma realidade muitas vezes considerada improvável.

A verdadeira genuína sabedoria não está sempre numa atitude racional, necessariamente conforme às premissas, e por isso estéril, mas por vezes na clarividente e visionária “loucura”.

Precisamos, como comunidade cristã, de crescer na visão. No Primeiro Livro de Samuel narra-se que naquele tempo, que corresponde a 1000 a.C., «a palavra do Senhor era rara, as visões não eram frequentes» (3, 1). E o Livro dos Provérbios diz-nos depois que «sem a visão o povo vive dissoluto» (Provérbios 29, 18).

O sonho e a Igreja

Cada comunidade eclesial, paroquial e diocesana, em sintonia e dentro do caminho da Igreja universal, é chamada a ter a sua visão, um sonho que tenciona realizar através da sua prática pastoral.

A primeira coisa que o papa Francisco nos entregou foi um sonho: “Evangelii gaudium”. «Eu sonho uma Igreja…». Descreve-nos o que sonha, diz-nos a sua visão, e é essa que arrasta as pessoas, que as coloca em movimento dentro de um processo generativo.

A categoria do sonho é muito cara ao papa Francisco. Não se trata, decerto, da evasão que faz perder o contacto com a realidade da vida quotidiana, mas da visão capaz de orientar, de indicar a direção de marcha, de estimular à mudança.

O sonho, para o papa Francisco, é um instrumento político, capaz de cerzir e regenerar tecidos e espaços sociais feridos e rejeitados. É capaz de suscitar amizade social, como instrumento de transformação do mundo (cf. “Fratelli tutti”, 183), tendo primeiro operado a transformação dos corações com uma grande ação educativa (cf. “Fratelli tutti”, 167-169).

Qual é o sonho que queremos realizar? Qual é a transformação real que queremos gerar no mundo como comunidade? A pertença à comunidade não é gerada por algo que se faz, mas pela partilha de uma visão, de um sonho. É este o ponto de partida generativo de uma comunidade.

O facto é que talvez no substantivo “sonho” entrevemos os contornos irreais da ilusão e da ausência de concreto. Mas sabemos bem que não é assim. O sonho é desenho, expetativa, impulso criativo… É saber que algo de novo deverá suceder.

A visão representa uma imagem fascinante e atraente que se abre ao futuro, um sonho. Ela exprime o modo (o como) em que queremos ser Igreja.

Sem visão, o povo de Deus perde toda a perspetiva, toda a tensão projetiva, e por isso debilita-se no pântano das escolhas de pequena cabotagem e nas práticas de piedade.

Sem visão, o povo de Deus está pronto a tornar-se servo de quem promete rápidas satisfações pseudo-religiosas (e quantas não foram dispostas durante esta pandemia!), isto é, a quem garante que a deglutição de práticas de piedade pode substituir uma real e satisfatória vida de fé.

Um ponto de vista diferente

O que entendemos propriamente com a categoria de “visão”? Seja dito, antes de mais, que uma visão não é uma construção abstrata, uma teoria filosófica ou sociológica ou histórico-cultural. Se fosse assim, hoje teríamos visões sem fim, para cada gosto ou tendência.

Uma verdadeira nova visão é precisamente um diferente ponto de vista sobre as coisas, e portanto, em definitivo, um modo diferente de ser homem e mulher, de se ser crente, que emerge num dado momento da história para a iluminar de uma outra maneira, e dessa forma reorientar-lhe o processo de desenvolvimento.

A visão deve ser capaz de evocar com suficiente clareza a imagem de um futuro possível, credível e desejável. Trata-se de sonhar em grande. E sonhar juntos. Como Igreja não percamos tempo em coisas inúteis, sonhemos! Precisamos de um impulso forte, honesto e eficaz rumo ao futuro. Trata-se de ousar, ter impulsos, olhar além.

As “visões” não vêm à superfície se nos dobrarmos obsessivamente sobre nós próprios, continuamente a considerar feridas, fragilidades, limites, bloqueios, medos, transformando grupos e comunidades numa espécie de grupo permanente de autoajuda. Se continuarmos nessa direção, não só nunca aflorará qualquer visão, como também traímos a nossa missão. Acabamos numa imperdoável autorreferencialidade eclesial.

Não só. Acabamos por produzir “crentes-catos”. Por onde passam, deixam feridas. Crentes que se alimentam diariamente de desconfiança e se defendem de todos, por causa do facto de todos sangrarem, e consideram sempre o outro como a causa das suas feridas. Ou, então, acaba-se a produzir “crentes-bola”, crentes inchados, cheios de si, orgulhosos das suas tradições, das suas práticas, que não precisam de nada nem de ninguém.

A Igreja precisa de crentes livres. Livres do medo, do preconceito, homens e mulheres de pensamento livre, com ideias fortes porque temperadas pelo confronto (“sinodalidade” não como conceito teológico, mas como estilo permanente), para fazer experiência autêntica de um pensamento inovador, e portanto abrir passagens à luz de visões inéditas na história.

«Sinodo/sinodalidade estão a tornar-se slogan, uma nova retórica eclesial que esconde as muitas dificuldades, se não a oposição, de presbíteros e bispos para esta mudança» (card. Mario Grech).

Cultivar o desejo

Como disse o papa Francisco no longo discurso que dirigiu aos participantes na primeira congregação geral da 15.ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, com o tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, a tarefa do Sínodo é «fazer germinar sonhos, suscitar profecias e visões, fazer florir esperanças, estimular confiança, fechar feridas, entretecer relações, ressuscitar uma aurora de esperança, aprender uns com os outros, e criar um imaginário positivo que ilumine as mentes, aqueça os corações, volte a dar força às mãos».

Confio a conclusão às palavras de um cardeal teólogo e poeta, José Tolentino Mendonça, escritas no seu “Elogio da sede”: «Há nas nossas culturas, e do mesmo modo nas nossas Igrejas, um défice de desejo. Quando se nota, no momento atual, o emergir e em escala cada vez maior, de sujeitos sem desejo, isso deve conduzir-nos a uma autocrítica. Nós, batizados, formamos uma comunidade de pessoas que desejam? Os cristãos possuem sonhos? A Igreja é um laboratório onde, como no oráculo provocatório de Joel (3, 1), os nossos filhos e filhas profetizam, os nossos idosos têm sonhos e os nossos jovens constroem novas visões, não só religiosas, mas também novas compreensões culturais, económicas, científicas e sociais?».

Domenico Marrone | In Settimana News | Trad.: Rui Jorge Martins
in SNPC | Publicado em 23.11.2021


Vejo um Ramo de Amendoeira

O CRISTIANISMO PRECISA DE IMAGINAÇÃO

(A propósito de um livro recentemente saído/traduzido em Portugal, um bom convite à sua leitura, pelo cardeal Tolentino Mendonça)

Uma das canções icónicas do século XX é ‘Imagine’, de John Lennon. Foi primeiramente publicada num álbum de 1971, já depois do fim da carreira dos Beatles. Creio que todos nos recordamos dos seus versos iniciais, escritos por Yoko Ono: “Imagine there’s no heaven/ It’s easy if you try”. Ora, refletindo sobre o número crescente daqueles que na Europa se declaram sem religião, o teólogo inglês Timothy Radcliffe escolhe partir dessa canção. E diz: sim, há que reconhecer que é mais fácil do que supúnhamos imaginar a superação ou a substituição práticas da gramática do religioso, considerado hoje antiquado como uma máquina de escrever. Ele narra, por exemplo, centenas de conversas com avós e pais embaraçados, que se culpabilizam por não conseguirem transmitir o sentimento religioso às novas gerações, para quem essa linguagem aparece frequentemente desativada, desprovida de significado. É como se o cristianismo pertencesse a outro mundo e a sua expressão acontecesse numa estranha língua desconhecida. E não nasceu ontem este fosso, que a modernidade tem vindo a acelerar, e que se esconde debaixo desse heterogéneo e complexo chapéu chamado “secularização”.

Radcliffe é um dos mais estimulantes pensadores cristãos da atualidade, professor em Oxford, já mestre geral da Ordem Dominicana, e acaba de ver traduzido em Portugal um texto seu imprescindível: “A Arte de Viver Em Deus. A Imaginação Cristã Para Elevar o Real” (Edições Paulinas, 2021). O título em português soa um bocado explicativo. O inglês vai direto ao assunto: “Alive in God. A Christian Imagination”. E é esse o estilo convincente de Radcliffe.

Uma das coisas em que insiste é que hoje muitos se distanciam do cristianismo, porque simplesmente o consideram de um aborrecimento total, divorciado da existência que conhecem, distante das questões que os habitam, com pouco a dizer sobre as lutas, esperanças e alegrias onde, em concreto, se movem. É como se o cristianismo contemporâneo falhasse aí, na capacidade de tocar a realidade das pessoas. Esta crise é, na verdade, uma crise da imaginação, porque é esta que nos permite entrar no mundo de alguém e compreendê-lo a partir de dentro. Por isso, o autor escreve que o maior obstáculo ao cristianismo não é o ateísmo secular, mas a pobreza simbólica, a perda de profundidade do olhar, o achatamento da realidade produzido pela banalidade que, entretanto, se globalizou. Mas há também um mea culpa que o cristianismo precisa de assumir, pois uma das suas tentações correntes é o escapismo providencialista, escusando-se ao confronto com a complexidade, o risco e a crueza da experiência que viver representa. Em vez dessa fuga, sugere Radcliffe, necessitamos de testemunhas “que nos abram, com honestidade, à complexidade da experiência humana, do enamoramento ou dos dilemas morais. Então, com olhos novos, perceberemos que é precisamente aí que podemos procurar Deus”.

A transmissão do religioso precisa de superar este défice de imaginação. Um caminho possível é acolher o contributo desses mestres da imaginação, verdadeiros especialistas em Humanidade, que são os escritores, os artistas e os criadores. E dá o exemplo de Charles Dickens: “Dickens tem uma capacidade extraordinária de ler o coração humano. Compreende como é fácil errar e ver-se metido em sarilhos. Quando leio os seus romances, sinto-me a crescer humanamente, como alguém que entende o coração e a mente do homem”. E acrescenta: “Se me torno verdadeiramente humano, então estou mais apto a encontrar Cristo, que é o mais humano de todos.”

José Tolentino Mendonça| in Expresso Revista |13 de novembro de 2021


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O insuportável Dia de Todos os Santos

1 novembro 2017 | in IMISSIO (Retirado do FB do padre Amaro Gonçalo)

Caro sobrinho: colocas-me diante de uma questão essencial do combate à fé cristã. De facto, há que evitar por todos os meios possíveis que os humanos tomem para si o exemplo de outros que passaram, antes deles, por esta terra. Não há nada mais abominável que um santo que ilumina essa gentalha, ajudando-a a atravessar as dificuldades da vida. Por isso gostava de partilhar contigo quatro estratégias para destruir a imagem de todos os santos. Se as aplicares bem, terás resultados imediatos e duradouros. Aliás, basta aproveitar os exageros desses miseráveis humanos para os afastar do nosso grande Inimigo.

1ª Estratégia: OS SANTOS MILAGREIROS

Esta estratégia talvez seja das mais fáceis de aplicar uma vez que, mesmo sem a nossa ajuda, já toma proporções escabrosamente saborosas. Há humanos cuja formação cristã é tão rudimentar que tomam os santos como uma espécie de deuses aos quais devem adorar. Levam consigo dinheiro, fotografias, velas, papelinhos, depositando neles a secreta esperança de que tudo mude no dia seguinte. É bom acalentar essa esperança e fazer-lhes crer que podem ficar à espera de braços cruzados. É que, conforme constatam que, uma e outra vez, nada muda, acabam por ganhar uma tal frustração que, mudarão de santo em santo até à exaustão; e, se tudo correr em nosso favor, irritar-se-ão com as coisas de Deus e acabarão por se afastar definitivamente do caminho de fé. Os que me preocupam são aqueles que, fazendo exactamente os mesmos gestos, se limitam a pedir a intercessão desses santos para que Deus lhes dê a luz e a força para que ultrapassem as suas dificuldades. E o mais assustador é quando sabem que tudo depende também do próprio esforço. Esses são obstinados; muito difíceis de enganar.

2ª Estratégia: OS SANTOS PÁLIDOS

Algo que me diverte é constatar como alguns humanos representam os santos. Uns, num estilo excessivo cheio de dourados e brilhantes. Outros, no estilo muito despojado, de cabeça caída, cara pálida e olhar ausente. Uns e outros, fazendo uma muito pálida ideia do que seriam os próprios santos, como pessoas, no dia-a-dia. Quando os humanos, através das imagens, são induzidos a crer que os santos pertencem a um tempo muito antigo – ou melhor ainda, mítico - ou que, simplesmente, não parecem deste mundo, e que, se passaram por cá, foi quase por acaso, esse é um grande contributo para a nossa missão. Um outro extremo com o qual me regozijo é quando eles representam os santos nos materiais e na dimensão dos brinquedos das crianças. Não há nada mais agradável que ver os humanos a acreditar em talismãs que levam na carteira ou no carro. Os que nos dão verdadeiras dores de cabeça são aqueles que param a rezar nas igrejas e sabem que aquela imagem é apenas uma representação; ou aqueles que levam uma medalhinha consigo e sabem que ela não tem poder mágicos, mas - algo muito mais insidioso – aproveitam-se dela para abrir o coração Àquele que nós queremos que eles esqueçam.

3ª Estratégia: OS SUPER SANTOS

Sempre que os humanos - com as suas projeções - idealizam os santos, isso deve deixar-nos verdadeiramente satisfeitos. Sempre que, em pinturas ou esculturas, em filmes ou biografias, exageram as qualidades humanas e espirituais dos santos e omitem todo o tipo de sombras, lutas e dificuldades que tiveram, isso dá um efeito espantoso! A ingenuidade dos humanos é tal que, ao representar os santos dessa maneira, não percebem que, em vez de embelezar e oferecer um modelo a si próprios, estão a inventar alguém que nunca existiu; e essa é a melhor forma de criar dois mundos aparentemente afastados: o dos santos e o dos humanos. Não é preciso um esforço imenso para que os humanos se convençam de que nada têm a ver com aquela gente. Aliás, o supra-sumo disto é quando os mantemos na ilusão de que os santos nasceram santos, ou tiveram uma conversão repentina e nunca tiveram que subir a longa escada da santidade! Isso é hilariante; e tem efeitos admiráveis. Qualquer humano fica esmagado pela frustração e pela culpa, ao pensar que é o único que se bate com aquelas tentações ou limitações; e que nunca será capaz de chegar a Deus. Pelo contrário, se condescendermos em que seja mostrada qualquer debilidade ou fragilidade que seja dos santos, é dar oportunidade a que essa gentinha humana se identifique e encontre neles alguma pista para o seu crescimento. Isso é arriscado demais: seria catastrófico para nós!

4ª Estratégia: OS SANTOS-A-EVITAR-A-TODO-O-CUSTO

Independentemente do sucesso das estratégias anteriores, vale tudo para fazer com que os humanos acreditem em santos irreais, santos que nada tenham a ver com as suas vidas. O pior que nos poderia acontecer era que eles descobrissem os santos que acordam a meio da noite - várias vezes - para acudir um filho e, de manhã, agarram em si e ainda vão trabalhar; os santos que passam o dia sentados à secretária, entregando-se a um trabalho monótono mas que sabem beneficiar tanta gente; os santos que ninguém vê, porque não têm condições físicas para sair de casa, ou do hospital, ou do lar; os santos que adormecem no autocarro, apertados e aquecidos pelo respirar de todos, em dia de chuva, e ainda oferecem o lugar; os santos que sujam as mãos no mundo da droga, da miséria ou da política, para limpar a alma da sociedade; os santos, enfim, que arriscam a vida na luta pela justiça e pelo bem comum. Todos esses são os mais ameaçadores para a nossa missão. Neste ponto, é impreterível que persuadamos os cristãos a continuar a declarar santos apenas a padres e religiosos, esquecendo esses outros humanos, que vivem inseridos no mundo. O pior que nos poderia acontecer era que qualquer pessoa na rua considerasse a santidade como algo que tem a ver consigo. Esperemos que isso nunca aconteça. Seria o fim da nossa espécie.

[Casa do Enxofre, no insuportável Dia de Todos Eles]

Vorazmente Teu,

Tio Escritorpe

[Texto inspirado no livro "Vorazmente Teu" de C.S. Lewis]

[Texto de João Delicado, in Ver para além do olhar, Fotografia de Pessoa N Beat - Olhares]


Vejo um Ramo de Amendoeira

Com um neologismo feliz, aqui fica este texto do bispo D. Carlos Azevedo.

Vamos sinodalizar!

Quis estar e estive presente na aula sinodal e na celebração da abertura do Sínodo, dias 9 e 10 de outubro. Considero acontecimento histórico fundamental, como referi nos trabalhos de grupo. Sinto um sopro renovador, em hora de uma encruzilhada muito complexa na vida da sociedade e sobretudo da Igreja. Em tempo de uma secularização galopante, onde Deus não conta; em momento de alteração migratória, só comparável com o século V, nas chamadas invasões de povos germânicos ou bárbaros; em hora de uma cultura digital e crise ecológica, com novas tecnologias a comandar o futuro, que resposta encontrar em partilha que escuta todos os níveis de crentes e mesmo não crentes?

A dimensão sinodal da Igreja e a atenção a algumas práticas concretas tem ocupado teólogos e teólogas há vários anos. O Papa Francisco decidiu escolher para tema do Sínodo de 2021-2023 esta dimensão da Igreja como Povo de Deus, onde todos são convocados e envolvidos. Lembrei-me de ter colocado na pagela, do início do meu ministério presbiteral, a frase: “Creio na Igreja povo de Deus, corpo de Cristo e templo do Espírito Santo”. Significava um percurso espiritual para eu aceitar ser padre. Daí a alegria enorme quando verifico que não são palavras, mas vida.

Sinodalidade, caminhar em conjunto, pode parecer mais um slogan de uma igreja aflita, à procura de palavras ou fórmulas cativantes. Não é. Nem é uma poção mágica para resolver os intrincados problemas e curar as chagas da Igreja católica. Nada disso. A igreja das origens tinha um estilo sinodal, uma forma comunitária para discernir os passos a dar, em ordem a escutar o que Deus quer e o Espírito Santo indica como missão. É dimensão constitutiva, apontada no II Concilio do Vaticano, mas pouco praticada.

As mudanças de mentalidade que se exigem são profundas, mas emociona saborear o sonho de uma Igreja mais sinodal e acende a vontade para deitar mãos a empresa essencial. Saltar de paróquias que nem conselho económico têm, embora obrigadas pelo Código de Direito canónico, para uma igreja onde todos são ouvidos, envolvidos e chamados à missão, quanto caminho não requer!

Pode começar a aborrecer ouvir repetidamente falar de sinodalidade como panaceia de todas as angústias ou estrangulamentos institucionais da Igreja. Será a resposta possível a séculos de inércia? Não. Não é parlamento, nem rápida lavagem democrática, como salientou o papa. A Igreja é verdadeiramente constituída por todos os batizados, em diálogo com todos os povos, culturas e religiões.

Vamos a isso, porque o Espírito Santo anda impaciente, por andarmos entretidos com aspetos secundários. Importa uma cultura de silêncio, de abertura a uma conversão espiritual básica, ao Evangelho e ao estilo de Jesus.

+ Carlos Moreira Azevedo


Vejo um Ramo de Amendoeira

Mulheres numa Igreja Sinodal (continuação de ‘Maré Alta’))

Em poucas palavras, sinodalidade significa passar do “Eu” ao “Nós”, redescobrindo a primazia do “nós” eclesial da comunidade, uma comunidade aberta e inclusiva que faz com que homens e mulheres caminhem juntos com Cristo no centro.

Aplicar a sinodalidade

Hoje em dia, no atual momento de receção do Vaticano II, no contexto histórico que é o nosso, somos chamados a fortalecer e explorar a sinodalidade a todos os níveis da Igreja, chamados a viver a nossa fé cristã num estilo sinodal, que é um estilo missionário, a proclamar o Evangelho aos homens e mulheres deste tempo. Antes de mais, é uma forma de dar vida às instituições sinodais que vão para além do Sínodo dos Bispos ou do sínodo diocesano, como o conselho pastoral paroquial ou diocesano, o conselho presbiteral, ou o capítulo local, provincial ou geral das congregações religiosas, e assembleias gerais de movimentos eclesiais. Sinodalidade é um estilo missionário que consiste, simultaneamente, num estilo de vida e numa prática marcada pela escuta e pelo discernimento.

Para aplicar a sinodalidade no dia a dia, é necessário integrar e viver uma espiritualidade que alimente uma verdadeira cultura do encontro ao serviço do bem comum, colocando Cristo e os outros no centro, a sinodalidade “faz-nos”/constitui-nos Povo de Deus.

Mulheres e a Igreja sinodal

De que forma é a sinodalidade relevante para as mulheres? Como já antes referi, os dois últimos sínodos falaram bastante da questão das mulheres. Nos documentos finais do Sínodo da Juventude (p.e., §13 e §148) e do Sínodo da Amazónia (p.e. §101-102) encontramos palavras fortes, chamando a Igreja a, por um lado, combater todo o tipo de discriminação contra as mulheres na sociedade e, por outro lado a confiar mais responsabilidades às mulheres na Igreja, chegando o documento final do sínodo pan-amazónico a sugerir a instituição de um ministério de “mulher dirigente da comunidade” (§102).

O caminho sinodal da Igreja baseia-se numa maior reciprocidade no seio de uma aproximação relacional que não separe os líderes dos membros da comunidade que servem. O próximo Sínodo dos Bispos – “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão” – será um encontro construído com base em dois anos de preparação, com forte participação dos crentes de base num longo processo de consulta em cada país de forma a discernir as nossas prioridades. É um processo que terminará com um encontro que durará um mês entre o Papa e os delegados dos Bispos de todo mundo. Não há muitos líderes mundiais que dediquem um mês a esta escuta mútua, que espero que possa inspirar outras instituições.

Ao colocar Cristo e os outros no centro, a sinodalidade constitui-nos Povo de Deus. E é deste modo que podemos compreender e destacar como este “caminhar” juntos, homens e mulheres, é um tema chave para a sinodalidade. A diferença entre homens e mulheres é um mistério, é uma diferença “elusiva” que é uma espécie de matriz de todas as diferenças. A forma de pensar e de lidar com esta diferença destaca a igualdade entre todos os batizados que está no coração da sinodalidade. Desta forma, os homens e as mulheres numa Igreja sinodal devem encontrar formas de implementar e articular quer a dignidade batismal quer a diferença entre os sexos.

A ideia de que a sinodalidade é necessária para “reparar a Igreja” torna-se cada vez mais premente. Isto requer outras práticas eclesiais, que sejam mais colegiais, mais dialógicas, mais participativas, mais inclusivas, que permitam a todos – homens e mulheres, jovens e idosos – serem agentes, associando os leigos aos processos de tomada de decisão. Reconstruir a Igreja neste estilo sinodal assegurando que este seja evangélico e mais missionário implica querer que os mais pequenos, os mais pobres e os mais feridos estejam envolvidos nesta procura. De forma a “reparar” a Igreja, mas principalmente para dar testemunho de Cristo nas culturas e linguagens do século XXI, os batizados, todos eles discípulos missionários, independentemente das suas vocações, são chamados a discernir e a definir juntos os caminhos da missão. É acima de tudo uma questão de encontrar modos de proceder que traduzam concretamente, em cada contexto, esta identidade profunda da Igreja que é “comunhão missionária” enraizada no mistério Trinitário.

Indubitavelmente, as mulheres têm um papel central na promoção deste processo, juntamente com tantos leigos que desejam tomar o seu lugar na Igreja sinodal. As palavras-chave deste processo são a escuta, o serviço de todos, a humildade e a conversão, a participação e a corresponsabilidade. As mulheres trazem imediatamente “alteridade” ao sistema clerical e são portadoras de um desejo de colaboração em reciprocidade com os homens para uma acrescida fecundidade pastoral. Entre elas encontramos religiosas e membros de comunidades como a CVX, enraizadas na experiência fraternal de vida comunitária, de discernimento comunitário, e obediência vivida como “a escuta em comum do Espírito”. É a partir desta experiência fundante que elas estão particularmente habilitadas a promover uma visão da Igreja como Igreja generativa, uma eclesio-génese, que se centra no ato de se aproximar e deixar-se tornar um só povo, o Povo de Deus. Numa só frase, a promoção de uma Igreja relacional e criativa, sempre em movimento, uma Igreja enviada numa viagem pascal.

Pensamentos finais

Nesta breve reflexão sobre o papel das mulheres numa Igreja sinodal procurei não apresentar modelos rígidos de sinodalidade, nem respostas rápidas sobre o que é uma Igreja sinodal. Pelo contrário, pela compreensão do papel das mulheres como algo central numa Igreja que é relacional, inclusiva, dialógica, em discernimento, generativa, e pluricultural, podemos começar a viver como uma Igreja que avança num processo onde homens e mulheres percorrem juntos a estrada de Emaús na esperança de reconhecer o Jesus Ressuscitado num caminho de cura e reconciliação. Para que homens e mulheres, pastores e leigos, “respirem juntos” num espírito de parceria e corresponsabilidade pela missão da Igreja, precisamos de arriscar confiar e de nos convertermos. Então podemos passar do padrão de dominação e competição que caracteriza a mentalidade patriarcal para uma outra matriz, a da reciprocidade e cooperação entre todos os discípulos missionários, animados pelo desejo de partilhar a alegria do Evangelho, uma alegria a ser partilhada com o mundo inteiro.

Ir. Nathalie Becquart, xmcj | 10 Outubro 2021


Vejo um Ramo de Amendoeira

VEJO UM RAMO DE AMENDOEIRA

MOMENTO DE REFLEXÃO PARA O INÍCIO DO PERCURSO SINODAL

DISCURSO DO PAPA FRANCISCO

Sábado, 9 de outubro de 2021

Amados irmãos e irmãs!

Obrigado por estardes aqui na abertura do Sínodo. Percorrendo diversos caminhos, viestes de tantas Igrejas trazendo cada um no coração questões e esperanças; e tenho a certeza de que o Espírito nos guiará e concederá a graça de avançarmos em conjunto, de nos ouvirmos mutuamente e iniciarmos um discernimento no nosso tempo, tornando-nos solidários com as fadigas e os anseios da humanidade. Reitero que o Sínodo não é um parlamento, o Sínodo não é uma investigação sobre as opiniões; o Sínodo é um momento eclesial, e o protagonista do Sínodo é o Espírito Santo. Se não estiver o Espírito, não haverá Sínodo.

Vivamos este Sínodo no espírito da ardente oração que Jesus dirigiu ao Pai pelos seus: «Para que todos sejam um só» (Jo 17, 21). É a isto que somos chamados: à unidade, à comunhão, à fraternidade que nasce de nos sentirmos abraçados pelo único amor de Deus. Todos indistintamente, mas em particular nós, Pastores – assim escreve São Cipriano –, «devemos manter e reivindicar com firmeza esta unidade, sobretudo nós Bispos que temos a presidência na Igreja, para dar provas de que o próprio episcopado também é uno e indiviso» (De Ecclesiae Catholicae Unitate, 5). Por isso, no único Povo de Deus, caminhemos em conjunto para fazer a experiência duma Igreja que recebe e vive o dom da unidade e se abre à voz do Espírito.

As palavras-chave do Sínodo são três: comunhão, participação, missão. Comunhão e missão são expressões teológicas que designam – e é bom recordá-lo – o mistério da Igreja. O Concílio Vaticano II esclareceu que a comunhão exprime a própria natureza da Igreja e, ao mesmo tempo, afirmou que a Igreja recebeu «a missão de anunciar e instaurar o reino de Cristo e de Deus em todos os povos e constitui o germe e o princípio deste mesmo Reino na terra» (Lumen gentium, 5). Através destas duas palavras, a Igreja contempla e imita a vida da Santíssima Trindade, mistério de comunhão ad intra e fonte de missão ad extra. Depois dum tempo de reflexões doutrinais, teológicas e pastorais que caraterizaram a receção do Vaticano II, São Paulo VI quis condensar precisamente nestas duas palavras – comunhão e missão – «as linhas mestras, enunciadas pelo Concílio». Com efeito, ao comemorar a abertura do mesmo, afirmou que as linhas gerais foram «a comunhão, ou seja, a coesão e a plenitude interior, na graça, na verdade e na colaboração (…); e a missão, ou seja, o compromisso apostólico para com o mundo contemporâneo» (Angelus, 11/X/1970), que não é proselitismo.

Ao encerrar o Sínodo de 1985, vinte anos depois da conclusão da assembleia conciliar, também São João Paulo II quis reafirmar que a natureza da Igreja é a koinonia: dela brota a missão de ser sinal de união íntima da família humana com Deus. E acrescentou: «Convém sumamente que na Igreja se celebrem Sínodos ordinários e, se for necessário, também extraordinários», os quais, para dar fruto, devem ser bem preparados, «a saber, é preciso que nas Igrejas locais se trabalhe pela sua preparação com participação de todos» (Discurso de encerramento da II Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos, 07/XII/1985). E aqui temos a terceira palavra: participação. Comunhão e missão correm o risco de permanecer termos meio abstratos, se não se cultiva uma práxis eclesial que se exprima em ações concretas de sinodalidade em cada etapa do caminho e da atividade, promovendo o efetivo envolvimento de todos e cada um. Naturalmente celebrar um Sínodo é sempre bom e importante, mas só é verdadeiramente fecundo se se tornar expressão viva do ser Igreja, dum agir caraterizado por verdadeira participação.

E isto, não por exigências de estilo, mas de fé. A participação é uma exigência da fé batismal. De facto – como afirma o apóstolo Paulo – «num só Espírito, fomos todos batizados para formar um só corpo» (1 Cor 12, 13). O ponto de partida, no corpo eclesial, é este e mais nenhum: o Batismo. Dele, nossa fonte de vida, deriva a igual dignidade dos filhos de Deus, embora na diferença de ministérios e carismas. Por isso, todos somos chamados a participar na vida da Igreja e na sua missão. Se falta uma participação real de todo o Povo de Deus, os discursos sobre a comunhão arriscam-se a não passar de pias intenções. Neste aspeto, deram-se alguns passos em frente, mas sente-se ainda uma certa dificuldade e somos obrigados a registar o mal-estar e a tribulação de muitos agentes pastorais, dos organismos de participação das dioceses e paróquias, das mulheres que muitas vezes ainda são deixadas à margem. Participarem todos: é um compromisso eclesial irrenunciável! Para todos os batizados, este é o cartão de identidade: o Batismo.

Entretanto o Sínodo, ao mesmo tempo que nos proporciona uma grande oportunidade para a conversão pastoral em chave missionária e também ecuménica, não está isento de alguns riscos. Menciono três. O primeiro é o risco do formalismo. Pode-se reduzir um Sínodo a um evento extraordinário, mas de fachada, precisamente como se alguém ficasse a olhar a bela fachada duma igreja sem nunca entrar nela. Pelo contrário, o Sínodo é um percurso de efetivo discernimento espiritual, que não empreendemos para dar uma bela imagem de nós mesmos, mas a fim de colaborar melhor para a obra de Deus na história. Assim, quando falamos duma Igreja sinodal, não podemos contentar-nos com a forma, mas temos necessidade também de substância, instrumentos e estruturas que favoreçam o diálogo e a interação no Povo de Deus, sobretudo entre sacerdotes e leigos. Por que destaco isto? Porque às vezes há algum elitismo na ordem presbiteral, que a separa dos leigos; e, no fim, o padre torna-se o «patrão da barraca» e não o pastor de toda uma Igreja que está avançando. Isto requer a transformação de certas visões verticalizadas, distorcidas e parciais sobre a Igreja, o ministério presbiteral, o papel dos leigos, as responsabilidades eclesiais, as funções de governo, etc.

Um segundo risco é o do intelectualismo (da abstração, a realidade vai para um lado e nós, com as nossas reflexões, vamos para outro): transformar o Sínodo numa espécie de grupo de estudo, com intervenções cultas mas alheias aos problemas da Igreja e aos males do mundo; uma espécie de «falar por falar», onde se pensa de maneira superficial e mundana, acabando por cair nas habituais e estéreis classificações ideológicas e partidárias, e alheando-se da realidade do santo Povo de Deus, da vida concreta das comunidades espalhadas pelo mundo.

Por fim, pode haver a tentação do imobilismo: dado que «se fez sempre assim» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 33) – esta afirmação “fez-se sempre assim” é um veneno na vida da Igreja –, é melhor não mudar. Quem se move neste horizonte, mesmo sem se dar conta, cai no erro de não levar a sério o tempo que vivemos. O risco é que, no fim, se adotem soluções velhas para problemas novos: um remendo de pano cru, que acaba por criar um rasgão ainda maior (cf. Mt 9, 16). Por isso, é importante que o caminho sinodal seja verdadeiramente tal, que seja um processo em desenvolvimento; envolva, em diferentes fases e a partir da base, as Igrejas locais, num trabalho apaixonado e encarnado, que imprima um estilo de comunhão e participação orientado para a missão.

Vivamos, pois, esta ocasião de encontro, escuta e reflexão como um tempo de graça – sim, irmãos e irmãs, um tempo de graça – que nos ofereça, na alegria do Evangelho, pelo menos três oportunidades. A primeira é encaminhar-nos, não ocasionalmente, mas estruturalmente para uma Igreja sinodal: um lugar aberto, onde todos se sintam em casa e possam participar. Depois o Sínodo oferece-nos a oportunidade de nos tornarmos Igreja da escuta: fazer uma pausa dos nossos ritmos, controlar as nossas ânsias pastorais para pararmos a escutar. Escutar o Espírito na adoração e na oração. Como sentimos falta da oração de adoração hoje! Muitos perderam não só o hábito, mas também a noção do que significa adorar. Escutar os irmãos e as irmãs sobre as esperanças e as crises da fé nas diversas áreas do mundo, sobre as urgências de renovação da vida pastoral, sobre os sinais que provêm das realidades locais. Por fim, temos a oportunidade de nos tornarmos uma Igreja da proximidade. Sempre voltamos ao estilo de Deus: o estilo de Deus é proximidade, compaixão e ternura. Deus sempre agiu assim. Se não chegarmos a esta Igreja da proximidade com atitudes de compaixão e ternura, não seremos Igreja do Senhor. E isto não só em palavras, mas com a presença, de tal modo que se estabeleçam maiores laços de amizade com a sociedade e o mundo: uma Igreja que não se alheie da vida, mas cuide das fragilidades e pobrezas do nosso tempo, curando as feridas e sarando os corações dilacerados com o bálsamo de Deus. Não esqueçamos o estilo de Deus que nos deve ajudar: proximidade, compaixão e ternura.

Amados irmãos e irmãs, que este Sínodo seja um tempo habitado pelo Espírito! Pois é do Espírito que precisamos, da respiração sempre nova de Deus, que liberta de todo o fechamento, reanima o que está morto, solta as cadeias, espalha a alegria. O Espírito Santo é Aquele que nos guia para onde Deus quer, e não para onde nos levariam as nossas ideias e gostos pessoais. O Padre Congar, de santa memória, recordou: «Não é preciso fazer outra Igreja; é preciso fazer uma Igreja diferente» (Verdadeira e falsa reforma na Igreja, Milão 1994, 193). Este é o desafio. Por uma «Igreja diferente», aberta à novidade que Deus lhe quer sugerir, invoquemos com mais força e frequência o Espírito e coloquemo-nos humildemente à sua escuta, caminhando em conjunto, como Ele, criador da comunhão e da missão, deseja, isto é, com docilidade e coragem.

Vinde, Espírito Santo! Vós que suscitais línguas novas e colocais nos lábios palavras de vida, livrai-nos de nos tornarmos uma Igreja de museu, bela mas muda, com tanto passado e pouco futuro. Vinde estar connosco, para que na experiência sinodal não nos deixemos dominar pelo desencanto, não debilitemos a profecia, não acabemos por reduzir tudo a discussões estéreis. Vinde, Espírito Santo de amor, e abri os nossos corações para a escuta. Vinde, Espírito de santidade, e renovai o santo Povo fiel de Deus. Vinde, Espírito Criador, e renovai a face da terra. Ámen.


Vejo um Ramo de Amendoeira

A arte do encontro

A arte do encontro desafia-nos, pois, a repensar as nossas relações. Mas até que ponto estamos mesmo disponíveis para aprender o caminho até ao outro, partindo também à descoberta de nós próprios nessa mesma relação?

A vida é feita de muitas histórias. E cabem muitas histórias na vida de cada um.

Todos sabemos que podem existir várias construções e interpretações de um mesmo acontecimento, dependendo do sentido atribuído por quem as experimenta. Não há famílias simples. Cada um conta a história como sabe, como consegue, quiçá, como gostaria que fosse, interpretando, fantasiando, diminuindo, acrescentando, gerando muitas vezes desencontro.

É curioso ver como pessoas, que viveram os mesmos episódios, os interpretam frequentemente de maneiras tão diferentes. Quantas vezes ouvimos irmãos que cresceram juntos partilharem memórias de uma infância comum, através de narrativas distintas?

A maneira como interpretamos a realidade, a nossa versão dos factos, exprime muito do que somos. As nossas narrativas exprimem não só o nosso viver, mas a forma como o vivemos, como agimos, como sofremos… Isto, apesar de sermos bem mais do que as emoções que sentimos e das histórias que vivemos.

O poeta, compositor e diplomata brasileiro, Vinícius de Moraes, no seu Samba da Bênção, canta «que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida». Quando nos prontificamos a ouvir a versão de outra pessoa, com a qual até podemos discordar, podemos descobrir um novo sentido comum. Para isso, é preciso evitar julgamentos precipitados, de forma a deixarmos que os processos mentais sucedam e as memórias presentes se transformem.

Ao aprofundarmos o significado da palavra “arte”, entendemos que é sinónimo de compreensão, humildade, esforço e atividade criadora. A arte do encontro desafia-nos, pois, a repensar as nossas relações. Mas até que ponto estamos mesmo disponíveis para aprender o caminho até ao outro, partindo também à descoberta de nós próprios nessa mesma relação?

Para compreendermos o significado das ações humanas, é necessário sabermos escutar. Sempre que nos dispomos a prestar atenção ao que nos está a ser dito, alargamos a nossa capacidade de entender. Passamos, então, a sentir para além das palavras, a discernir e a agir a partir de uma escolha consciente que nos humaniza e dignifica. É assim que a empatia dá acesso à compreensão. Essa abertura ao próximo acontece sempre que não nos fecharmos em pontos de vista opostos que nos esmagam e reduzem os horizontes.

Sabemos bem que, em pleno século XXI, o flagelo da incompreensão e do desencontro continuam a gerar crises, guerras e desespero. Num mundo onde o ruído e a pressa nos ensurdecem e cegam, é mais fácil erguer muros do que criar pontes que unem perspetivas. São, no entanto, essas pontes que devemos construir se quisermos viver um tempo novo.

É por isso essencial fazermos as perguntas certas, empenhando-nos, individual e comunitariamente, neste processo. Que desafios e escolhas temos perante nós? Qual o verdadeiro significado dos acontecimentos que hoje testemunhamos e como os poderemos superar? O que queremos deixar de herança aos nossos filhos?

Tendo completado 99 anos de idade, o Professor Adriano Moreira publicou, no Diário de Notícias do passado 24 de julho, um artigo de opinião, no qual mostra, com a sabedoria que o característica, como o discurso de ódio tantos estragos continua a fazer. Homem de pensamento, de cultura e de ciência, Adriano Moreira alerta-nos para o perigo dos discursos de ódio que hoje em dia imperam: «A debilitação crescente dos valores que foram assumidos pela criação da ONU, garantindo “dignidade, justiça e direitos” para todos os seres humanos (…), deu relevo a um aviso do historiador britânico Timothy Garton Ash: “Liberdade de expressão não significa que deva ser permitido a qualquer pessoa dizer qualquer coisa, em qualquer lugar e a qualquer momento (…). Para respeitar o outro e vivermos juntos em paz, é preciso impor limites e estar atento ao que se pode e não pode dizer em público”».

As palavras ditas de maneira irrefletida podem ter consequências catastróficas, criando ruturas intransponíveis. Saber dizer é essencial, mas é igualmente importante saber calar, tanto na esfera privada como na pública. A nossa sensibilidade precisa de ser reeducada e é por isso necessário fazer espaço para que isso aconteça de verdade.

Neste contexto, a experiência e a prática da oração podem ajudar-nos. É na oração, enquanto verdadeiro encontro, que a “arte do encontro” se aprende e onde se geram silêncios fecundos e vida em plenitude. A descoberta do silêncio, permite-nos ouvir o som da vida e faz-nos entrar numa paz profunda que nos torna capazes de escutar o que realmente importa. E, por isso, a prática da oração pode-nos tornar mais humildes e capazes de escutar o outro. É assim que caminhamos para a comunhão das pontes que o mundo de hoje tanto precisa.

Ana Tojal |in Ponto SJ | 20 Setembro 2021


Vejo um Ramo de Amendoeira

COMUNHÃO, PARTICIPAÇÃO, MISSÃO: TRÊS PILARES
(Discurso do Papa Francisco aos fiéis da diocese de Roma, no dia 18 de Setembro de 2021) IV

(Continuação de ‘Tempo da Criação’)

Não a um povo de privilegiados

É preciso sentir-se parte de um único grande povo destinatário das divinas promessas, abertas a um futuro que espera que cada um possa participar do banquete preparado por Deus para todos os povos (cf. Is 25,6).

E aqui gostaria de especificar que, mesmo sobre o conceito de “povo de Deus”, pode haver hermenêuticas rígidas e antagónicas, presas à ideia de exclusividade, de privilégio, como ocorreu com a interpretação do conceito de “eleição” que os profetas corrigiram, indicando como ele deveria ser retamente entendido.

Não se trata de um privilégio – ser povo de Deus – mas de um dom que alguém recebe. Para si mesmo? Não: para todos; o dom é para doar: essa é a vocação. É um dom que alguém recebe para todos, que nós recebemos para os outros, é um dom que é também uma responsabilidade. A responsabilidade de testemunhar nos factos e não só com palavras as maravilhas de Deus, que, se conhecidas, ajudam as pessoas a descobrirem a sua existência e a acolherem a sua salvação.

A eleição é um dom, e a pergunta é: como é que doo o meu modo de ser cristão, a minha confissão cristã? A vontade salvífica universal de Deus oferece-se à história, a toda a humanidade por meio da encarnação do Filho, para que todos, pela mediação da Igreja, possam tornar-se filhos seus e irmãos e irmãs entre si. É desse modo que se realiza a reconciliação universal entre Deus e a humanidade, aquela unidade de todo o género humano de que a Igreja é sinal e instrumento (cf. Lumen gentium, n. 1).

Ainda antes do Concílio Vaticano II, tinha amadurecido a reflexão, elaborada sobre o estudo cuidadoso dos Padres, de que o povo de Deus se orienta para a realização do Reino, rumo à unidade do género humano criado e amado por Deus. E a Igreja, como nós a conhecemos e experimentamos, na sucessão apostólica, deve sentir-se em relação com essa eleição universal e, por isso, desempenhar a sua missão. Com esse espírito eu escrevi a Fratelli tutti. A Igreja, como dizia São Paulo VI, é mestra de humanidade que hoje tem o objetivo de se tornar escola de fraternidade.

“Isto eu vos digo…”

Por que é que eu vos digo estas coisas? Porque, no caminho sinodal, a escuta deve levar em conta o sensus fidei, mas não deve ignorar todos aqueles “pressentimentos” encarnados onde não esperaríamos: pode haver um “faro sem cidadania”, mas não menos eficaz. O Espírito Santo, na sua liberdade, não conhece fronteiras e nem se deixa limitar pelas pertenças.

Se a paróquia é a casa de todos no bairro, e não um clube exclusivo, eu recomendo: deixem abertas as portas e as janelas, não se limitem a levar em consideração apenas quem frequenta ou pensa como vocês – que serão 3%, 4% ou 5%, não mais. Permitam que todos entrem… Permitam-se, vocês mesmos, ir ao seu encontro e deixar-se interrogar, que as perguntas deles sejam as vossas perguntas, permitam-se caminhar juntos: o Espírito conduzi-los-á, tenham confiança no Espírito. Não tenham medo de entrar em diálogo e deixem-se sacudir pelo diálogo: é o diálogo da salvação.

Não desanimem, preparem-se para as surpresas. Há um episódio do livro dos Números (cap. 22) que conta a história de uma jumenta que se tornará profetisa de Deus: os judeus estão prestes a concluir a longa viagem que os levará à terra prometida. A sua passagem assusta o rei Balac de Moabe, que se confia aos poderes do mago Balaão para impedir essas pessoas, esperando evitar uma guerra. O mago, fiel ao seu modo, pergunta a Deus o que fazer.

Deus diz-lhe para não condescender com o rei, que, porém, insiste, e então ele cede e monta em uma jumenta para cumprir a ordem recebida. Mas a jumenta muda de direção porque vê um anjo com a espada desembainhada que está ali para representar a contrariedade de Deus.

Balaão puxa-a e espanca-a, sem conseguir fazer com que ela volte para o caminho. Até que a jumenta começa a falar, iniciando um diálogo que abrirá os olhos do mago, transformando a sua missão de maldição e morte em missão de bênção e vida.

Essa história ensina-nos a ter confiança que o Espírito sempre fará ouvir a sua voz. Até mesmo uma jumenta pode tornar-se a voz de Deus, abrir os nossos olhos e converter as nossas direções equivocadas. Se uma jumenta pode fazer isso, quanto mais um batizado, uma batizada, um padre, um bispo, um papa… Basta confiar-se ao Espírito Santo, que usa todas as criaturas para falar connosco: ele apenas nos pede que limpemos os nossos ouvidos para ouvir bem.

Vim aqui para vos encorajar a levar a sério este processo sinodal e para vos dizer que o Espírito Santo precisa de vós. E isto é verdade: o Espírito Santo precisa de nós. Escutem-no escutando-se. Não deixem ninguém de fora ou atrás.

Será bom para a Diocese de Roma e para toda a Igreja, que não se fortalece apenas através da reforma das estruturas – este é o grande engano! –, dando instruções, oferecendo retiros e conferências, ou à força de diretrizes e programas – isso é bom, mas como parte de outra coisa –, mas redescobrindo que é um povo que quer caminhar junto, entre nós e com a humanidade. Um povo, o de Roma, que contém a variedade de todos os povos e de todas as condições: que riqueza extraordinária na sua complexidade!

Mas é preciso sair dos 3-4% que representam os mais próximos e ir além para escutar os outros, os quais até vos poderão insultar ou expulsar, mas é preciso ouvir o que pensam, sem querer impor as nossas coisas: deixar que o Espírito nos fale.

Neste tempo de pandemia, o Senhor impulsiona a missão de uma Igreja que é sacramento de cuidado. O mundo levantou o seu grito, manifestou a sua vulnerabilidade: o mundo precisa de cuidado.

Coragem e avante! Obrigado!

[Esta tradução tem por base a tradução publicada pela newsletter do Instituto Humanitas da Unisinos, Brasil, da autoria de Moisés Sbardelotto, aqui adaptada para o português de Portugal]


Vejo um Ramo de Amendoeira

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
A BUDAPESTE POR OCASIÃO DA SANTA MISSA CONCLUSIVA
DO 52° CONGRESSO EUCARÍSTICO INTERNACIONAL E À ESLOVÁQUIA
(12-15 DE SETEMBRO DE 2021)

ENCONTRO COM OS JOVENS

DISCURSO DO PAPA FRANCISCO

Estádio Lokomotiva (Košice)
Terça-feira, 14 de setembro de 2021

Queridos jovens, amados irmãos e irmãs, dobrý večer [boa tarde]!

Causou-me alegria ouvir as palavras de D. Bernard, os vossos testemunhos e as vossas perguntas. Fizestes-me três às quais gostaria de encontrar resposta juntamente convosco.

Começo por Peter e Zuzka, com a vossa pergunta sobre o amor no casal. O amor é o maior sonho da vida, mas custa. É lindo, mas não é fácil, como aliás todas as coisas grandes da vida. É o sonho por excelência, mas não é um sonho fácil de interpretar. Roubo-vos uma frase: «Começamos a perceber este dom com olhos totalmente novos». Na verdade, como dissestes, são necessários olhos novos, olhos que não se deixam enganar pelas aparências. Amigos, não banalizemos o amor, porque o amor não é só emoção e sentimento; isto, quando muito, será o início. O amor não é ter tudo e súbito, não obedece à lógica do usa e lança fora. O amor é fidelidade, dom, responsabilidade.

Hoje a verdadeira originalidade, a verdadeira revolução é rebelar-se contra a cultura do provisório, é ir além do instinto, além do instante, é amar por toda a vida e com todo o próprio ser. Não estamos cá para ir vivendo, mas para fazer da vida um empreendimento grandioso. Todos vós tereis em mente grandes histórias que lestes nos romances, vistes nalgum filme inesquecível, ouvistes nalgum conto comovente. Se pensardes bem, nas grandes histórias há sempre dois ingredientes: um é o amor, outro é a aventura, o heroísmo. Andam sempre juntos. Para tornar grande a vida, precisamos de ambos: amor e heroísmo. Fixemos Jesus, contemplemos o Crucifixo: estão presentes os dois, um amor sem limites e a coragem de dar a vida até ao fim, sem meias medidas. Aqui, diante dos nossos olhos, temos a Beata Ana (Kolesárová), uma heroína do amor. Diz-nos para apostarmos em metas altas. Por favor, não deixemos transcorrer os dias da vida como episódios duma telenovela.

Por isso, quando sonhardes o amor, não acrediteis nos efeitos especiais, mas que cada um de vós é especial. Cada um de vós! Cada qual é um dom, e pode fazer da vida, da sua própria vida, um dom. Esperam-vos os outros, a sociedade, os pobres. Sonhai uma beleza que vá para além da aparência, para além da maquilhagem, para além das tendências da moda. Sem medo, sonhai formar uma família, gerar e educar filhos, passar uma vida inteira partilhando tudo com outra pessoa, sem vos envergonhardes das próprias fragilidades, porque existe ele, ou ela, que as acolhe e ama, que te ama tal como és. O amor é assim: amar o outro como é. Isto é o amor bom! Os sonhos que temos, dizem-nos a vida que desejamos. Os grandes sonhos não são o carro potente, o vestido da moda ou as férias extravagantes. Não deis ouvidos a quem vos fala de sonhos e, em vez disso, vende-vos ilusões. Uma coisa é o sonho, sonhar; outra, ter ilusões. Aqueles que vendem ilusões falando de sonhos são manipuladores de felicidade. Fomos criados para uma alegria maior: cada um de nós é único e está no mundo para se sentir amado na sua singularidade e amar os outros como ninguém o pode fazer no seu lugar. Não se vive sentado no banco de suplentes, à espera de substituir qualquer outro. Não! Cada um é único aos olhos de Deus. Não vos deixeis «homogeneizar»: não somos feitos em série, somos únicos, somos livres, e estamos no mundo para viver uma história de amor, de amor com Deus, para ter a ousadia de decisões grandes, para nos aventurarmos no risco maravilhoso de amar. Pergunto-vos: acreditais nisto? Pergunto-vos: sonhais com isto? [respondem: «Sim!»] Tendes a certeza? [«Sim!»]. Muito bem!

Gostaria de vos dar outro conselho. Para que o amor dê fruto, não esqueçais as raízes. E quais são as vossas raízes? Os pais e sobretudo os avós – ouvistes? – os avós. Eles prepararam-vos o terreno. Regai as raízes, ide ter com os avós: far-vos-á bem. Fazei-lhes perguntas, reservai tempo para ouvir as suas histórias. Hoje há o perigo de crescer desenraizados, porque temos tendência a correr, a fazer tudo depressa: aquilo que vemos na internet pode chegar-nos imediatamente a casa; basta um clique e aparecem no visor pessoas e coisas. Depois acontece tornarem-se mais familiares do que os rostos que nos geraram. Cheios de mensagens virtuais, corremos o risco de perder as raízes reais. Desligar-nos da vida real, fantasiar no vazio, não faz bem; é uma tentação do maligno. Deus quer-nos bem assentes na terra, ligados à vida; nunca fechados, mas sempre abertos a todos. Enraizados e abertos: entendestes? Enraizados e abertos.

Sim, é verdade! Mas – observar-me-eis – o mundo pensa de forma diferente. Fala-se muito de amor, mas na realidade vigora outro princípio: cada um pense por si. Queridos jovens, não vos deixeis condicionar por isto, pelo que está errado, pelo mal que alastra. Não vos deixeis prender pela tristeza ou pelo desânimo resignado de quem diz que nada mudará jamais. Se dermos crédito a isto, adoecemos de pessimismo. Já reparastes no rosto dum jovem, duma jovem pessimista? Vistes que cara tem? Uma face amargurada, um rosto de amargura. O pessimismo adoece-nos de amargura envelhece-nos por dentro. Envelhece-se jovem. Hoje há tantas forças desagregadoras, tantos que culpam tudo e todos, amplificadores de negatividade, profissionais de lamentações. Não lhes deis ouvidos, porque a lamentação e o pessimismo não são cristãos; o Senhor detesta a tristeza e o fazer-se de vítima. Não estamos feitos para trazer a face fixa na terra, mas para levantar o olhar para o céu, para os outros, para a sociedade.

(Continua em ‘Tempo da Criação’)


Vejo um Ramo de Amendoeira

A um mês do começo do Sínodo

Igreja Católica abre processo de auscultação que pode reconfigurar o seu futuro | in 7Margens

Manuel Pinto | 7 Set 21

Para as igrejas locais que seguem a velha cultura eclesiástica de não agir antes de chegarem instruções de cima, o pretexto acabou ontem: em conferência de Imprensa presidida pelo cardeal Mario Grech, foram apresentados dois documentos de referência, para concretizar o Sínodo sobre a sinodalidade: o Documento Preparatório e o Vademecum (ou guia prático). Traduzidos em seis línguas, entre os quais o português.

Não se trata, como sublinhou na conferência de Imprensa, a subsecretária do Sínodo Nathalie Becquart, referindo-se ao Vademecum, de um conjunto de normas a seguir, mas de um ponto de apoio, uma proposta de orientação, elaborada a partir de experiências já vividas em diferentes partes, que terá de ser adaptada localmente.

O cardeal secretário-geral do Sínodo chamou a atenção dos jornalistas e, através deles, de todos os cristãos, para o facto de um Sínodo não ser um parlamento ou um jogo de forças, em que “quem tem mais força condiciona e subjuga o outro”. É, antes, “uma experiência de escuta recíproca, inspirada pelo Espírito Santo, cujo sucesso depende desta fase de escuta do Povo de Deus”.

O subsecretário Luis Marín de San Martín começou por contestar que a fase de auscultação, que se inicia em 17 de outubro próximo em cada diocese, seja de preparação do Sínodo. Não se trata de uma preparação, já que é o próprio sínodo que, por vontade do Papa, vai abrir agora, reforçando a ideia já sublinhada de que não se trata de um mero evento, mas de um processo sinodal que envolve, em tempos próprios, as igrejas locais, os encontros continentais, a assembleia geral do Sínodo dos bispos e, por fim, o Papa que é o garante da unidade. É verdadeiramente uma “pirâmide invertida”, expressão que figura em alguns textos sinodais.

Sobre a consulta local, Luís Marín de San Martín esclareceu que ela deve reunir três características. A primeira é que “seja verdadeira”, isto é “que se consulte verdadeiramente o Povo de Deus”. Depois, deve ser “o mais ampla possível”, ou seja, deve abrir-se a todos os que querem contribuir, não se limitando às “elites, clericais ou não”, mas abarcando o “povo comum”, “mesmo os que estão nas margens”, e “implicando todos os setores”. Deve, finalmente, ser “prática”, não “teórica”, mas “enraizada na vida, na experiência de Cristo”.

San Martín referiu, depois, o papel dinamizador do bispo de cada diocese, que se deve colocar também em atitude de escuta, com um referente e uma equipa que “reflita a variedade da Igreja. Finalmente, deve realizar-se, no final do processo, que pode ir até abril de 2022, uma “assembleia sinodal” que ajude no discernimento comum e faça a síntese da auscultação (“que não seja um pequeno grupo que decida e faça a síntese”, acrescentou).

Na fase de perguntas e respostas, entre outros assuntos, foi ainda salientada a abertura e oportunidade que haverá para a expressão das questões das mulheres na Igreja e para o tempo escasso que haverá, nomeadamente para a primeira etapa do Sínodo. Finalmente, foi sublinhado, da parte de vários membros da mesa a ideia de que nada está pré-definido, a não ser a vontade de auscultar o Espírito através da experiência das pessoas. “Não sabemos onde o Espírito nos vai levar”.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Oração para o Tempo da Criação ( 1 de Setembro a 4 de Outubro)

Criador de todas as coisas,

Nós Te agradecemos porque, na Tua comunhão de amor, criaste o nosso planeta para ser uma casa para todos. Pela Tua Sagrada Sabedoria, fizeste a Terra para produzir uma diversidade de seres vivos que enchem o solo, a água e o ar. Cada parte da criação Te louva no seu ser e cada criatura cuida das outras a partir do seu próprio lugar na teia da vida.

Com o salmista, nós Te louvamos porque na Tua casa «até o pássaro encontrou casa, e a andorinha, ninho para si, onde acolha os seus filhos». Lembramos que chamas os seres humanos para cuidarem do Teu jardim honrando a dignidade de cada criatura e conservando os seus lugares na abundância de vida na Terra.

Mas sabemos que a nossa vontade de poder empurra o planeta além dos seus limites. O nosso consumo está fora da harmonia e fora do ritmo da capacidade da Terra de se curar. Os habitats ficam estéreis ou perdidos. As espécies perdem-se e os sistemas falham. Onde antes os recifes, as tocas, os cumes das montanhas e as profundezas do oceano fervilhavam de vida e de relações vivas, agora desertos áridos e secos jazem vazios, como se não tivessem sido criados. As famílias humanas são deslocadas pela insegurança e pelos conflitos, migrando em busca de paz. Os animais fogem de incêndios, desmatamento e fome, vagueando em busca de um novo lugar para encontrarem uma casa para os seus filhotes e para viver.

Neste Tempo da Criação, rezamos para que o sopro de Tua Palavra criadora toque os nossos corações, como as águas do nosso nascimento e do nosso batismo. Dá-nos fé para seguir Cristo até ao nosso lugar propício na comunidade amada. Ilumina-nos com a graça de respondermos à Tua aliança e ao Teu chamamento para cuidarmos da nossa casa comum. No nosso cultivo e no nosso cuidado, alegra os nossos corações por sabermos que participamos com Teu Espírito Santo na renovação da face da Tua Terra e na salvaguarda de uma casa para todos.

Em nome daquele que veio proclamar a boa nova a toda a criação, Jesus Cristo. Ámen.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Um mundo em mudança

À medida que atravessamos uma crise global como nenhum de nós antes experimentou, vamos dando conta da importância da nossa atitude face à solidariedade no seu sentido mais profundo.

Somos testemunhas de um mundo em mudança. São as crises ambientais, os migrantes, os fundamentalistas islâmicos que chegam ao poder no Afeganistão… E à medida que atravessamos uma crise global como nenhum de nós antes experimentou, vamos dando conta da importância da nossa atitude face à solidariedade no seu sentido mais profundo.

Hoje, mais que nunca, apercebemo-nos de como nem tudo é relativo. E um valor absoluto existe, deve expressar-se pelo amor e compaixão pelo próximo, pelo vulnerável. Este é um desafio que precisa de ser trabalhado com seriedade. E, para isso, ajudam-nos a fé e a esperança que procuram a transformação do mundo. Quanto mais praticarmos a compaixão, mais forte será a força do amor dentro de nós e ao nosso redor.

Nesse sentido, a opção preferencial pelos mais fragilizados, tão comunicada e vivida pelo Papa Francisco, inspira-nos a abrir caminhos novos na abordagem a velhas questões. Para debatermos os graves problemas sociais, a desigualdade e a exclusão, que hoje afetam tantas pessoas, não precisamos de esquemas abstratos: precisamos, sim, de um olhar atento e compassivo que permita o desenvolvimento de ações a partir de realidades concretas.

O Papa Francisco recorda-nos esta preocupação central da ação da Igreja, e no V dia mundial dos pobres, a 14 de Novembro de 2021, insiste em dizer-nos que “de modo particular, é urgente dar respostas concretas a quantos padecem o desemprego, que atinge de maneira dramática tantos pais de família, mulheres e jovens. A solidariedade social e a generosidade de que muitos, graças a Deus, são capazes, juntamente com projetos clarividentes de promoção humana, estão a dar e darão um contributo muito importante nesta conjuntura.”

É urgente criarmos juntos as soluções para a crise. Precisamos de respostas inovadoras, face aos desafios adicionais que temos vindo a sentir nos últimos tempos. A nossa intervenção não pode ser apenas de emergência, é realmente necessário não perdermos de vista a importância de programas de desenvolvimento a longo prazo, que rompam círculos de pobreza e assegurem o desenvolvimento das comunidades, fazendo dessa integração um novo fator de desenvolvimento.

Li este mês a história de um médico palestiniano que nasceu e foi criado num campo de refugiados. Em 16 de Janeiro de 2009, Izzeldin Abuelaish – agora conhecido como o “Médico de Gaza” – perdeu três filhas e a sobrinha num bombardeamento israelita que atingiu a sua casa, na Faixa de Gaza. Viveu uma tragédia, mas mesmo assim conseguiu manter a fé e a compaixão pelo próximo. “Não odiarei” foi o livro-testemunho que escreveu. Recebeu vários prémios humanitários em todo o mundo e inúmeras mensagens de apoio, inclusive de judeus israelitas.

Desde muito cedo dedicou-se a ajudar os mais desfavorecidos. E, para se tornar médico, ultrapassou muitas dificuldades – podemos dizer “desafios”. Foi o primeiro médico palestiniano a integrar o quadro de um hospital israelita. Segundo as suas próprias palavras, “acredita numa melhor saúde e educação para as mulheres e numa via para o desenvolvimento no Médio Oriente”. Trabalhou ainda como investigador sénior no Instituto Gertner no Centro Médico de Sheba, em Telavive, e tem um mestrado em Harvard em Saúde Pública. Continua através do seu trabalho a promover o entendimento entre os povos, a paz e a dignidade humana.

Todos precisamos de histórias de redenção, histórias que nos inspiram e trazem à superfície o melhor de nós próprios. Esta é sem dúvida uma delas. A história de alguém que escolheu o entendimento em vez da vingança, o amor em vez do ódio, na situação concreta que lhe foi dada viver. Alguém que nunca perdeu a esperança; essa esperança que nós não podemos hoje perder.

A subida recente ao poder por parte dos Talibãs, no Afeganistão, inicia mais um problema humanitário que nos afecta a todos. As catástrofes têm e terão, impactos negativos na vida das pessoas, em particular das mais vulneráveis: são sobretudo essas que não podemos esquecer.

Perante tanta incerteza, as nossas atitudes também ajudam a decidir como a história acaba. Fica, pois, o alento da esperança que sabe, apesar das dificuldades, ser capaz de abraçar e escolher gestos de comunhão e de paz.

Ana Tojal | in Ponto SJ | 26 de Agosto de 2021


Vejo um Ramo de Amendoeira

Fé, arte, beleza, inutilidade:

«Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus»

Ainda somos herdeiros de um cristianismo muito racional, muito organizado de categorias mentais, e deixámos as abstratas. O papa Bento XVI falou muito disto no seu pontificado, e o papa Francisco tem continuado.

Quando o papa Francisco voltou da viagem apostólica ao Japão, perguntaram-lhe, no avião: o que é que o Ocidente tem a aprender com o Oriente? E ele respondeu: temos de aprender a poesia que os orientais têm.

A fé não é apenas abstração. Se a fé não faz arder o coração, se não é uma espécie de febre, se não nos torna brasas, mas é apenas uma cinza mental, então a fé é incompleta. Cada um dos três transcendentais – a verdade, o bem e a beleza – é fundamental.

A beleza é a experiência da verdade, como o amor, a caridade é uma experiência prática da verdade. Mas a beleza é interioridade, é emoção, é perceber que há um olhar que nos excede, é a excedência do sentido, é ver para além do imediato e é ganha ruma sensibilidade ao corpo, àquilo que nos chega através dos sentidos.

Fazemos uma espiritualidade dos sentidos espirituais, e esquecemos os sentidos naturais, que é aquilo que a arte nos ensina. A arte é uma mistagogia, uma iniciação ao mistério, que acontece a partir dos sentidos naturais – a visão, o olfato, o sabor, a escuta, o tato.

Acredito, e vejo-o em tantos artistas que conheço, que eles, mesmo sem saber, estão a trabalhar com a matéria espiritual. Porque estão a trabalhar com a interioridade humana. Estão a trabalhar com uma visão espiritual da vida. Por isso, é fundamental percorrer a via da beleza.

Durante muito tempo a Igreja viveu um divórcio com as artes. E viveu também, de certa forma, um divórcio com o sensível. Hoje, precisamos de uma mística do sensível, e precisamos de perceber que a beleza é uma via para chegar a Deus.

A beleza é uma forma de revelação. A beleza é a experiência. O grande teólogo Romano Guardini dizia que a beleza é o contrário do ornamento, não tem nada a ver com ornamentação, com o bonitinho. Beleza é a experiência da verdade.

Tive o privilégio de assistir à lição do papa Bento XVI na capela Sistina, quando ele reuniu artistas de muitas proveniências, para relançar o Átrio dos Gentios. Ele disse, citando o papa Paulo VI, que nós [artistas e Igreja] temos tanto em comum, e o principal é a procura da verdade.

Hoje percebemos que a via da beleza, o caminho do sensorial, a estética do sensível são dimensões sobre as quais precisamos de trabalhar, de abordar, porque são caminhos necessários para chegar ao coração do ser humano e à experiência de Deus. (…)

Penso muitas no grande mestre que é Manoel de Barros; num dos seus poemas, diz: «Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:/ quando cheias de areia de formiga e musgo – elas/ podem um dia milagrar de flores.// (Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)// Também as latrinas desprezadas que servem para ter/ grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.// (Eu sou beato em violetas.)// Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus./ Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!// (O abandono me protege)».

Gosto muito deste poema que, para nós, crentes, é um desafio muito grande: temos de descobrir a alegria, a beleza, a urgência desta inutilidade. Num tempo em que estamos a pensar novos caminhos (…), não esquecer a inutilidade também como caminho.

S. Francisco de Assis dizia aos seus confrades que deviam plantar na horta todas as plantas úteis que servissem de comida à mesa do convento, mas deviam, num espaço, deixar crescer flores – que eles não iam comer – para o alimento da sua alma.

A inutilidade protege-nos, e é muito importante este apego pelo abandono. Também as latas abandonadas podem um dia milagrar violetas. E nós vemos isso na casa dos pobres, que não têm vasos bonitos, mas agarram numa lata velha, põem um pouco de terra, e é um milagre de flores.

Com este poema o desafio é este: o chamamento a acreditar que o grande nutrimento é o dom, e quando tornamos o dom mais radical, o milagrar violetas acontece. O que nos protege não são os muros, o que nos protege é o relento e o abandono, isto é, a capacidade abraâmica de partir, a capacidade abraâmica de confiar. Estamos sempre a voltar àquilo que o primeiro crente foi chamado a fazer.

Card. José Tolentino Mendonça | Fonte: Jesuítas Brasil | Edição: Rui Jorge Martins in SNPC | Publicado em 02.08.2021


Vejo um Ramo de Amendoeira

Cardeal Tolentino aponta desafios e oportunidades para a Igreja a partir do pontificado de Francisco

Há quatro eixos marcantes, que agregam a si muita outra reflexão, e que são traves-mestras no caminho, na missão que tem sido protagonizada pelo papa Francisco.

Primeiro, é a sua reflexão sobre o que nós somos. Há uma autorrepresentação da Igreja para a qual o papa Francisco, desde o início do seu pontificado, nos tem mobilizado. Vale a pena voltar às imagens da exortação apostólica que é o seu programa de pontificado, “A alegria do Evangelho”.

Imagens como a Igreja em saída, como uma Igreja de portas abertas, como uma Igreja hospital de campanha, como uma Igreja acidentada, suja, por ter saído pelas estradas do mundo, pelas periferias da humanidade, mas ao mesmo tempo continua a ser aquela comunidade de discípulos de Jesus capazes de viverem em fidelidade o espírito do Evangelho, assumindo o serviço da vida humana como sua missão primordial.

Isto é algo que ao longo destes oito anos de pontificado encontramos traduzido noutras imagens, porque o pensamento do papa Francisco funciona muito a partir de imagens muito incisivas, de metáforas de grande impacto. Com elas, o papa vai descrevendo o que pensa da Igreja.

Uma imagem para falar deste eixo da autorrepresentação que aparece repetidamente no pensamento e na fala do papa Francisco é a do poliedro. Ele pensa a Igreja, as comunidades, as várias comunidades eclesiais como um poliedro, com faces diferentes, mas com grande de, a mesmo tempo, expressar originalidade e complementaridade.

A referência aos quatro princípios que ele enuncia na “Evangelium gaudium” aparece continuamente quer em documentos quer quando fala sem papéis à frente.

O princípio que o tempo é superior ao espaço. Na visão que o papa Francisco tem da Igreja, não se trata apenas de ocupar um espaço, mas de ter um olhar para o tempo, perceber que começamos caminhos, e que esse gesto inaugural é porventura mais importantes do que querer já montar uma tenda num lugar específico.

Outro princípio é que a unidade é superior ao conflito. Um pensamento muito importante do papa Francisco, quer em relação à Igreja quer ao mundo, é a noção de bem comum. Aquilo que nos une é sempre mais importante do que tudo aquilo que nos diferencia e separa.

Outro princípio é que a realidade é superior à ideia. É muito importante para um olhar de pastor, e para nós que vivemos em Igreja, a auscultação da realidade, e perceber que a capacidade de abraçar a vida como ela é, mesmo nas suas contradições, é superior às idealizações que podemos fazer.

O quarto princípio é que o todo é superior às partes. De novo emerge a ideia de bem comum a redescobrir como uma imagem, que não é só abstrata, mas praticada do que é a Igreja.

Percebemos, na visão que o papa apresenta sobre a Igreja, quanto ele é fiel ao espírito do Concílio Vaticano II. Além de perguntar quem somos, o papa pergunta-nos, desafia-nos e cria novas oportunidades para perguntar quem são os destinatários do discurso eclesial. E aqui o seu discurso traz grande novidade profética, desinstala-nos, porque ele escolhe falar não para os de sempre, não para aqueles que já pertencem ao rebanho, não para aqueles que já estão convencidos, mas é um discurso verdadeiramente para todos, em grande medida para a humanidade.

Neste sentido, os temas, os argumentos que o papa Francisco escolhe, por exemplo a África, a Europa e o grande cemitério que é hoje o mar Mediterrâneo, e as suas encíclicas são textos em que vemos que ele tem a humanidade diante dos olhos. Não tem apenas os bispos, os cristãos, porque sente como desafio para a missão atual da Igreja a capacidade de falar a todos, e de colocar na sua agenda eclesial temas que não dizem respeito apenas “ad intra”, mas com uma transversalidade e globalidade muito grandes.

Isto é um eixo novo, e constitui, sem dúvida, um desafio muito grande, porque, como o papa Francisco refere muitas vezes, um dos problemas da Igreja atual é a sua autorreferencialidade: arriscarmos viver dentro de uma bolha, dentro de uma zona de conforto, estamos bem nas nossas realidades, nas nossas missões, nas nossas atividades, mas perdemos a capacidade de um discurso relevante para o mundo. A “Fratelli tutti” vem dar força não apenas à palavra “irmãos”, mas também ao advérbio “todos”. Esta capacidade de falar a todos é algo que o papa Francisco nos ensina.

Há mais desafios que abrem muitas oportunidades, e são importantes quando olhamos sem pretensão de esgotar o assunto, mas de abrir uma conversa sobre o magistério do papa Francisco.

Um outro eixo consiste no desafio a converter o olhar e o método de interpretar a realidade a uma dimensão sistémica da vida. O papa Francisco pensa as coisas não apenas individualmente, mas é capaz de perceber que tudo está ligado, que há uma interconexão muito grande.

Percebemos isto claramente, por exemplo, na “Laudato si’”. Há tempos, o papa fez uma espécie de “making of”, contou o que está por trás do processo interior, espiritual, que o levou à redação e publicação desta encíclica sobre o cuidado da casa comum. Ele lembra que, em 2007, quando estava na conferência da CELAM [Conselho Episcopal Latino-americano] que aconteceu em Aparecida, da qual era um dos redatores do documento final.

Ele conta, com muita simplicidade, que ao ouvir alguns dos participantes falar da Amazónia, pensava para si mesmo: «O que é que tem a Amazónia a ver com a evangelização? Esta insistência é aborrecida». Eu tive de fazer um caminho de conversão interior para perceber que a ecologia, o pensamento do mundo, da casa comum, nos obriga a um novo paradigma, em que, por um lado, não temos o antropocentrismo radical que ainda vigora – no centro está o ser humano e todas as coisas devem ser explicadas em função dele –, antes há uma dimensão sistémica na Criação, que depois podemos usar como método para analisar todas as realidades. A palavra-chave é “conexão”. Não podemos servir a pessoa se não atendermos à Criação, se não ouvirmos a voz do sofrimento do planeta. Cuidar da casa comum é condição fundamental para também podermos cuidar da humanidade. Só saberemos o que está a acontecer com a pessoa humana se nos perguntarmos o que é que está a acontecer com a nossa casa comum.

O quarto desafio, que vem desde as primeiras declarações deste pontificado – mas que este ano ganhou um novo impulso, porque na preparação para o Sínodo dos Bispos a Igreja universal é chamada a redescobrir e viver em chave de sinodalidade –, e que nos abre tantas oportunidades nas nossas realidades eclesiais, é o de implementar uma dinâmica de sinodalidade.

Quando, em 2015, a instituição dos Sínodo dos Bispos fez cinquenta anos, o papa dizia que o Sínodo era o que o Senhor nos pede para vivermos no terceiro milénio. A grande imagem da Igreja deste milénio é uma igreja sinodal, uma Igreja capaz de caminhar conjuntamente, mas ele afirma imediatamente, com o realismo que dele conhecemos, que não é fácil colocar este dinamismo em prática. Mas ele não deixa de nos desafiar. E aponta algumas traves-mestras do seu pontificado.

O papa diz, por exemplo, que uma Igreja sinodal é uma Igreja que escuta, e que escutar não é apenas ouvir; escutar é ser capaz de acolher, de praticar uma hospitalidade, de entender a complementaridade que existe entre todos os carismas, entre todos os serviços dentro da Igreja. Ele diz que sem sinodalidade não se entende o próprio ministério hierárquico. Ao citar S. João Crisóstomo, afirma que Igreja e Sínodo são sinónimos.

Esta sinodalidade que a Igreja é chamada a viver, e que tem vivido de tantos modos ao longo do pontificado de Francisco, não é apenas “ad intra”, não é apenas para ouvir a Igreja, os fiéis leigos, para ouvir as diversas realidades que compõem a esfera eclesial; é também uma sinodalidade com o mundo, porque, lembra tantas vezes o papa Francisco, nós não estamos sós, a Igreja caminha juntamente com os seres humanos, compartilhando as suas dificuldades e esperanças.

Penso que estes quatro eixos – quem somos, imagens novas, incisivas, para autorrepresentar a experiência eclesial; a quem falamos, a ousadia de falar a todos, o que em grande medida é, para a Igreja, uma novidade e uma oportunidade; o desafio de interpretar de modo sistémico, em modo interconectado todas as questões; e, por fim, o estilo eclesial é o estilo da sinodalidade – nos ajudam a ler, mapear, cartografar o pontificado do papa Francisco.

Card. José Tolentino Mendonça | Fonte: Jesuítas Brasil | Edição: Rui Jorge Martins in SNPC | Publicado em 02.08.2021


Vejo um Ramo de Amendoeira

Nunca será demais repetir:

No coração da vida do cristão está a fé, não a lei

Após o sinal da multiplicação-partilha dos pães, Jesus, recusando a aclamação mundana da parte da multidão que queria fazê-lo rei, porque Ele tinha obtido alimento, fugiu, solitariamente, para o monte, deixando os discípulos que procuravam regressar, de barco, à outra margem do mar, rumo a Cafarnaum. Mas era de noite, e uma violenta tempestade desencadeou-se no lago. Nessa situação de dificuldade, os discípulos vislumbram Jesus que caminha sobre as águas do lago, indo ao encontro deles, e são tomados pelo medo. Mas Ele diz: «Eu sou, não tenhais medo!», depois aporta com eles em terra firme e entra em Cafarnaum.

E então, «no dia seguinte», a multidão, que tinha comido o pão, vai em busca de Jesus, e encontra-o, depois de atravessar o lago de barco, e pede-lhe com respeito: «Mestre, quando é que vieste para aqui?» (João 6, 24-35). Jesus, todavia, conhecendo as motivações daquela busca, não responde à curiosidade da multidão, mas revela com autoridade o quanto é insuficiente, ambígua e desviante: «Ámen, ámen, Eu vos digo: vós procurais-me não porque vistes sinais, mas porque comestes daqueles pães e vos saciastes». Aquela busca faz de Jesus aquele que satisfaz as necessidades e humanas e preenche a ausência, mas desconhece a sua verdadeira identidade, aquela de quem veio não para dar um alimento que elimina a fome material, mas para dar aquilo que nutre para a vida eterna. Aqueles galileus tinham visto o prodígio mas não tinham lido o sinal, ou seja, aquilo que aquela ação de Jesus significava. Tinham experimentado a saciedade mas não tinham compreendido que aquele pão era o dom da vida de Jesus.

Desvelada a atitude da multidão, Jesus profere na sinagoga de Cafarnaum um longo discurso, anunciando-lhe o tema nas suas primeiras palavras: «Trabalhai não pelo alimento que perece, mas pelo alimento que permanece para a vida eterna e que o Filho do homem vos dará. Este, com efeito, o Pai, Deus, marcou com o seu selo». Jesus pede aos seus ouvintes um compromisso, revela o dom que Ele, Filho do homem, faz aos seres humanos, e manifesta-se como aquele sobre o qual o Pai colocou a sua bênção. É preciso, portanto, trabalhar para receber do Pai o pão de cada dia, alimento para o corpo destinado à morte; ao mesmo tempo, porém, Jesus exorta a desejar, ou seja, a trabalhar com igual intensidade e convicção em vista daquele alimento que só Ele pode dar, o alimento que dá a vida para sempre, a vida que permanece para além da morte.

Atenção: Jesus não despreza o alimento material, mas, sabendo que «nem só de pão vive o homem», exorta a trabalhar com convicção e intensidade em vista daquele alimento que dá a vida para sempre.

Mas mesmo perante esta revelação da sua identidade, aqueles galileus não compreendem, e por isso perguntam a Jesus: «Que fazer? Que devemos fazer para realizar a vontade de Deus? Que ordem cumprir?». Jesus, em resposta, revela a obra, o agir por excelência, que apesar de parecer uma não ação, algo a que segundo o sentir humano falta concretude: a ação das ações, a ação por excelência que Deus quer e pede é acreditar, aderir àquilo que Ele mandou. A única obra é a fé, diz Jesus. É obra de Deus porque permite a Deus trabalhar no ser humano, na História, na vida daquele que acredita. Sim, está aqui a diferença cristã: no coração da vida do crente não está a lei, mas a fé. Nunca se repetirá isto em demasia, e não nos esqueçamos que o primeiro nome dado aos discípulos de Jesus no Novo Testamento após a ressurreição foi precisamente «os crentes» (Atos 2, 44; 4, 32). A fé faz os cristãos, plasma os cristãos, salva os cristãos.

Esta verdade central deve ser, no entanto, compreendida bem: a fé não é um ato intelectual, gnóstico, mas é uma adesão vital a Jesus Cristo, é um estar no seu seguimento, envolvido com a sua própria vida. Desta maneira são varridas as contraposições intelectuais entre fé e ação-obras, entre contemplação e ação.

A obra do cristão é acreditar, é acolher o dom da fé para fazer dela a sua responsabilidade, a sua obra, a sua luta, a sua salvaguarda. Só assim se reconhece o primado à graça, ao amor gratuito e sempre preveniente do Senhor, que é um dom a acolher com espírito de admiração e de agradecimento, enquanto capaz de gerar na profundidade do coração responsabilidade e desejo de responder ao dom, ou melhor, ao Doador. Acreditar em Jesus Cristo, o enviado de Deus ao mundo, significa estar onde Ele está, partilhando com Ele a própria vida, «onde quer que Ele vá», radicalmente e até ao fim.

Mas aquela multidão revela a sua identidade: para acreditar quer um sinal. Tinham visto o sinal da multiplicação-partilha dos pães, mas a partir do momento em que isso não tinha resultado naquilo que eles queriam, na proclamação de Jesus como rei e messias mundano, agora exigem outro, como aquele feito por Moisés através do dom do maná. Desta forma, mostram que não são sequer capazes de ler a Torá, porque nela – explica-lhes Jesus - «não foi Moisés que deu o pão do Céu, mas o Pai dá o pão do Céu, o verdadeiro, ou seja, aquele que desce do Céu e dá a vida ao mundo». E assim Jesus revela que se sente chamado não a dar alguma coisa, mas a dar-se totalmente a si próprio. Então pedem a Jesus para lhes dar esse pão, e dá-lo para sempre. E Ele responde-lhes com a revelação inaudita: «Eu sou o pão da vida». Por isso, o pão para a vida eterna não é um simples dom da parte de Jesus, mas é o próprio Jesus, que dá toda a sua pessoa.

O que significa esta linguagem, que arrisca ser compreendida por nós de maneira abstrata? Significa que Jesus é alimento, e nesta primeira parte do seu longo discurso Ele apresenta-se como alimento enquanto Palavra, Palavra do Pai, Palavra feita carne, Palavra descida do Céu, Palavra enviada por Deus aos humanos. A Palavra de Deus foi sempre lida no Antigo Testamento como alimento, pão que dá a vida à humanidade; mas agora esta Palavra, dita muitas vezes e de diversos modos nos tempos antigos aos seres humanos através de Moisés e dos profetas, é um homem: é Palavra de Deus humanizada em Jesus de Nazaré. Neste sentido, Jesus entrega-se aos humanos como «pão da vida», pão que transporta a vida.

Esta linguagem é de tal maneira vertiginosa que não é possível comentar tais palavras de Jesus: só acolhendo-as em adoração. Jesus, um homem, um judeu marginal da Galileia, o filho de Maria e de José, proveniente de Nazaré, é na verdade a Palavra de Deus, e, enquanto tal, é alimento, pão para a nossa vida de crentes nele. Quem pode dizer que é capaz de compreender e sustentar estas palavras? Em todo o caso, talvez o Senhor nos peça somente que tentemos acolher estas palavras; e fazê-lo sabendo que o seu dom, a sua graça, nos permite torná-las palavras acolhidas por cada um de nós de maneira pessoalíssima, ou seja, como somente o Senhor pode fazê-las conhecer e compreender. Assim assimilamos o alimento para a vida eterna, segundo a promessa de Jesus: «Quem vem a mim não mais terá fome e quem acredita em mim não mais terá sede». Uma promessa paralela àquela feita por Jesus à mulher da Samaria: «Quem beber da água que Eu lhe der, não mais terá sede pela eternidade».

Enzo Bianchi | In Altrimenti | Trad.: Rui Jorge Martins in SNPC | Publicado em 28.07.2021


Vejo um Ramo de Amendoeira

«Os avós e os idosos não são sobras de vida, desperdícios para deitar fora», declara papa

«Perguntemo-nos: “Visitei os avós? Os idosos da minha família ou do meu bairro? Prestei-lhes atenção? Dediquei-lhes algum tempo?” Guardemo-los, para que nada se perca: nada da sua vida e dos seus sonhos. Cabe a nós, hoje, prevenir o lamento de amanhã por não termos dedicado suficiente atenção a quem nos amou e nos deu a vida.»

Esta foi uma das advertências que o papa proferiu hoje, pela voz do arcebispo Rino Fisichella, na homilia da missa, na basílica de S. Pedro, Vaticano, durante a qual se assinalou o primeiro Dia Mundial dos Avós e dos Idosos.

«Os avós e os idosos não são sobras de vida, desperdícios para deitar fora. Mas são aqueles preciosos pedaços de pão deixados na mesa da nossa vida, que ainda nos podem nutrir com uma fragrância que perdemos, “a fragrância da memória”, considera Francisco, que não participou nesta missa por estar a convalescer da cirurgia a que foi submetido no início do mês.

Francisco quis lembrar como os avós foram, e são, imprescindíveis para cada pessoa, não só porque estão na sua origem, como a acompanharam e apoiaram, sobretudo nos momentos de maior fragilidade «Depois duma vida feita muitas vezes de sacrifícios, não se mostraram indiferentes a nosso respeito nem apressados sem nos ligar; mas tiveram olhos atentos, cheios de ternura».

«No nosso crescimento quando nos sentíamos incompreendidos ou com medo dos desafios da vida, eles deram-se conta de nós, do que estava a mudar no nosso coração, das nossas lágrimas escondidas e dos sonhos que trazíamos dentro de nós. Todos nos sentamos nos joelhos dos avós, que nos tiveram ao colo. E foi também graças a este amor que nos tornamos adultos», assinalou.

Perante esta história de amor, que atitude têm hoje filhos e netos? « Que olhar temos para com os avós e os idosos? Quando foi a última vez que fizemos companhia ou telefonamos a um idoso para o certificar da nossa proximidade e deixar-nos abençoar pelas suas palavras?».

«Sofro quando vejo uma sociedade que corre, apressada e indiferente, ocupada com tantas coisas e incapaz de parar para dar um olhar, uma saudação, uma carícia. Tenho medo duma sociedade onde todos formamos uma multidão anónima e já não somos capazes de erguer os olhos e reconhecer-nos. Os avós, que alimentaram a nossa vida, hoje têm fome de nós: da nossa atenção, da nossa ternura; de nos sentir ao pé deles. Ergamos o olhar para eles, como Jesus faz connosco», pediu Francisco.

E se na infância, e mesmo ao longo da vida de adultos, os avós deram o que tinham, chega o tempo de ter para com eles a mesma generosidade que antes manifestaram: «Agora cabe a nós guardar a vida deles, aliviar as suas dificuldades, atender às suas necessidades, criar as condições que lhes permitam ver facilitadas as suas tarefas diárias e não se sintam sozinhos».

Depois de reiterar a «necessidade duma nova aliança entre jovens e idosos, necessidade de partilhar o tesouro comum da vida, sonhar juntos, superar os conflitos entre as gerações para preparar o futuro de todos», o papa frisou que, mesmo com as suas eventuais limitações, os avós e idosos continuam a ser «pão» que alimenta as gerações mais novas.

«Sejamos agradecidos pelos seus olhos atentos, que se aperceberam de nós, pelos seus joelhos que nos deram colo, pelas suas mãos que nos acompanharam e levantaram, pelos jogos que fizeram connosco e pelas carícias com que nos consolaram. Por favor, não nos esqueçamos deles. Aliemo-nos com eles. Aprendamos a parar, a reconhecê-los, a ouvi-los. Nunca os descartemos. Guardemo-los amorosamente. E aprendamos a partilhar tempo com eles. Sairemos melhores. E juntos, jovens e idosos, saciar-nos-emos à mesa da partilha, abençoada por Deus», concluiu a homilia de Francisco.

No início da celebração, o arcebispo italiano D. Fisichella, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, informou os fiéis que o papa os iria saudar aquando da oração do Ângelus, ao meio-dia do Vaticano.

«Sabeis que estes, para ele, são dias de convalescência, e nós desejamos que não se canse, para que possa passar estes últimos dias em repouso, para retomar plenamente as forças e o seu ministério pastoral», afirmou.

Rui Jorge Martins | Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé | Publicado em 25.07.2021 in SNPC


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Decálogo do cristão em férias

(Versão atualizada)

Mais do que divinais, como fazer férias divinas?

Podia ser esta a pergunta, intencionalmente provocadora, para inspirar o Decálogo do cristão em férias, preparado pelos bispos franceses para este verão.

A proposta do episcopado francês parte de um dado de facto: durante as férias, somos 'menos' cristãos. Pior, às vezes não o somos de nenhuma maneira. Permitimo-nos a nós próprios um tempo alienante e extravagante, uma festa sem Deus, domingos sem Missa. Resumidamente, “Deus fica de férias”.

Neste sentido, apresentam uma sugestão para conceber o tempo de ócio e de descanso como um itinerário no amor do Senhor, companheiro de viagem. Traduzimos e retomamos aqui, com ligeiras adaptações, o Decálogo para fazer umas férias divinas e não divinais:

1.º: Mede a temperatura da caridade!

Dedica tempo aos outros, reflete sobre o peso que o amor concreto, de atenção, de visitação, de companhia, terá durante as tuas férias. Caso contrário, o período de verão corre o risco de se tornar somente um tempo de egoísmo, disfarçado de relaxe.

2.º: Leva Deus na tua mala. É o teu certificado digital espiritual.

Leva contigo um Evangelho de bolso, uma pequena Bíblia, a vida de um santo, uma pequena obra de teologia, um bom livro; descarrega no teu telemóvel uma aplicação para a leitura do Evangelho diário, para a oração pessoal. Alguns sinais visíveis podem servir de lembrete para te aproximares do invisível, do inefável: um terço, um pequeno ícone ou um crucifixo.

3.º: Mede o nível de oxigénio da tua oração.

Leva Deus no teu coração e deixa-O palpitar em cada momento e em cada movimento das tuas viagens e paragens, porque a tua fé vive, como do ar que respiras, da tua ligação íntima e permanente com o Senhor. Se te faltar o oxigénio da oração, liga de imediato para a linha “24 horas com o Senhor”.

4.º: Evita o contágio de qualquer vírus mortal.

Foge dos lugares sem Deus, isto é, daquelas situações ambíguas, dispersivas e destruidoras, que te contagiam negativamente e prejudicam o teu vínculo com o Senhor e com o teu próximo.

5.º: Mantém-te “onlife” com o Senhor.

Vive as férias como um prolongamento do domingo e antecipação do repouso eterno; dedica, todos os dias, um tempo muito especial a pores a conversa em dia com o Senhor. A rede nunca cai!

6.º: Alimenta-te bem.

Não faltes à Eucaristia dominical, usando desculpas triviais e, se for possível, participa até nalguma celebração da Missa diária. Pode ser tão enriquecedor conhecer outro pastor, outra comunidade. Aproxima-te. Diz onde vens, ao que vens.

7.º: Olha para além do que vês.

Há vida para além do Sol e do futebol. Contempla a beleza presente na natureza, nas aves e nos lírios do campo, no silêncio das montanhas, na vastidão dos oceanos, nas artes, na maravilha do ser humano, porque, sem o contacto com a beleza, ficarás árido rapidamente.

8.º: Pratica diariamente exercícios de fé.

Dá testemunho de Cristo, onde quer que estejas, porque, nas férias, não deves limitar-te a dizeres-te cristão, mas também a despertar e a animar a fé nos outros.

9.º: Usa e abusa da medicação SOS: “Serve o Outro Sempre”.

Serve o teu próximo com humildade, gratuidade e hospitalidade. A tentação é gostares de ser servido porque pagas os serviços de outros. Encontra um jeito de te colocares sempre ao serviço de alguém, em gestos simples e caseiros, imitando e percorrendo o próprio caminho de Jesus, que veio para servir.

10.º: Festeja sem armar confusões.

Celebra, comemora, alegra-te em tudo e com tudo e apesar de tudo, porque a tua alegria está no Senhor. Afasta-te para longe do ideal mundano da ociosidade preguiçosa e desumanizante; exala o perfume do amor de Deus, na gratuidade e no dom de ti mesmo.

...

Se viveres assim, no teu regresso, mais do que as fotos orgulhosas das tuas aventuras turísticas, voltarás com um coração mais leve e mais alegre por não teres deixado Deus de férias e teres acolhido e escolhido o Senhor como teu hóspede, teu amigo e teu companheiro. Não terão sido divinais… mas terão sido “divinas” as tuas férias com Deus.

Tradução e adaptação de Pe. Amaro Gonçalo

12 de julho de 2021


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VÍDEO MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
NA OCASIÃO DA 109ª
CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DO TRABALHO

(Conclusão)

Recordo aos empresários a sua verdadeira vocação: produzir riqueza ao serviço de todos. A actividade empresarial é essencialmente «uma nobre vocação que visa produzir riquezas e melhorar o mundo para todos, Deus nos promove, espera que desenvolvamos as competências que nos deu e encheu de potencialidades o universo. Em seus projetos, cada pessoa é chamada a promover seu próprio desenvolvimento, e isso inclui a implementação de capacidades econômicas e tecnológicas para aumentar os ativos e aumentar a riqueza. Mas, em qualquer caso, essas competências dos empresários, dádiva de Deus, devem ser claramente orientadas para o progresso das outras pessoas e a superação da miséria, especialmente através da criação de oportunidades de emprego diversificadas. Sempre, junto com o direito de propriedade privada, Todos irmãos , nº 123). Às vezes, ao falar da propriedade privada, esquecemos que é um direito secundário, que depende desse direito primário, que é a destinação universal dos bens.

Exorto sindicalistas e dirigentes de associações de trabalhadores a não se deixarem enredar por uma "camisa de forças", a concentrar-se nas situações concretas dos bairros e comunidades em que atuam, ao mesmo tempo em que tratam de questões relacionadas a políticas económicas mais amplas e "macro-relações". Mesmo nesta fase histórica, o movimento sindical enfrenta dois desafios muito importantes. O primeiro é a profecia, ligada à própria natureza dos sindicatos, à sua vocação mais genuína. Os sindicatos são uma expressão do perfil profético da sociedade. Sindicatos nascem e renascem toda vez, como os profetas bíblicos, dão voz a quem não tem, denunciam quem "vendia [...] os pobres por um par de sandálias", como os profeta diz (cf. Amós2, 6), desnudar os poderosos que espezinham os direitos dos trabalhadores mais vulneráveis, defender a causa dos estrangeiros, dos menores e dos rejeitados. Claro, quando um sindicato se corrompe, ele não pode mais fazê-lo e se torna um status de pseudo-empregador, por sua vez, distanciado do povo.

O segundo desafio: inovação. Os profetas são sentinelas que assistem de seu posto de observação. Os sindicatos também devem guardar os muros da cidade do trabalho, como um guarda que vigia e protege quem está dentro da cidade do trabalho, mas que também vigia e protege quem está fora dos muros. Os sindicatos não cumprem sua função fundamental de inovação social se apenas protegerem os aposentados. Isso precisa ser feito, mas é metade do seu trabalho. A vossa vocação é também proteger os que ainda não têm direitos, os que estão excluídos do trabalho e também os que estão excluídos dos direitos e da democracia.

Estimados participantes nos processos tripartidos da Organização Internacional do Trabalho e desta Conferência Internacional do Trabalho, a Igreja vos apoia, caminha ao vosso lado. A Igreja disponibiliza os seus recursos, a começar pelos seus recursos espirituais e pela sua Doutrina Social. A pandemia ensinou-nos que estamos todos no mesmo barco e que só juntos podemos sair da crise.

Obrigado.


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VÍDEO MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
NA OCASIÃO DA 109ª
CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DO TRABALHO

(Continuação)

A Igreja Católica e a Organização Internacional do Trabalho, respondendo às suas diferentes naturezas e funções, podem continuar a implementar as suas respectivas estratégias, mas também podem continuar a aproveitar as oportunidades que surgem para colaborar numa ampla variedade de acções.

Para promover esta ação comum é necessário entender o trabalho corretamente. O primeiro elemento para esse entendimento nos convida a concentrar a atenção necessária em todas as formas de trabalho, incluindo as formas não padronizadas de emprego. O trabalho vai além do tradicionalmente conhecido como “emprego formal” e o Programa Trabalho Decente deve contemplar todas as formas de trabalho. A falta de proteção social dos trabalhadores da economia informal e de suas famílias os torna particularmente vulneráveis aos enfrentamentos, uma vez que não podem contar com a proteção oferecida pela seguridade social ou pela assistência social voltada para a pobreza. As mulheres da economia informal, incluindo vendedores ambulantes e trabalhadoras domésticas, são afetadas pelo impacto da Covid-19 em vários aspectos: desde o isolamento até a exposição extrema a riscos para a saúde. Por não possuírem creches acessíveis, os filhos dessas trabalhadoras correm maior risco de saúde, pois as mães precisam levá-los para o trabalho ou deixá-los em casa sem vigilância. Portanto, é particularmente necessário garantir que a assistência social chegue à economia informal e preste atenção especial às necessidades especiais de mulheres e meninas.

A pandemia nos lembra que muitas mulheres ao redor do mundo continuam ansiando por liberdade, justiça e igualdade entre todas as pessoas humanas: "embora tenha havido melhorias significativas no reconhecimento dos direitos das mulheres e em sua participação no espaço público, ainda há um muito para crescer em alguns países. Costumes inaceitáveis ainda não foram completamente erradicados. Em primeiro lugar, a vergonhosa violência que por vezes se utiliza contra a mulher, os maus-tratos familiares e as várias formas de escravatura [...]. Estou pensando na [...] desigualdade de acesso a empregos decentes e aos lugares onde as decisões são tomadas ”(Amoris laetitia, n. 54).

O segundo elemento para uma correta compreensão do trabalho: se o trabalho é uma relação, então deve incluir a dimensão do cuidado, pois nenhuma relação sobrevive sem cuidado. Aqui, não nos referimos apenas ao trabalho de socorro: a pandemia nos lembra de sua importância fundamental, que podemos ter esquecido. O cuidado vai além, deve ser uma dimensão de todo trabalho. Um trabalho que não cuida, que destrói a criação, que põe em perigo a sobrevivência das gerações futuras, não respeita a dignidade dos trabalhadores e não pode ser considerado digno. Pelo contrário, um trabalho que cuida, contribui para a restauração da plena dignidade humana, ajudará a garantir um futuro sustentável para as gerações futuras. E nessa dimensão do cuidado os trabalhadores caem em primeiro lugar. Ou seja, uma pergunta que podemos nos fazer no dia a dia: como uma empresa, imaginamos, cuida de seus trabalhadores?

Além de uma correta compreensão do trabalho, sair da crise atual em melhores condições exigirá o desenvolvimento de uma cultura de solidariedade, para fazer frente à cultura do descarte que está na origem da desigualdade e que aflige o mundo. Para tanto, será necessário valorizar a contribuição de todas essas culturas, como as indígenas, as populares, muitas vezes consideradas marginais, mas que mantêm viva a prática da solidariedade, que “expressa muito mais do que uns poucos esporádicos. atos de generosidade ". Cada povo tem a sua cultura e creio que é hora de finalmente nos libertarmos do legado do Iluminismo, que associava a palavra cultura a um certo tipo de formação intelectual ou pertença social. Cada povo tem sua cultura e devemos aceitá-la como ela é. “É pensar e agir em comunidade, na prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por alguns. Também luta contra as causas estruturais da pobreza, da desigualdade, da falta de trabalho, de terra e de moradia, da negação dos direitos sociais e trabalhistas. Está enfrentando os efeitos destrutivos do Império do dinheiro [...]. A solidariedade, entendida em seu sentido mais profundo, é uma forma de fazer história, e é isso que os movimentos populares fazem ” (Todos irmãos, n. 116).

Com estas palavras dirijo-me a vocês, participantes da 109ª Conferência Internacional do Trabalho, porque, como atores institucionalizados no mundo do trabalho, vocês têm uma grande oportunidade de influenciar os processos de mudança já em curso. Sua responsabilidade é grande, mas ainda maior é o bem que você pode realizar. Portanto, convido você a responder ao desafio que enfrentamos. Atores consagrados podem contar com o legado de sua história, que continua sendo um recurso de fundamental importância, mas nesta fase histórica são chamados a permanecer abertos ao dinamismo da sociedade e a promover o surgimento e inclusão de pessoas menos tradicionais e mais marginais. , portadores de impulsos alternativos e inovadores.

Peço aos dirigentes políticos e aos que atuam nos governos que se inspirem sempre naquela forma de amor que é a caridade política: “igualmente indispensável ato de caridade [é] o compromisso que visa organizar e estruturar a sociedade para que o próximo não tenha encontra-se na miséria. É caridade estar perto de uma pessoa que sofre, e também é caridade tudo o que se faz, mesmo sem ter contato direto com essa pessoa, para modificar as condições sociais que lhe causam o sofrimento. Se alguém ajuda um idoso a atravessar um rio - e isso é uma caridade requintada - o político constrói uma ponte para ele, e isso também é caridade. Se alguém ajuda outro dando-lhe comida, o político cria um emprego para ele e exerce uma forma muito elevada de caridade que enobrece sua ação política " (Todos irmãos, n. 186).
(…)


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NA OCASIÃO DA 109ª
CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DO TRABALHO

(Continuação)

Em segundo lugar, também é essencial para a missão da Igreja garantir que todos recebam a proteção de que precisam, dependendo de suas vulnerabilidades: doença, idade, deficiência, deslocamento, marginalização ou dependência. Os sistemas de proteção social, que por sua vez enfrentam grandes riscos, precisam ser sustentados e ampliados para garantir o acesso aos serviços de saúde, alimentação e necessidades humanas básicas. Em tempos de emergência, como a pandemia de Covid-19, medidas de assistência especial são necessárias. Também é importante dar atenção especial à prestação integral e eficaz de cuidados por meio de serviços públicos. Os sistemas de proteção social foram chamados a enfrentar muitos dos desafios da crise e, ao mesmo tempo, suas fragilidades se tornaram mais evidentes. Finalmente, a proteção dos trabalhadores e dos mais vulneráveis deve ser garantida pelo respeito aos seus direitos fundamentais, incluindo o direito de sindicalização. Ou seja, filiar-se a um sindicato é um direito. A crise da Covid já afetou os mais vulneráveis e estes não devem ser afetados negativamente por medidas para acelerar uma recuperação que se concentra apenas nos indicadores econômicos. Ou seja, aqui há também a necessidade de uma reforma do meio econômico, uma reforma completa da economia. A forma de gerir a economia deve ser diferente, por sua vez deve mudar. A crise da Covid já afetou os mais vulneráveis e estes não devem ser afetados negativamente por medidas para acelerar uma recuperação que se concentra apenas nos indicadores econômicos. Ou seja, aqui há também a necessidade de uma reforma do meio econômico, uma reforma completa da economia. A forma de gerir a economia deve ser diferente, por sua vez deve mudar. A crise da Covid já afetou os mais vulneráveis e estes não devem ser afetados negativamente por medidas para acelerar uma recuperação que se concentra apenas nos indicadores econômicos. Ou seja, aqui há também a necessidade de uma reforma do meio econômico, uma reforma completa da economia. A forma de gerir a economia deve ser diferente, por sua vez deve mudar.

Neste momento de reflexão, em que procuramos dar forma à nossa ação futura e a uma agenda internacional pós-Covid-19, devemos prestar especial atenção ao perigo real de esquecer aqueles que ficam para trás. Eles correm o risco de serem atacados por um vírus ainda pior do que o Covid-19: o da indiferença egoísta. Ou seja, uma sociedade não pode progredir descartando, não pode progredir. Esse vírus passa a pensar que a vida é melhor se for melhor para mim e que tudo ficará bem se for bem para mim, então a gente começa e acaba escolhendo uma pessoa em vez de outra, descartando os pobres, sacrificando. Quantos são deixados para trás no chamado "altar do progresso". É uma verdadeira dinâmica elitista,

Olhando para o futuro, é essencial que a Igreja, e portanto a ação da Santa Sé junto à Organização Internacional do Trabalho, apoie medidas que corrijam as situações injustas ou incorretas que condicionam as relações de trabalho, tornando-as totalmente subjugadas à idéia de " exclusão ", Ou violando os direitos fundamentais dos trabalhadores. Uma ameaça é colocada pelas teorias que consideram o lucro e o consumo como elementos independentes ou como variáveis autônomas da vida econômica, excluindo os trabalhadores e determinando seu padrão de vida desequilibrado: “Hoje tudo entra no jogo da competitividade e na lei do mais forte, onde o poderoso come o mais fraco. Como consequência desta situação, grandes massas da população se vêem excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, sem saída ”(Evangelii gaudium, n. 53).

A atual pandemia nos lembrou que não existem diferenças ou fronteiras entre aqueles que sofrem. Somos todos frágeis e, ao mesmo tempo, todos de grande valor. Esperamos que o que está acontecendo ao nosso redor nos abale profundamente. Chegou a hora de eliminar as desigualdades, de curar a injustiça que está minando a saúde de toda a família humana. Diante da Agenda da Organização Internacional do Trabalho, devemos continuar como já o fizemos em 1931, quando o Papa Pio XI, após a crise de Wall Street e em meio à "Grande Depressão", denunciou a assimetria entre trabalhadores e empresários como uma flagrante injustiça que deu ao capital rédea solta e disponibilidade. Ele colocou assim: «Por muito tempo, certamente o capital ganhou muito para si. O que foi produzido e os frutos obtidos,Ano quadragesimo, n. 55). Mesmo nessas circunstâncias, a Igreja promoveu a posição de que a remuneração pelo trabalho executado não deve ser projetada apenas para atender às necessidades imediatas e atuais dos trabalhadores, mas também para abrir a capacidade dos trabalhadores de salvaguardar as economias futuras de suas famílias ou investimentos capazes de garantindo uma margem de segurança para o futuro.

Assim, desde a primeira sessão da Conferência Internacional, a Santa Sé apoiou um regulamento uniforme aplicável ao trabalho em todas as suas várias vertentes, como garantia para os trabalhadores. É sua convicção que o trabalho e, portanto, os trabalhadores podem contar com garantias, apoios e reforços desde que sejam protegidos do “jogo” da desregulamentação. Além disso, as normas jurídicas devem estar orientadas para o crescimento do emprego, do trabalho decente e dos direitos e deveres da pessoa humana. Todos são ferramentas necessárias para o seu bem-estar, para o desenvolvimento humano integral e para o bem comum.
(…)


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VÍDEO MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
NA OCASIÃO DA 109ª
CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DO TRABALHO

Senhor Presidente da Conferência Internacional do Trabalho,
Prezados Representantes de Governos, Organizações de Empregadores e Trabalhadores,

Agradeço ao Diretor-Geral, Sr. Guy Ryder, que gentilmente me convidou a apresentar esta mensagem à Cúpula sobre o Mundo do Trabalho. Esta Conferência foi convocada num momento crucial da história social e económica, que apresenta sérios e vastos desafios para todo o mundo. Nos últimos meses, a Organização Internacional do Trabalho, por meio dos seus relatórios periódicos, fez um trabalho louvável, prestando atenção especial aos nossos irmãos e irmãs mais vulneráveis.

Durante a crise persistente, devemos continuar a exercer "um cuidado especial" pelo bem comum. Muitas das convulsões possíveis e previstas ainda não se materializaram, portanto, decisões cuidadosas serão necessárias. A redução da jornada de trabalho nos últimos anos tem resultado tanto na perda de empregos quanto na redução da jornada de trabalho de quem mantém o emprego. Muitos serviços públicos, bem como empresas, enfrentaram enormes dificuldades, alguns correndo o risco de falência total ou parcial. Em todo o mundo, vimos perdas de empregos sem precedentes em 2020.

Na pressa de retornar a uma maior atividade económica, no fim da ameaça Covid-19, evitemos as fixações passadas no lucro, no isolamento e no nacionalismo, no consumismo cego e na negação de evidências claras de que nossos irmãos são discriminados e "descartados" na nossa sociedade. Pelo contrário, procuremos soluções que nos ajudem a construir um novo futuro de trabalho baseado em condições de trabalho decentes e dignas, que nasçam da negociação coletiva e que promovam o bem comum, fundamento que fará do trabalho um elemento essencial do nosso cuidado pela sociedade e pela criação. Nesse sentido, o trabalho é verdadeira e essencialmente humano. É disso que se trata, que seja humano.

Recordando o papel fundamental que esta Organização e esta Conferência desempenham como espaços privilegiados para um diálogo construtivo, somos chamados a dar prioridade à nossa resposta aos trabalhadores que estão à margem do mundo do trabalho e que ainda são afetados pela pandemia Covid-19 : os trabalhadores pouco qualificados, os jornaleiros, os do setor informal, os trabalhadores migrantes e refugiados, os que realizam o que se costuma chamar de "trabalho das três dimensões": perigoso, sujo e degradante, e a lista pode continuar.

Muitos migrantes e trabalhadores vulneráveis, juntamente com as suas famílias, são geralmente excluídos do acesso a programas nacionais de promoção da saúde, prevenção de doenças, tratamento e assistência, bem como de planos de proteção financeira e serviços psicossociais. É um dos muitos casos daquela filosofia do descartável que nos acostumamos a impor nas nossas sociedades. Esta exclusão complica a deteção precoce, o teste, o diagnóstico, o rastreio de contactos e a busca de atendimento médico para Covid-19 para os refugiados e os migrantes e, portanto, aumenta o risco de surtos entre essas populações. Esses surtos podem não ser controlados ou mesmo conscientemente ocultados, o que representa uma ameaça adicional à saúde pública.

A falta de medidas de proteção social face ao impacto da Covid-19 tem levado ao aumento da pobreza, do desemprego, do subemprego, ao aumento da informalidade do trabalho, ao atraso na inserção dos jovens no mercado de trabalho, que é gravíssimo, o aumento do trabalho infantil, que é ainda mais grave, a vulnerabilidade ao tráfico de pessoas, a insegurança alimentar e a maior exposição à infeção em populações como os enfermos e os idosos. A esse respeito, agradeço a oportunidade de levantar algumas preocupações e observações importantes.

Em primeiro lugar, é missão fundamental da Igreja apelar a todos para trabalharem em conjunto, com os governos, as organizações multilaterais e a sociedade civil, para servir e zelar pelo bem comum e garantir a participação de todos neste compromisso. Ninguém deve ser deixado de lado no diálogo pelo bem comum, cujo objetivo é, antes de tudo, construir e consolidar a paz e a confiança entre todos. Os mais vulneráveis - jovens, migrantes, comunidades indígenas, pobres - não podem ser deixados de lado num diálogo que também deve reunir governos, empresários e trabalhadores. Também é essencial que todas as confissões e comunidades religiosas se comprometam juntas. A Igreja tem uma longa experiência de participação nesses diálogos através das suas comunidades locais, movimentos e organizações populares e oferece-se ao mundo como construtora de pontes para ajudar a criar as condições para esse diálogo ou, quando for o caso, para ajudar a facilitá-lo. Esses diálogos para o bem comum são essenciais para a construção de um futuro solidário e sustentável da nossa casa comum e devem ser realizados tanto ao nível comunitário como nacional e internacional. E uma das características do verdadeiro diálogo é que quem dialoga está no mesmo nível de direitos e deveres. E não que alguém que tem menos ou mais direitos fale com alguém que não tem. O mesmo nível de direitos e deveres garante assim um diálogo sério. Esses diálogos para o bem comum são essenciais para a construção de um futuro solidário e sustentável de nossa casa comum e devem ser realizados tanto em nível comunitário como nacional e internacional. E uma das características do verdadeiro diálogo é que aqueles que dialogam estejam no mesmo nível de direitos e deveres. Não significa que alguém que tenha menos ou mais direitos fale com alguém que não os tenha. Significa que mesmo nível de direitos e deveres garante um diálogo sério.
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MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
SOBRE A OCASIÃO DO EVENTO DE SOLIDARIEDADE
NO 30º ANIVERSÁRIO DO SISTEMA DE INTEGRAÇÃO CENTRAL-AMERICANO

[Costa Rica, 10 de junho de 2021]

Excelências, Senhoras e Senhores,

Saúdo cordialmente os participantes no Evento de Solidariedade, promovido por ocasião do 30º aniversário do Sistema de Integração Centro-americana, no qual a Santa Sé participa como observadora extra-regional desde 2012. Esta iniciativa pretende mobilizar apoios para melhorar a situação dos deslocados forçados e das comunidades que os acolhem na região da América Central e do México.

A palavra solidariedade, que está no centro deste acontecimento, adquire um significado ainda maior nesta era de crise pandémica, crise que tem posto à prova o mundo inteiro, tanto os países pobres como os ricos.

A crise de saúde, económica e social causada por covid-19 lembrou a todos que os seres humanos são como pó. Mas pó precioso aos olhos de Deus, que nos fez como uma família humana. E assim como a família natural educa na fidelidade, na sinceridade, na cooperação e no respeito, promovendo o planeamento de um mundo habitável e acreditando em relações de confiança, mesmo em condições difíceis, também a família das nações é chamada a voltar sua atenção comum, especialmente os membros menores e mais vulneráveis, sem ceder à lógica da competição e de interesses particulares.

Nestes longos meses de pandemia, a região centro-americana assistiu à deterioração das condições sociais já precárias e complexas devido a um sistema económico injusto. Esse sistema desgasta a família, célula fundamental da sociedade. E assim as pessoas "sem o calor de um lar, sem família, sem comunidade, sem pertencer", encontram-se desenraizados e órfãos, à mercê de "situações altamente conflituosas sem solução rápida: violência doméstica, feminicídio [...], gangues armados e criminosos, tráfico de drogas, exploração sexual de menores e não menores". Esses fatores, combinados com a pandemia e a crise climática caracterizada por uma seca cada vez mais intensa e furacões cada vez mais frequentes, deram à mobilidade humana a conotação de um fenómeno de massa forçada, fazendo-a assumir a aparência de um êxodo regional.

Apesar do sentido inato de hospitalidade dos povos da América Central, as restrições de saúde influenciaram o fechamento de muitas fronteiras. Muitos ficaram a meio caminho, sem possibilidade de avançar ou retroceder.

A pandemia também evidenciou a fragilidade das pessoas deslocadas internamente, que ainda "não se enquadram no sistema de proteção internacional previsto pelo direito internacional dos refugiados" e muitas vezes permanecem sem proteção adequada.

Além disso, nas diferentes fases do deslocamento, tanto interno quanto externo, cresce o número de casos de tráfico de pessoas, tráfico que “é uma praga no corpo da humanidade contemporânea, uma praga na carne de Cristo. É um crime contra a humanidade.

Excelências, senhoras e senhores,

O que aqui apresentei são alguns dos desafios mais importantes da mobilidade humana, fenómeno que tem caracterizado a história do ser humano e que "traz consigo grandes promessas" para o futuro da humanidade.

Neste contexto, a Santa Sé, reafirmando o direito exclusivo dos Estados à gestão das suas fronteiras, espera um compromisso regional comum, sólido e coordenado, destinado a colocar a pessoa e a sua dignidade no centro de todo o exercício político. Com efeito, "o princípio da centralidade da pessoa humana [...] obriga-nos a sempre colocar a segurança pessoal antes da segurança nacional [...] As condições dos migrantes, requerentes de asilo e refugiados exigem que lhes seja garantido pessoal de segurança e acesso aos serviços básicos '.

Além dessas proteções, é necessário adotar mecanismos internacionais específicos que dêem proteção concreta e reconheçam o “drama muitas vezes invisível” dos deslocados internos, relegados “para segundo plano da agenda política nacional”.

Medidas semelhantes devem ser tomadas em relação aos nossos muitos irmãos e irmãs que foram forçados a fugir devido ao início da grave crise climática. Essas medidas devem ser acompanhadas de políticas regionais de proteção de nossa “casa comum”, visando amenizar o impacto tanto dos fenômenos climáticos quanto dos desastres ambientais causados pelo homem em seus trabalhos de grilagem, desmatamento e apropriação hídrica. Essas violações minam gravemente as três áreas fundamentais do desenvolvimento humano integral: terra, habitação e trabalho.

No que se refere ao tráfico de pessoas, este flagelo deve ser prevenido por meio do apoio às famílias e da educação, e as vítimas devem ser protegidas com programas que garantam sua segurança, “a proteção da privacidade, uma moradia segura e uma assistência social e psicológica adequada”. Crianças e mulheres menores merecem atenção especial. «As mulheres são fontes de vida. No entanto, elas são continuamente ofendidas, espancadas, estupradas, induzidas a prostituir-se e a suprimir a vida que carregam no seu útero. Qualquer violência infligida às mulheres é uma profanação de Deus, nascido de uma mulher ". Como disse São João Paulo II, "a mulher não pode tornar-se um "objeto" do "domínio" e "posse masculinos". Todos nós somos chamados a apoiar uma educação que promova a igualdade fundamental, o respeito e a honra que as mulheres merecem.

A pandemia provocou uma "crise educacional sem precedentes", exacerbada pelas restrições e isolamento forçado que destacaram as desigualdades existentes e aumentaram o risco de os mais vulneráveis caírem nas redes de tráfico dentro e fora das fronteiras nacionais. Diante dos novos desafios, a cooperação internacional deve ser intensificada para prevenir o tráfico, proteger as vítimas e processar os infratores. Esta ação sinérgica beneficiará, em grande medida, da participação de organizações religiosas e Igrejas locais, que oferecem não só ajuda humanitária, mas também acompanhamento espiritual às vítimas.

Em tempos de sofrimento incomensurável causado pela pandemia, violência e desastres ambientais, a dimensão espiritual não pode e não deve ser relegada a um segundo plano no que diz respeito à proteção da saúde física. “A condição para a construção de sociedades inclusivas está na compreensão global da pessoa humana, que se sente verdadeiramente acolhida quando são reconhecidas e aceites todas as dimensões que constituem a sua identidade, incluindo a religiosa”.

Excelências, senhoras e senhores,

perante tantos desafios urgentes, aplica-se também o sincero apelo à construção de uma "sociedade humana e fraterna [...] capaz de trabalhar para assegurar de forma eficaz e estável que todos sejam acompanhados no caminho da própria vida" nesta região. É um esforço conjunto que vai além das fronteiras nacionais para permitir o intercâmbio regional: “A integração cultural, económica e política com os povos vizinhos deve ser acompanhada de um processo educativo que valorize o amor ao próximo, primeiro exercício essencial para obter uma integração universal saudável".

A cooperação multilateral é um instrumento precioso para a promoção do bem comum, prestando especial atenção às causas profundas e novas dos deslocados à força, para que “as fronteiras não sejam zonas de tensão, mas sim braços abertos de reconciliação”. Hoje “estamos [...] diante da escolha de um de dois caminhos possíveis: um leva ao fortalecimento do multilateralismo [...]; o outro favorece atitudes de autossuficiência, nacionalismo, protecionismo, individualismo e isolamento, deixando de fora os mais pobres, os mais vulneráveis, os habitantes das periferias existenciais ”.

A Igreja caminha juntamente com os povos da América Central, que souberam enfrentar com coragem as crises e ser comunidades que os acolhem e os exortam a perseverar na solidariedade com confiança recíproca e esperança corajosa.

Agradeço-vos de coração e invoco a bênção do Senhor sobre todos vós e sobre as nações que representais.


Vejo um Ramo de Amendoeira

DISCURSO DO SANTO PADRE FRANCISCO
AOS JOVENS DO "PROJETO POLICORO"
DA CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA

Sábado, 5 de junho de 2021

(…)

Gostaria de sugerir quatro verbos que podem ser úteis para tua jornada e para que ela seja concreta.

O primeiro é animar, ou seja , dar coragem. Nunca como neste tempo sentimos necessidade de jovens que, à luz do Evangelho, saibam dar alma à economia, porque sabemos que «os problemas sociais resolvem-se com as redes comunitárias» (Encíclica Laudato si '. , 219). É o sonho que a iniciativa “Economia de Francisco” - de São Francisco também está cultivando! Vocês autodenominam-se "animadores de comunidade". De facto, as comunidades devem ser animadas a partir de dentro através de um estilo de dedicação: ser construtoras de relações, tecelãs de uma humanidade solidária, quando a economia se “vaporiza” nas finanças, e esta é uma forma nova e mais sofisticada rede de Sant'Antonio que todos conhecemos. (…)

A vocês, jovens, não falta criatividade - não tenham medo, não tenham medo -: Eu os encorajo a trabalhar por um modelo econômico alternativo ao consumista, que produz resíduos. A partilha, a fraternidade, a gratuidade e a sustentabilidade são os pilares para fundar uma economia diferente. É um sonho que exige audácia, aliás são os audaciosos que mudam o mundo e o tornam melhor. Não é voluntarismo: é fé, porque a verdadeira novidade sempre vem das mãos de Deus: animar, primeiro verbo.

O segundo verbo é viver . Pedimos que nos mostrem que é possível habitar o mundo sem o pisar - isso é importante -: seria uma grande conquista para todos! Viver a terra não significa possuí-la, não, mas saber viver plenamente as relações: relações com Deus, relações com os irmãos, relações com a criação e connosco (Carta Encíclica Laudato si ', 210). (…)

Além disso, é hora de viver o social, o trabalho e a política sem medo de sujar a mão. Podeis ajudar a abrir as portas e janelas das paróquias, para que os problemas das pessoas entrem cada vez mais no coração das comunidades. (…)

O terceiro verbo é ser apaixonado . E isso está um pouco na moda em todos os lugares: a inimizade social e não a amizade social a que todos somos chamados. O terceiro verbo, talvez, seja o mais jovem dos quatro: ser apaixonado. Há um estilo que faz a diferença: a paixão por Jesus Cristo e pelo seu Evangelho. E isso pode ser visto no “mais” que vós colocais para acompanhar outros jovens para assumir a vida deles, para ter paixão pelo futuro, para desenvolver as competências adequadas para o trabalho. (…)

E aqui é preciso reiterar que somos apaixonados quando cuidamos da nossa interioridade, se não negligenciamos a espiritualidade, se estudamos, se conhecemos a fundo a doutrina social da Igreja e nos esforçamos por traduzi-la em situações concretas. (…)

O quarto e último verbo é acompanhar . O Projeto Policoro é uma rede de relações humanas e eclesiais: muitos se comprometem a acompanhá-los, as vossas dioceses olham para vós com esperança e cada um de vós é capaz de tornar-se um companheiro de caminho de todos os jovens que encontra no seu caminho. (…)

Caros jovens, na escola da pedagogia social da Igreja, vós já sois sinais de esperança. Que a vossa presença nas dioceses ajude todos a compreender que a evangelização passa também pelo cuidado do trabalho. Que os 25 anos do Projeto Policoro sejam um recomeço . Encorajo-vos a «sonhar juntos» (Carta Encíclica Fratelli tutti, 8) pelo bem da Igreja na Itália. E eu encorajo-vos a fazer barulho. Os jovens têm que fazer barulho. Eu acompanho-vos com a minha oração. Invoco a bênção do Senhor sobre vossas famílias e comunidades. E peço-vos, por favor, que não se esqueçam de orar por mim. Obrigado!

Nota: a (má) tradução é, com algumas correcções, a do site do vaticano.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Aqui está uma boa notícia, melhor uma preocupação que devia interessar-nos a todos, a começar por nós, ‘homens e mulheres do Domingo’, dia do Senhor, Dia de repouso, Dia da Família, Dia da Natureza…

O direito a desligar e a necessidade de um dia europeu comum de descanso

7Margens | 26 Mai 21

A Aliança Europeia pelo Domingo organiza na próxima terça-feira, 1 de junho, um seminário digital sobre o tema “O direito à desconexão e a necessidade de um dia comum europeu de descanso semanal”.

A Aliança é uma rede de grupos nacionais com o mesmo propósito que engloba sindicatos, organizações da sociedade civil e confissões religiosas, empenhadas em promover “a consciência sobre o valor único do tempo livre sincronizado para as nossas sociedades europeias”. Entre as entidades está também a Comece – Comissão dos Episcopados (católicos) da União Europeia.

A iniciativa, que decorre das 12h às 13h (hora portuguesa), surge no seguimento de outras atividades sobre o Direito a Desligar e tem como objetivo sensibilizar para a necessidade de estabelecer, a nível da UE, um dia de descanso comum semanal para todos os cidadãos da União.

Os interessados em participar deverão inscrever-se através deste link. A página da European Sunday Alliance, em inglês, tem diversas informações acerca da situação europeia, nomeadamente sobre dias de trabalho, tempos de descanso, equilíbrio entre a vida pessoal e a vida laboral e o direito a desligar.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Até quando continuaremos a comover-nos e a esquecer?

A fotografia do dia mostrava um bebé salvo das águas, sobrevivente não se sabe como ao enésimo massacre dos inocentes que se está a consumar no Mediterrâneo diante dos olhos de todos. Desta vez aconteceu em Ceuta, o enclave espanhol em Marrocos, onde milhares de migrantes estão há dias a procurar atravessar a fronteira, inclusive a nado, e entre estes, como sempre, muitas famílias, com crianças crescidas ou de poucos meses.

Desta vez o epílogo narrado pela imagem não foi trágico, mas por puro acaso: um militar da Guardia Civil retira da água um recém-nascido e salva-o. A touca e a roupinha são precisamente como aqueles que revestem as crianças nos berços das nossas unidades de obstetrícia, com poucos dias.

Ao ver a imagem, pergunto-me o que tem a ver aquela criança, que podia ser nossa filha, com o salvador, o mar, a fuga, os migrantes. No entanto não é uma fotomontagem. É, antes, a enésima imagem dilacerante, que comove e toca os corações de quem é pai e mãe, homem ou mulher. Porque tudo aquilo que sacode faz subir um nó à garganta, provoca o pranto, talvez instigue a raiva. E é bom que assim seja.

Mas a emoção já não basta. Já não basta o momentâneo apelo ao instinto materno e paterno de proteção em relação aos pequeninos em perigo. Já não chega salvar tantas vidas. Quantas outras imagens semelhantes, espalhadas pela televisão e redes sociais, humedeceram os nossos olhos?

Já esquecemos o pequeno Alan Kurdi, morto, nos braços do militar turco, que um destino menos afortunado despejou sobre uma praia tão longe da sua casa? Já esquecemos o pequeno Yoseph afogado no enésimo naufrágio no Mediterrâneo, em novembro passado, antes que chegassem os socorristas? Já esquecemos os gritos desesperados da mãe a bordo da chalupa? Aquelas lancinantes palavras «I loose my baby, I loose my baby»? Já não nos recordamos da série infinita de vídeos, fotografias de crianças salvas a tempo ou impelidas já mortas pelas ondas do mar? Necrologias da nossa vergonha? Já nos habituámos a ver? Talvez ainda não.

A “pietas” das nossas consciências é mais difícil de morrer do que aqueles náufragos em fuga do mal. Mas só a piedade, só a onda da emoção não chega. Porque é efémera, passageira, como são as fotografias na internet e as notícias de «última hora» das televisões, que logo depois dão lugar a outras.

Quase diríamos que não podemos continuar a permitir-nos essa “pietas”, e que por si só é quase indecente, porque como o sentimento emerge e irrompe com urgência, somos levados a pensar que tudo isto é pura “emergência”, mera contingência, que se pode enfrentar apenas quando a emoção voltar a aflorar. Não basta a “pietas” sem a “dignitas”, diriam os padres latinos. «E é uma Europa sem dignidade aquela que faz morrer as pessoas no mar», disse justamente o presidente do município de Lampedusa após a enésima vida perdida.

É preciso verdadeiramente algo mais que as lágrimas. Algo que tenha minimamente a ver com a consciência lúcida de que a solução para o “fenómeno do século” exige inteligência, organização, respeito pelos direitos humanos, solidariedade entre povos. Numa palavra: ação política e paixão pelo ser humano. Antes que a próxima fotografia nos consuma o enésimo lenço de papel.

Alberto Laggia |In Famiglia Cristiana | Trad.: Rui Jorge Martins, in SNPC
Publicado em 20.05.2021


Vejo um Ramo de Amendoeira

Da Mensagem do Papa Francisco para o 55º Dia Mundial das Comunicações Sociais:

«“Vem e verás” (Jo 1, 46). Comunicar encontrando as pessoas onde estão e como são»

O convite a «ir e ver», que acompanha os primeiros e comovedores encontros de Jesus com os discípulos, é também o método de toda a comunicação humana autêntica. Para poder contar a verdade da vida que se faz história (cf. Mensagem para o LIV Dia Mundial das Comunicações Sociais, 24 de janeiro de 2020), é necessário sair da presunção cómoda do «já sabido» e mover-se, ir ver, estar com as pessoas, ouvi-las, recolher as sugestões da realidade, que nunca deixará de nos surpreender em algum dos seus aspetos. «Abre, maravilhado, os olhos ao que vires e deixa as tuas mãos cumular-se do vigor da seiva, de tal modo que os outros possam, ao ler-te, tocar com as mãos o milagre palpitante da vida»: aconselhava o Beato Manuel Lozano Garrido aos seus colegas jornalistas. Por isso, este ano, desejo dedicar a Mensagem à chamada a «ir e ver», como sugestão para toda a expressão comunicativa que queira ser transparente e honesta: tanto na redação dum jornal como no mundo da web, tanto na pregação comum da Igreja como na comunicação política ou social. «Vem e verás» foi o modo como a fé cristã se comunicou a partir dos primeiros encontros nas margens do rio Jordão e do lago da Galileia.

Gastar as solas dos sapatos

Pensemos no grande tema da informação. Há já algum tempo que vozes atentas se queixam do risco dum nivelamento em «jornais fotocópia» ou em noticiários de televisão, rádio e websites que são substancialmente iguais, onde os géneros da entrevista e da reportagem perdem espaço e qualidade em troca duma informação pré-fabricada, «de palácio», autorreferencial, que cada vez menos consegue intercetar a verdade das coisas e a vida concreta das pessoas, e já não é capaz de individuar os fenómenos sociais mais graves nem as energias positivas que se libertam da base da sociedade. A crise editorial corre o risco de levar a uma informação construída nas redações, diante do computador, nos terminais das agências, nas redes sociais, sem nunca sair à rua, sem «gastar a sola dos sapatos», sem encontrar pessoas para procurar histórias ou verificar com os próprios olhos determinadas situações. (…)

Agradecimento pela coragem de muitos jornalistas

(…) Temos que agradecer à coragem e determinação de tantos profissionais (jornalistas, operadores de câmara, editores, cineastas que trabalham muitas vezes sob grandes riscos), se hoje conhecemos, por exemplo, a difícil condição das minorias perseguidas em várias partes do mundo, se muitos abusos e injustiças contra os pobres e contra a criação foram denunciados, se muitas guerras esquecidas foram noticiadas. Seria uma perda não só para a informação, mas também para toda a sociedade e para a democracia, se faltassem estas vozes: um empobrecimento para a nossa humanidade. (…)

Oportunidades e insídias na web

A rede, com as suas inumeráveis expressões nos social, pode multiplicar a capacidade de relato e partilha: muitos mais olhos abertos sobre o mundo, um fluxo contínuo de imagens e testemunhos. (…)

Entretanto foram-se tornando evidentes, para todos, os riscos duma comunicação social não verificável. Há tempo que nos demos conta de como as notícias e até as imagens sejam facilmente manipuláveis, por infinitos motivos, às vezes por um banal narcisismo. Uma tal consciência crítica impele-nos, não a demonizar o instrumento, mas a uma maior capacidade de discernimento e a um sentido de responsabilidade mais maduro, seja quando se difundem seja quando se recebem conteúdos. Todos somos responsáveis pela comunicação que fazemos, pelas informações que damos, pelo controlo que podemos conjuntamente exercer sobre as notícias falsas, desmascarando-as. Todos estamos chamados a ser testemunhas da verdade: a ir, ver e partilhar.

(…) Há mais de dois mil anos que uma corrente de encontros comunica o fascínio da aventura cristã. Por isso, o desafio que nos espera é o de comunicar, encontrando as pessoas onde estão e como são.

Senhor, ensinai-nos a sair de nós mesmos,
e partir à procura da verdade.

Ensinai-nos a ir e ver,
ensinai-nos a ouvir,
a não cultivar preconceitos,
a não tirar conclusões precipitadas.

Ensinai-nos a ir aonde não vai ninguém,
a reservar tempo para compreender,
a prestar atenção ao essencial,
a não nos distrairmos com o supérfluo,
a distinguir entre a aparência enganadora e a verdade.

Concedei-nos a graça de reconhecer as vossas moradas no mundo
e a honestidade de contar o que vimos.

Roma, em São João de Latrão, na véspera da Memória de São Francisco de Sales, 23 de janeiro de 2021.


Vejo um Ramo de Amendoeira

O melhor ainda está para vir

Estamos no coração dos “quarenta dias” durante os quais os discípulos fizeram a experiência do encontro com Jesus ressuscitado. Uma experiência absolutamente inédita. Os discípulos foram desestabilizados em todos os sentidos. Aquele ressuscitado não era um cadáver reanimado nem um fantasma da mente. Não era uma regressão do corpo mortal: era – e é – uma ultrapassagem da morte que vem ao teu encontro desde o mundo de Deus. É uma experiência que não pode ser comparada a nada, só Jesus, precisamente, pode confirmá-la. Por isso deverias acreditar nela sempre mais, para a poderes decifrar.

Jesus emprega quarenta dias de encontros para os convencer. E não foi fácil: teve de lhes dar tempo para assimilar e fazer sua a ressurreição, ou melhor, o Ressuscitado. A fé daqueles discípulos ganha alento – tal como a nossa – ao longo do caminho doo seguimento do Senhor ressuscitado e no dom do Espírito vivificante. O Espírito de Deus, prometido e enviado por Jesus, no momento em que se torna dom do Ressuscitado, muda a vida. E muda também a morte. O Ressuscitado apresenta-se aos seus precisamente com este testemunho: a criatura atravessará a morte e Deus apagá-la-á da sua vida.

Julgo que não damos o devido valor à lição dos “quarenta dias” do Ressuscitado para a nossa aprendizagem da ressurreição da vida. Um revés talvez tenha vindo também da preocupação de fixar a radical diversidade da vida eterna, o que acabou por a distanciar da experiência de uma vida ressuscitada. Na inércia desta marginalização da “ressurreição da carne”, também “a vida do espírito” acabou por perder a sua capacidade de mover a carne da nossa vida, que deve ser transformada, não perdida. Este é o ponto de vista da morte, não da ressurreição.

Se deixamos à morte a última palavra, esta vida está perdida para sempre. A vida – a vida que temos, a vida que somos, a vida pela qual acreditamos, esperamos e amamos – acabou desta maneira por ser dividida em duas. A vida antes da morte, plena de humanidade, é entregue à morte e extingue-se com ela; sem fazer distinções, aprendemos a chamá-la vida mortal, corruptível, mundana, destinada à morte. A vida após a morte, pelo contrário, é esvaziada de acontecimentos, secada de emoções e sem os afetos, acabou por ser fixada na eternidade de um estado de pura duração: como se à vida da alma bastasse perdurar para sempre, repleta de Deus e vazia de humanidade. Como se as nossas melhores qualidades – a liberdade e a criatividade, a descoberta e a imaginação, a relação das pessoas e o domínio sobre o mundo – nunca mais tivessem espaço na beatitude da vida das criaturas humanas com Deus.

Mas se pensarmos nos encontros do Ressuscitado com os discípulos, vemos como são reais as relações, os afetos, as conversas entre estes e Jesus. É à luz desta perspetiva que deve ser enquadrado o tema da ressurreição dos mortos e dos corpos. Jesus ressuscitado, que entra no Céu com o seu corpo ressuscitado, sela o inaudito e impensável cumprimento “terreno” do “Céu” de Deus. Este Céu será – como Jesus revelou – o reino da vida e do domínio de Deus com as suas amadas criaturas. A vida eterna prometida com a ressurreição não é pós-humana. Permanece humana. Viveremos a vida de Deus, que começamos agora a incorporar graças ao mistério da nossa redenção segundo o Espírito, como criaturas humanas.

Os corpos ressuscitados são corpos totalmente transformados pela luz geradora de Deus, mas são, não obstante, os nossos corpos, com a nossa carne, a nossa singularidade, as nossas relações, a memória dos nossos afetos e a imaginação de toda a vida que permanece para vivermos. Seremos transformados, não alienados. Como? Não sabemos. E também isto faz parte das surpresas que nos esperam. Mas uma coisa é certa: a nossa carne, o nosso corpo, serão transformados, não substituídos. No mundo de Deus reconhecer-nos-emos uns aos outros. Infelizmente, muito cristianismo moderno resignou-se a investir os valores da vida eterna no compromisso pelo bem-estar da vida presente, caduca, corruptível e mortal, de maneira a tornar-se credível como palavra de vida. Desvio não privado de risco. É verdade que o Evangelho suscita humanismo. Mas para a fé, esta vida é a semente, não a floração.

Em suma, o mais belo está para vir. Sim, o mais belo ainda está para vir! E não está ao alcance da nossa vontade de poder, filha da desesperação e das nossas técnicas de manipulação, que geram pesadelos. A vida eterna da inaudita promessa de Deus perdeu, na nossa linguagem, a sua desejável continuidade com a vida. E por isso esvaziou-se o poder da sua atração para o Céu de Deus, que é o único lugar habitável para o nosso desejo de resgate e de realização. Deixemo-nos subverter pelos “quarenta dias” do encontro com o Ressuscitado.

D. Vincenzo Paglia
Presidente da Academia Pontifícia para a Vida
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 06.05.2021


Vejo um Ramo de Amendoeira

São os poetas que melhor nos fazem ver ‘os ramos de amendoeira’: ver para além da superfície das coisas, ir um pouco mais fundo, sonhar mais além, acreditar que algo mais será possível.

São mesmo os poetas que melhor nos dizem a Páscoa, a Manhã da Nova Criação.

A FORMA JUSTA

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos – se ninguém atraiçoasse – proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
– Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas)


Vejo um Ramo de Amendoeira

Santa Teresa Benedita da Cruz, nascida judia com o nome Edith Stein, é uma das santas cuja biografia merece ser lida e meditada. Depois de muito procurar a Verdade, foi ao ler a biografia de Santa Teresa de Ávila que a encontrou em Jesus Cristo. E, contra tudo e contra todos, fez-se cristã, religiosa, acabando por morrer num campo de concentração.

Aqui fica um dos seus poemas, neste Tempo Pascal, para apontar a Esperança.

«Logo o barco chegou à terra para onde se dirigiam»

Quando eclode a tempestade,

Tu és, Senhor, a nossa força.

Nós Te louvaremos, Deus forte,

nosso constante socorro.

Contigo aguentamos firmes,

em Ti pondo a nossa confiança,

Ainda que a Terra seja abalada,

e o mar se encapele.

Ainda que as ondas se enrolem e desenrolem,

ainda que as montanhas vacilem,

a alegria há de iluminar-nos,

a cidade de Deus dá-Te graças.

Tens nela a tua morada,

e preservas a sua santa paz.

Um rio poderoso protege

a sublime morada de Deus.

Sublevam-se em loucura as multidões,

colapsa o poder dos Estados.

Eis que Ele levanta a voz,

a Terra brame, sacudida.

Mas o Senhor está connosco,

o Senhor, o Deus Sabaoth.

Tu és para nós luz e salvação,

contigo, jamais experimentaremos o medo.

Vinde todos, vinde contemplar

os prodígios do seu poder:

todas as guerras se extinguem,

a corda do arco desentesa.

Lançai para o braseiro de fogo

escudo e arma de guerra.

O Senhor, o Deus Sabaoth,

socorre-nos na tribulação.

Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) (1891-1942)
carmelita, mártir, co-padroeira da Europa
Poesia «Salmo 45», 28/04/1936; paráfrase do salmo 45/46


Vejo um Ramo de Amendoeira

"Mulheres fugitivas que são como uma amêndoa para saborear."

Ainda que já no Domingo da Oitava da Páscoa, no qual se escuta sempre – ‘oito dias depois’ – o relato de João, voltemos ainda ao texto de Dolores Aleixandre que partia do relato de Marcos e das ‘mulheres em fuga’.

“Como as mulheres, escutamos nós hoje o mesmo anúncio: «Ressuscitou: não está aqui. Vede o lugar onde O tinham depositado»,” e somos chamados a fazer o que elas fizeram – converter-se em fugitivas – e fugir de túmulos vazios como estes:

O túmulo da inocência perdida, aquela doce ignorância que nos protegia naquele saudoso tempo da ‘normalidade’, quando vivíamos alheios à realidade de sermos tão vulneráveis e a nossa espécie tão ameaçada; quando estávamos longe de imaginar que nos iam impedir de nos reunirmos, de nos abraçarmos ou ir até à casa de férias; quando imaginávamos que os mais velhos estavam cuidados e a salvo nos lares; quando a máscara usada pelos chineses nos parecia um costume exótico como o de comer pangolim que, graças a Deus, não temos aqui; quando pensávamos que a precariedade dos trabalhadores temporários já era tratada pelos inspectores de trabalho; quando ao ouvir falar de ‘filas de famintos’ pensávamos que era uma série distópica da Netflix.

Caíram-nos muitas vendas dos olhos e tiritamos de frio perante a tempestade. Mas, a lucidez é melhor do que o engano e, com a verdade vem a liberdade, como dizem que dizia Jesus.

O túmulo dos desanimados sem horizontes, essa mancha negra de tinta que vamos fazendo crescer à esquerda e à direita, enquanto avançamos como os zombies da série Walking dead: “Eu bem disse desde o princípio: ninguém vai aprender nada com esta crise”. “Já é tarde para parar a mudança climática”. “Não há solução para tanto desastre”. “Fratelli tutti? Pura utopia”. “Quanto apostas que vai chegar a quarta vaga?” “Dizem que para as novas variantes do vírus não há vacina que resulte”…

O túmulo do ‘devocionismo’ (a autora refere-se ao cântico tradicional da adoração eucarística Adorote devote – Adoro-Te devotamente/Veneremos, adoremos – que ela considera precioso, mas que pode levar a derivas perigosas).

Precisamente por ser algo precioso é preciso salvá-lo de derivas perigosas: que o ‘Adorote’ fique apenas no ‘devote’; que o movimento de adoração e de olhar Jesus não acenda em nós o desejo urgente de viver como Ele uma vida ‘ex-posta’; que a sua Presença tão acessível e disponível na simplicidade do Pão não nos leve a deixar-nos contagiar pela sua Paixão de que cada ser humano tenha direito a comer e a viver; que não se prolongue numa consciência inquieta perante as desigualdades pavorosas acentuadas pela pandemia; que se converta numa bolha impermeável ao vento do Espírito e sejamos asfixiados pelo fumo do incenso.

São túmulos de uma tal actualidade que precisamos de fugir deles a toda a pressa.

Leiamos até ao final o evangelho de Marcos porque veremos como aí se mostra possível a coincidência entre a condição de ‘mulheres fugitivas’ com a de ‘discípulos convocados’.

E com uma alegria extra, uma fantástica gratificação extra desta Páscoa: foi levantada a ‘cerca sanitária’ e podemos viajar livremente até à Galileia.”

(in Religión Digital, 03.04.2021)


Vejo um Ramo de Amendoeira

"Mulheres fugitivas que são como uma amêndoa para saborear."

Quem o escreve é Dolores Aleixandre, uma religiosa do Sagrado Coração de Jesus, que foi professora de Sagrada Escritura, e escreve sobre a espiritualidade, a partir do evangelho de Marcos (16,8): “Saíram, fugindo do sepulcro, pois estavam a tremer e fora de si. E não disseram nada a ninguém, porque tinham medo.”

“O final do evangelho segundo Marcos termina assim de maneira abrupta. Não acaba como os outros com as aparições o Ressuscitado, envio dos Doze ou palavras de consolação. E deve ter resultado tão chocante para as primeiras comunidades que lhe acrescentaram um final menos desconcertante.

No entanto, debaixo dessa casca amarga do final primitivo, essas ‘mulheres em fuga’ são uma amêndoa a saborear: tinham ido ao sepulcro seguindo o costume habitual e normal, mas nada aconteceu como esperavam: por muito que madrugassem, já o sol se lhes tinha antecipado; perguntavam-se como iam remover a pedra e a pedra já estava removida; levavam perfumes para embalsamar um cadáver, mas o lugar estava vazio; buscavam um crucificado e anunciaram-lhes um Vivente.

Ninguém recebeu os perfumes das suas mãos: trocaram-nos por uma missão confiada às suas vozes, até aí silenciadas. O lugar fechado tinha-se convertido num espaço aberto que deviam abandonar e não voltar a regressar: era na Galileia onde Ele ia preceder os seus. Em vez de um corpo, tinham recebido uma palavra, já não podiam continuar a estar nos lugares que antes frequentavam.

Estavam diante de um acontecimento inesperado e inaudito que ultrapassava todas as suas capacidades de entendimento. Por isso, reagiram com admiração e recolhimento, da mesma maneira que Pedro, Tiago e João quando Jesus se transfigurou no monte diante deles; da mesma maneira que os discípulos depois da tempestade no lago, ou dos que viram de pé a filha de Jairo.

Como as mulheres, escutamos nós hoje o mesmo anúncio: «Ressuscitou: não está aqui. Vede o lugar onde O tinham depositado.»”

(in Religión Digital, 03.04.2021)

O que é que isto deve significar para nós é o que veremos na continuação deste texto, na próxima semana.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Francisco: "Apoiemos a família, defendamo-la de tudo o que comprometa a sua beleza"

No dia 19 de Março último, o papa Francisco pediu para ‘apoiarmos a família defendendo-a de tudo aquilo que dificulta a sua beleza’. Foi na sua comunicação aquando da abertura do Ano da Família, por ocasião do 5º aniversário da publicação da Amoris laetitia/A Alegria do Amor.

Depois dos primeiros parágrafos, aqui fica o resto da exortação do papa Francisco. O Projecto Nazaré que, na nossa paróquia procura estar atento e promover a ‘questão da(s) família(s), irá propor, entretanto, algumas iniciativas.

“Quando a família vive sob signo desta comunhão divina, que quis explicitar também nos seus aspectos também existenciais na Amoris laetitia, então torna-se uma palavra viva do Deus de Amor, falada ao mundo e para o mundo. Com efeito, a gramática das relações familiares - isto é, do conjugal, da maternidade, da paternidade, da filialidade e da fraternidade - é o meio pelo qual se transmite a linguagem do amor, que dá sentido de vida e qualidade humana a todas as relações. É uma linguagem feita não só de palavras, mas também de modos de ser, de como falamos, dos olhares, dos gestos, dos tempos e dos espaços da nossa relação com os outros. Os cônjuges sabem bem disso, pais e filhos aprendem todos os dias nesta escola de amor que é a família. E é neste contexto que se dá também a transmissão da fé entre as gerações: passa justamente pela linguagem das relações boas e saudáveis que se vivem todos os dias em família,

Neste tempo de pandemia, entre tantos incómodos psicológicos, económicos e de saúde, tudo isso se tornou evidente: os laços familiares foram e ainda são severamente testados, mas ao mesmo tempo continuam a ser a referência mais forte, o apoio mais forte, a guarnição insubstituível do selo de toda a comunidade humana e social.

Apoiemos portanto a família! Vamos defendê-la do que compromete sua beleza. Abordemos este mistério de amor com admiração, discrição e ternura. E empenhemo-nos em salvaguardar os seus vínculos preciosos e delicados: filhos, pais, avós... Esses vínculos são necessários para viver e viver bem, para tornar a humanidade mais fraterna.

Portanto, o ano dedicado à família, que começa hoje, será um momento propício para continuar a reflexão sobre Amoris laetitia . E por isso te agradeço de coração (o papa dirigia-se ao Monsenhor Vincenzo Paglia, Grão Chanceler do Instituto Teológico São João II para as Ciências do Casamento e da Família) sabendo que o Instituto João Paulo II pode contribuir de muitas maneiras, em diálogo com outras instituições académicas e pastorais, para o desenvolvimento da atenção humana, espiritual e pastoral em prol da família. À Sagrada Família de Nazaré confio o senhor e o seu trabalho; e peço que vocês façam o mesmo por mim e pelo meu ministério.”


Vejo um Ramo de Amendoeira

 

Os desafios do Ano da Família

Na abertura do Ano da Família, por ocasião do 5º aniversário da publicação da Amoris Laetitia/A Alegria do Amor, no webinar ‘O nosso amor quotidiano’, organizado pelo Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, o papa Francisco pediu para ‘apoiarmos a família defendendo-a de tudo aquilo que dificulta a sua beleza’.

Aqui ficam os primeiros parágrafos dessa Mensagem, no sentido de nos desafiar – na nossa paróquia, sobretudo ao Projecto Nazaré – a aproveitar este Ano sermos criativos nas propostas que fizermos.

 

Hoje é necessário um novo olhar sobre a família

“Há cinco anos foi promulgada a Exortação Apostólica Pós-sinodal Amoris Laetitia sobre a beleza e a alegria do amor conjugal e familiar. Nesta ocasião, convidei-vos a viver um ano de releitura do Documento e reflexão sobre o tema, até à celebração do 10º Dia Mundial da Família que, se Deus quiser, terá lugar em Roma no dia 26 de junho de 2022. Agradeço as iniciativas que empreenderam para esse fim e para a contribuição que cada um oferece na sua área de trabalho.

Neste quinquênio, Amoris Laetitia traçou o início de um caminho que procura favorecer uma nova pastoral da realidade da família. A intenção principal do Documento é comunicar, numa época e numa cultura profundamente mudadas, que hoje é necessário um novo olhar sobre a família por parte da Igreja: não basta reafirmar o valor e a importância da doutrina, se não nos tornamos guardiães da beleza da família e se não cuidamos das suas fragilidades e feridas com compaixão.

 

Dois aspectos que estão no coração da pastoral familiar

Estes dois aspectos estão no coração de toda pastoral familiar: a franqueza do anúncio evangélico e a ternura do acompanhamento.

Por um lado, de facto, anunciamos aos casais, cônjuges e famílias uma Palavra que os ajuda a compreender o sentido autêntico da sua união e do seu amor, sinal e imagem do amor trinitário e da aliança entre Cristo e a Igreja. É a sempre nova Palavra do Evangelho a partir da qual toda doutrina, incluindo aquela sobre a família, pode tomar forma. E é uma Palavra exigente, que quer libertar as relações humanas da escravidão que muitas vezes desfigura o seu rosto e os torna instáveis: a ditadura das emoções, a exaltação do provisório que desestimula compromissos para a vida, o predomínio do individualismo, o medo do futuro. Diante dessas dificuldades, a Igreja reafirma aos esposos cristãos o valor do matrimônio como desígnio de Deus, como fruto de sua graça e como um chamamento a ser vivido com totalidade, fidelidade e gratuidade.

 

O nosso amor de cada dia

Por outro lado, este anúncio não pode e nunca deve ser feito de cima e de fora. A Igreja encarna-se na realidade histórica como o seu Mestre, e mesmo quando proclama o Evangelho da família, fá-lo mergulhando na vida real, conhecendo de perto o trabalho quotidiano dos esposos e dos pais, os seus problemas, os seus sofrimentos, todas aquelas pequenas e grandes situações que pesam e às vezes atrapalham seu caminho. Este é o contexto concreto em que o amor quotidiano é vivido. Você intitulou sua Conferência desta forma: "O nosso amor quotidiano". É uma escolha significativa. É o amor gerado pela simplicidade e pelo trabalho silencioso da vida de um casal, por aquele empenho quotidiano e por vezes cansativo dos esposos, das mães, dos pais, dos filhos. Um Evangelho que se propõe como uma doutrina que desce do alto e não entra na "carne" da vida quotidiana, correria o risco de permanecer uma bela teoria e, às vezes, ser vivido como uma obrigação moral. Somos chamados a acompanhar, a ouvir, a abençoar o caminho das famílias; não apenas para traçar a direção, mas para fazer a jornada com eles; entrar nos lares com discrição e com amor, para dizer aos cônjuges: a Igreja está convosco, o Senhor está perto de vós, queremos ajudá-los a guardar o dom que receberam.

Anunciar o Evangelho acompanhando as pessoas e colocando-se ao serviço da sua felicidade: assim podemos ajudar as famílias a caminharem de acordo com a sua vocação e missão, conscientes da beleza dos vínculos e do seu fundamento no amor aos Deus Pai e Filho e Espírito Santo.


Vejo um Ramo de Amendoeira

Ainda profundamente emocionados pela sacramental peregrinação do papa Francisco ao Iraque, celebramos, nestes dias 13 e 14 de Março, a sua eleição e início do seu pontificado. É conhecida a sua capacidade de diálogo e de amizade com todos, nomeadamente o Rabino Skorka. Vale a pena ler o texto que este Rabino escreveu a este propósito.

O «meu querido amigo»:

Rabino celebra oitavo ano de pontificado de Francisco

A 13 de março ocorre o oitavo aniversário da eleição do cardeal Jorge Mario Bergoglio para 266º papa da Igreja católica. Desde então percorreu um caminho longo e tortuoso, constelado por muitos desafios.

Ainda que desde 2013 tenha exprimido os meus pontos de vista sobre o pensamento e as ações do papa Francisco, o que hoje me enche o coração e a mente são apenas recordações. Penso em Buenos Aires, Roma, Jerusalém, Auschwitz, Cairo e Abu Dhabi. Recordo os muitos diálogos que tivemos: as palavras, os silêncios e especialmente os momentos em que pudemos olhar-nos um ao outro e sentir o calor da espiritualidade das nossas almas. São estes os meus sentimentos quando olho para os anos passados.

O carisma e a credibilidade de um líder autêntico, de um líder servidor, residem na sinceridade e na honestidade da pessoa. A capacidade das suas palavras superarem a prova do tempo depende da integridade e da veracidade daquilo que diz. Quando conheci Jorge Bergoglio na nossa cidade-natal Buenos Aires, fiquei edificado pela humildade, pela simplicidade e pela franqueza da sua pessoa e do seu ministério. Recordo os nossos encontros pessoais. Partilhámos alegrias, esperanças, tristezas, sofrimentos e sentimentos profundos. Os sábios judeus ensinam que é precisamente nesta amizade autêntica que o coração de abre completamente ao outro. Parece-me que essas mesmas virtudes continuam a estar refletidas nas suas palavras e ações no importante papel que agora o reveste.

A nossa primeira conversa após a sua eleição como papa foi na vigília da cerimónia de início do seu pontificado. Quase a desculpar-se, exprimiu desagrado por não poder continuar a partilhar aqueles momentos de profunda reflexão e de elaboração de programas que habitualmente fazíamos juntos. Graças a Deus a nossa amizade continuou à distância.

Quando nos encontrámos pela primeira vez na Casa de Santa Marta depois de nela ter estabelecido a sua residência, permitiu a um famoso jornalista israelita [Henrique Cymerman] registar uma mensagem de paz para todos os habitantes do Médio Oriente, que teve um impacto positivo quando foi transmitido. Depois disso, quando nos podemos encontrar pessoalmente, continuamos a procurar fazer algo para afirmar os valores universais proclamados pelos profetas. As exigências de justiça – como as exprimidas por Isaías, Amós e outros – para os carenciados, as viúvas e os órfãos indefesos, e pela paz entre os povos fazem sempre nas nossas conversas.

Quando o colégio dos cardeais, há oito anos, elegeu papa o meu amigo, ele escolheu chamar-se Francisco, como a importante figura que alcança aquilo que Martin Buber definiria relação “eu e tu” com a natureza e com todas as pessoas. Foi esta a essência espiritual que inspirou Bergoglio no seu sacerdócio. Agora exprimiu-a profundamente na sua recente encíclica “Fratelli tutti”. A conceção “eu-tu” da fé deveria ser entendida como um estado de proximidade ao Senhor que exige, pela sua própria natureza, que durante toda a vida se sirvam os outros seres humanos.

Recordo também que muitas vezes nos nossos diálogos usava o verbo «caminhar». Usava-o no sentido de uma busca de crescimento espiritual e de compromisso para com o outro, como quando descreveu a reaproximação entre católicos e judeus após a “Nostra aetate” [documento do Concílio Vaticano II sobre a relação da Igreja católica com as religiões não-cristãs] como um «caminho de amizade».

Também a imagem de Abraão que obedece ao mandamento do Senhor «vai» é para ele uma fonte de inspiração. É interessante que a ordem que Deus dá a Abraão em Génesis 17,1, «anda na minha frente e sê íntegro», nas traduções aramaicas clássicas (Targum Onkelos e Targum Jonathan) aparece como: «Serve-me». E é assim que o entendiam também os exegetas medievais. O percurso de vida de uma pessoa deve manifestar aquele género de fé que serve o Criador e toda a criação.

Os aniversários evocam a recordação daquilo que foi feito no passado e convidam a fazer projetos para o futuro. O profeta Isaías afirma que «aqueles que esperam no Senhor readquirem força, têm asas como a águia, correm sem se cansar, caminham sem desfalecer». Assim, o caminho do meu querido amigo tem um novo início com o nascer de cada dia.

Abraham Skorka, in SNPC. Trad.: Rui Jorge Martins, 12.03.2021


Vejo um Ramo de Amendoeira

ANGELUS

Igreja da "Imaculada Conceição" em Qaraqosh
Domingo, 7 de março de 2021
[Multimídia]


Peregrino da paz e da construção da Casa Comum, o papa Francisco fez esta profética viagem ao Iraque, quando quase tudo a desaconselharia. Mas um profeta que é profeta sabe que não pode calar-se nem ter medo. ‘Vê sempre um ramo de amendoeira’ que não lhe deixa perder a esperança que tem de anunciar. De entre as muitas interpelantes e belas palavras, eis as que foram ditas no Angelus, neste Domingo 7 de Março, na Igreja da ‘Imaculada Conceição’, em Qaraqosh:

“Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Sinto-me agradecido ao Senhor pela oportunidade de vos encontrar esta manhã. Estava ansioso por este momento. Agradeço a Sua Beatitude Patriarca Ignace Youssif Younan as suas palavras de saudação, bem como à Senhora Doha Sabah Abdallah e ao Padre Ammar Yako os seus testemunhos. Contemplando-vos, vejo a diversidade cultural e religiosa do povo de Qaraqosh, e isto mostra algo da beleza que a vossa região tem para oferecer ao futuro. A vossa presença aqui lembra que a beleza não é monocromática, mas resplandece pela variedade e as diferenças.

Simultaneamente, com grande tristeza, olhamos ao nosso redor e vemos outros sinais: os sinais do poder destruidor da violência, do ódio e da guerra. Quantas coisas foram destruídas! E quanto deve ser reconstruído! Este nosso encontro demonstra que o terrorismo e a morte nunca têm a última palavra. A última palavra pertence a Deus e ao seu Filho, vencedor do pecado e da morte. Mesmo no meio das devastações do terrorismo e da guerra podemos, com os olhos da fé, ver o triunfo da vida sobre a morte. Tendes diante de vós o exemplo dos vossos pais e mães na fé, que adoraram e louvaram a Deus neste lugar. Perseveraram com firme esperança no seu caminho terreno, confiando em Deus que nunca dececiona e sempre nos sustenta com a sua graça. A grande herança espiritual que nos deixaram continua a viver em vós. Abraçai esta herança! Esta herança é a vossa força. Agora é o momento de reconstruir e recomeçar, confiando-se à graça de Deus, que guia o destino de cada homem e de todos os povos. Não estais sozinhos. Solidária convosco está a Igreja inteira, com a oração e a caridade concreta. E, nesta região, muitos vos abriram as portas nos momentos de necessidade.

Queridos amigos, este é o momento de restaurar não só os edifícios, mas também e em primeiro lugar os laços que unem comunidades e famílias, jovens e idosos. Diz o profeta Joel: «Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões» (cf. Jl 3, 1). Quando os idosos e os jovens se encontram, que acontece? Os idosos sonham; sonham um futuro para os jovens. E os jovens podem recolher estes sonhos e profetizar, realizá-los. Quando os idosos e os jovens se unem, preservamos e transmitimos os dons que Deus nos oferece. Olhamos para os nossos filhos, sabendo que herdarão não apenas uma terra, uma cultura e uma tradição, mas também os frutos vivos da fé, que são as bênçãos de Deus sobre esta terra. Animo-vos a não esquecer quem sois e donde vindes; a preservar os laços que vos mantêm unidos, a guardar as vossas raízes.

Com certeza há momentos em que a fé pode vacilar, quando parece que Deus não vê nem intervém. Sentistes a verdade disto nos dias mais negros da guerra, e é verdade também nestes dias de crise sanitária mundial e de grande insegurança. Nestes momentos, lembrai-vos que Jesus está ao vosso lado. Não deixeis de sonhar. Não desistais, não percais a esperança. Do Céu, os Santos velam sobre vós: invoquemo-los e não nos cansemos de pedir a sua intercessão. E há também «os santos ao pé da porta (…), que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus» (Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate, 7). Esta terra tem muitos: é uma terra de muitos homens e mulheres santos. Deixai que vos acompanhem para um futuro melhor, um futuro de esperança.

Comoveu-me uma coisa que disse a Senhora Doha: o perdão é necessário por parte daqueles que sobreviveram aos ataques terroristas. Perdão: esta é uma palavra-chave. O perdão é necessário para permanecer no amor, para se permanecer cristão. O caminho para uma cura plena poderia ainda ser longo, mas peço-vos, por favor, que não desanimeis. É preciso capacidade de perdoar e, ao mesmo tempo, coragem de lutar. Sei que isto é muito difícil. Mas acreditamos que Deus pode trazer a paz a esta terra. Confiamos n’Ele e, unidos a todas as pessoas de boa vontade, dizemos «não» ao terrorismo e à instrumentalização da religião.

Padre Ammar, ao recordar os horrores do terrorismo e da guerra, agradeceu ao Senhor por vos ter sempre sustentado nos momentos bons e maus, na saúde e na doença. A gratidão nasce e cresce, quando recordamos os dons e as promessas de Deus. A memória do passado molda o presente e faz-nos avançar para o futuro.

Em cada momento, demos graças a Deus pelos seus dons e peçamos-Lhe que conceda paz, perdão e fraternidade a esta terra e ao seu povo. Não nos cansemos de rezar pela conversão dos corações e pelo triunfo duma cultura da vida, da reconciliação e do amor fraterno, no respeito pelas diferenças, pelas diversas tradições religiosas, no esforço por construir um futuro de unidade e colaboração entre todas as pessoas de boa vontade. Um amor fraterno que reconheça «os valores fundamentais da nossa humanidade comum, valores em nome dos quais se pode e deve colaborar, construir e dialogar, perdoar e crescer» (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 283).

Quando chegava de helicóptero, vi a estátua da Virgem Maria sobre esta igreja da Imaculada Conceição e confiei-Lhe o renascimento desta cidade. Nossa Senhora não só nos protege do Alto, mas, com ternura materna, desce até junto de nós. Aqui a sua estátua foi danificada e espezinhada, mas o rosto da Mãe de Deus continua a olhar-nos com ternura. Porque é assim que fazem as mães: consolam, confortam, dão vida. E gostaria de agradecer cordialmente a todas as mães e mulheres deste país, mulheres corajosas que continuam a dar vida não obstante os abusos e as feridas. Que as mulheres sejam respeitadas e protegidas! Que lhes sejam dadas atenção e oportunidades! E agora rezemos juntos à nossa Mãe, invocando a sua intercessão para as vossas necessidades e projetos. Coloco-vos a todos sob a sua proteção. E peço, por favor, que não vos esqueçais de rezar por mim.”


Vejo um Ramo de Amendoeira

ANGELUS

Igreja da "Imaculada Conceição" em Qaraqosh
Domingo, 7 de março de 2021
[Multimídia]


Peregrino da paz e da construção da Casa Comum, o papa Francisco fez esta profética viagem ao Iraque, quando quase tudo a desaconselharia. Mas um profeta que é profeta sabe que não pode calar-se nem ter medo. ‘Vê sempre um ramo de amendoeira’ que não lhe deixa perder a esperança que tem de anunciar. De entre as muitas interpelantes e belas palavras, eis as que foram ditas no Angelus, neste Domingo 7 de Março, na Igreja da ‘Imaculada Conceição’, em Qaraqosh:

“Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Sinto-me agradecido ao Senhor pela oportunidade de vos encontrar esta manhã. Estava ansioso por este momento. Agradeço a Sua Beatitude Patriarca Ignace Youssif Younan as suas palavras de saudação, bem como à Senhora Doha Sabah Abdallah e ao Padre Ammar Yako os seus testemunhos. Contemplando-vos, vejo a diversidade cultural e religiosa do povo de Qaraqosh, e isto mostra algo da beleza que a vossa região tem para oferecer ao futuro. A vossa presença aqui lembra que a beleza não é monocromática, mas resplandece pela variedade e as diferenças.

Simultaneamente, com grande tristeza, olhamos ao nosso redor e vemos outros sinais: os sinais do poder destruidor da violência, do ódio e da guerra. Quantas coisas foram destruídas! E quanto deve ser reconstruído! Este nosso encontro demonstra que o terrorismo e a morte nunca têm a última palavra. A última palavra pertence a Deus e ao seu Filho, vencedor do pecado e da morte. Mesmo no meio das devastações do terrorismo e da guerra podemos, com os olhos da fé, ver o triunfo da vida sobre a morte. Tendes diante de vós o exemplo dos vossos pais e mães na fé, que adoraram e louvaram a Deus neste lugar. Perseveraram com firme esperança no seu caminho terreno, confiando em Deus que nunca dececiona e sempre nos sustenta com a sua graça. A grande herança espiritual que nos deixaram continua a viver em vós. Abraçai esta herança! Esta herança é a vossa força. Agora é o momento de reconstruir e recomeçar, confiando-se à graça de Deus, que guia o destino de cada homem e de todos os povos. Não estais sozinhos. Solidária convosco está a Igreja inteira, com a oração e a caridade concreta. E, nesta região, muitos vos abriram as portas nos momentos de necessidade.

Queridos amigos, este é o momento de restaurar não só os edifícios, mas também e em primeiro lugar os laços que unem comunidades e famílias, jovens e idosos. Diz o profeta Joel: «Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões» (cf. Jl 3, 1). Quando os idosos e os jovens se encontram, que acontece? Os idosos sonham; sonham um futuro para os jovens. E os jovens podem recolher estes sonhos e profetizar, realizá-los. Quando os idosos e os jovens se unem, preservamos e transmitimos os dons que Deus nos oferece. Olhamos para os nossos filhos, sabendo que herdarão não apenas uma terra, uma cultura e uma tradição, mas também os frutos vivos da fé, que são as bênçãos de Deus sobre esta terra. Animo-vos a não esquecer quem sois e donde vindes; a preservar os laços que vos mantêm unidos, a guardar as vossas raízes.

Com certeza há momentos em que a fé pode vacilar, quando parece que Deus não vê nem intervém. Sentistes a verdade disto nos dias mais negros da guerra, e é verdade também nestes dias de crise sanitária mundial e de grande insegurança. Nestes momentos, lembrai-vos que Jesus está ao vosso lado. Não deixeis de sonhar. Não desistais, não percais a esperança. Do Céu, os Santos velam sobre vós: invoquemo-los e não nos cansemos de pedir a sua intercessão. E há também «os santos ao pé da porta (…), que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus» (Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate, 7). Esta terra tem muitos: é uma terra de muitos homens e mulheres santos. Deixai que vos acompanhem para um futuro melhor, um futuro de esperança.

Comoveu-me uma coisa que disse a Senhora Doha: o perdão é necessário por parte daqueles que sobreviveram aos ataques terroristas. Perdão: esta é uma palavra-chave. O perdão é necessário para permanecer no amor, para se permanecer cristão. O caminho para uma cura plena poderia ainda ser longo, mas peço-vos, por favor, que não desa